QUEM TEM MEDO DE ESCURO?

Sidney Sheldon

Digitalizado, Revisado e formatado por SusanaCap
Reeditado por:
 PDL - Projeto Democratizao da Leitura
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Quem tem medo de escuro?

Sinopse:

Quatro pessoas morrem em circunstncias diferentes em Nova York, Denver,
Berlim e Paris. Entre elas, uma ligao: todas trabalhavam para a KIG,
Kingsley International Group, uma importantes empresa de pesquisa de
alta tecnologia, envolvida em estratgia militar, telecomunicaes e
questes ambientais. E a polcia logo percebe que as mortes no foram
acidentais. Kelly e Diane, jovens vivas de duas das vtimas, so
convidadas para um encontro com o presidente da KIG, em Nova York, que
assegura estar fazendo todo o possvel para desvendar as mortes de seus
maridos. Mas as duas passam a ser alvo de sucessivas tentativas de
assassinato. Apavoradas e sem entender o porqu, acabam por ser tornar
aliadas em um jogo mortal, no qual apostam as prprias vidas para
descobrir a verdade, que envolve segredos aterrorizantes que a KIG luta
para ocultar, e uma trama poderosa que pode afetar o destino do planeta. .. ..



PRLOGO

     Berlim, Alemanha Sonja Verbrugge no fazia idia de que esse seria o ltimo dia da sua vida. Tentava abrir caminho atravs do mar de turistas de Vero que inundava
as caladas de Unter der Linde. No entre em pnico, disse para si mesma. Voc precisa ficar calma.
     A urgente mensagem de Franz no seu computador fora aterradora. Foge, Sonja! Vai para o Artemsia Hotel. Ali estars em segurana. Espera at seres contatada...
     A mensagem acabara abruptamente. Porque  que Franz no a terminara? O que se estaria a passar? Na noite anterior ouvira o marido dizer a algum ao telefone 
que Prima tinha que ser impedido, custasse o que custasse. Quem era Prima?
     Frau Verbrugge aproximava-se da rua Brandenburgische, onde ficava o Artemsia, um hotel que s recebia mulheres. Vou ficar aqui  espera de Franz e ele vai-me 
explicar o que se est a passar. No momento em que Sonja Verbrugge chegou  esquina seguinte, a luz do semforo passara a vermelho e, quando ela parou no passeio, 
algum no meio da multido deu-lhe um encontro e ela cambaleou para o meio da estrada. Verdammt Touristen! Uma limusine que estivera parada em segunda fila, arrancou 
de repente na sua direo tocando-lhe de raspo o suficiente para a lanar ao cho. As pessoas comearam ajuntar-se em seu redor.
     -        Ela est bem? - Ist ihr etwas passiert? - Peut-elle marcher?
     Nesse instante, uma ambulncia que passava parou. Dois maqueiros correram para ela.
     -        Ns tomamos conta da ocorrncia.
     Sonja Verbrugge deu por si a ser erguida para dentro de uma ambulncia. A porta fechou-se e, no instante seguinte, o veculo afastou-se velozmente.
     Estava amarrada a uma maca e tentou sentar-se.
     -        Eu estou bem - protestou. - No foi nada. Eu...
     Um dos maqueiros debruava-se sobre ela.
     -        Est tudo bem frau Verbrugge. Descontraia-se. Olhou sobressaltada para cima, de repente assustada.
     -        Mas como  que sabe o meu...
     Sentiu a dor aguda de uma agulha hipodrmica a enterrar-se no seu brao e, no momento seguinte, cedeu, entrando na escurido que a aguardava.
      Paris, Frana Mark Harris estava sozinho no andar panormico da Torre Eiffel, indiferente  chuva intensa que rodopiava em seu redor. De vez em quando o brilho 
de um relmpago pulverizava as gotas de chuva transformando-as em deslumbrantes cascatas de diamantes.
     Na margem oposta do rio Sena, via-se o Palcio de Chaillot e os Jardins do Trocadero to seus conhecidos, mas ele nem sequer se apercebia da sua presena. Estava 
concentrado nas espantosas notcias prestes a serem comunicadas ao mundo.
     O vento comeara a fustigar a chuva, transformando-a num verdadeiro turbilho. Mark Harris protegeu o pulso com a manga e olhou para o relgio. Estavam atrasados. 
Eporque tinham insistido em encontrar-se ali,  meia-noite?. No momento em que se punha a questo, ouviu a porta do elevador da torre a abrir-se. Dois homens moviam-se 
na sua direco, lutando contra a terrvel fora do vento molhado.
     Assim que Mark os reconheceu, ficou aliviado.
     -        Esto atrasados.
     -        Desculpa, Mark, mas foi por causa deste tempo terrvel.
     Paris, Frana -        Bom, o que interessa  que j aqui esto. Quanto  reunio em Washington, est tudo tratado, no est?
     -         sobre isso que precisamos falar. A verdade  que esta manh tivemos uma longa discusso sobre a melhor maneira de tratarmos isto e decidimos...
     Enquanto falavam, o segundo homem passara para trs de Mark e duas coisas ocorreram quase ao mesmo tempo. Um instrumento pesado e cortante abateu-se sobre o 
crnio de Mark e, no segundo imediato, este sentiu-se erguido e lanado por cima do parapeito, sob a chuva fria, o corpo a mergulhar na direo do inexorvel passeio, 
trinta e oito andares mais abaixo.
      Denver, Colorado Gary Reynolds crescera na acidentada Kelowna, no Canad, perto de Vancouver, e fora a que aprendera a pilotar, estando habituado a voar sobre 
terreno montanhoso e traioeiro. Pilotava um Cessna Citation II e mantinha um olhar atento sobre os picos cobertos de neve que o rodeavam.
     O avio deveria ter uma tripulao de dois pilotos, mas nesse dia no havia nenhum co-piloto. No nesta viagem, pensou, carrancudo.
     Pedira um plano de vo falso para o aeroporto de Kennedy. Ningum se ia lembrar de procurar por ele em Denver. Passaria a noite em casa da irm e de manh estaria 
a caminho do leste, para se encontrar com os outros. Todos os preparativos para eliminar Prima estavam a postos e... Uma voz no rdio interrompeu-lhe o pensamento.
     -        Citation Um Um Um Lima Foxtrot, aqui torre de controle do Aeroporto Internacional de Denver, chama. Contacte, por favor.
     Gary Reynolds premiu o boto do rdio.
     -        Aqui Citation Um Um Um Lima Foxtrot. Peo autorizao para aterrar.
     -        Um Lima Foxtrot, indique a sua posio.
     -        Um Lima Foxtrot. Estou a quinze milhas a nordeste do aeroporto de Denver. Altitude: quinze mil ps.
     Viu o Pike's Peak l em cima do seu lado direito. O cu estava azul brilhante, o tempo limpo. Um bom sinal.
     Houve um curto silncio. A voz da torre surgiu de novo:
     -        Um Lima Foxtrot, autorizado a aterrar na pista dois-seis.Repito, dois-seis.
     -        Um Lima Foxtrot, compreendido.
     Sem pr-aviso, Gary Reynolds sentiu o avio dar um salto inesperado. Espantado, olhou pela janela da cabina. Um forte vento surgir e em poucos segundos o Cessna 
foi apanhado numa violenta turbulncia que sacudiu o aparelho de um lado para o outro. Puxou comando para tentar ganhar altitude. No serviu de nada. Fora apanhado 
num terrvel turbilho. O aparelho estava completamente descontrolado. Premiu violentamente o boto do rdio.
     -        Aqui Um Lima Foxtrot. Tenho uma emergncia.
     -        Um Lima Foxtrot, de que tipo  a sua emergncia?
     Gary Reynolds gritava para o microfone:
     -        Fui apanhado por turbulncia de baixa altitude! Estou no meio de um maldito furaco!
     -        Um Lima Foxtrot, est apenas a quatro minutos e meio do aeroporto de Denver e no temos qualquer sinal de turbulncia nos nossas telas.
     -        Quero l saber dos vossas telas! Estou-vos a dizer... - O tom agudo da sua voz de repente aumentou: - Mayday may...
     Na torre de controle viram chocados o ponto luminoso a desaparecer da tela do radar.
      Manhattan, Nova Iorque.
     Ao amanhecer, numa zona sob a ponte de Manhattan, no rio East, no muito longe do per dezessete, meia dzia de polcias uniformizados e detetives  paisana 
reuniam-se em volta de um corpo completamente vestido que jazia na margem. O corpo fora ali atirado de forma descuidada, por isso a cabea balouava estranhamente 
para a frente e para trs na gua, seguindo os movimentos da mar.
     O homem  frente das operaes, o detetive Earl Greenburg, da Seo de Homicdios da Esquadra de Manhattan Sul, terminara com os procedimentos oficiais devidos. 
Ningum estava autorizado a aproximar-se do corpo at este ter sido fotografado, e ele tirara vrios apontamentos sobre a cena envolvente, enquanto os polcias procuravam 
provas que por ali pudessem existir. As mos da vtima tinham sido embrulhadas em sacos plsticos limpos.
     Cari Ward, o mdico legista, deu por terminado o seu exame, ergueu-se e sacudiu o p das calas. Olhou para os dois detetives encarregados do caso. O detetive 
Earl Greenburg era um profissional, um homem de aspecto capaz, com uma folha de servios impressionante. O detetive Robert Praegitzer tinha o cabelo cinzento e grisalho 
e refletia a postura de quem j vira tudo aquilo antes.
     Ward virou-se para Greenburg:
     -         todo teu, Earl.
     -        O que  que temos? - A causa bvia  a garganta cortada, direitinho at  cartida. Tem as duas rtulas esmigalhadas e parece-me que algumas costelas 
partidas. Algum tratou dele, e bem.
     -        E quanto  hora da morte?
     Ward olhou para a gua que batia contra a cabea da vtima:
     -        Difcil de estabelecer. Imagino que o tenham lanado para aqui algures depois da meia-noite. Dou-vos um relatrio completo assim que o conseguirmos 
levar para o necrotrio.
     Greenburg virou a sua ateno para o corpo. Casaco cinzento, calas azuis-escuras, gravata azul-clara, um relgio caro no pulso esquerdo. Greenburg ajoelhou-se 
e comeou a percorrer os bolsos do casaco da vtima. Os seus dedos encontram um bilhete. Puxou-o para fora, segurando-o pela borda.
     -        Est em italiano. - Olhou em redor: - Gianelli!
     Um dos polcias uniformizados correu apressado na sua direco.
     -        Sim, senhor?
     Greenburg deu-lhe a nota para as mos.
     -        Consegues ler isto?         Gianelli leu alto, devagar:
     -        ltima oportunidade. Encontra-te comigo no per dezessete com o resto da droga, seno vais nadar com os peixinhos. - E devolveu-a.
     Robert Praegitzer parecia espantado.
     -        Um golpe da Mfia? E porque  que o deixaram aqui, assim s claras?
     -        Boa pergunta.
     Greenburg continuou a vasculhar os outros bolsos do casaco. Tirou uma carteira para fora e abriu-a. Estava pesada com dinheiro. -        Pelos visto no andavam 
atrs do dinheiro dele. Tirou um carto da carteira. - O nome da vtima  Richard Stevens.
     Praegitzer franziu o sobrolho, -        Richard Stevens... No veio h pouco tempo qualquer coisa sobre ele nos jornais?
     -        Sobre a mulher dele. Diane Stevens. Est em tribunal a depor no julgamento por assassnio do Tony Altieri - respondeu Greenburg.
     -        E isso. Ela est a testemunhar contra o capo di capos- concordou Praegitzer.
     E ambos viraram-se para olhar o corpo de Richard Stevens.
CAPTULO 1
     
     Na baixa de Manhattan, na sala de audincias nmero trinta e sete do edifcio do Supremo Tribunal Criminal, no nmero 180 da Centre Street, o julgamento de 
Anthony (Tony) Altieri decorria. A grande e venervel sala estava completamente apinhada com jornalistas e espectadores.
      mesa da defesa sentava-se Anthony Altieri numa cadeira de rodas, acabrunhado, de aspecto plido, um gordo batrquio dobrado sobre si mesmo. S os olhos estavam 
vivos, e, de cada vez que olhava para Diane Stevens sentada no banco das testemunhas, esta sentia perfeitamente o pulsar do seu dio.
     A seu lado sentava-se Jake Rubenstein, o advogado de defesa. Rubenstein era famoso por duas coisas, a sua clientela famosa, principalmente constituda por criminosos, 
e o fato de que quase todos os seus clientes acabavam por ser absolvidos.
     Rubenstein era um homem baixo, elegante, com uma rpida e vvida imaginao. Nunca se apresentava de modo igual nas suas intervenes em tribunal. A sua especialidade 
era o dramatismo e era extremamente competente. Era brilhante a aferir os opositores, com um instinto quase animal para descobrir os seus pontos fracos. Por vezes 
Rubenstein imaginava que era um leo, que ia cercando a insuspeita presa, pronto a saltar-lhe em cima... ou uma ardilosa aranha, a tecer uma teia que acabaria por 
envolv-la, deixando-a  sua merc... Por vezes era um paciente pescador, calmamente lanando a linha  gua e movendo-a vagarosamente para cima e para baixo at 
que a gulosa vtima desse por ela e a abocanhasse.
     O advogado estudava cuidadosamente a testemunha no banco. Diane Stevens andava pelos trinta e poucos anos. Uma urea de elegncia envolvia-a. Tinha traos aristocrticos. 
Cabelo louro suave e ondulante. Olhos verdes. Uma excelente figura. A tpica beleza americana. Vestia um elegante e bem cortado casaco preto. Jake Rubenstein sabia 
que no dia anterior ela causara Uma impresso favorvel sobre o jri. Tinha que ter muito cuidado com a forma como lidaria com ela. Pescador, decidiu.
     Rubenstein aproximou-se vagarosamente do banco das testemunhas e, quando falou, a sua voz era suave:
     -        Senhora Stevens, ontem testemunhou que, na data em questo, no dia catorze de Outubro, guiava em direco a sul pela Henry Hudson Parkway quando teve 
um pneu furado e saiu da auto-estrada, na sada da One Hundred com a Fifty-eighth Street, para desvio de emergncia no parque Fort Washington Park?
     -        Exatamente.
      A voz dela era suave e educada.
     -        Porque parou exatamente nesse local?
     -        Por causa do pneu furado, sabia que tinha de sair da estrada principal e vi o telhado de uma cabana atravs das rvores. Pensei que houvesse a algum 
que me pudesse ajudar. No tinha pneu sobressalente.
     -         membro de algum clube automvel?
     -        Sou.
     -        E tem um telefone no seu carro?
     - Tenho.
     -        Ento porque  que no ligou para o clube automvel?
     -        Porque pensei que iria demorar muito tempo.
     -        E claro. E a cabana estava logo ali - disse Rubenstein com ar compreensivo.
     -        Exatamente.
     -        Ento aproximou-se para pedir ajuda?
     -        Sim.
     - Ainda havia luz c fora? - Havia. Foi antes das cinco da tarde.
     -        E por isso conseguia ver perfeitamente?
     -        Podia.
     -         E o que foi que viu, senhora Stevens?
     -        Vi Anthony Altieri...
     -        Ah! J o tinha encontrado antes?
     -         No.
     -         Ento o que foi que lhe deu a certeza que se tratava dele?
     -        Eu j tinha visto a foto dele nos jornais e...
     -        J tinha visto fotos que se pareciam com o ru?
     -        Bom, elas...
     -        E o que foi que viu nessa cabana?
      Diane Stevens respirou, estremecendo. Falou devagar, a relembrar a cena na sua mente.
     -         Havia quatro homens na sala. Um deles estava sentado numa cadeira, amarrado. O senhor Altieri parecia interrog-lo enquanto os outros dois homens 
estavam junto dele. - A sua voz estremeceu.
     -        O senhor Altieri puxou de uma arma, berrou qualquer coisa e... disparou sobre o homem, na cabea.
     Jake Rubenstein olhou pelo canto do olho para o jri. Todos estavam absortos no testemunho dela.
     -        E depois o que fez, senhora Stevens?
     -        Corri de volta para o meu carro e liguei o 911 do meu celular.
     -        E a seguir?
     -        Guiei dali para fora.
     -        Com um pneu furado?
     -        Sim. Estava chegado o momento de agitar um pouco as guas.
     -        Porque foi que no esperou pela chegada da polcia?
     Diane olhou na direo da mesa da defesa. Altieri olhava para ela com clara malevolncia. Ela desviou o olhar.
     -        No podia ficar ali, porque... porque temia que os homens sassem da cabana e me vissem.
     -        Isso  compreensvel. - A voz de Rubenstein endureceu. - O que no se compreende  que, quando a polcia respondeu  sua chamada para o 911, tenham 
entrado na cabana e no s no estava l ningum, senhora Stevens, como no conseguiram encontrar qualquer sinal de que l tivesse estado algum, quanto mais que 
algum tivesse sido assassinado.
     -        No  culpa minha. Eu...
     -        A senhora  uma artista, no ?
     Diane ficou espantada com a pergunta:
     -        Sim, eu...
     -        E  bem sucedida?
     -        Acho que sim, mas o que  que isso...?
     Estava chegada a altura de abanar o anzol.
     -        Um pouco de publicidade extra no faz mal a ningum, pois no? Todo o pas a v no noticirio da noite na televiso e nas primeiras pginas dos...
     Diane olhou para ele com ar furioso: -        Eu no fiz isto para ter publicidade. Eu jamais seria capaz de mandar um homem inocente para a...
     -        A palavra chave  "inocente", senhora Stevens. E eu vou provar, para l de qualquer dvida razovel, que o senhor Altieri  inocente. Muito obrigado. 
Terminei.
     Diane Stevens ignorou o duplo sentido. Quando desceu pa regressar ao seu lugar, espumava. Murmurou qualquer coisa ao advogado de acusao.
     -        Posso ir-me embora?
     -        Sim. Vou mandar algum para a acompanhar.
     -        No  preciso. Muito obrigada.
     Dirigiu-se para a porta e caminhou em direo ao parque de estacionamento, as palavras do advogado de defesa ainda a ecoarem aos seus ouvidos, A senhora  uma 
artista, no ... Um pouco de publicidade extra no faz mal a ningum, pois no ? Era degradante. Mas, no todo, estava satisfeita com a forma como o seu testemunho 
decorrera. Dissera ao jri exatamente o que vira e eles no tinham qualquer razo para duvidarem dela. Anthony Altieri ia ser condenado e mandado para a priso pelo 
resto da vida, mas, apesar disso, Diane no conseguia evitar pensar nos venenosos olhares que ele lhe deitara, e sentiu um arrepio.
     Deu ao empregado do parque o bilhete e ele partiu para lhe ir buscar o carro.
     Dois minutos mais tarde, Diane guiava em direo a norte, a caminho de casa.
     Havia um semforo na esquina. Quando Diane travava para parar, um jovem muito bem vestido que estava parado na esquina aproximou-se do carro.
     -        Desculpe, estou perdido. Podia...
     Diane baixou o vidro.
     -        Importa-se de me dizer como se vai para o tnel Holland? o jovem tinha sotaque italiano.
     -        E muito simples. Dirija-se  primeira...
     O homem ergueu o brao e tinha uma arma com silenciador na mo:
     -        Minha senhora. Saia j do carro. Rpido Diane empalideceu.
     -        Tenha calma. Est bem...
     Quando comeava a abrir a porta do carro, o homem afastou-se para trs um pouco e Diane carregou com toda a fora com o p no acelerador e o carro afastou-se 
a grande velocidade. Ouviu o vidro traseiro a ser estilhaado quando foi atingido por uma bala, e em seguida o som de outra bala a embater contra as traseiras. O 
corao batia-lhe descompassado e tinha dificuldade em respirar.
     Diane Stevens ouvira falar em seqestros de automveis, mas eram histrias que se contavam, algo que s acontecia aos outros. E o homem tentara mat-la. Os 
assaltantes de carros costumavam fazer isso? Diane esticou a mo para o celular e marcou o 911. Passaram-se quase dois minutos at algum do outro lado atender.
     -        Nove um um. Qual  a emergncia?
     Enquanto Diane explicava o que se tinha passado, foi-se apercebendo da inutilidade da situao. Naquela altura o homem j devia ter desaparecido.
     -        Vou mandar um polcia para o local. Pode dar-me o seu nome, morada e um nmero de telefone?
     Diane deu as informaes. Intil, pensou. Deitou uma olhadela ao vidro partido e estremeceu. Ansiava por poder falar com Richard no trabalho e contar-lhe o 
que se passara, mas sabia que ele estava ocupado com um projeto muito importante. Se lhe telefonasse e lhe contasse o que se passara, ele ia ficar preocupado e correria 
para junto dela, e ela no queria que ele falhasse o prazo. Contar-lhe-ia o que se passara quando ele voltasse para casa.
     E, de repente, um terrvel pensamento ocorreu-lhe. Estaria o homem ali  espera dela, ou tudo no passara de uma coincidncia? Recordou a conversa que tivera 
com Richard, quando o julgamento comeara:
     -        Acho que no deves testemunhar, Diane. Pode ser muito perigoso.
     -        Querido, no te preocupes. O Altieri vai ser condenado. Eles vo prend-lo para sempre.
     -        Mas ele tem amigos e...
     -        Richard, se eu no fizer isto, no vou ser capaz de me encarar.
     O que acabara de se passar tinha de ser uma coincidncia, decidiu Diane. Altieri no seria, com certeza, suficientemente doido para me fazer qualquer coisa, 
principalmente nesse momento, enquanto o julgamento estava a decorrer.
     Diane saiu da auto-estrada e guiou para oeste at chegar ao edifcio onde tinha o seu apartamento, na East Seventy-fifth Street. Antes de entrar na garagem 
subterrnea olhou cuidadosamente uma vez mais pelo retrovisor. Tudo parecia normal. O apartamento era um dplex trreo bastante arejado, com uma espaosa sala de 
estar, janelas que iam do cho at ao teto e uma grande lareira em mrmore. Tinha sofs forrados com tecidos floridos, cadeires de braos, uma estante embutida 
e uma enorme tela de televiso. Nas paredes havia coloridos quadros. Um Childe Hassam, um Jules Pascin, um Thomas Birch, um George Hitchcock e, numa zona grande, 
um grupo de quadros pintados por ela prpria.
     No andar seguinte, havia um quarto de casal e uma casa de banho, um segundo quarto de visitas e um ensolarado ateli onde Diane costumava pintar. Vrios dos 
seus quadros estavam pendurados pelas paredes. Num cavalete no meio da diviso estava um retrato meio acabado.
     A primeira coisa que fez assim que chegou a casa, foi entrar apressadamente no ateli. Retirou o retrato inacabado do cavalete e substituiu-o por uma tela virgem. 
Comeou a desenhar o rosto do homem que a tentara matar, mas as mos tremiam-lhe de tal forma que teve de parar.
      Enquanto guiavam em direo ao apartamento de Diane vens, o detetive Earl Greenburg queixou-se:
     -        Esta  a parte do meu trabalho que eu mais detesto.
     -        E melhor sermos ns a dizer-lhes do que ficarem a saber pelos noticirios da noite - respondeu Robert Praegitzer, e olhou para Greenburg. - Dizes tu?
     Earl Greenburg anuiu com um ar infeliz. Deu por si a recordar a histria do detetive que sara para informar a senhora Adams, mulher de um patrulha, que o marido 
fora morto.
     -        Ela  muito sensvel prevenira-o o chefe. Vais ter que lhe dar a notcia com muito cuidado.
     -        No se preocupe. Eu s lidar com isso.
     -         O detetive batera  porta da casa dos Adams e, quando a mulher fora abrir, o detetive perguntara:
     -         aqui que mora a viva Adams ?
     Diane sobressaltou-se ao ouvir o som da campainha da porta. No estava  espera de ningum. Dirigiu-se ao intercomunicador:
     -        Quem ?
     -        Detetive Earl Greenburg. Gostaria de falar consigo, senhora Stevens.
      sobre o sequestro do carro, pensou. A polcia fora rpida. Premiu o boto e Greenburg entrou no trio e caminhou at  porta dela.
      -        Boa tarde.
     -        Senhora Stevens?
     -        Sim. Muito obrigada por terem vindo to depressa. J comecei a desenhar o rosto do homem, mas... - respirou fundo. - Ele era moreno, com olhos castanhos-claros 
muito profundos e tinha um pequeno sinal no queixo. A arma tinha um silenciador e...
     Greenburg olhava para ela, confuso.
     -        Desculpe, mas no estou a perceber...
     -        O assaltante de carros. Eu chamei o 911 e... Viu a expresso no rosto do polcia. - Isto no tem nada a ver com assaltos a carros, pois no?
     -        No, minha senhora, no tem... - e Greenburg fez uma pequena pausa. - Posso entrar?
     -        Faa favor.         Greenburg entrou.
     Diane olhava para ele de sobrolho franzido:
     -        O que  que se passa? Aconteceu alguma coisa?         As palavras pareciam no querer sair.
     -        Sim, lamento muito. Receio... receio que seja portador de muito ms notcias.  sobre o seu marido.
     -        O que foi que aconteceu? - A voz dela tremia.
     -        Ele sofreu um acidente.
     Diane de repente sentiu-se gelada.
     -        Que tipo de acidente?
     Greenburg suspirou profundamente:
     -        Foi morto ontem  noite, senhora Stevens. Encontramos o corpo dele esta manh debaixo de uma ponte, no rio East.
     Diane ficou a olhar para ele durante um longo momento e, em seguida, comeou a abanar a cabea.
     -        Est enganado na pessoa, Tenente. O meu marido est a trabalhar no seu laboratrio.
     Ia ser muito mais difcil do que aquilo que antecipara.
     -        Senhora Stevens, o seu marido veio para casa ontem  noite?
     -        No, mas Richard trabalha frequentemente  noite. Ele  cientista... - Ela estava a ficar cada vez mais agitada.
     -        Senhora Stevens, tinha conhecimento de que o seu marido estivesse envolvido com a Mfia?
     Diane empalideceu. - Com a Mfia? Est louco?
     -        Encontramos...
     Diane comeara a hiperventilar.
     -        Deixe-me ver a sua identificao.
     -        Com certeza. - E o detetive Greenburg puxou do seu carto de identificao e mostrou-lho.
     Diane deitou-lhe uma olhadela, devolveu-lho e em seguida esbofeteou-o com fora na cara.
     -        Esta cidade paga-lhe para andar por a a assustar os cidados honestos? O meu marido no est morto! Ele est a trabalhar! - Diane gritava.
     Greenburg olhou para o fundo dos olhos dela e viu neles choque e negao.
     -        Senhora Stevens, quer que mande vir algum para olhar pela senhora...?
     -        O senhor  que precisa de algum que olhe por si. Agora, ponha-se daqui para fora.
     -        Senhora Stevens... - J!
     Greenburg tirou um carto de visita e colocou-o em cima de uma mesa:
     -        No caso de vir a querer falar comigo, tem aqui o meu nmero de telefone.
     Enquanto se dirigia para a porta, Greenburg pensava: No h dvida de que tratei muito bem deste caso, sim senhor. Mais valia que tivesse chegado e perguntado 
se era a viva Stevens!
      Quando o detetive saiu, Diane trancou a porta da frente e respirou fundo, a tremer. Mas que idiota! Vir ao apartamento errado e tentar assustar-me! Devia era 
participar dele. Olhou para o relgio. Richard devia estar a chegar. Estava na altura de ir comear a fazer o jantar. Ia fazer uma paelha, o prato preferido dele. 
Dirigiu-se  cozinha e comeou a prepar-lo.
      Devido ao secretismo do trabalho de Richard, Diane nunca o perturbava no laboratrio e, se o marido no lhe telefonava, ela sabia que isso significava que 
ele ia chegar tarde. As oito em ponto a paelha estava pronta. Provou-a e sorriu, satisfeita. Estava feita exatamente como Richard gostava. As dez da noite, ele ainda 
no tinha chegado e Diane colocou a paelha no frigorfico e colou uma mensagem na porta que dizia: "Querido, o jantar est no frigorfico. Vem e acorda-me". Richard 
devia, com certeza, estar com fome, quando chegasse a casa.
     De repente, Diane sentiu-se exausta. Despiu-se, enfiou uma camisa de noite, escovou os dentes e meteu-se na cama. Poucos minutos depois dormia profundamente.
     s trs da manh acordou a gritar.
     
CAPTULO 2
     
      J nascia o dia e Diane ainda no tinha conseguido parar de tremer. O frio que sentia vinha-lhe de dentro, dos ossos. Richard estava morto. Nunca mais o ia 
voltar a ver, nunca mais ouviria a sua voz, nunca mais o sentiria a abra-la. E tudo por minha culpa. Eu nunca devia ter entrado naquela sala de audincias. Oh, 
Richard, perdoa-me... Por favor, perdoa-me... No sei se conseguirei viver sem ti. Tu eras a minha vida, a minha razo de viver, e agora nada me resta.
     Queria enrolar-se como um novelo pequenino. Queria desaparecer. Queria morrer.
     Ali ficou, deitada, sozinha, a pensar no passado, em como Richard lhe transformara a vida...
     Diane West crescera em Sands Point, Nova Iorque, numa zona de calma riqueza. O pai era cirurgio e a me uma artista, e Diane comeara a desenhar aos trs anos. 
Freqentar o colgio interno de St. Paul e, quando era caloura na universidade, tivera um breve relacionamento com o seu carismtico professor de matemtica. Ele 
dizia-lhe que queria casar com ela, porque ela era a nica mulher no mundo para ele. Quando Diane soube que ele tinha mulher e trs filhos, concluiu que ou a matemtica 
ou a memria dele tinha algum defeito e pediu a transferncia para a Universidade de Wellesley.
     Estava obcecada com a arte e passava todos os momentos livres a pintar. Quando se formou, tinha comeado a vender os seus quadros e conquistara uma reputao 
como uma prometedora artista.
     Nesse outono, uma conhecida galeria da Quinta Avenida deu a Diane a possibilidade de fazer uma exposio, e foi um enorme sucesso. Paul Deacon, o proprietrio 
da galeria, era um afro-americano rico e erudito que ajudava Diane a alimentar a sua carreira.
     Na noite da abertura, o salo estava apinhado. Deacon apressou-se na direo de Diane, com um sorriso no rosto.
     - Parabns! J vendemos a maior parte dos quadros! Vou fazer uma nova exposio daqui a alguns meses, assim que estiveres pronta.
     Diane estava encantada.
     -        Mas, Paul, isso  maravilhoso.
     -        Tu mereces.         Deu-lhe uma palmadinha no ombro e partiu.
     Diane assinava um autgrafo, quando um homem surgiu por detrs dela e disse:
     -        Gosto das suas curvas.
     Diane ficou rgida. Furiosa, virou-se bruscamente e abriu aboca para fazer um comentrio brusco, quando ele continuou:
     -        Tm a delicadeza de um Rossetti ou de um Manet.
     Ele apreciava um dos seus quadros na parede.
     Diane conseguiu parar, mesmo a tempo.
     -        Oh!
     Olhou para ele mais de perto. Parecia andar pelos trinta e poucos anos. Tinha cerca de um metro e oitenta e dois de altura, uma constituio atltica, cabelo 
louro e olhos azuis brilhantes. Vestia um macio fato castanho, camisa branca e gravata castanha.
     -        Eu... Muito obrigada.
     -        Quando  que comeou a pintar?
     -        Quando ainda era criana. A minha me era pintora.
     Ele sorriu.
     -        A minha me era cozinheira, mas eu no sei cozinhar. Eu sei qual  o seu nome. O meu  Richard Stevens.
     Nesse momento, Paul Deacon aproximou-se com trs embrulhos.
     -        Aqui tem os seus quadros, senhor Stevens. Goze-os bem. Deu-os a Richard Stevens e afastou-se.
     Diane olhou para ele, espantada.
     -        O senhor comprou trs dos meus quadros?
     -        E tenho mais dois no meu apartamento.
     -        Eu... Sinto-me muito lisonjeada.
     -        Aprecio o talento.
     -        Obrigada.
     -        Bom, provavelmente est muito ocupada, por isso  melhor eu ir andando... - disse ele hesitante.
     -        No. Est tudo bem - ouviu-se Diane a dizer.
     Ele sorriu.
     -        timo. - E hesitou. - Srta. West, podia fazer-me um grande favor? Diane olhou para a mo esquerda dele. No tinha aliana.
     -        Sim, diga?
     -        Acontece que tenho dois bilhetes para a estria de uma reposio de Blithe Spirit, de Nol Coward, amanh  noite, e no tenho ningum com quem ir. 
Se estiver livre...
     Diane estudou-o por momentos. Parecia simptico e era muito atraente, mas a verdade  que era um verdadeiro desconhecido. Demasiado perigoso. Mesmo muito perigoso. 
Mas o que se ouviu a dizer foi:
     -        Tenho muito gosto em ir.
     Afinal a noite seguinte acabou por ser encantadora. Richard Stevens era uma companhia divertida e houve uma imediata empatia. Partilhavam o mesmo interesse 
por arte e por msica e muito mais. Sentia-se atrada por ele, mas no tinha a certeza se ele sentia o mesmo em relao a ela.
     No final da noite, Richard perguntou: - Amanh  noite, est livre?
     A sua resposta foi um decidido "Sim".
     Na noite seguinte jantaram num restaurante calmo, no Soho.
     -        Richard, fale-me de si.
     -        No h muito para contar. Nasci em Chicago. O meu pai era arquiteto e construiu edifcios por todo o mundo, e eu e a minha me costumvamos acompanh-lo 
nas viagens. Freqentei uma boa dzia de escolas internacionais e aprendi a falar uma srie de lnguas, como autodefesa.
     -        O que  faz? Em que  que trabalha?
     -        Trabalho no GIK, o Grupo Internacional Kingsley. E um grande grupo de massa cinzenta.
     -        Parece excitante.
     -         fascinante. Fazemos pesquisa de tecnologia de ponta. Se tivssemos um lema, seria qualquer coisa do gnero: "Se no temos a resposta agora, aguarde 
at amanh".
      Depois do jantar, Richard levou Diane a casa. A porta, pegou-lhe na mo e disse:
     - Gostei muito desta noite. Obrigado. E desapareceu. Diane ficou parada, a v-lo partir. Que bom que ele  um cavalheiro, e no um garanho. Fico mesmo feliz. 
Raios!
      Estiveram juntos todas as noites que se seguiram e, cada vez que Diane via Richard, sentia o mesmo calor dentro de si. Numa noite de sexta-feira, Richard perguntou:
     -        Eu treino um pequena equipe de Infantis aos sbados. Queres vir comigo e ficar a ver?
     Diane acenou com a cabea. - Adoraria, Sr. treinador.         Na manh seguinte, Diane ficou a ver Richard a trabalhar com ansiosos jovens futebolistas. Ele 
era brando, atencioso e paciente, gritando de alegria quando Tim Holm, com dez anos, apanhou a bola no ar, e era bvio que todos o adoravam.
     Estou a ficar apaixonada. Estou a ficar apaixonada, pensou Diane.
      Alguns dias mais tarde, Diane teve um almoo descontrado com algumas amigas e, quando saram do restaurante, passaram  porta do gabinete de uma vidente.
     Num impulso, Diane exclamou:
     -        Vamos ler as nossas sinas.
     -        Eu no posso, Diane. Tenho de voltar para o trabalho.
     -        Eu tambm.
     -        Eu tenho de ir buscar o Johnny.
     -        Porque no vais tu e depois dizes-nos o que ela te disse?
     -        Est bem. Eu vou.
     Cinco minutos mais tarde, Diane deu por si sozinha, sentada com uma velha de rosto macilento, a boca cheia de dentes de ouro e um xale sujo na cabea.
     Isto  um disparate, pensou. Porque  que estou a fazer isto ? Mas sabia perfeitamente a razo. Queria saber se ela e Richard tinham algum futuro juntos.  
s para me divertir, disse para si prpria.
     Diane ficou a olhar enquanto a velha pegava num baralho de cartas de Tar e as baralhava, sem nunca olhar para cima.
     -        Eu queria saber se...
     -        Shiu! - E a mulher virou uma carta. Era a figura do Bobo, vestido de forma colorida e com um saco. A mulher estudou a carta por momentos.
     -        H muitos segredos que tem de aprender. -Virou outra carta.
     - Esta  a Lua. Tem desejos sobre os quais, no est segura.
      Diane hesitou e acenou afirmativamente com a cabea.
     -        E tm a ver com um homem?
     -        Sim.
     A velha virou a carta seguinte.
     -        Esta  a carta dos Amantes.
     Diane sorriu.
     -         um bom sinal?
     -        Veremos. As prximas trs cartas  que o diro. - E virou outra carta. - O Enforcado. - Franziu o sobrolho, hesitou e virou a carta seguinte. - O Diabo 
- murmurou.
     -        Isso  mau? - perguntou Diane em tom ligeiro.
     A vidente no respondeu.
     Diane olhava, enquanto a velha virava outra carta. Abanou a bea. A voz dela era estranhamente vazia:
     -        A carta da Morte.
     Diane ps-se de p.
     -        Eu no acredito em nada disto - disse, zangada.
     A velha olhou para cima e, quando falou, a sua voz era completamente vazia:
     -        No importa aquilo em que acredita. A morte anda  sua volta.
      Berlim, Alemanha
     
CAPTULO 3
     
     O Polizeikommandant Otto Schiffer, dois policias uniformizados e o superintendente do edifcio de apartamentos, Herr Karl Goetz olhavam para o corpo nu e encarquilhado 
que jazia no fundo da banheira a transbordar. Uma ndoa negra pouco ntida circundava-lhe o pescoo.
     O Polizeikommandant colocou um dedo sob a torneira que pingava:
     -        Fria.
     Cheirou a garrafa de licor vazia que estava junto da banheira e virou-se para o superintendente do prdio:
     -        Como se chama ela?
     -        Sonja Verbrugge. O marido  Franz Verbrugge.  uma espcie de cientista.
     -        Ela vivia neste apartamento com o marido?
     -        H seis anos. Eram uns inquilinos maravilhosos. Pagavam a renda sempre a tempo. Nunca houve nenhum problema. Toda a gente gostava... - Percebeu o que 
ia a dizer e calou-se.
     -        A Frau Verbrugge trabalhava?
     -        Sim, no caf Cyberlin, onde as pessoas usam os computadores para...
     -        O que foi que o levou a descobrir o corpo?
     -        Foi por causa da torneira de gua fria da banheira. Tentei arranj-la vrias vezes, mas nunca desligava completamente.
     -        E ento?
     -        Ento, esta manh o morador do apartamento por baixo queixou-se que tinha gua a cair-lhe do teto. Vim c acima, bati  porta e, como no obtive resposta, 
abri-a com a minha chave mestra. Entrei na casa de banho e dei com... - A voz embargou-se-lhe.
     Um detective entrou na casa de banho.
      - No h quaisquer garrafas de bebidas destilada nos armrios, s de vinho.
     O Kommandant anuiu.
     -        Certo - e apontou para a garrafa junto da banheira. - Procurem impresses digitais nessa.
     -        Sim, senhor.
     O Kommandant virou-se para Karl Goetz:
     -        Sabe onde se encontra Herr-Verbrugge?
     -        No. Costumo v-lo de manh, quando ele sai para o trabalho, mas... - E fez um gesto de ignorncia.
     -        No o viu esta manh?
     -        No.
     -        Faz idia se Herr Verbrugge tencionava fazer alguma viagem?!
     -        No, senhor. No fao idia.
     O Kommandant virou-se para o detetive:
     -        Fala com os outros moradores. Tenta saber se nos ltimos tempos; Frau Verbrugge andava deprimida, se ela e o marido costumavam ter discusses e se 
ela bebia. Tenta conseguir o mximo de informaes. - E olhou para Karl Goetz. - Vamos verificar tambm o marido. Se pensar que h alguma coisa que possa ajudar...
     Karl Goetz disse timidamente:
     -        No fao idia se isto pode ajudar ou no, mas um dos moradores contou-me que ontem  noite havia uma ambulncia parada em frente do prdio e perguntou 
se algum estava doente. Quando eu l cheguei para ver o que se estava a passar, a ambulncia j tinha desaparecido. Tem algum interesse?
     O Kommandant respondeu:
     -        Vamos investigar.
     -        E... e quanto ao... corpo? -perguntou Karl Goetz nervoso, -        O mdico legista j vem a caminho. Esvaziem a banheira e tapem-na com uma toalha.
CAPTULO 4
     
     -        Receio que tenha muito ms notcias... Morto ontem  noite... Encontramos o corpo debaixo de uma ponte...
     Para Diane Stevens o tempo parara. Vagueava sem destino pelo amplo apartamento cheio de recordaes e pensava: O conforto dele desapareceu... O calor dele desapareceu... 
Sem Richard tudo isto no passa de um monte de tijolos. Nunca mais ter vida.
     Diane afundou-se num sof e fechou os olhos. Querido Richard, no dia em que nos casamos, perguntaste-me o que queria eu de presente. Eu respondi-te que no 
queria nada. Mas agora quero. Volta para mim. No interessa que eu no te possa ver. Aperta-me nos teus braos. Saberei onde ests. Preciso de te sentir uma vez 
mais. Quero sentir-te a acariciar-me o seio... Quero imaginar que consigo ouvir a tua voz a dizer que fiz a melhor paelha do mundo... Quero ouvir a tua voz a pedir-me 
para parar de te roubar a roupa da cama... Quero ouvir-te dizer que me amas. Tentou parar o inesperado caudal de lgrimas, mas sem sucesso.
     Desde o momento em que percebeu que Richard morrera, Diane passou os dias que se seguiram trancada no apartamento escurecido, recusando-se a atender o telefone 
ou a porta. Era como uma animal ferido, escondido. Queria estar a ss com a sua dor. Richard, houve tantas vezes em que te quis dizer "amo-te", para que me pudesses 
responder "eu tambm te amo!" Mas no queria parecer carente. Fui uma idiota. Agora estou carente.
     Por fim, como o telefone e a campainha no paravam de tocar, Diane decidiu abrir a porta.
     Na sua frente estava Carolyn Ter, uma das suas amigas mais ntimas. Ela olhou para Diane e disse:
     -        Ests com um aspecto terrvel! - Depois a sua voz tornou-se mais terna. - Toda a gente tem tentado entrar em contato contigo, minha querida. Temos 
estado muito preocupados.
     -        Desculpa, Carolyn, mas no estou capaz de... ,.
     Carolyn tomou Diane nos braos.
      -        Eu sei. Mas h um monte de amigos que te querem ver.
     Diane abanou a cabea:
     -        No.  imposs... - Diane, a vida de Richard acabou, mas a tua no. No te feches para as pessoas que gostam de ti. Vou comear a fazer uns telefonemas.
     Os amigos de Diane e de Richard comearam a telefonar e a aparecer no apartamento e Diane deu por si a ouvir a interminvel litania das habituais palavras de 
sentimentos:
     -         Pensa assim, Diane. Richard est em paz... -        Foi Deus que o chamou, querida...
     -        Eu sei que Richard est no cu, cuidando de ti..
     -        Ele est num lugar melhor... - Ele est junto dos anjos... Diane s queria gritar.
     A corrente de visitas parecia nunca mais ter fim. Paul Deacon, o proprietrio da galeria de arte que expunha os trabalhos de Diane, apareceu no apartamento. 
Ps os braos em redor de Diane e disse:
     -        Tenho tentado falar contigo, mas...
     -        Eu sei.
     -        Lamento tanto o que aconteceu a Richard. Ele era um homem raro. Mas, Diane, tu no te podes fechar assim s pessoas. Todos esperam ter a possibilidade 
de ver mais dos teus belos trabalhos.
     -        No sou capaz. J no  importante, Paul. Nada  importante; cheguei ao fim.
     Nada a conseguia convencer.
     No dia seguinte, quando a campainha da porta tocou, Dianel encaminhou-se relutante para ela. Olhou atravs do culo e pareceu-lhe ver uma pequena multido do 
outro lado. Intrigada, Diane abriu a porta. Havia uma dzia de rapazinhos no trio.
     Um deles tinha na mo um pequeno ramo de flores.
     -        Bom dia, senhora Stevens. - E entregou as flores a Diane.
     -        Muito obrigada.
     De repente, lembrou-se de quem eram os meninos. Eram os membros da pequena equipa de Infantis que Richard treinava.
      Diane recebera inmeros ramos de flores, de cartes de psames e de e-mails, mas este era o mais tocante de todos...
     -        Entrem - pediu. Os rapazinhos entraram atabalhoadamente na sala.
     -        S queramos dizer-lhe que sentimos muito.
     -        O seu marido era um tipo sensacional.
     -        Era mesmo legal.
     -        E era um excelente treinador.
     Foi a gota de gua, Diane no conseguiu reter as lgrimas por mais tempo.
     -        Muito obrigada. Ele tambm achava que vocs eram timos. Tinha muito orgulho em vocs. - Respirou fundo. - Querem beber alguma coisa?
     Tim Holm, o mido de dez anos que apanhara a bola pelo ar, respondeu:
     -        No, muito obrigado, senhora Stevens. S lhe queramos dizer que ns tambm vamos sentir muito a falta dele. Todos contribumos para as flores. Custaram 
doze dlares.
     -        S queramos mesmo dizer que lamentamos muito.
     Diane olhou para eles e disse calmamente:
     -        Muito obrigada. Eu sei como Richard iria ficar satisfeito por vocs terem vindo.
     Ficou a olhar enquanto eles murmuravam as despedidas e partiam.
     Observando-os  sada, recordou a primeira vez que vira Richard treinar os midos. Falava-lhes como se tivessem a mesma idade dele, numa linguagem que eles 
percebiam, e eles gostavam dele por isso. Foi nesse dia que me comecei a apaixonar.
     L fora, Diane ouviu o som de um trovo e as primeiras gotas de chuva comearam a escorrer pelas janelas, como se fossem as lgrimas de Deus. Chuva. Fora num 
fim de semana grande...
     -        Gostas de piqueniques? - perguntara Richard. - Adoro.
     Ele sorrira.
     -        Eu sabia. Vou planejar um piquenique. Amanh ao meio-dia passo para te apanhar.
     Estava um maravilhoso dia de sol. Richard preparara um piquenique no meio de Central Park. Havia pratas e atoalhados, e quando Diane viu o que estava dentro 
do cesto de piquenique desatou a rir. Rosbife... fiambre... queijos... dois enormes pats... e uma grande variedade de bebidas e meia dzia de sobremesas.
     -        H aqui comida que chega para um regimento! Quem  qui vem mais? - Um pensamento inesperado ocorreu-lhe. Um padre! Corou.
     Richard observava-a. - Ests bem? - Se eu estou bem? Nunca estive to feliz!
     -        Claro que estou, Richard.
     Ele assentiu:
     -        ptimo. No vamos esperar pelo regimento. Podemos comi Enquanto comiam, havia tanta coisa para dizer, e cada pala1 parecia aproxim-los ainda mais. 
Uma grande tenso sexual com cava a crescer entre eles e ambos sentiam-na. E a meio daquela tarde perfeita, de repente comeou a chover. Em poucos minutos ficara: 
completamente encharcados. Richard disse, pesaroso:
     -        Lamento muito. J devia saber... O jornal dizia que no ia havei chuva. Receio que nos tenha estragado o piquenique e...
     Diane aproximou-se suavemente dele e disse com toda a sua idade:
     -        E estragou? E estava nos braos dele, e os seus lbios comprimiam-se contra os dele, e conseguia sentir o corao dele a bater ecoando no seu corpo. 
Quando, por fim, se afastou, disse:
     -        Temos que despir estas roupas encharcadas.
     Ele riu-se.
     -        Tens razo. No queremos apanhar uma...
     -        Em tua casa ou na minha? - perguntou Diane.
     Richard, de repente, ficou esttico. - Diane, tens a certeza? Eu pergunto porque... isto no  coisa de uma noite.
     -        Eu sei - respondeu ela calmamente. Meia hora mais tarde estavam no apartamento de Diane, despindo-se, os braos  volta um do outro, e as mos explorando 
o corpo um do outro, de forma torturante, e por fim j no agentaram mais e caram na cama. Richard foi suave, e terno, e apaixonado, e frentico, e era magia pura, 
e a lngua dele encontrou a dela e moveu-se vagarosamente, e era como vagas quentes a baterem suavemente numa praia de veludo, e em seguida ele estava dentro dela, 
preenchendo-a.
     Passaram o resto da tarde e uma boa parte da noite a conversar e a fazer amor, e abriram os seus coraes um ao outro, e no havia palavras para descrever a 
sua emoo.
     De manh, enquanto Diane fazia o pequeno almoo, Richard perguntou:
     -        Queres casar comigo, Diane?
     E ela virou-se para ele devagarinho e respondeu suavemente:
     -        Oh, sim!
     O casamento teve lugar um ms depois. A cerimnia foi acolhedora e maravilhosa, com amigos e familiares a darem os parabns aos recm casados. Diane olhou para 
o rosto radiante de Richard, lembrou-se das premonies da velha vidente e sorriu.
     Tinham planejado passar a lua-de-mel em Frana, para onde partiriam na semana seguinte, mas Richard telefonara-lhe do trabalho:
     -        Surgiu um novo projeto e no me posso afastar. Importas-te que adiemos para daqui a uns meses? Desculpa, querida.
     -         claro que no, querido - respondera.
     -        Queres vir almoar hoje comigo?
     -        Adorava. - Tu gostas de comida francesa. Eu conheo um excelente restaurante francs. Apanho-te dentro de meia hora.
     Trinta minutos mais tarde, Richard estava l fora  espera de Diane.
     -        Ol, querida. Tenho de ir ter com um dos nossos clientes ao aeroporto. Ele vai para a Europa. Despedimo-nos dele e depois vamos almoar. Abraou-o.
     -        Tudo bem.
     Quando chegaram ao aeroporto Kennedy, Richard disse:
     -        Ele tem um avio particular. Vamo-nos encontrar com ele l em baixo.
     Um guarda permitiu que passassem para uma zona de acesso restrito, onde um Challenger estava estacionado. Richard olhou em volta.
      -        Ele no est aqui. Esperamos no avio.
     -        Muito bem.
     Subiram as escadas e entraram no luxuoso parelho. Os motores estavam em funcionamento.
     O comissrio de bordo surgiu, vindo do cockpit:
     -        Bons dias.
     -        Bons dias - respondeu Richard.
     Diane sorriu: - Bons dias.
     Olharam enquanto o comissrio fechava a porta do avio. Diane olhou para Richard:
     -        Achas que o teu cliente est muito atrasado?
     -        Ele no demora nada.
     O rugir dos motores soava cada vez mais forte. O avio come a taxiar.
     Diane olhou pela janela e ficou plida.
     -        Richard, ns estamos a andar.
     Richard olhou para ela com ar espantado:
     -        Tens a certeza? - Olha pela janela. - Estava a ficar em pnico. - Diz... diz... ao piloto...
     - O que queres que eu lhe diga?
     -        Para parar!
     -        No posso. Ele j levantou vo.
     Houve um momento de silncio e Diane olhou para Richard, os olhos abertos de espanto.
     -        Onde  que ns vamos?
     -        Oh! Eu no te disse? Vamos a Paris. Tu disseste que gostas de comida francesa.
     Ela arquejou. Em seguida a sua expresso alterou-se.
     -        Richard, eu no posso ir assim para Paris! No tenho roupa comigo. No tenho maquilagem. No tenho...
     -        Ouvi dizer que eles l tm lojas - respondeu ele.
     Diane olhou para ele por um segundo e em seguida lanou-lhe os braos ao pescoo.
     -        Oh, seu doido. Amo-te.
     Ele sorriu.
     -        Tu querias uma lua de mel. Aqui a tens.
     
 CAPTULO 5
     
     
     Em Orly, aguardava-os uma limusina para os levar ao Hotel Piaza Athne.
     Quando chegaram, o director do hotel disse:
     -        A vossa sute est pronta, senhor e senhora Stevens.
     -        Muito obrigado.
     Ficaram instalados na sute 310. O director abriu a porta e Diane e Richard entraram. Diane parou, chocada. Pendurados nas paredes, viam-se meia dzia de quadros 
seus. Virou-se para olhar para Richard.
     -        Eu... Como  que...?
     -        No fao idia. Pelos vistos por aqui tambm tm bom gosto - respondeu ele com ar inocente.
     Diane beijou-o longa e apaixonadamente.
     Paris foi o paraso. A primeira paragem que fizeram foi na Givenchy, para comprarem roupas para os dois, e em seguida na Louis Vuitton, para comprarem malas 
para as roupas novas.
     Passearam calmamente ao longo dos Campos Elsios em direco  Place de Ia Concorde e viram o lendrio Arco do Triunfo, o Palais Bourbon e La Madeleine. Caminharam 
pela Place Vendme e passaram um dia no museu do Louvre. Percorreram o jardim de esculturas do museu Rodin e fizeram jantares romnticos no Auberge des Trois Bonheurs 
e no Au Petit Chez Soi e no D'Chez Eux.
     A nica coisa que deixava Diane intrigada eram os telefonemas que Richard recebia a horas muito esquisitas.
     -        Quem era? - perguntou uma vez s 3 da manh, quando Richard acabou um telefonema.
     -        Era uma chamada normal de trabalho. A meio da noite? - Diane! Diane!
     Despertou bruscamente do seu devaneio. Carolyn Ter estava ao seu lado.
     -        Ests bem?
     Carolyn abraou Diane.
     -        Precisas de tempo. Ainda s se passaram uns dias - hesitou.
     -J trataste dos preparativos para o funeral?
     Funeral! A palavra mais triste na lngua inglesa. Carregava o som da morte, um eco de desespero.
     -        Eu... Eu ainda no... fui capaz de...
     -        Deixa que eu ajudo-te. Eu escolho o caixo e...
     -        No! -A palavra soou muito mais rspida do que pretendera.
     Carolyn olhou para ela, intrigada.
     Quando Diane voltou a falar, a voz tremia-lhe.
     -        No percebes? Esta ... esta  a ltima coisa que posso fazer por Richard. Quero que o seu enterro seja especial. Ele gostaria de ter l todos os seus 
amigos, para se despedirem.
     As lgrimas escorriam-lhe pela cara abaixo.
     -        Diane... - Tenho de ser eu a escolher o caixo de Richard para ter a certeza de que ele... de que ele dorme confortvel.
     No havia mais nada que Carolyn pudesse dizer.
     Naquela tarde, o detective Earl Greenburg estava no seu gabinete quando chegou a chamada.
     -        Diane Stevens ao telefone para falar consigo.
     Oh, no! Greenburg lembrava-se da bofetada que recebera na ltima vez que a vira. E o que seria agora ? Se calhar tinha alguma queixa. - Atendeu o telefone. 
- Detective Greenburg.
     -        Fala Diane Stevens. Estou a telefonar por duas razes. A primeira  para me desculpar. Portei-me muito mal consigo, lamento muito.
     Ele ficou sem saber o que dizer.
     -        Senhora Stevens, no precisa de pedir desculpa. Compreendo perfeitamente a sua situao. Aguardou. Fez-se um silncio.
     -        Disse que estava a telefonar por duas razes.
     -        Sim. O meu marido... - A voz apagou-se-lhe. - O corpo do meu marido est retido algures pela polcia. Como  que eu o recupero? Estou a tratar do seu 
enterro na Agncia Funerria Dalton.
      O desespero na voz dela f-lo crispar-se.
             Senhora Stevens, infelizmente ainda faltam alguns procedi mentos. Primeiro que tudo o gabinete do mdico legista tem de fazer um relatrio da autpsia, 
e em seguida h que notificar os vrios... - Pensou por momentos e depois tomou uma deciso. - Olhe, a senhora j tem muito com que se preocupar. Eu trato de tudo. 
As coisas estaro despachadas dentro de dois dias.
     - Muito obrigada. Eu... Muito obrigada. Muito, muito obrigada.
             A voz faltou-lhe e a ligao terminou.
     Earl Greenburg continuou sentado por um bom bocado a pensar em Diane Stevens e na angstia que a consumia. Em seguida comeou a tratar de pr um ponto final 
na burocracia.
     A Funerria Dalton situava-se a leste da Madison Avenue. Era um imponente edifcio de dois andares com uma fachada semelhante  das manses sulistas. L dentro, 
a decorao era de bom gosto e sbria, com luzes suaves e cortinas leves.
     Diane dirigiu-se  recepcionista:
     -        Tenho hora marcada com o senhor Jones. O meu nome  Diane Stevens.
     -        Muito obrigada.
     A recepcionista falou ao telefone e pouco depois o gerente, um homem grisalho, de rosto agradvel, apareceu para receber Diane.
     -        Eu sou Ron Jones. Falamos ao telefone. Compreendo a terrvel situao por que est a passar, senhora Stevens, e a nossa funo e aliviar-lhe o peso. 
Diga simplesmente o que pretende e ns trata remos de que os seus desejos sejam satisfeitos.
     -        Eu... Eu nem sei muito bem o que pedir - respondeu Diane, Pouco segura.
     Jones assentiu.
     -        Permita que lhe explique. Os nossos servios incluem um caixo, um servio fnebre para os seus amigos, um lugar no cemitrio e o enterro - hesitou. 
- Por aquilo que li nos jornais sobre a morte do seu marido, senhora Stevens, o mais natural  que pretenda um caixo fechado para o servio fnebre, de maneira 
que...
     -        No!
     Jones olhou para ela espantado:
     - Mas... - Eu quero-o aberto. Quero que Richard possa ver todos os amigos, antes de... - a voz embargou-se-lhe.
     Jones estudava-a com ar de quem a compreendia:
     -        Estou a perceber. Ento, se me permite que faa uma sugesto, ns temos c um maquiador que trabalha muito bem nos casos...
     -        e avanou com o maior tacto - ...em que  necessrio. Est de acordo?
     Richard ia detestar isso, mas...
     -        Sim.
     -        H s mais uma coisa. Precisamos das roupas em que enterrar o seu marido.
     Diane olhou para ele chocada.
     -        As...? - Diane imaginou as frias mos de um estranho a o corpo nu de Richard e estremeceu.
     -        Senhora Stevens?
     Tenho de ser eu a vestir Bichar. Mas no vou ser capaz de o ver deve estar. Quero record-lo...
     -        Senhora Stevens?
     Diane engoliu em seco.
     -        No pensei nas... - a voz saa-lhe entrecortada. - Desculpe -        e no foi capaz de continuar.
     Ele ficou a olhar enquanto ela saa atabalhoadamente e chamava ' um txi.
      -         Tu gostas de comida francesa... Eu conheo um excelente restaurante francs...
     O casaco azul marinho... o casaco de camura... Diane colocou os braos do fato azul em redor do seu corpo e abraou-o. Nunca vou ser capaz de deixar partir 
nenhum deles. Cada um era uma recordao preciosa.
     -        No sou capaz. - E, soluando, apanhou um fato ao acaso e saiu a correr.
     Na tarde do dia seguinte havia uma mensagem no gravador de chamadas de Diane: "Senhora Stevens, fala o detective Greenburg. Quero que saiba que j est tudo 
tratado. Falei com a Funerria Dalton. J pode avanar com os preparativos que queira fazer... - fez uma pequena pausa. - Desejo-lhe boa sorte... Adeus.
     Diane ligou para Ron Jones da funerria.
     - J sei que o corpo do meu marido est a.
     -        Sim, senhora Stevens. J esto a tratar da parte da maquilagem e recebemos as roupas que nos mandou. Muito obrigado.
     -        Pensei que... Acha que se pode fazer o enterro sexta-feira que vem?
     -        Sexta-feira est ptimo. Nessa altura j teremos tratado de todos os pormenores. Sugiro as onze horas da manh.
     Daqui a trs dias eu e Richard ficaremos afastados para sempre. Ou at que eu me junte a ele.
     Assim que Diane chegou ao apartamento, encaminhou-se para o armrio de Richard. Havia duas filas de cabides com fatos. Cada um deles carregava preciosas recordaes. 
Ali estava o fato castanho que Richard usara na noite em que o conhecera na galeria.
     -        Gosto das suas curvas. Tm a delicadeza de um Rossetti ou de um Manet.
     Seria capaz de deixar partir esse fato? Nem pensar.
     Os dedos tocaram o seguinte. Era o leve casaco desportivo cinzento que Richard usara no piquenique, quando tinham sido apanhados pela chuva.
     -        Em tua casa ou na minha? - Isto no  uma coisa de uma ... - Eu sei. Como podia no o guardar?
     O fato de riscas era o seguinte.
     Na quinta-feira de manh, Diane estava atarefada a preparar os detalhes finais do funeral, a verificar a longa lista de convidados e os que iriam carregar o 
caixo, quando recebeu um telefonema.
     -        Senhora Stevens?
     -        Sim.
     -        Fala Ron Jones. Era s para lhe dizer que recebemos os documentos que nos enviou e que a mudana de planos foi levada a cabo, tal como nos pediu.
     -        Documentos...? - perguntou Diane intrigada - Sim. O mensageiro trouxe-os ontem, com a sua carta.
     -        Mas eu no mandei nada...
     -        Na realidade, eu prprio fiquei um pouco espantado, mas, claro, a deciso era sua. Acabamos de cremar o corpo do seu marido h cerca de uma hora.
     
CAPTULO 6
     
     Paris Kelly Harris era uma beldade que surgira de forma meterica no mundo da moda. Andava pelos vinte e poucos anos, uma afro-americana com pele da cor do 
mel fundido e um rosto que era o sonho de qualquer fotgrafo. Tinha olhos aveludados e inteligentes, lbios cheios e sensuais, umas belas e longas pernas e uma silhueta 
cheia de promessas erticas. O cabelo escuro estava cortado curto de forma irregular, com algumas madeixas espalhadas pela testa. No incio do ano, os leitores das 
revistas Elle e Mademoisellee tinham votado em Kelly como a Modelo Mais Bonita do Mundo.
     Enquanto acabava de se vestir, Kelly olhou em redor do seu apartamento no ltimo andar do prdio, experimentando, como sempre, uma sensao de espanto. O apartamento 
era espetacular. Estava situado na restrita rua de S. Louis en lie, no Quarto Arrondissement de Paris. O apartamento tinha uma porta dupla de entrada que abria para 
um elegante trio, tectos altos e paredes apaineladas em tom amarelo-claro, e a sala estava mobilada com uma eclctica mistura de mveis franceses e Regncia. Do 
terrao, do outro lado do Sena, via-se Notre Dame.
     Kelly aguardava ansiosamente a chegada do prximo fim de semana. O marido ia lev-la numa das suas sadas surpresas.
     Quero que te vistas bem, minha querida. Vais adorar o stio aonde vamos.
     Kelly sorriu. Mark era o homem mais maravilhoso do mundo. Olhou para o relgio de pulso e suspirou.
     O melhor  despachar-me, pensou. A mostra comea daqui a meia hora. Instantes depois saiu do apartamento, dirigindo^se pela trio na direco do elevador. Entretanto, 
a porta de um dos apartamentos vizinhos abriu-se e a senhora Josette Lapointe surgiu no outro corredor. Uma pequena bola de gente, tinha sempre uma palavra simptica 
para Kelly.
     - Boas tardes, senhora Harris.
     Kelly sorriu.
     - Boa tarde, senhora Lapointe. - Hoje est maravilhosa, como sempre, alis.
     -        Muito obrigada. - E Kelly premiu o boto de chamada do elevador.
     A alguma distncia delas, um homem encorpado com um fato-macaco aparafusava algo numa parede. Olhou para as duas mulheres e em seguida desviou o olhar.
     -        E como vai a vida de modelo? - perguntou a senhora La pointe.
     -        Muito bem, muito obrigada.
     -        Tenho que ir brevemente v-la numa dessas suas passagens de modelos.
     -        Terei muito gosto em tratar disso, quando quiser.
     O elevador chegou e Kelly e a senhora Lapointe entraram. O homem de fato-macaco sacou de um rdio transmissor, falou rapidamente e apressou-se a sair dali.
     Quando as portas do elevador se comeavam a fechar, Kelly ouviu o telefone a tocar no seu apartamento. Hesitou. Estava com pressa, mas podia ser Mark a ligar.
     -        V andando - disse  senhora Lapointe.
     Kelly saiu do elevador, procurou as chaves, encontrou-as e entrou a correr no apartamento, levantou o telefone que tocava e atendeu-o.
     -        Mark?
     Uma voz desconhecida perguntou:
     -        Nanette?
     Kelly sentiu-se desapontada.
     -        No conhecemos ningum com esse nome.
     -        Desculpe, ento. Foi engano.
     Um engano. Kelly desligou. Nesse preciso momento ouviu um estrondo enorme que sacudiu todo o prdio. Em seguida, uma confuso de vozes e gritos. Horrorizada, 
correu para a entrada para ver o que se passara. O som vinha l de baixo. Kelly correu pelas escadas abaixo e, quando chegou ao trio, ouviu vozes altas e excitadas 
que vinham da cave.
     Apreensiva, desceu as escadas que davam para a cave e estacou horrorizada ao ver a cabina do elevador esmagada e o corpo horrivelmente destroado da senhora 
Lapointe. Kelly sentiu que ia desmaiar. Pobre senhora. Ainda h um minuto estava viva e agora... E eu podia ter ido com ela. Se no fosse aquele telefonema...
     Uma multido juntara-se em redor do elevador e ouvia-se ao longe o som das sirenes.
     Eu devia ficar aqui, pensou Kelly com sentimentos de culpa, mas no posso. Tenho de me ir embora. Olhou para o corpo e murmurou - Lamento muito, senhora Lapointe.
     Quando Kelly chegou ao salo de moda e atravessou a porta ao palco, Pierre, o nervoso coordenador de moda j a esperava. Saltou sobre ela:
     -        Kelly! Kelly! Ests atrasada! A mostra j comeou e...
     - Peo muita desculpa, Pierre. E que houve um acidente horrvel.
     Ele olhou para ela horrorizado: - Ests ferida? - No. - Kelly fechou por momentos os olhos. A idia de trabalhar depois do que acabara de ver era repugnante, 
mas tinha alternativa. Era a estrela do espectculo.
     -        Despacha-te!-pediu Pierre. - Vitel! Kelly partiu em direco ao camarim.
     A mais prestigiada passagem de modelos decorria no nmero 3 da Rue Cambon, o salo original da casa Chanel. Os paparazzii seni vanuse nas filas da frente. Todos 
os lugares estavam ocupados e fundo do salo estava apinhado de gente em p, ansiosa por poder ver as primeiras mostras das criaes para a estao que chegava. 
O salo fora decorado para o acontecimento com flores e tecidos bordados, mas ningum lhes prestava a mnima ateno. As verdadeiras atraces iam surgir sobre a 
longa passarela, um rio de mltipla cores em movimento, de beleza e de estilo. Como pano de fundo havia sempre msica a tocar, a sua lenta batida a sincopar os mo 
mentos sobre o palco.
      medida que as maravilhosas jovens deslizavam para a frente para trs, eram acompanhadas por uma voz num altifalante que comentava os modelos apresentados.
     Uma morena asitica iniciou a decida da passarela... "um casaco. de cetim com pespontes altos, calas em georgettee, uma blusa branca...
      Uma loura esguia ondulou pela passarela "...vestindo uma camisola de gola alta de caxemira com calas largas brancas..."
     Uma ruiva com ar decidido "...usa um casaco de cabedal preto e calas pretas em shantung, com uma camisa tricotada branca..."
     Um modelo francs, "...um casaco rosa em angor com trs botes, uma camisola de gola alta de torcidos e calas pretas justas..."
     Um modelo sueco "...um casaco  marinheiro em cetim azul, com calas e uma encantadora blusa..."
     E em seguida chegou o momento que todos aguardavam. O modelo sueco desapareceu e a passarela ficou vazia. A voz no altifalante anunciou:
     -        E agora que chegou a estao balnear, vamos apresentar a nossa nova linha de fatos de banho.
     Houve um crescendo de antecipao e em seguida Kelly Harris surgiu no seu momento mais alto. Vestia um biquni branco, uma parte superior que mal conseguia 
cobrir os jovens e firmes seios e uma parte inferior que se moldava perfeitamente ao corpo. Enquanto ondulava sensualmente ao longo da passarela, o efeito era encantador. 
Ouviu- se uma onda de aplauso. Kelly sorriu levemente em sinal de apreciao, deu a volta  passarela e desapareceu.
     Nos bastidores, dois homens aguardavam-na.
     -        Senhora Harris, ser que nos podia dar um momento...
     -        Lamento - desculpou-se Kelly. - Tenho que me mudar rapidamente. - E comeou a afastar-se.
     -        Espere! Senhora Harris! Somos da polcia Judiciria. Eu sou o inspector Dune e este  o inspector Steunou. Precisamos de falar consigo.
     Kelly estacou.
     -        Da polcia? Falar sobre o qu?
     - A senhora  a senhora Harris, no ?
     -        Sim - de repente sentiu-se apreensiva.
     -        Ento, lamento ter que a informar que... o seu marido morreu ontem  noite.
     A boca de Kelly ficou seca. - O meu marido...? Como...?
     -        Aparentemente, suicidou-se.
     Os ouvidos de Kelly zumbiam. Mal conseguia perceber o que o inspector lhe estava a dizer "...Torre Eiffel... meia-noite... mensagem... lamentvel... nossas 
condolncias."
     As palavras no eram reais. Havia momentos de som que nada significavam.
     -        Minha senhora... 
     (...Este fim de semana, quero que te vistas bem, minha querida. Vais adorar o stio onde vamos...)
     -        Tem de... haver um engano - disse Kelly. - O Mark jamais.. -        Lamento muito. - O inspector chefe observava Kelly atentamente. - A senhora est 
bem?
     -        Sim. -  S que a minha vida acabou.
     Pierre correu apressadamente para Kelly com um belssimo biquni s riscas.
     -        Chrie, tens que te mudar rapidamente. No h tempo a perder - e enfiou-lhe o biquni nos braos. - Vite! Vite!
     Kelly vagarosamente deixou-o cair ao cho.
     -        Pierre?
     Ele olhava para ela espantado. - Sim?
     -        Veste-o tu.
     Uma limusina levou Kelly de regresso ao apartamento. O director do salo insistira que algum fosse com ela, mas Kelly recusara. Queria estar sozinha. Agora, 
enquanto passava pela entrada, viu o porteiro, Philippe Cendre e um homem em fato-macaco rodeado por um grupo de moradores.
     Uma das moradoras dizia:
     -        Pobre senhora Lapointe. Mas que acidente horrvel.
     O homem do fato-macaco segurava duas pontas esfarrapadas e um cabo grosso.
     -        No foi nenhum acidente, minha senhora. Algum cortou os cabos de travagem do elevador.
CAPTULO 7
     
     s quatro da manh, Kelly estava sentada numa cadeira a olhar pela janela, atordoada, a ouvir uma confuso de vozes. Polcia Judiciria... precisamos de falar... 
Torre Eiffel... mensagem de suicdio... Mark morreu... Mark morreu... Mark morreu... As palavras pulsavam pesadamente, martelando-lhe a cabea.
     Na sua mente, o corpo de Mark caa, caa, caa... Estendeu os braos para o apanhar antes mesmo de ele se esmagar contra o passeio. Morreste por minha culpa? 
Foi alguma coisa que eu fiz? Ou que no fiz ? Alguma coisa que eu disse? Ou que no disse? Eu estava a dormir quando te foste embora, meu querido, e nem sequer tive 
a possibilidade de te dizer adeus, de te beijar e de te dizer o quanto te amo. Preciso de ti. No consigo viver sem ti, pensou Kelly. Ajuda-me Mark, Ajuda-me... 
como sempre me ajudaste... E deixou-se cair para trs na cadeira, recordando como tudo fora antes dele, naqueles terrveis primeiros anos...
     Kelly nascera em Filadlfia, filha ilegtima de Ethel Hackworth, uma criada negra que trabalhava para uma das famlias brancas mais importantes da cidade. O 
patro era juiz. Ethel tinha dezassete anos e era belssima, e Pete, o elegante e louro filho mais velho da famlia Turner, com vinte e dois anos, sentira-se atrado 
por ela. Seduziu-a e, no ms seguinte, Ethel soube que estava grvida.
     Quando contou a Pete, ele respondeu:
     -        Mas... mas isso  maravilhoso - e correu para o escritrio do pai para lhe dar as ms notcias.
     Na manh seguinte, o juiz Turner chamou Ethel ao seu escritrio e disse:
     -        No admito ter uma puta a trabalhar em minha casa. Ests despedida.
     Sem dinheiro nem estudos ou qualificaes, Ethel comeara a trabalhar como empregada de limpeza numa fabrica, trabalhando longas horas para poder sustentar 
a filha recm nascida. Ao fim de cinco anos poupara dinheiro suficiente para comprar uma velha casa de madeira que transformou em penso para homens. Transformou 
as divises em sala de estar, casa de jantar, quatro pequenos quartos e uma pequena diviso de apoio onde Kelly dormia.
     Desde ento, uma srie de homens tinha entrado e sado.
     -        Estes so teus tios - dissera-lhe Ethel. - No os incomodes.
     Kelly estava feliz por ter uma famlia to grande, at que um dia chegou  idade de perceber que eles eram todos desconhecidos.
     Quando tinha oito anos, estava uma noite a dormir no seu quarto pequeno e escuro quando foi acordada por uma voz gutural que lhe dizia baixinho:
     -        Chiu! No faas barulho!
     Kelly sentiu a camisa de noite a ser erguida e quando ia protestar um dos "tios" j estava em cima dela e com a mo tapava-lhe a boca. Kelly sentiu-o a forar-lhe 
as pernas. Tentou lutar, mas ele mantinha-a presa. Sentiu o membro dele a rasgar-lhe o corpo por dentro e foi invadida por uma dor horrvel. Ele no tinha piedade, 
forando-se a entrar nela, enterrando-se fundo, cada vez mais fundo e mais fundo, esfregando-lhe a pele at arder. Kelly sentia o calor do seu sangue a escorrer 
de dentro dela. Gritava silenciosamente, com medo de desmaiar. Estava prisioneira da assustadora escurido do seu prprio quarto.
     Por fim, depois daquilo que lhe pareceu uma eternidade, sentiu-o estremecer e sair de dentro dela.
     - Vou deixar-te. Mas, se alguma vez contares alguma coisa sobre isto  tua me, eu volto e mato-a - disse ele baixinho e desapareceu.
     A semana seguinte foi quase insuportvel. Sofria o tempo todo, mas cuidou do seu corpo lacerado o melhor que conseguiu at que, por fim, a dor desapareceu. 
Queria contar  me o que se passara, mas no se atrevia. Se alguma vez contares alguma coisa sobre isto  tua me eu volto e mato-a.
     O incidente durara unicamente uns poucos minutos, mas esses minutos tinham alterado a vida de Kelly. Deixara de ser a menina que sonhara em ter um marido e 
filhos para se tornar uma pessoa que se sentia manchada e desgraada. Decidiu que nunca mais permitiria que um homem lhe tocasse. Algo mudara dentro de Kelly.
     Dessa noite em diante, Kelly passou a ter medo do escuro.
 CAPTULO 8
     
     Quando Kelly fez dez anos, Ethel p-la a trabalhar na penso. Kelly levantava-se todas as manhs s cinco para limpar as sanitas, esfregar o cho da cozinha 
e ajudar a preparar o pequeno almoo dos hspedes. Depois da escola, lavava a roupa, lavava o cho, limpava o p e ajudava no jantar. A sua vida comeou a ser uma 
horrorosa e frustrante rotina.
     Ansiava por ajudar a me, na expectativa de um elogio. Nunca o ouviu. A me estava demasiado preocupada com os hspedes para prestar ateno  filha.
     Quando Kelly era muito nova, um hspede simptico lera-lhe Alice no Pas das Maravilhas e Kelly ficou fascinada pela forma como Alice conseguiu fugir por uma 
toca mgica de coelho.  disso que eu preciso, pensou Kelly. Uma forma de escapar. No posso passar o resto dos meus dias a limpar sanitas, a lavar chos e a limpar 
a porcaria de desconhecidos.
     E um dia Kelly encontrou a sua mgica toca de coelho. Era a sua imaginao, pela qual conseguia ir onde muito bem lhe apetecia. E imaginou toda uma outra vida 
para si...
     Ela tinha um pai, e o pai e a me eram da mesma cor. Nunca se zangavam nem nunca gritavam com ela. Viviam todos numa casa maravilhosa. O pai e a me amavam-na. 
O pai e a me amavam-na.
     O pai e a me amavam-na...
     Quando Kelly fez catorze anos, a me casou-se com um dos hspedes, um empregado de bar chamado Dan Berke, um homem carrancudo de meia idade que era um pessimista 
quanto a tudo. Fosse o que fosse que Kelly fizesse, nunca nada lhe agradava.
     -        O jantar est uma porcaria...
     -        A cor desse vestido no te fica bem...        
     -        A persiana do quarto continua partida.
     -        No acabaste de limpar as casas de banho...
     O padrasto de Kelly tinha um problema de alcoolismo. A parede que separava o seu quarto do quarto da me e do padrasto era muito fina e, noite aps noite, Kelly 
ouvia o som de pancadas e de gritos. De manh, Ethel aparecia com pesada maquilagem mas que no era suficiente para ocultar os golpes e as ndoas negras.
     Kelly andava infeliz. Ns devamos era sair daqui para fora, pensava. Eu e a minha me amamo-nos.
     Uma noite, quando Kelly estava meio a dormir, ouviu vozes a falarem alto no quarto ao lado:
     -        Porque foi que no te viste livre da catraia antes de ela nascer?
     -        Eu tentei, Dan. Mas no resultou.
     Kelly sentiu-se como se tivesse sido golpeada no ventre. A me nunca a quisera. Ningum a queria.
     Kelly encontrou outra forma de escapar ao horror interminvel que era a sua vida. O mundo dos livros. Tornou-se uma leitora insacivel e passava a maior parte 
do seu tempo livre na biblioteca pblica.
     No final da semana nunca havia dinheiro para Kelly, por isso arranjou um trabalho como babysitter, invejando as felizes famlias que nunca teria.
     Aos dezassete anos, Kelly transformou-se na beleza que a me fora. Os rapazes na escola comearam a convid-la para sair. Sentia-se repugnada. Recusou-os a 
todos.
     Aos sbados, quando no havia escola e as tarefas de Kelly j estavam todas feitas, corria para a biblioteca pblica e passava a tarde a ler.
     A senhora Lisa Marie Houston, a bibliotecria, era uma mulher inteligente e compreensiva, com um feitio amistoso e roupas to despretensiosas quanto a sua personalidade. 
Ao ver Kelly tantas vezes na biblioteca, ficou curiosa.
     Um dia comentou:
     - E muito agradvel ver uma jovem a gostar tanto de ler. Passas muito tempo aqui.
     Foi o incio de uma grande amizade.  medida que as semanas passavam, Kelly foi confiando os seus receios e as suas aspiraes  bibliotecria.
      -         Kelly, o que gostarias de fazer com a tua vida?
     - Gostava de ser professora.
     -        Acho que serias uma excelente professora.  a profisso mais gratificante do mundo.
     Kelly comeou a falar, mas parou. Lembrou-se de uma conversa que tivera com a me e o padrasto ao pequeno almoo, uma semana antes. Kelly dissera:
     - Preciso de ir para uma universidade. Quero ser professora.
     - Professora ? - rira Berke. - Mas que idia mais parva. Os professores ganham uma misria. Ests-me a ouvir? Uma misria. Ganhas mais a lavar chos. De qualquer 
das maneiras, a tua velhota e eu no temos dinheiro para te mandar para a universidade.
     -        Mas ofereceram-me uma bolsa e...
     -        E ento? Vais passar anos a perder o teu tempo. Esquece. Com o teu aspecto, o melhor  venderes o corpinho.
     Kelly sara da mesa.
     Agora dizia  senhora Houston:
     -        S h um problema. Eles no me deixam ir para a universidade - a voz embargou-se-lhe. - Vou passar o resto da minha vida a fazer o que fao!
     -         claro que no. - A voz da senhora Houston era firme. - Quantos anos tens?
     -        Daqui a trs meses fao dezoito anos.
     -        No tarda nada ters idade suficiente para tomares as tuas prprias decises. s uma jovem muito bonita, Kelly. Sabias?
     -        No. No sabia. - Como lhe posso eu explicar que me sinto como se fosse uma anormal? No me sinto de modo nenhum bonita. - Senhora Houston, eu odeio 
a minha vida. No quero ser como a... Quero sair desta terra. Quero fazer algo de diferente e nunca vou poder... - Esforava-se por controlar as emoes. - Eu nunca 
vou ter a possibilidade de fazer seja o que for, de vir a ser algum.
     -        Kelly...
     -        Nunca devia ter lido todos estes livros. - A voz dela era amarga.
     -        Porqu?
     -        Porque me encheram a cabea de mentiras. Todas aquelas maravilhosas pessoas, e aqueles stios espetaculares, e a magia... - Kelly abanou a cabea. 
- No h magia.
     A senhora Houston observou-a por momentos. Era bvio que a auto-estima de Kelly fora extremamente danificada.
     -        Kelly, existe magia, mas tu  que tens que ser o mgico, que tens que fazer com que a magia aparea.
     -        Sim? - O tom da voz de Kelly era cnico. - E como  que eu fao isso?
     -        Primeiro que tudo, tens que saber de facto quais so os teus sonhos. Sonhas em ter uma vida excitante, cheia de pessoas interessantes e de lugares 
maravilhosos. Da prxima vez que c voltares, eu vou te mostrar como podes tornar reais os teus sonhos.
     Mentirosa.
     Na semana depois de Kelly ter terminado o liceu, regressou  biblioteca. A senhora Houston disse-lhe:
     -        Kelly, lembras-te do que eu te disse sobre criares a tua prpria magia?
     -        Sim - respondeu, cptica, Kelly.
     A senhora Houston procurou atrs da secretria e tirou para fora um punhado de revistas, a COSMO girl, a Seventeen, a Glamour, Mademoiselle, a Essence, a Allure... 
e deu-as a Kelly.
     Kelly ficou a olhar para elas.
     -        E o que  que eu fao com isto?
     -        Alguma vez pensaste em vir a ser modelo?
     -        No.
     -        V estas revistas. Depois diz-me se te deram algumas idia sobre como trazeres a magia para a tua vida.
     Ela tem boas intenes, pensou Kelly , mas no compreende.
     -        Muito obrigada, senhora Houston. Assim farei.
     Para a semana vou comear  procura de um emprego. Kelly levou as revistas para a penso e enfiou-as num canto e esqueceu-as. Passou a tarde a cumprir as suas 
tarefas.
     Quando, nessa noite, se preparava para se meter na cama, exausta, lembrou-se das revistas que a senhora Houston lhe dera. Pegou numas por pura curiosidade e 
comeou a folhe-las. Era todo um outro mundo. Os modelos maravilhosamente vestidos, com homens elegantes a seu lado, em Londres e Paris e em locais exticos por 
i todo o mundo. De repente, Kelly sentiu uma enorme vontade a crescer! dentro de si. Rapidamente vestiu um robe e atravessou o trio na direco da casa de banho.
      Estudou-se no espelho. Bom, talvez fosse atraente. Era o que todos lhe diziam. Mas, mesmo que seja verdade, pensou Kelly, eu no tenho qualquer experincia. 
Pensou na sua vida futura em Filadlfia e olhou-se mais uma vez no espelho. Todos tm que comear por algum lado. Tu tens de ser o mgico, faz a tua prpria magia.
     Na manh seguinte bem cedo, Kelly apareceu na biblioteca para falar com a senhora Houston.
     Esta ficou espantada ao v-la ali to cedo.
     -        Bom dia, Kelly. Tiveste oportunidade de dar uma olhadela s revistas?
     -        Tive. - Kelly respirou fundo. - Gostava de tentar ser modelo.
     O problema  que no fao a mnima idia por onde comear.
     A senhora Houston sorriu.
     -        Mas eu fao. Andei a consultar a lista telefnica de Nova Iorque.
     No disseste que gostarias de sair desta cidade? - A senhora Houston pegou numa folha de papel datilografada que tirou de dentro da bolsa e deu-a a Kelly. - 
Aqui tens uma lista das dozes principais agncias de modelos em Manhattan, com as moradas e os nmeros de telefone. - E apertou a mo de Kelly. - Comea pela do 
topo.
     Kelly estava atordoada.
     -        Eu... Eu no sei como lhe agradecer...
     -         Eu digo-te como. Faz com que eu veja a tua fotografia nestas revistas.
     Nessa noite ao jantar, Kelly disse:
     -        Decidi que quero ser modelo.
     O padrasto grunhiu:
     -        Mas que idia mais estpida  essa? Que diabo se passa contigo?
     Todas as modelos so putas.
     A me suspirou:
     -        Kelly, no cometas os mesmos erros que eu. Tambm eu tive sonhos que a nada levaram. Eles vo dar cabo de ti. Tu s negra e pobre. Nunca irs a lado 
nenhum.
     Foi nesse instante que Kelly tomou a sua deciso.
     s cinco da manh do dia seguinte, Kelly fez a mala e dirigiu-se  estao dos autocarros. Na bolsa tinha duzentos dlares que ganhara como babysitter.
     A viagem de autocarro demorou duas horas e Kelly passou o tempo a imaginar o seu futuro. Ia tornar-se modelo profissional. Kelly Hackworth no lhe parecia nome 
profissional. J sei o que vou fazer. Vou usar apenas o meu primeiro nome. E repetiu-o na cabea uma vez e outra. E agora a nossa top model, Kelly.
     Instalou-se num hotel barato e, s nove horas, Kelly estava a entrar pela porta principal da agncia de modelos que se encontrava em primeiro lugar da lista 
que a senhora Houston lhe dera. Kelly no estava maquilada e vestia um vestido todo amarrotado, porque no tinha ferro de engomar.
     No havia ningum na recepo no trio. Abordou um homem que estava sentado num escritrio, atarefado a escrever  secretria.
     -        Desculpe - disse Kelly.
     O homem grunhiu qualquer coisa sem sequer olhar para cima.
     -        No sei se precisam de modelos - disse Kelly, hesitante.
     -        No - resmungou o homem. - No andamos  procura, no.
     Kelly suspirou:
     -        Bom, de qualquer das formas, muito obrigada - e virou-se para partir.
     O homem olhou de relance para cima e a sua expresso alterou-se.
     -        Volte c. - Pusera-se de p. - Meu Deus. De onde  que voc saiu?
     Kelly olhava intrigada para ele.
     -        De Filadlfia.
     -        O que eu quero dizer ... Bom, no interessa. J alguma vez trabalhou como modelo?
     -        No.
     -        No importa. Aqui aprende a trabalhar.
     A garganta de Kelly ficou seca.
     -        Isso quer dizer que eu... Que eu vou ser modelo?
     Ele sorriu um enorme sorriso. - Claro. Temos uma srie de clientes que vo ficar doidos quando a virem.
     Nem podia acreditar. Aquela era uma das mais importantes agncias de modelos e eles...
     -         Chamo-me Bill Lerner. Dirijo esta agncia. Como se chama?
     Aquele era o momento que Kelly imaginara. Era a primeira vez que ia usar o seu novo nome, um nome de carcter profissional, com uma s palavra.
     Lerner olhava especado para ela.
     -        No sabe como  que se chama?
     Kelly recomps-se e endireitou-se e disse com toda a confiana:
     -         claro que sei. Kelly Hackworth.
     
CAPTULO 9
     
     O som do avio a voar baixo trouxe um sorriso aos lbios de Lois Reynolds. Gary. Estava atrasado. Lois oferecera-se para ir aeroporto busc-lo, mas ele respondera:
     -        Mana, no te incomodes. Eu apanho um txi.
     -        Mas, Gary, tenho o maior prazer...
     -         melhor que fiques em casa e que esperes por mim.
     -        Como queiras, mano.
     O irmo sempre fora a pessoa mais importante na vida de Lois. Os anos em que crescera no Kelowa tinham sido um pesadelo. Desde que era menina, Lois sempre sentira 
que o mundo estava contra si, as revistas das personalidades, os modelos, as estrelas femininas de d cinema, e tudo porque era ligeiramente gordinha. Mas onde  
que estava escrito que as rolias no podiam ser to giras como as doentias e escanzeladas? Lois Reynolds estudava constantemente a sua imagem ao espelho. Tinha 
cabelo louro comprido, olhos azuis, delicados, traos plidos e aquilo que Lois considerava como um corpo bastante bem feito. Os homens podem andar por a com as 
suas barrigas de cerveja e ningum lhes diz nada. Mas, assim que uma mulher engorda uns quilitos, torna-se logo objecto de comentrios. Mas quem era o parvalho 
que tinha o direito de dizer que a figura feminina devia ter as medidas 90-60-90?
     Desde que Lois se lembrava, as suas companheiras de escola tinham o hbito de a troar nas suas costas - "rabo gordo", "pote de banha", "texugo"... Estas palavras 
magoavam-na profundamente.! Mas Gary sempre l estivera para a defender.
     Quando Lois se formara na universidade de Toronto, j estava farta de ser aborrecida. Se o Senhor Maravilha procura uma mulher real, aqui estou eu.
      E um dia, inesperadamente, o Senhor Maravilha surgira. Chamava-se Henry Lawson. Conheceram-se no convvio da igreja e Lois sentiu-se imediatamente atrada 
por ele. Era alto, magro e louro, tinha um rosto que parecia estar sempre pronto a sorrir e um feitio que lhe fazia justia. O pai dele era o reverendo da igreja. 
Lois comeou a passar a maior parte do seu tempo livre no convvio com Henry e, enquanto falavam, ficou a saber que ele era dono de uma creche bem sucedida e um 
amante da natureza.
     -        Se estiver livre amanh  noite - disse ele - gostava de a levar a jantar        No houve qualquer hesitao da parte de Lois:
     -        Sim, muito obrigada.
     Henry Lawson levou-a ao conhecido Sassafraz, um dos melhores restaurantes de Toronto. A ementa era tentadora, mas Lois pediu um jantar leve porque no queria 
que Henry pensasse que era uma comilona.
     Henry notou que ela se limitava a comer uma salada e comentou:
     -        Mas isso no chega para a alimentar.
     -        Estou a tentar perder peso - mentiu.
     -Lois, eu no quero que perca peso. Gosto de si tal como . - Disse ele pousando a mo sobre a dela.
     Ela sentiu um frmito. Aquele era o primeiro homem que lhe dizia tal coisa.
     -        Vou encomendar um bife, batatas e uma salada Csar - informou Henry.
     Era to maravilhoso, encontrar finalmente um homem que compreendia o seu apetite e que o aprovava.
     As semanas seguintes foram passadas num frenesi de encontros. Ao fim de trs semanas, Henry disse:
     -        Lois, eu amo-te. Quero que cases comigo.
     Palavras que pensara nunca vir a ouvir. Ela lanou os braos em volta dele e respondeu:
     -        Tambm eu te amo, Henry. Quero ser tua mulher.
     O casamento teve lugar na igreja do pai de Henry, cinco dias depois. Estavam presentes Gary e alguns amigos, e foi uma cerimnia maravilhosa, oficiada pelo 
pai de Henry. Lois nunca se sentira to feliz.
     Onde vo passar a lua-de-mel? - perguntou o reverendo Lawson.
     -        No lago Louise - respondeu Henry. -  muito romntico.
     - Perfeito para uma lua-de-mel.
     Henry abraou Lois.
     -        Espero que, para o resto das nossas vidas, todos os dias sejam uma lua de mel.
     Lois estava exttica.
     Imediatamente a seguir ao casamento, partiram para o lago Louise. Era um espetacular osis no Banff National Park, no corao das Rochosas canadianas.
     Chegaram ao fim da tarde, com o sol a brilhar sobre o lago.
     Henry tomou Lois nos braos:
     -        Ests com fome?
     Ela olhou-o nos olhos e sorriu:
     -        No.
     -        Eu tambm no. Porque no nos despimos?
     -        Oh, sim, meu querido.
     Dois minutos mais tarde estavam na cama e Henry fazia com ela, deliciosamente. Era maravilhoso. Um xtase.
     -        Oh, querido. Amo-te tanto.
     -        Tambm eu te amo, Lois - disse Henry. Ergueu-se. -Agora temos de combater o pecado carnal.
     -        Temos que fazer o qu? - E Lois olhou para ele, confusa.
     -        Pe-te de joelhos.
     Ela riu.
     -        Querido, no ests cansado?
     -        Pe-te de joelhos.
     Ela sorriu.
     -        Est bem.
      Ps-se de joelhos e observou, intrigada, enquanto Henry tirava um enorme cinto das calas. O marido avanou na sua direco e, antes de ela poder perceber 
o que se estava a passar, ele fez estalar o cinto contra as suas ndegas nuas.
     Lois gritou e fez meno de se endireitar.
     -        O que raio...?
     Ele mandou-a ajoelhar.
     -        Eu j te disse, querida. Temos de combater o pecado - e uma vez mais ergueu o cinto e bateu-lhe com ele.
     -        Pra! Pra com isso!
     - Est quieta. - A voz dele estava cheia de fervor.
      Lois debateu-se para se erguer, mas Henry mantinha-a em baixo com um forte brao e bateu-lhe com o cinto mais uma vez, e outra. Lois sentia-se como se o rabo 
estivesse a ser esfolado.
     - Henry! Meu Deus! Pra com isso! Por fim, ele endireitou-se e respirou fundo, a tremer:
     -        Agora j est tudo bem.
     Lois sentia uma enorme dificuldade em se mexer. Sentia os verges a arder. Dorida, l se conseguiu pr de p. Estava incapaz de falar. Limitava-se a olhar para 
o marido, horrorizada.
     -        O sexo  um pecado. Temos que combater a tentao.
     Ela abanou a cabea, sempre sem conseguir falar, sem conseguir acreditar no que acabara de acontecer.
     -        Pensa em Ado e Eva, o incio da queda da humanidade - continuou ele a dizer.
     Lois comeou a chorar, enormes soluos sacudindo-lhe o corpo. - J est tudo bem. - Ele tomou Lois nos braos. - Est tudo bem. Eu amo-te.
     E Lois respondeu, insegura:
     -        Eu tambm te amo, mas...
     -        No te preocupes. Ns conseguimos.
     O que significa que foi a ltima vez que isto aconteceu, pensou Lois. Provavelmente, tem alguma coisa a ver com o facto de ele ser filho de um pastor. Graas 
a Deus que j acabou. No restaurante, Lois mal se conseguia sentar. A dor era terrvel, mas estava demasiado envergonhada para pedir uma almofada.
     -        Eu encomendo - disse Henry. E pediu uma salada para ele e uma refeio enorme para ela. - Tu tens de manter as foras, minha querida.
     Durante o jantar, Lois pensou no que acontecera. Henry era o homem mais maravilhoso que alguma vez conhecera. Fora apanhada desprevenida por aquilo - e o que 
fora realmente aquilo, um fetiche?'De qualquer das maneiras, j acabara. Podia ansiar por passar o resto da sua vida a tomar conta daquele homem e a apreciar que 
tomassem conta dela.
     Quando terminaram as entradas, Henry encomendou uma sobremesa extra para Lois e disse:
     -        Eu gosto de mulheres fortes.
     Ela sorriu. - Ainda bem que te agrado.
     Quando o jantar terminou Henry perguntou:
     - Que tal regressarmos ao quarto?
     - Acho ptimo.
     J no quarto, despiram-se e Henry tomou Lois nos braos e a dor pareceu desaparecer. O seu amor era suave e carinhoso e nunca fora to agradvel.
     -        Foi maravilhoso - disse Lois abraando o marido.
     -        Sim - concordou ele. - Agora temos de expiar o pecado Ajoelha-te.
     A meio da noite, quando Henry dormia, Lois fez a mala sem fazer barulho e fugiu. Apanhou um avio para Vancouver e telefonou a Gary. Durante o almoo, contou-lhe 
o que se passara.
     -        Vou pedir o divrcio - disse Lois - mas tenho de sair da cidade.
     Gary pensou por alguns momentos.
     -         Um amigo meu tem uma companhia de seguros, mana.  em Denver, e isso fica a quinze mil milhas daqui.
     -         perfeito.
     -        Vou falar com ele - respondeu Gary.
     Duas semanas mais tarde, Lois trabalhava numa companhia de seguros numa posio de direco.
     Gary mantivera-se em contacto constante com Lois. Ela comprara uma casinha encantadora com vista das Montanhas Rochosas ao fundo, e de tempos a tempos o irmo 
fazia-lhe uma visita. Passavam maravilhosos fins de semana juntos, a esquiar ou a pescar ou simplesmente sentados no sof a conversarem. Sinto tanto orgulho em ti, 
mana, dizia-lhe ele, e tambm Lois se sentia muito orgulhosa do que ele conseguira. Ele obtivera o seu grau de PH.D. em Cincia e trabalhava para uma organizao 
internacional, e voar passara a ser apenas um passatempo.
     Enquanto Lois pensava em Gary, ouviu bater  porta. Olhou pela janela para ver quem era e reconheceu-o. Tom Huebner. Um homem alto, um piloto com uma personalidade 
um pouco brusca, amigo de Gary.
     Lois abriu a porta e Huebner entrou.
     - Ol, Tom.
     -        Lois.
     -        Gary ainda no chegou. Acho que ouvi o avio dele h um bocado. Deve estar a chegar. Queres esperar ou...?
     Ele olhava-a fixamente. - No tens estado a ver as notcias?
     Lois abanou a cabea.
     - No. O que se passa? S espero que no estejamos a caminho de outra guerra e...
     -        Lois, receio muito que seja portador de ms notcias. De muito ms notcias. - A voz dele estava tensa. -  sobre Gary.
     Ela ficou rgida.
     -        O que se passa com ele?
     -        Morreu num acidente de aviao quando vinha para c para te ver. - E viu a luz desaparecer dos olhos dela. - Lamento muito.
     Sei bem como vocs gostavam um do outro.
     Lois tentou falar, mas estava a hiperventilar:
     -        Como... como... como...?
     Tom Huebner pegou na mo dela e suavemente conduziu-a a um sof.
     Lois sentou-se e respirou fundo vrias vezes.
     -        O que foi... O que foi que aconteceu?
     -        O avio de Gary embateu contra uma montanha a poucas milhas de Denver.
     Lois sentiu-se desfalecer.
     -        Tom, eu gostaria de ficar sozinha.
     Ele olhou para ela, preocupado.
     -        Tens a certeza, Lois? Eu posso ficar e...
     -        Muito obrigada, mas, por favor, deixa-me sozinha.
     Tom Huebner levantou-se com ar hesitante e em seguida anuiu:
     -        Tens o meu telefone. Liga-me, se precisares de mim.
     Lois no o ouviu sair. Ali ficou sentada, em estado de choque, como se algum lhe dissesse que ela tinha morrido. A sua mente disparou para os seus tempos de 
infncia. Gary sempre fora o seu Protector, lutando com os rapazes que a aborreciam e,  medida que cresciam, acompanhando-a a jogos de basquetebol, ao cinema e 
s festas. A ltima vez que o vira fora na semana anterior, e reviu a cena como se fosse um filme a desenrolar-se, atravs dos olhos cheios de lgrimas.
     Os dois estavam sentados  mesa da casa-de jantar.
     - Gary, no comeste nada.
     -        Mana, est ptimo. S que no tenho fome.
     Ela analisou-o por momentos.
     -        H alguma coisa sobre a qual queiras falar?
     -        Tu percebes sempre, no percebes?
     -        Tem a ver com trabalho?
     -        Tem - e ele afastou o prato da frente. - Acho que a minha vida corre perigo.
     Lois olhou para ele, alarmada.
     -        Mana, s meia dzia de pessoas no mundo sabem o que se est a passar. Eu volto para c de avio na segunda-feira para passar a noite. Na tera de manh 
tenho de ir a Washington.
     Lois estava intrigada. - Porqu Washington?
     -        Para falar sobre Prima.
     E Gary explicara-lhe tudo. Agora Gary estava morto. Acho que a minha vida corre perigo. O irmo no morrera num acidente. Ele fora assassinado.
     Lois olhou para o relgio. Agora j era muito tarde para fazer fosse o que fosse, mas de manh ia fazer o telefonema que vingaria a morte do irmo. Ia terminar 
o que Gary planeara fazer. De repente, Lois sentiu-se exausta. Era um enorme esforo, levantar-se do sof. No jantara, mas s a idia de comer deixava-a enjoada.
     Encaminhou-se para o quarto e caiu sobre a cama, demasiado cansada para se despir. Ali ficou, atordoada, at que por fim acabou por adormecer.
     Sonhou que ela e Gary estavam num comboio a alta velocidade e que todos os passageiros na carruagem fumavam. Comeava a ficar calor e o fumo fazia-a tossir. 
A sua tosse despertou-a e abriu os olhos. Olhou, horrorizada, em redor. O quarto estava a arder, o fogo escorria pelas cortinas e o quarto estava cheio de fumo. 
Lois cambaleou para fora da cama, a sufocar. Tentando no respirar, cambaleou na direco da porta. Todo o quarto estava envolto em chamas e fumo espesso. Deu meia 
dzia de passos, sentiu as pernas ceder e caiu ao cho.
     A ltima coisa de que Lois se lembrava era das chamas a lamberem o caminho na sua direco.
     
CAPTULO 10
     
     Para Kelly, tudo acontecia a uma velocidade estonteante. Rapidamente aprendeu os aspectos mais importantes do trabalho como modelo, a agncia proporcionara-lhe 
cursos de projeco de imagem, de postura e de pose. Muito desse trabalho tinha a ver com a atitude, e para Kelly isso significava representar, pois no se sentia 
bela nem desejvel.
     A expresso "sucesso de um dia para o outro" podia ter sido inventada para Kelly. Ela projectava no s uma imagem provocante e excitante, como um toque de 
inacessibilidade que era um verdadeiro desafio para os homens. Em dois anos, Kelly subira a um tero do topo da escala dos modelos. Apresentava produtos de uma dzia 
de pases. Muito do seu tempo era passado em Paris, onde estavam os clientes mais importantes da agncia.
     Uma vez, depois de uma extravaganza de moda em Nova Iorque, antes de regressar a Paris Kelly decidiu visitar a me, que lhe pareceu mais velha e mais desgastada. 
Tenho que a tirar daqui, pensou. Vou comprar-lhe um belo apartamento e vou tir-la daqui. A me pareceu satisfeita por a ver.
     -        Fico satisfeita por te estares a dar to bem, Kelly. Muito obrigada pelos teus cheques mensais.
     -        De nada. Me, queria falar consigo sobre um assunto. J tenho tudo planeado. Quero que saia...
     -        Vejam s quem nos veio fazer uma visita! Sua Alteza! - O Padrasto acabara de entrar. - O que ests aqui a fazer? No devias estar a apresentar os teus 
fatinhos da moda?
     Vou ter de fazer isto outro dia, concluiu Kelly.
     Havia mais uma coisa que queria fazer. Dirigiu-se  biblioteca pblica onde passara tantas horas maravilhosas e, assim que cruzou a entrada transportando consigo 
uma meia dzia de revistas, a sua mente comeou a danar, cheia de recordaes.
     A senhora Houston no estava sentada na sua secretria. Kelly olhou em redor e viu-a de p numa das alas laterais, com excelente aspecto, num vestido muito 
bem cortado, atarefada a encher uma estante com livros.
     Assim que a senhora Houston ouviu a porta a ser aberta, disse: -J a vou - e virou- se. - Kelly! - Fora quase um grito. - Oh Kelly!
     Correram uma para a outra e abraaram-se. A senhora Houston afastou-se e olhou para ela:
     -        Eu no acredito que sejas tu. O que fazes c pela cidade?
     -        Vim ver a minha me, mas tambm a queria ver a si.
     -        Estou to orgulhosa de ti. No fazes idia.
     -        Senhora Houston, lembra-se de quando eu lhe perguntei como lhe podia agradecer? Respondeu-me dizendo que queria ver a minha fotografia numa revista 
de moda. Pronto, aqui tem. - E Kelly colocou a pilha de revistas nos braos da senhora Houston. Havia exemplares da Elle, da Cosmopolitan, da Mademoiselle e da Vogue. 
Estava na capa de todas elas.
     -        So maravilhosas. - A senhora Houston parecia feliz. Deu a volta, passou para trs da secretria e tirou de l exemplares mesmas revistas.
     Demorou alguns segundos at Kelly ser capaz de falar.
     -        O que poderei alguma vez fazer para lhe agradecer? A mudou a minha vida.
     -        No, Kelly. Tu  que mudaste a tua vida. Eu limitei-me a um pequeno empurro. E, Kelly...
     - Sim?
     -        Graas a ti, transformei-me numa f da moda.
     Como Kelly prezava muito a sua privacidade, a fama por vezes perturbava-a. A barragem insistente dos fotgrafos incomodava-a e ela tinha o que se podia considerar 
uma fobia de ser abordada por pessoas desconhecidas. Kelly gostava de estar sozinha.
     Um dia, almoava no restaurante Le doq, no hotel Jorge V, quando um homem mal vestido que passava parou e ficou a olhar para ela. Tinha o aspecto plido e pouco 
saudvel de algum que passava a maior parte do tempo debaixo de tecto. Tinha com ele um exemplar da revista Elle aberta numa pgina cheia de fotografias de Kelly.
     - Desculpe - disse o desconhecido.
     Kelly olhou para cima, com ar aborrecido: - Sim?
     -        Eu vi a sua... Li aquele artigo a seu respeito onde diz que nasceu em Filadlfia. - A voz dele estava cheia de entusiasmo. - u tambm nasci l e, 
quando vi as suas fotografias, senti que a conhecia e...
     Kelly respondeu friamente:
     -        No conhece. E no gosto de ser incomodada por desconhecidos.
     -        Oh! Peo desculpa - e engoliu em seco. - No era minha inteno... Eu no sou desconhecido. Quero dizer... O meu nome  Mark Harris e trabalho para 
a Kingsley Internacional. Quando a vi aqui, pensei... pensei que talvez no gostasse de almoar sozinha e que eu podia...
     Kelly olhou para ele com ar feroz.
     -        Pois enganou-se. Agora, faa o favor de sair daqui.
     Ele gaguejava:
     -        Eu... eu no tinha inteno de incomodar.  que... - E viu o olhar na cara dela. -  vou.
     Kelly ficou a v-lo sair pela porta, levando consigo a revista. Boa viagem.
     Kelly marcara uma semana de apresentaes para vrias revistas de moda. Um dia depois de ter encontrado Mark Harris, estava no camarim dos modelos a vestir-se 
quando trs dzias de rosas chegaram para si. O carto dizia: Por favor, perdoe-me por a ter incomodado.
     Kelly rasgou o carto.
     -        Mande as flores para o hospital peditrico.
     Na manh seguinte, a encarregada do guarda-roupa entrou no camarim de novo com um embrulho.
     -        Um homem deixou isto para ti, Kelly.
     Era uma orqudea. O carto dizia Espero estar perdoado. Mark Harris. Kelly rasgou o carto.
     -        Fique com a flor.
     Depois disso, os presentes do Mark comearam a chegar quase diariamente, um pequeno cesto com frutos, um anel de disposio, um Papai Noel em brinquedo. Kelly 
deitou sempre tudo para o lixo. O presente que chegou depois era diferente: uma adorvel cachorrinha caniche com uma fita encarnada atada ao pescoo e um carto: 
Esta  a Angel. Espero que goste tanto dela como eu. Mark Harris.
     Kelly ligou para as informaes e pediu o nmero de telefone do Kingsley Internacional Group. Quando a telefonista atendeu, Kelly perguntou:
     -        Tm um Mark Harris a trabalhar a?
     -        Oui, Mademoiselle.
     - Posso falar com ele?
     -        Um momento.
     Um minuto depois, Kelly ouviu a conhecida voz:
     - Al?
     - Senhor Harris?
     - Sim.
     -        Fala Kelly. Decidi aceitar o seu convite para almoar.
     Do outro lado fez-se um minuto de silncio, e em seguida:
     -        Sim? Mas... Mas isso  maravilhoso.
     Kelly distinguia perfeitamente o som da excitao na voz dele.
     -        No Laurent, hoje  uma?
     -        Isso  excelente. Muito obrigado. Eu...
     -        Eu marco a mesa. Adeus.
     Mark Harris estava no Laurent de p, a aguardar, junto de mesa, quando Kelly entrou trazendo com ela a cadelinha.
     O rosto dele alegrou-se:
     - Voc... Voc veio. Eu no tinha a certeza... e trouxe Angel consigo.
     -        Sim - e Kelly plantou a cadela nos braos de Mark. - pode fazer-lhe companhia ao almoo - disse com voz gelada e virou-se para partir.
     -        No estou a perceber. Pensei... - arquejou Mark.
     -        Bom, ento eu explico-lhe pela ltima vez - respondeu em voz muito dura. - Quero que pare de me aborrecer. No consegue compreender?
     O rosto dele ficou vermelho.
     -        Sim. Sim, claro. Peo desculpa. Eu no queria... no queria... S pensei que... No sei o que fazer... Gostaria de poder explicar. Importa-se de se 
sentar por um momento?
     Kelly ia comear a dizer que no, mas optou por se sentar com ar aborrecido.
     -        Sim?
     Mark Harris respirou fundo:
     Lamento muito. No era minha inteno aborrec-la. Mandei todos aqueles presentes como forma de pedir desculpa por me ter intrometido. Tudo o que pretendia 
era uma hiptese de... Quando vi a sua fotografia, senti que a conheci toda a vida. E quando a vi em carne e osso e voc era ainda mais... - ele gaguejava, atrapalhado.
     - Eu... Tinha a obrigao de saber que uma pessoa como voc jamais estaria interessada em algum como eu... Eu... agi como um colegial estpido. Estou to envergonhado. 
 que... Eu no sei como lhe explicar como me senti e... - a voz dele arrastou-se. Havia nele uma ntida vulnerabilidade. - Eu sou um verdadeiro desastre... a explicar 
os meus sentimentos. Estive toda a minha vida sozinho.
     Nunca ningum... Quando eu tinha seis anos, os meus pais divorciaram-se e houve uma batalha pela minha custdia. Nenhum deles me queria.
     Kelly observava-o em silncio. As palavras dele pareciam ecoar na sua cabea, trazendo-lhe lembranas h muito enterradas.
     -        Porque  que no te viste livre da catraia antes de ela nascer?
     -        Eu tentei. Mas no resultou.
     Ele continuava:
     -        Cresci em meia dzia de casas de acolhimento, onde nunca ningum se interessava...
     -        Estes so teus tios. No os incomodes.
     -        Parecia que nunca era capaz de fazer nada certo...
     -        O jantar est uma porcaria...        - A cor deste vestido no te fica bem...
     -        No acabaste de limpar as casas de banho...
     -        Queriam que eu sasse da escola para trabalhar numa garagem, mas eu... eu queria ser cientista. Diziam que eu era demasiado burro...
     Kelly estava cada vez mais interessada no que ele dizia.
     -        Eu queria ser modelo.
     - Todas as modelos so putas...
     -        Sonhava em ir para a universidade, mas eles insistiam que para o tipo de trabalho que eu ia fazer no precisava de estudar.
     Mas para que diabo queres tu ir para a universidade? Com o teu aspecto, o melhor  venderes o corpinho...
     Quando consegui uma bolsa para o MIT, os meus pais adoptivos disseram que o mais natural era eu chumbar e que devia era ir trabalhar para a garagem...
     - Universidade? Vais desperdiar quatro anos da tua vida...
     Ouvir aquele desconhecido era quase como assistir a uma projeco da sua prpria vida. Kelly ali estava sentada, profundamente comovida, sentindo as mesmas 
dolorosas emoes que o desconhecido sentado na sua frente.
     -        Quando terminei o MIT, fui trabalhar para uma sucursal do Kingsley Internacional Group, em Paris. Mas senti-me muito sozinho - e fez uma longa pausa. 
- li, h muito tempo, em qualquer lado, que a coisa mais importante do mundo  encontrar algum a quem amar, que nos ame... E eu acreditei.
     Kelly permanecia sentada, muito calada.
     Mark Harris disse, atrapalhado: - Mas eu nunca encontrei essa pessoa e estava pronto a desistir. E quando a vi naquele dia... - Ele no foi capaz de continuar.
     Ergueu-se para partir, com Angel nos braos.
     -        Estou to envergonhado com tudo isto. Juro que nunca mais a incomodo. Adeus.
     Kelly ficou a olhar enquanto ele comeava a andar.
     - Onde  que vai com a minha cadela?
     - Desculpe? - E Mark Harris virou-se, confuso.
     - Angel  minha. Voc deu-ma, lembra-se?
     Mark estava parado, sem saber o que pensar.
     - Sim, mas disse-me que...
     -        Vou fazer um acordo consigo, Mark Harris. Eu fico o Angel, mas voc pode ter o direito de a visitar.
     Ele demorou um pouco a perceber e, em seguida, o seu sorriso iluminou toda a sala.
     -        Quer dizer que eu... eu posso?
     -        Porque no tratamos desse assunto ao jantar hoje  noite? - respondeu ela.
     E Kelly no fazia a mnima idia de que acabara de se transformar num alvo para o assassnio.
     
CAPTULO 11
     
     Paris, Frana
     No quartel-general da polcia em Reuilly, na Rue Hnard, dcimo segundo Arrondissement de Paris, decorria um interrogatrio. O superintendente da torre Eiffel 
estava a ser interrogado pelos detectives Andr Belmondo e Pierre Marais.
     
     INVESTIGAO DO SUICDIO NA TORRE EIFFEL
     Segunda-feira 6 de Maio, 10 horas da manh
Sujeito: Rene Pascal BELMONDO: - Senhor Pascal, temos razes para crer que Mark Harris, o homem que supostamente saltou do andar panormico da torre Eiffel, foi 
assassinado.
PASCAL: -Assassinado? Mas... Disseram-me que foi um acidente e...
MARAIS: - Ele no podia ter cado acidentalmente passando por cima daquele parapeito.  demasiado alto.
BELMONDO: - E conclumos que a vtima no tinha tendncia para 0 suicdio. Na realidade, tinha feito uns planos bem elaborados com a mulher para o fim de semana. 
A mulher  Kelly, a modelo.
PASCAL: - Lamento muito, senhores, mas no percebo em que  que... Porque foi que me chamaram aqui?
MARAIS: - Para nos ajudar a esclarecer uns pontos. Nessa noite, a que horas fechou o restaurante?
PASCAL: - As dez. Por causa da tempestade, o Jules Verne estava Vazio, por isso optei por...
MARAIS: - E a que horas fecharam os elevadores?
 PASCAL: - Normalmente funcionam at  meia-noite, mas, na noite em questo, visto no haver visitantes nem comensais, fechei-os tambm s dez.
BELMONDO: - Incluindo o elevador que d para o andar panormico?
PASCAL: - Sim. Fechei-os todos.
MARAIS: - E, por acaso, possvel algum chegar ao andar panormico sem ser usando os elevadores?
PASCAL: - No. Na noite em questo estava tudo fechado. No percebo o que  que tudo isto tem a ver com o caso. Se...
BELMONDO: - Eu j lhe explico. O senhor Harris foi empurrado do andar panormico. Sabemos que foi dessa plataforma porque, quando examinamos o parapeito, verificamos 
que estava arranhado, e o cimento embebido nas solas dos sapatos dele correspondia perfeitamente ao cimento do parapeito. Se o piso estava encerrado e se os elevadores 
no estavam a funcionar, como foi que ele chegou l acima  meia-noite?
PASCAL: - No fao idia. Sem o elevador seria... seria impossvel.
MARAIS: - Mas um elevador foi usado para levar o senhor Harris at ao andar panormico e para transportar o seu assassino, ou nos, e traz-los de volta para baixo.
BELMONDO: - H alguma hiptese de um estranho ter posto elevadores em funcionamento?
PASCAL: - No. Os operadores nunca os abandonam quando esto em funcionamento e  noite os elevadores so fechados uma chave especial.
MARAIS: - E quantas chaves dessas existem?
PASCAL: - Trs. Eu tenho uma e as outras duas so guardadas aqui.
BELMONDO. - Tem a certeza de que o ltimo elevador foi fechado s dez horas?
PASCAL: - Sim.
MARAIS: - Quem  que estava encarregado dele?
PASCAL: - Toth. Grard Toth.
MARAIS: - Gostaria de falar com ele.
PASCAL: - Tambm eu.
MARAIS: - Como disse?
PASCAL: - Toth no aparece no trabalho desde ontem  noite. Telefonei para o apartamento dele. No obtive resposta. Consegui apanhar o senhorio. Toth mudou-se.
 MARAIS: - E foi-se embora sem deixar a nova mocada?
PASCAL: - Exactamente. Desvaneceu-se no ar.
- "Desvaneceu-se no ar?" Estamos a falar do grande Houdini ou de um triste operador de elevador?
     Quem assim falava era o secretrio geral Claude Renaud, chefe do quartel-general da Interpol. Renaud era um homem baixo, dinmico, com perto de cinqenta anos, 
que subira  custa do seu trabalho na hierarquia da polcia ao longo de vinte anos.
     Renaud presidia a uma reunio na principal sala de conferncias no edifcio de sete andares da Interpol, a organizao policial internacional que coordena toda 
a informao que  posteriormente distribuda para 126 foras policiais em 78 pases. O edifcio situava-se em St. Cloud, seis milhas a oeste de Paris, e o quartel-general 
era dirigido por antigos detectives da Sret Nationale e da Prfecture de Paris.
     Havia doze homens sentados  comprida mesa de conferncias. H uma hora que faziam perguntas ao detective Belmondo.
     O secretrio geral disse em voz alta:
     -        Est a dizer que nem o senhor nem o detective Maurais conseguiram obter qualquer informao sobre como um homem foi assassinado numa zona onde, em 
primeiro lugar, lhe era impossvel estar, e de onde era impossvel que os seus assassinos escapassem?
     Est correcto?
     -        Eu e Maurais falmos com toda a gente que...
     -        No interessa. Pode sair.
     - Sim, senhor.
     O secretrio geral virou-se para o grupo:
     -        Durante as vossas investigaes alguma vez algum de vocs deparou com o nome Prima?
     Eles ficaram pensativos por segundos e abanaram a cabea.
     -        No. Quem  Prima?
     -        No sabemos. Era o nome que estava escrito numa nota que Se encontrava no bolso do casaco de um homem que apareceu morto em Nova Iorque. Pensamos que 
existe uma ligao - e suspirou. - Meus senhores, temos uma charada, envolta num mistrio, dentro toda; e um enigma. Nos quinze anos que estive nesta funo, investigmos 
assassinatos em srie, gangs internacionais, mutilaes, parricdio e espcie imaginvel de crimes. - Fez uma pausa. - Mas, durante todos estes anos, jamais deparei 
com uma situao como essa. Vou mandar uma informao para o gabinete de Nova Iorque.
     Frank Bigley, chefe dos detectives de Manhattan, lia o dossi que o secretrio geral Renaud enviara quando Earl Greenburg e Robert Praegitzer entraram no seu 
gabinete.
     - Chefe, chamou-nos?
     -        Sim. Sentem-se.
     E ambos se sentaram. O chefe Bigley levantou o papel:
     -        Isto  uma informao que a Interpol mandou esta manh.
     - E comeou a ler:
     - "H seis anos, um cientista japons de nome Akira iso, suicidou-se, enforcando-se no seu quarto de hotel em Tquio. O senhor Isso estava de perfeita sade, 
acabara de ser promovido e consta que andava muito bem disposto."
     -        No Japo? Mas o que  que isso tem a ver com...
     -        Deixem-me continuar. "H trs anos, Madeleine Smith, uma cientista sua de trinta e trs anos, abriu o boto do gs no seu apartamento em Zurique 
e suicidou-se. Estava grvida e prestes a casar com o pai do beb. Os amigos disseram que nunca a tinham visto to feliz." - E olhou para os dois detectives. - "Nos 
ltimos trs dias: uma berlinense de nome Sonja Verbrugge afogou-se em casa na banheira. Nessa mesma noite, Mark Harris, um americano, mergulhou da plataforma de 
observao da torre Eiffel. No dia seguinte, um canadiano, de nome Gary Reynolds, esmagou o seu Cessna contra uma montanha perto de Denver."
     Greenburg e Praegitzer ouviam, cada vez mais intrigados.
     -        E ontem, vocs os dois encontraram o corpo de Richan vens na margem do rio East.
     Earl Greenburg olhava para ele, perplexo.
     -        Mas o que  que esses casos tm a ver connosco?
     O chefe Bigley respondeu com a maior calma:
     -        So todos o mesmo caso.
     Greenburg olhava para ele.
     -        O qu? Deixe l ver se percebi bem. Um japons h seis anos, uma sua h trs e, nos ltimos dias, uma alem, um canadiano e dois americanos - e ficou 
calado por momentos. - Qual  a ligao entre estes casos?
     O chefe Bigley deu a Greenburg a informao da Interpol. A medida que ele a lia, os seus olhos iam-se abrindo de pasmo. Olhou para cima e comentou devagar:
     .- A Interpol pensa que um think tank 1, o Kingsley Internacional Group, est por detrs destes assassnios. Mas isso  completamente absurdo.
     -        Chefe, ns estamos a falar do maior think tank do mundo - comentou Praegitzer.
     -        Todas essas pessoas foram assassinadas, e cada uma delas estava ligada ao KIG. A companhia que pertence e que  dirigida por Tanner Kingsley. Ele  
o presidente e o director executivo do Kingsley Internacional Group, presidente da Comisso Presidencial para a Cincia, director do Instituto Nacional para o Planejamento 
Avanado e faz parte da Comisso para a Poltica de Defesa do Pentgono.
     Acho que vocs os dois deviam ter uma conversa com o senhor Kingsley.
     Earl Greenburg engoliu em seco.
     -        Certo.
     -        E, Earl...
     -        Sim?
     -        Trata disto com calma e no levantes problemas.
     Cinco minutos mais tarde, Earl Greenburg falava com a secretria de Tanner Kingsley. Quando terminou, virou-se para Praegitzer:
     - Reunio marcada para tera-feira s dez da manh. Neste momento, parece que o senhor Kingsley est a participar numa reunio do congresso, em Washington.
     Na audio perante a Comisso Especial do Senado para o Ambiente em Washington DC, um juri composto por seis membros do Senado e trs dzias de espectadores 
e reprteres ouvia com toda a ateno o testemunho de Tanner Kingsley.
     Tanner Kingsley andava pelos quarenta anos, era alto e bem parecido, com olhos de tom azul ao que brilhavam de inteligncia. Tinha um nariz romano, um queixo 
forte e um perfil digno de aparecer cunhado numa moeda.
     A presidente da comisso, a senadora snior Pauline Mary van Luven, era uma figura majestosa, com uma autoconfiana quase agressiva. Ela olhou para Tanner e 
disse secamente:
       
     -        Pode comear, senhor Kingsley.
     Tanner anuiu.
     -        Muito obrigado, senadora - respondeu, virando-se para os outros membros da comisso, e, quando comeou a falar, a sua voz parecia carregada de paixo. 
- Enquanto alguns polticos no governo continuam com evasivas no que toca s conseqncias do aquecimento global e do efeito de estufa, o buraco na camada de ozono 
cresce rapidamente. Por isso, metade do mundo sofre secas e a outra metade inundaes. No mar de Ross, um icebergue do tamanho da Jamaica desfez-se devido ao aquecimento 
global. O buraco no ozono sobre o Plo Sul atingiu o tamanho recorde de vinte e seis milhes de quilmetros quadrados. - Fez uma pausa para permitir que as palavras 
fossem percebidas e repetiu suavemente: - Vinte e seis milhes de quilmetros quadrados.
     "Estamos a testemunhar um nmero recorde de furaces, de ciclones, de tufes e de tempestades, que assolam partes da Europa. Devido s alteraes radicais das 
condies meteorolgicas, milhes de pessoas, em pases por todo o mundo, sofrem de fome e encontram-se  beira da extino. Mas estas so apenas palavras: "fome" 
e "extino". Parem de pensar nelas como simples palavras. Pensem no seu significado, homens, mulheres e crianas esfomeados e sem casa e perto da morte.
     "No ltimo vero, mais de vinte mil pessoas morreram como conseqncia de uma vaga de calor que assolou a Europa. - A voz dele subia de volume. - E o que foi 
que fizemos? O nosso governo recusou ratificar o acordo de Kyoto na conferncia sobre o ambiente global. A mensagem  que nos estamos completamente nas tintas para 
o que acontece no resto do mundo. Vamos continuar a fazer aquilo que nos d jeito. E somos to obtusos, to pretensiosos, que no somos capazes de ver o que estamos 
a fazer... A senadora van Luven interrompeu-o:
     -        Senhor Kingsley, isto no  um debate. Peo-lhe que use uni tom mais moderado.
     Tanner respirou fundo e concordou. Numa voz menos apaixonada, prosseguiu:
     -        Como todos sabemos, o efeito de estufa deve-se  queima de combustveis fossilizados e a outros factores com isso relacionados que dependem de ns, 
e, no entanto, essas emisses atingiram o ponto mais alto em meio milho de anos. Esto a poluir o ar que os nossos filhos e os nossos netos respiram. Esta poluio 
pode ser parada.
     - Porque no  parada? Porque isso iria custar muito dinheiro s empresas. - A sua voz subiu mais uma vez de tom. - Dinheiro! Quanto custa um pouco de ar fresco, 
comparado com a vida de um ser humano? Quatro litros e meio de gs? Nove litros? - A voz dele estava cada vez mais empolgada. - Tanto quanto sabemos, esta Terra 
 o nico planeta que podemos habitar, e, no entanto, estamos a envenenar a terra e os oceanos e o ar que respiramos, a toda a velocidade. Se no pararmos...
     A senadora van Luven interrompeu-o mais uma vez:
     -        Senhor Kingsley...
     -        Peo desculpa, senadora. Estou zangado. No sou capaz de assistir  destruio do nosso universo sem protestar.
     Kingsley falou ainda por mais trinta minutos. Quando terminou, a senadora van Luven disse:
     -        Senhor Kingsley, gostaria de falar consigo no meu gabinete.
     Esta reunio est adiada.
     O gabinete da senadora van Luven fora inicialmente mobilado no tpico gnero burocrtico, uma secretria, uma mesa, seis cadeiras e vrias filas de ficheiros, 
mas a senadora acrescentara o seu toque feminino com tecidos coloridos, quadros e fotografias.
     Quando Tanner entrou, havia mais duas pessoas no gabinete, alm da senadora van Luven.
     -        Estas so as minhas assistentes, Corinne Murphy e Karolee Trost.
     Corinne Murphy, uma atraente jovem ruiva, e Karolee Trost, uma loura baixinha, ambas na casa dos vinte anos, sentavam-se perto da senadora. Era bvio que estavam 
fascinadas com Tanner.
     -        Sente-se, senhor Kingsley - disse a senadora van Luven.
     Tanner sentou-se. A senadora estudou-o por momentos.
     -        Francamente, no o percebo.
     -        Oh! No me diga! Isso espanta-me, senadora. Pensei que estava a ser bem claro. Penso que...
     -        Eu sei o que pensa. Mas a sua companhia, o Kingsley Internacional Group, tem contratos para muitos projectos com o nosso governo, e no entanto desafia 
o governo quanto s questes ambientais.
     - Acha que pode ser mau para o negcio?
     -        Aqui no se trata de negcios, senadora van Luven. Trata-se Humanidade. Estamos a assistir ao incio de uma desastrosa desestabilizao global. Eu 
estou a tentar fazer com que o Senado atribua fundos para o corrigir - respondeu friamente Tanner.
     - Alguns desses fundos podero ir parar  sua companhia, no  verdade? - comentou cepticamente a senadora.
     -        No estou minimamente interessado em saber quem recebe o dinheiro. Quero  que se tomem medidas antes que seja demasiado tarde.
     Corinne Murphy interrompeu, acalorada:
     -        Mas isso  admirvel. O senhor  uma pessoa muito pouco vulgar.
     -        Menina Murphy, se com isso pretende dizer que a maioria das pessoas parece acreditar que o dinheiro  mais importante do que a moral, ento lamento 
ter de lhe dizer que provavelmente tem razo - comentou Tanner, virando-se para ela.
     -        Pois eu acho que aquilo que o senhor quer fazer  maravilhoso - expressou Karolee Trost.
     A senadora van Luven lanou a cada uma das suas assistentes um olhar de desaprovao, e em seguida virou-se para Tanner:
     -        No lhe posso prometer nada, mas vou falar com os meus colegas e saber qual o ponto de vista deles sobre as questes ambientais Eu depois entro em 
contacto consigo.
     -        Muito obrigado, senadora. Fico muito grato. - E, hesitando - talvez, quando um dia for a Manhattan, eu a possa levar a ver o KIG e mostrar-lhe como 
trabalhamos. Penso que iria achar interessante.
     A senadora van Luven acenou com ar indiferente.
     -        Depois entro em contacto consigo.
     A reunio terminara.
     

CAPTULO 12
     
     Assim que as pessoas tiveram conhecimento da morte de Mark, Kelly Harris comeou a ser inundada com telefonemas, ramos de flores e e-mails. A primeira chamada 
veio de Sam Meadows, um colega de trabalho e amigo ntimo de Mark.
             Kelly! Meu Deus! No acredito! Eu... Eu nem sei o que dizer.
     Sinto-me terrvel. Cada vez que me viro estou sempre  espera de ver o Mark. Kelly... H alguma coisa que possa fazer por ti?
     -        No, Sam. Muito obrigada.
     -        Vamo-nos manter em contacto, sim? Eu quero ajudar naquilo que for possvel...
     Depois deste telefonema, houve dzias de outros, vindo dos amigos de Mark e dos modelos com quem ela trabalhava.
     Bill Lerner, o chefe da agncia de modelos, telefonou. Apresentou os sentimentos e em seguida disse:
     -        Kelly, eu sei que este no  o momento certo, mas penso que voltar ao trabalho pode vir a ser muito bom para ti. O nosso telefone no tem parado de 
tocar. Quando  que achas que vais estar outra vez disponvel?
     -        Quando Mark voltar para mim - e desligou o telefone.
     E agora tocava de novo. Por fim, Kelly decidiu-se a atender.
     -        Sim?
     -        Senhora Harris?
     Continuava a ser a senhora Harris? J no havia nenhum senhor Harris, roas ela seria para sempre a mulher de Mark. Respondeu com firmeza:
     -        Sim, daqui fala a senhora Mark Harris.
     -        Estou a ligar do gabinete do senhor Tanner Kingsley. O homem para quem Mark trabalha... trabalhava.
     -        Sim?
     -        O senhor Kingsley gostaria que viesse a Manhattan falar com ele.
     Gostaria de ter uma reunio nos escritrios da empresa. Est disponvel?
     Kelly estava disponvel. Dissera  agncia que lhe cancelasse todas as marcaes. Mas estava espantada. Porque  que Tanner Kingsley quer falar comigo?
     -        Sim!
     -        Seria conveniente para si sair de Paris na sexta-feira?
     Nunca mais nada seria conveniente para ela.
     -        Sexta-feira. Tudo bem.
     -        Muito bem. H um bilhete da United Airlines  sua espera no aeroporto Charles de Gaulle. - E deu-lhe o nmero do vo. - Em Nova Iorque estar um carro 
 sua espera.
     - Demasiado tarde. Eu j o fiz.
             Quando est a pensar sair?
             Na sexta-feira.
             Muito bem. Vou tratar de tudo. J lhe disse que a minha filha entrou para a Sorbonne?
             No. Mas isso  maravilhoso. Deve estar muito orgulhoso.
             Pois estou. Comea daqui a duas semanas. Estamos todos muito excitados.  um sonho que se tornou realidade.
      Mark falara-lhe vrias vezes sobre Tanner Kingsley. Mark conhecera-o e considerava que ele era um gnio e um homem maravilhoso com quem trabalhar. Talvez ele 
queira partilhar comigo alguma recordao de Mark. O pensamento alegrou-a.
     Angel apareceu a correr e saltou-lhe para o colo. Kelly abraou-a.
     E agora, o que  que eu vou fazer contigo enquanto estiver fora ? A mam levava-te, mas  s por alguns dias.
     De repente, Kelly lembrou-se de quem lhe iria tomar conta do co.
     Desceu as escadas at ao gabinete do porteiro. Havia trabalhadores a instalar o novo elevador e Kelly estremecia de cada vez que passava por eles.
     O superintendente do prdio, Philippe Cendre, era um homem alto e atraente, com uma personalidade acolhedora, e a mulher e a filha sempre tinham sido extremamente 
prestveis. Ao saberem de Mark, tinham ficado arrasados. O funeral fora no cemitrio Pre-La-chaise e Kelly convidara a famlia Cendre a assistir.
     Aproximou-se da porta do apartamento de Philippe e bateu. Assim que ele abriu a porta, Kelly disse:
     -        Tenho um favor para lhe pedir.
     -        Entre. Tudo o que precisar, senhora Harris.
     -        Tenho que ir a Nova Iorque por trs ou quatro dias. Ser que se importavam de tomar conta da Angel enquanto eu estiver fora?
     -        Importar? Eu e a Ana Maria vamos adorar.
     -        Muito obrigada. Fico muito grata.
     -        E garanto-lhe que tudo faremos para a mimar.
     Kelly sorriu.
      Sexta-feira de manh, Kelly levou Angel l abaixo, ao apartamento de Philippe Cendre.
     Deu ao porteiro uma srie de sacos de papel.
     -        Estes tm a comida preferida da Angel e aqui esto alguns brinquedos para ela brincar...
     Philippe afastou-se para o lado e atrs dele Kelly viu uma pilha de brinquedos para co no meio do cho. Desatou a rir.
     -        Angel, ests em excelentes mos. - E deu  cadelinha um ltimo abrao. - Adeus, Angel. E muito obrigada, Philippe.
     Na manh em que Kelly ia partir, Nicole Paradis, a recepcionista do elegante edifcio de apartamentos, estava de p  porta para se despedir. Uma exuberante 
mulher de cabelo grisalho, era to baixinha que, quando se sentava atrs da secretria, s se via o cocuruto da cabea. Sorriu para Kelly e disse:
     -        Madame, vamos sentir a sua falta. Por favor, volte depressa.
     Kelly tomou-lhe as mos.
     -        Muito obrigada. Eu volto em breve, Nicole. - E, minutos mais tarde, estava a caminho do aeroporto.
     O aeroporto Charles de Gaulle estava inacreditavelmente apinhado de gente, como era costume, alis. Era um labirinto imenso de balces, lojas, restaurantes, 
escadas e gigantescas escadas rolantes que subiam e desciam, quais monstros pr-histricos.
     Quando Kelly chegou, o director do aeroporto acompanhou-a at Urna sala de embarque privada. Quarenta e cinco minutos mais tarde o seu vo foi anunciado. Enquanto 
Kelly se encaminhava para a porta de embarque, uma mulher que estava parada ali perto observava-a atravs da porta. Assim que Kelly desapareceu de vista, a mulher 
pegou num celular e fez uma chamada.
     Kelly estava sentada no seu lugar no avio, s pensando em Mark e alheada do facto de que a maior parte dos homens e das mulheres dentro da cabina a olhavam 
embasbacados. Mas o que  que Mark estaria afazer na plataforma de observao da torre Eiffel  meia-noite? Com quem  que ele se iria encontrar? E porqu? E, o 
pior de tudo, porque  que Mark se suicidou? Ns ramos to felizes. Amvamo-nos tanto. No acredito que ele se tenha suicidado. No o Mark... No o Mark... No 
o Mark. E fechou os olhos e deixou os pensamentos flurem.
     Era o primeiro encontro. Vestira para essa noite uma saia preta formal e uma blusa de gola alta branca, para que ele no ficasse com a idia de que ela o estava, 
de alguma maneira, a tentar. Aquela ia ser uma noite normal e simptica. Kelly percebeu que estava nervosa. Devido  coisa horrvel que lhe acontecera em criana, 
Kelly nunca tivera contacto com nenhum homem a no ser por questes , de trabalho ou nos acontecimentos de caridade obrigatrios.
     Isto no  propriamente um encontro amoroso, ia Kelly dizendo para si prpria. Ns vamos ser s amigos. Ele pode passear comigo pela cidade sem haver qualquer 
implicao romntica. Enquanto assim pensava, a campainha da porta tocou.
     Kelly respirou fundo e foi abrir. Ali estava Mark, de p, a sorrir, com uma caixa e um saco de papel na mo. Vestia um fato cinzento que lhe assentava mal, 
uma camisa verde, uma gravata de um tom vermelho-vivo e sapatos castanhos. Kelly quase riu alto. O facto de que Mark no tinha qualquer noo de estilo era, de uma 
certa forma, engraado. Conhecera demasiados homens cujos egos s se preocupavam com a prpria elegncia.
     -        Entre - convidou Kelly.
     -        Espero no estar atrasado.
     -        No, no. De forma nenhuma. - Estava vinte e cinco minutos adiantado.
     -         para si - disse Mark, dando-lhe a caixa.
     Era uma caixa com cerca de dois quilos de chocolates. Ao longo dos anos, Kelly vira serem-lhe oferecidos diamantes, peles e Penthouses, mas jamais algum lhe 
dera chocolates. Exactamente aquilo que todas as modelos precisam, pensou, divertida.
     Muito obrigada. - E Kelly sorriu.
     E isto so guloseimas para a Angel - acrescentou Mark estendendo-lhe o outro saco.
     Como se tivesse ouvido a sua deixa, Angel entrou na sala aos saltos e correu para Mark, a cauda a abanar.
     Mark pegou nela e fez-lhe festas. - Ela lembra-se de mim.
     - Tenho mesmo que lhe agradecer ter-ma dado - disse Kelly. - Ela  uma companhia maravilhosa. Nunca tinha tido nenhum co antes.
     Mark olhou para Kelly e os seus olhos diziam tudo.
     A noite correu extraordinariamente bem. Mark era uma companhia excelente e Kelly estava comovida, pois era bvio que ele estava encantado por estar na sua companhia. 
Inteligente, era fcil conversar com ele e o tempo passou bastante mais depressa do que Kelly pensara.
      No fim da noite, Mark disse:
      -         Gostava muito de repetir uma noite como esta.
     -        Sim. Eu tambm.
     -        Kelly, o que  que lhe d mais prazer fazer?
     -        Gosto muito de futebol. Tambm gosta?
     Um vazio passou pela expresso dele.
     -        Oh... sim... claro... Gosto muito.
     Como ele mente mal, pensou Kelly. Assaltou-a uma repentina vontade de lhe pregar uma partida.
     - Vai haver um jogo para o campeonato no sbado  noite. Quer vir?
     -        Claro. Boa idia! - respondeu Mark sem grande vontade enquanto engolia em seco.
     Quando a noite chegou ao fim e estavam de volta ao prdio de Kelly, esta deu por si a ficar muito tensa. Aquele era o momento em que costumava ouvir:
     E que tal um beijo de boas noites?...
     E se eu entrasse e bebssemos mais um copo antes da noite terminar?...
     No vai querer passar a noite sozinha, pois no?...
     Quando chegaram  porta de Kelly, Mark olhou para ela e disse:
     -        Sabe qual foi a primeira coisa que reparei em si, Kelly?
     Kelly susteve a respirao. Aqui vem...
     O seu rabo  magnfico...
     Adoro os seus seios...
     Adorava sentir as suas pernas em redor do meu pescoo...
     - No - respondeu glida. - O que foi?
     -        A dor nos seus olhos.
     E antes de ela ter tempo para lhe responder, Mark disse:
     -        Boa noite.
     E Kelly ficou a v-lo partir.
     
CAPTULO 13
     
     Quando Mark voltou no sbado  noite, trazia outra caixa de doces e um grande saco de papel.
     -        Estes doces so para si. Os outros so para a Angel.
     Kelly pegou nos sacos.
     -        Muito obrigada, e a Angel tambm agradece.
     Ficou a ver Mark a fazer festas  Angel e perguntou inocentemente:
     -        Ento, ansioso por ir ver o jogo?
     Mark acenou com a cabea e disse entusiasmado:
     -        Oh, sim!
     Kelly sorriu.
     -        Excelente. Eu tambm.
     Sabia que ele nunca antes pusera os ps num jogo de futebol.
     O estdio do Paris Saint-Germain estava cheio  cunha, com sessenta mil ansiosos fs que aguardavam que o jogo para o campeonato entre o Lyon e o Marselha comeasse.
     Enquanto Kelly e Mark eram encaminhados at aos seus lugares, exactamente por cima do meio campo, Kelly comentou:
     -        Estou impressionada. Estes lugares so muito difceis de arranjar.
     -        Quando se gosta de futebol tanto como eu, nada  impossvel - respondeu Mark a sorrir.
     Kelly mordeu o lbio para evitar rir s gargalhadas. Mal podia esperar que o jogo comeasse.        :         .
      s catorze horas em ponto, ambas as equipas entraram em campo, mantendo-se perfiladas enquanto a orquestra tocava a Marselhesa, O hino nacional de Frana. 
Enquanto os jogadores do Lyon e do Marselha, alinhados, se viravam para os camarotes para serem apresentados, um jogador do Lyon deu um passo em frente, vestindo 
o logotipo da equipa com as cores azul e branco.
      Kelly decidiu ceder e explicar a Mark o que se estava a passar:
     -        Aquele  o guarda-redes - explicou Kelly, inclinando-se para Mark. - Ele...
     -        Eu sei. Chama-se Grgory Coupet.  o melhor guarda-redes da liga. Ganhou o campeonato contra o Bordus, em Abril do ano passado. Ganhou a Taa UEFA 
e a liga dos Campees no ano anterior.
     Tem trinta anos, mede um metro e oitenta e pesa noventa quilos.
     Kelly olhava para Mark, espantadssima. O locutor continuava a anunciar:
     -        Avanado, Sidney Gouvon...
     -        Nmero catorze - comentava, entusiasmado, Mark. - Ele  incrvel. Na semana passada, contra o Auxerre, marcou um gol no ltimo minuto do jogo.
     Kelly ouvia-o, maravilhada, enquanto Mark, de forma conhecedora, ia tecendo comentrios sobre os outros jogadores. O jogo comeou e a multido enlouqueceu.
     -        Olhe. Ele comeou com um pontap de bicicleta - exclamou Mark.
     Foi um jogo frentico, excitante, e os guarda-redes de ambas as equipas trabalhavam bastante para conseguir evitar que os adversrios marcassem. Kelly estava 
com problemas em se concentrar. No parava de olhar para Mark, maravilhada com os seus conhecimentos. Como pude enganar-me desta maneira ?
     No meio de uma jogada Mark exclamou:
     -        Gouvon vai tentar o chapu! E conseguiu!
     E alguns minutos mais tarde:
     -        Olhe! Carrire vai levar um carto por tocar na bola com as mos.
     E estava certo. - Lyon ganhou e Mark estava eufrico. - Mas que grande equipa!        
     Quando saam do estdio, Kelly perguntou:
     -        Mark, h quanto tempo  que se interessa por futebol?
     -        H trs dias. Andei a pesquisar no meu computador. Como estava to interessada, achei melhor aprender - respondeu a olhar para Kelly com ar envergonhado.
     Kelly estava extremamente comovida. Era inacreditvel que ele tivesse passado tanto tempo e tivesse feito um esforo to grande s porque ela gostava de futebol.
     Tinham marcado um encontro para o dia seguinte, depois de Kelly terminar um trabalho que tinha nesse dia.
     - Posso ir busc-la ao seu camarim e...
     - No! - Ela no queria que ele encontrasse as outras modelos.
     Mark olhava intrigado para ela.
     Quero dizer... H uma regra que no permite que os homens entrem nos camarins. (Oh! Eu no quero que se apaixone...
     "Minha senhoras e meus senhores, por favor apertem os cintos de segurana, endireitem as costas das cadeiras e fechem e tranquem as mesas. Estamo-nos a aproximar 
do aeroporto de Kennedy e aterraremos dentro de minutos."
     Kelly foi bruscamente chamada ao presente. Estava em Nova Iorque para se encontrar com Tanner Kingsley, o homem para quem Mark trabalhara.
     Algum informara os media. Quando o avio aterrou, estavam todos  espera de Kelly, que foi imediatamente cercada por jornalistas com cmaras de televiso e 
microfones.
     -        Kelly, importa-se de olhar para este lado?
     -        Pode dizer-nos o que pensa que aconteceu ao seu marido?
     -        Vai haver uma investigao policial?
     -        Voc e o seu marido estavam a pensar divorciar-se?
     -        Agora vai regressar aos Estados Unidos?
     - Como se sentiu quando soube o que aconteceu?
     A pergunta mais insensvel de todas.
     Kelly viu ao fundo um homem com um rosto agradvel, de aspecto atento. Ele sorriu e acenou-lhe e ela fez-lhe sinal para que ele se aproximasse.
     Ben Roberts era um dos mais populares e conceituados entrevistadores da televiso estatal. J antes entrevistara Kelly e tinham ficado amigos. Ela ficou a olhar 
enquanto ele abria caminho atravs da multido de jornalistas. Todos o conheciam.
     - Ei, Ben! A Kelly vai aparecer no teu programa?
     - Achas que ela vai falar do que aconteceu?
     - Posso ter uma foto com os dois?
     Nesta altura j Ben chegara junto dela. O aglomerado de jornalistas empurrava-os. Ben exclamou alto:
     - Vamos deix-la um pouco em paz, senhores e senhoras. Podero falar com ela mais tarde.
     Relutantemente, afastaram-se um pouco. Ben pegou-lhe na mo e disse:
     -        No tenho palavras para expressar como lamento. Gostava muito de Mark.
     -        Era mtuo, Ben.
     Enquanto se afastavam na direco da zona de recolha de bagagens, ele perguntou:
     -        A nvel particular, o que  que fazes em Nova Iorque?
     -        Estou aqui para ver Tanner Kingsley.
     Ben acenou com a cabea.
     -        Um homem poderoso. Tenho a certeza de que tomar bem conta de ti.
     Tinham chegado ao balco das bagagens.
     -        Kelly, se houver alguma coisa que eu possa fazer por ti, podes sempre apanhar-me na estao de televiso. - E olhou em volta. - Vm-te buscar? Se no, 
eu...
     Nesse momento, um motorista uniformizado aproximou-se de Kelly:
     -        Senhora Harris? O meu nome  Colin. O carro est l fora. O senhor Kingsley reservou-lhe uma suite no Hotel Metropolitan. Se me der os tales, eu trato 
da sua bagagem.
     Kelly virou-se para Ben:
     -        Telefonas-me?
     -        Claro que sim.
     
CAPTULO 14
     
      Tanner Kingsley lia a notcia de manchete do jornal da tarde: "Saraivada abate-se sobre o Iro." O resto da notcia continuava chamando-lhe "Um acontecimento 
anormal." A idia de uma saraivada a ter lugar em pleno vero num clima quente era bizarra. Tanner chamou a secretria. Assim que ela entrou, disse-lhe:
     -        Kathy, corte este artigo e envie-o  senadora van Luven, com uma nota "ltimas sobre o aquecimento global. Cumprimentos, etc..."
     -        Com certeza, senhor Kingsley.
     Tanner Kingsley olhou para o relgio. Os dois detectives deviam chegar ao KIG dentro de meia hora. Olhou em redor do seu extravagante escritrio. Fora ele que 
criara tudo aquilo. O KIG. Pensou no poder por detrs daquelas simples iniciais e como as pessoas ficariam espantadas se conhecessem a histria do seu humilde comeo, 
uns meros sete anos atrs. As lembranas do passado invadiram-no...
     Lembrava-se do dia em que concebera o novo logotipo do KIG. Luxuoso, para uma empresa que nada vale, fora o comentrio de algum e Tanner transformara sozinho 
a empresa que nada valia numa potncia mundial. Sempre que se lembrava dos primeiros tempos, sentia-se como algum que acaba de fazer um milagre.
      Dez minutos depois, Kelly estava a caminho do hotel. Enquanto se esgueiravam por entre o trfego, Colin disse:
     -        A secretria do senhor Kingsley vai telefonar-lhe para marcar uma reunio. O carro estar  sua disposio para o que pretender.
     -        Muito obrigada.
     O que estou eu afazer aqui?, interrogou-se Kelly. Estava prestes a conhecer a resposta.
      Tanner Kingsley nascera cinco anos depois do seu irmo, Andrew, e isso moldara para sempre o seu rumo na vida. Depois do divrcio dos pais, a me voltara a 
casar e mudara-se. O pai era cientista e os rapazes tinham seguido as suas pisadas e crescido para se transformarem em verdadeiros prodgios da cincia. O pai morrera 
de um ataque cardaco aos quarenta anos.
     O facto de Tanner ter menos cinco anos do que o irmo fora sempre uma frustrao constante. Quando Tanner ganhou o primeiro Prmio da sua classe de cincia 
disseram- lhe: "Andrew foi o nmero Um da sua classe h cinco anos. Deve ser coisa de famlia."
     Quando ganhou um concurso de retrica, o professo comentou: "Parabns Tanner. s o segundo Kingsley a obter este prmio."
     Quando se juntou  equipa de tnis: "Espero que sejas to bom como o teu irmo Andrew."
     Quando se formou: "O teu discurso de fim de curso foi inspirador. Lembrou-me muito o de Andrew."
     Cresceu na sombra do irmo e era vexatrio saber que era sempre considerado o segundo melhor, simplesmente porque Andrew fora o primeiro a l chegar.
     Havia muitas parecenas entre os dois irmos, eram ambos bem parecidos, inteligentes e talentosos, mas,  medida que iam envelhecendo, foram surgindo diferenas 
importantes. Enquanto Andrew era altrusta e propositadamente apagado, Tanner era extrovertido, gregrio e ambicioso. Andrew era tmido com as mulheres, enquanto 
que a aparncia de Tanner e o seu encanto as atraa como um man.
     Mas a principal diferena entre os dois irmos residia nos seus objectivos na vida. Enquanto Andrew se preocupava fundamentalmente em organizar actos de caridade 
e prestar auxlio aos outros, a ambio de Tanner era tornar-se rico e poderoso.
     Andrew formara-se summa cum laude e aceitara imediatamente uma oferta para trabalhar com um thirik tank. A percebera a significativa contribuio que uma organizao 
como aquela poderia ter e, cinco anos mais tarde, decidira formar o seu prprio think tank, numa escala mais modesta.
     Quando falou com Tanner sobre a sua idia, este ficou excitado.
     -        Mas isso  uma idia brilhante! Os think tanks recebem contratos do governo que valem milhes de dlares, isso j para no falarmos das empresas que 
contratam...
     Andrew interrompeu-o:
     -        Tanner, no  nada disso que eu pretendo. O que quero  ajudar as pessoas.
     Tanner ficou a olhar para ele.
     -        Ajudar as pessoas?
     -        Exactamente. H dzias de pases do Terceiro Mundo que no tm acesso aos modernos mtodos de agricultura e de indstria. H um ditado que diz que 
se deres um peixe a um homem, ele ter uma refeio, mas, se o ensinares a pescar, ele pode comer para o resto da sua vida.
     Isso  mais velho do que a arca de No, pensou Tanner.
     - Andrew, esses pases no tm capacidade econmica para nos pagar...
     - No interessa. Vamos mandar peritos para os pases do Terceiro Mundo e ensinar-lhes as tcnicas que mudaro para sempre as suas vidas. E quero que sejas meu 
scio. A empresa chamar-se- Kingsley Group. O que  que achas?
     Tanner ficou por momentos pensativo e depois concordou:
             Realmente, no  uma m idia. Podemos comear por esse tipo de pases de que falaste e depois partir em busca do dinheiro, dos contratos governamentais...
             Tanner, concentremo-nos simplesmente em fazer do mundo um lugar melhor.
     Tanner sorriu. Teria de haver cedncias. Comeariam da forma que Andrew pretendia e em seguida, gradualmente, construiriam a empresa levando-a ao seu verdadeiro 
potencial.        .
     -        E ento?
     Tanner estendeu a mo.
     -        Ao futuro, scio.
     Seis meses mais tarde, os dois irmos estavam parados  chuva do lado de fora de um pequeno edifcio em tijolo com uma discreta placa que dizia KINGSLEY GROUP.
     -        Que tal te parece? - perguntou Andrew, orgulhoso.
     -        Maravilhoso. - Tanner conseguiu disfarar a ironia na voz.
     -        Este nome vai trazer felicidade a muitas pessoas por todo o mundo, Tanner. J comecei a contratar alguns peritos para irem para os pases do terceiro 
Mundo.
     Tanner ia comear a reclamar, mas susteve-se. No devia apressar o irmo. Ele era muito teimoso. Mas o momento chegaria. Tanner olhou para placa uma vez mais 
e pensou: Um dia esta placa dir KIG, Kingsley Internacional Group.
     John Higholt, um amigo de faculdade de Andrew, investira cem mil dlares para ajudar a dar incio ao think tank, e Andrew angariara o restante.
     Contrataram meia dzia de pessoas e enviaram-nas para Mom-a, Somlia e o Sudo, para ensinarem aos nativos como melhorar as suas vidas. Mas no entrava dinheiro 
nenhum.
     Nada disto fazia sentido para Tanner. 
     - Andrew, se quisermos, conseguimos contratos de algumas da. mais importantes empresas e...
     - Mas no  nada disso que ns fazemos, Tanner.
     - Mas que raio  que ns fazemos?, interrogava-se Tanner.
     -        A Chrysler anda  procura de...
     E Andrew sorrira e respondera:        
     - No  essa a nossa funo.
     Tanner precisou de toda a sua fora de vontade para se controlar.
     Cada um tinha o seu laboratrio. Ambos andavam imersos nos seus prprios projectos. Frequentemente, Andrew trabalhava pela noite dentro.
     Uma manh, quando Tanner chegou s instalaes, Andrew ainda l estava. Viu Tanner a entrar e deu um salto.
     -        Estou muito entusiasmado com esta experincia de nano- tecnologia. Estou a desenvolver um mtodo de...
     A mente de Tanner vogou para algo mais importante, a pequena e interessante ruiva que conhecera na noite anterior. Encontrara-se com ela no bar, tinham bebido 
uns copos, levara-a para o apartamento e fizera-a passar um tempo fabuloso. Quando ela tinha entre as mos o seu...
     -        ...e acho que isto vai, de facto, ser muito importante. Que  que achas, Tanner?
     Apanhado desprevenido Tanner respondeu:
     -        Oh! Claro que sim, Andrew. Excelente.
     Andrew sorriu:
     -        Eu sabia que ias perceber o potencial.
     Tanner estava mais interessado na sua experincia secreta. Se a minha resultar, pensou, serei dono do mundo.
     Uma noite, pouco depois de se ter formado, Tanner estava numa recepo quando uma agradvel voz feminina atrs dele disse:
     - J ouvi falar muito de si, senhor Kingsley.
     Tanner virara-se, ansioso, e em seguida tentara ocultar o seu desapontamento. Quem assim falara era uma jovem sem nada de relevante. A nica coisa que fazia 
com que no fosse completamente vulgar era um par de intensos olhos castanhos e um engraado, embora um pouco cnico, sorriso. A beleza fsica da mulher era para 
Tanner, condio sine qua non, e era bvio que esta no respondia a essa condio.
     - Nada de mal, espero - respondeu, enquanto ia pensando numa desculpa para se livrar dela.
             O meu nome  Pauline Cooper. Os meus amigos chamam-me Paula. Voc saiu com a minha irm Ginny, quando estava na faculdade. Ela era louca por si.
     Ginny, Ginny... Baixinha? Alta? Morena? Loura? Tanner continuava a sorrir, tentando lembrar-se. Tinham sido tantas...
     -        Ginny queria casar consigo.
     Isto no ajudava em nada. O mesmo acontecera com tantas outras.
     - A sua irm era muito simptica. Mas ns  que... Ela olhou-o sarcasticamente:
     -        No se esforce. Voc nem sequer se lembra dela.
     Tanner ficou embaraado.
     -        Bem,  que...
     -        No tem importncia. Fui ao casamento dela h poucos dias...
     Tanner ficou aliviado.
     -        Ah! Excelente. Ento Ginny casou.
     -        Pois foi. - E fez uma pequena pausa. - Mas eu no. Gostaria de jantar comigo amanh  noite?
     Tanner olhou melhor para ela. Embora no correspondesse ao seu padro de beleza normal, parecia ter um corpo agradvel e ser suficientemente interessante. E 
seria, certamente, fcil de levar para a cama. Tanner avaliava as namoradas como se fossem um jogo de basebol. Ele fazia um lanamento. E era tudo. Se ela no apanhasse 
a bola, estava fora.
     Ela observava-o.
     -        Eu pago.
     Tanner riu-se.
     -        Eu posso pagar, se voc no for a maior glutona do mundo.
     -        Venha e veja por si.
     -        Muito bem - respondeu ele suavemente depois de olhar para o fundo dos olhos dela.
     Na noite seguinte, jantaram num restaurante da moda, na parte alta da cidade. Paula levava uma blusa branca com um decote pronunciado, uma saia preta e sapatos 
de salto alto. Tanner, que a observava a entrar no restaurante, pensou que ela lhe parecia bastante mais bonita do que a idia com que ficara dela. Na verdade, tinha 
ar de princesa de um desses pases exticos.
      Tanner levantou-se.
     -        Boa noite.
     Ela apertou-lhe a mo e respondeu:
     -        Boa noite. - Havia nela um ar de segurana que era quase real.
     Quando se sentaram, ela disse:
     -        Vamos comear tudo de novo, est bem? Eu no tenho nenhuma irm.
     -        Mas disse-me que... - Tanner olhava para ela, confuso.
     -        S queria testar a sua reaco, Tanner. Ouvi muitas coisas sobre si atravs da algumas das minhas amigas e fiquei curiosa - comentou a sorrir.
     Estaria a falar de sexo? Com quem  que ela teria falado? Podiam ser tantas...
     -        No tire concluses precipitadas. No estou a falar das suas qualidades como garanho. Estou a falar da sua cabea.
     Era como se ela fosse capaz de lhe ler o pensamento.
     -        Ento voc... est interessada em cabeas?
     -        Entre outras coisas - respondeu ela, convidativa.
     Isto vai ser canja. Tanner esticou a mo por cima da mesa e tomou a mo dela.
     -        Voc  o mximo - e acariciou-lhe o brao. -  uma pessoa especial. Vamos ter uma noite muito interessante.
     - J est com teso, querido? - disse ela a sorrir..
     Tanner ficou desconcertado com a rudeza dela. Pelo visto era impaciente.
     -        Sempre, Princesa - concordou Tanner.
     - Ela sorriu.
     -        ptimo. Ento saque l do seu livrinho negro e vamos tentar encontrar algum que esteja disponvel para hoje  noite.
     Tanner ficou petrificado. Estava habituado a divertir-se com as mulheres, mas nunca antes ningum troara dele. Ficou a olhar para ela.
     -        O que est a dizer?
     -        Que vamos ter que melhorar as suas deixas, querido. Faz alguma idia do pirosas que so?
     Tanner comeou a ficar vermelho.
     -        E o que  que a leva a pensar que so deixas?
     Ela olhou directo para ele:
     -        Isso que me disse foi provavelmente inventado por Matosalm. Quando falar comigo, quero que me diga coisas que nunca antes disse a nenhuma outra mulher.
     Tanner olhou para ela, tentando ocultar a fria que o invadia. Com quem  que ela julga que est a falar, com algum mido da escola ? Ela era demasiado insolente 
para o seu prprio bem. Lanamento falhado. A cabra estava fora de jogo.
      
CAPTULO 15
     
     O quartel general do Kingsley Internacional Group estava plantado em Manhattan, a dois quarteires do rio East. As instalaes ocupavam cinco acres de terra 
e eram formadas por quatro grande edifcios de cimento e duas pequenas casas para o pessoal, tudo vedado e electronicamente protegido.
     As dez em ponto da manh, os detectives Earl Greenburg e Robert Praegitzer entraram no trio do edifcio principal. Era espaoso e moderno, mobilado com alguns 
sofs e mesas e meia dzia de cadeiras.
     O detective Greenburg deu uma vista de olhos a uma pilha de revistas sobre uma mesa, Virtual Reality, Nuclear and Radiological Terrorism, Robotics World. Tirou 
um exemplar da Genetic Engineering News e virou-se para Praegitzer:
     -        No te fartas de ver estas revistas no consultrio do teu dentista?
     -        Exactamente. - E Praegitzer riu.
     Os dois detectives aproximaram-se da recepcionista e identificaram-se.
     -        Temos uma reunio com o senhor Tanner Kingsley.
     -        Ele est  vossa espera. Vou chamar algum para os acompanhar. - E deu a cada um carto de identificao do KIG. - Por favor, devolvam-nos  sada.
     -        Com certeza.
     A recepcionista premiu um boto e, momentos depois, si uma jovem atraente.
     -        Estes senhores tm uma reunio marcada com o senhor Tanner Kingsley.
     -        Muito bem. O meu nome  Retra Tyler e sou assistente do senhor Kingsley. Acompanhem-me, por favor.
     Os dois detectives caminharam por um longo corredor com gabinetes de portas fechadas de cada lado. Ao fundo ficava o gabinete de Tanner.
      Na sala de espera, Kathy Ordonez, a brilhante jovem assistente de Tanner sentava-se atrs de uma secretria.
             Bons dias, senhores. Queiram entrar.
     Levantou-se e abriu a porta que dava para o gabinete particular de Tanner. Assim que os detectives entraram, estacaram a olhar em volta com respeito.
     O enorme gabinete parecia apinhado de misteriosos equipamentos electrnicos e as paredes  prova de som estavam cobertas de finssimos ecrs de televiso que 
mostravam cenas, em directo, de vrias cidades em todo o mundo. Algumas eram de atarefadas salas de conferncia, de escritrios, de laboratrios, enquanto outras 
mostravam suites de hotel, onde tinham lugar algumas reunies. Cada ecr possua o seu prprio sistema de som e, embora o volume de som mal fosse audvel, era fantstico 
ouvir excertos de frases faladas ao mesmo tempo numa dzia de lnguas diferentes.
     Uma legenda na parte inferior de cada ecr identificava as cidades: Milo, Joanesburgo, Zurique, Madrid, Atenas...
     Ao fundo da parede via-se uma estante de oito prateleiras repleta de volumes encadernados a couro.
     Tanner Kingsley estava sentado atrs de uma secretria em mogno onde havia uma consola com meia dzia de botes de diferentes cores. Estava elegantemente vestido 
num fato cinzento de excelente corte, com uma camisa azul clara e uma gravata de escocs azul.
     Ergueu-se assim que os dois detectives entraram.
     -        Bons dias, meus senhores.
     -        Bom dia. Ns... - comeou a dizer Earl Greenburg.
     -        Sim, eu sei quem vocs so. Os detectives Earl Greenburg e Robert Praegitzer. - Cumprimentaram-se. - Por favor, queiram sentar-se.
     Os detectives obedeceram.
     Praegitzer olhava fixamente para as imagens vindas de todo o mundo que mudavam constantemente na profuso de ecrs de televiso. Abanou a cabea em admirao:
     -        A tecnologia de hoje em dia! Isto ...
     Tanner ergueu a mo.
     - No estamos aqui a ver a tecnologia de hoje em dia, detective.
     Esta tecnologia no estar no mercado seno daqui a dois ou trs anos. Com ela, podemos assistir a tele-conferncias numa dzia de pases, tudo ao mesmo tempo. 
A informao que entra vinda dos nossos escritrios em todo o mundo  imediatamente analisada e registada por estes computadores.
     - Senhor Kingsley, desculpe uma pergunta to simples. Mas o que , de facto, um think tank? - perguntou Praegitzer.
     -        Em poucas linhas? Bom, resolvemos problemas. Encontramos solues para problemas que possam vir a surgir. Alguns centram-se simplesmente numa rea, 
militar, econmica ou poltica. Ns tratamos de segurana nacional, comunicaes, microbiologia, assuntos relacionados com o ambiente. O KIG funciona como um analista 
e crtico independente das conseqncias globais a longo prazo para vrios governos.
     -        Que interessante.
     -        Oitenta e cinco por cento do nosso pessoal possui graus acadmicos avanados e mais de sessenta e cinco por cento so doutorados.
     -        Isso  impressionante.
     -        O meu irmo Andrew fundou o Kingsley Internacional Group para ajudar os pases do Terceiro Mundo, por isso estamos todos profundamente embrenhados 
em projectos piloto.
     Ouviu-se o som repentino de um trovo e um raio de luz brilhou num dos ecrs de televiso. Todos se viraram para olhar.
     -        No li qualquer coisa sobre uma experincia climatrica que estavam a fazer? - perguntou o detective Greenburg.
     Tanner fez uma careta.
     -        Sim.  conhecida por a como a loucura de Kingsley.  um dos maiores falhanos que o KIG alguma vez teve. Foi um dos projectos que eu mais quis que 
funcionasse. Em vez disso, vamos ter que o cancelar.
     -         possvel controlar o clima? - quis saber Praegitzer.
     Tanner abanou a cabea.
     -        S de forma limitada. Houve j imensas pessoas que o tentaram. J em 1900, Nikola Tesla fez experincias com as condies meteorolgicas. Descobriu 
que a ionizao da atmosfera pode ser alterada atravs de ondas de rdio. Em 1958, o nosso departamento de defesa experimentou lanar agulhas de cobre na ionosfera. 
Dez anos mais tarde houve o Projecto Popeye, em que o governo tentou prolongar a estao das mones no Laos, para aumentar a quantidade de lama na Trilha de Ho 
Chi Minh. Usaram um agente nuclear de iodedo de prata e vrios geradores lanaram-no para as nuvens, para se transformar em sementes de chuva.
     -        E funcionou?
     -        Funcionou. Mas numa base confinada. Existem vrias para fazer com que nunca sejamos capazes de controlar o clima.
     Um dos problemas  que o El Nino gera altas temperaturas no oceano Pacfico que perturbam o sistema ecolgico do mundo, enquanto La Nina gera temperaturas frias 
no Pacfico; os dois combinados anulam completamente qualquer tentativa realista de planeamento de controle. O hemisfrio sul  composto oitenta por cento por oceanos, 
enquanto o hemisfrio norte s tem sessenta por cento, dando origem a outro desequilbrio. Alm disso, a corrente quente determina a rota das tempestades e no h 
forma de o controlar.
     Greenburg acenou e em seguida perguntou, hesitante:
     -        Sabe porque estamos aqui, senhor Kingsley?
     Tanner estudou Greenburg por momentos.
     -        Penso que seja uma pergunta de retrica. De outra forma, teria que a considerar ofensiva. O KIG  um think tank. Quatro dos meus funcionrios morreram 
ou desapareceram misteriosamente num espao de vinte e quatro horas. Ns prprios j inicimos as nossas investigaes. Temos escritrios nas principais cidades 
espalhadas pelo mundo, com mil e oitocentos empregados, e  bvio que me  difcil manter-me em contacto com todos eles. Mas aquilo que consegui saber at agora 
foi que dois dos que foram assassinados estavam aparentemente envolvidos em actividades ilegais.
     Custou-lhes a vida, mas asseguro-vos que no ir custar a reputao do Kingsley Internacional Group. Espero que a nossa gente consiga resolver este assunto 
com toda a celeridade.
     -        Senhor Kingsley. No  s isso. Tivemos conhecimento de que, h seis anos, um cientista japons chamado Akira Iso se suicidou em Tquio. H trs anos, 
uma cientista sua de nome Madeleine Smith suicidou-se em... - acrescentou Greenburg.
     Tanner interrompeu-o; - Zurique. Nenhum deles se suicidou. Foram assassinados.
     Os dois detectives olharam para ele surpresos.
     -         Como  que sabe disso? - perguntou Praegitzer.
     A voz de Tanner endureceu.
     - Eles foram mortos por minha culpa.
     -        Quando diz...
     -        Akira Iso era um cientista brilhante. Trabalhava para um conglomerado electrnico chamado Tokyo First Industrial Group. Encontrei Iso numa conveno 
industrial internacional em Tquio, demo-nos bem. Pensei que o KIG lhe podia proporcionar uma atmosfera do que a empresa onde estava. Fiz-lhe uma proposta para r 
aqui e ele aceitou. Na realidade, at ficou muito excitado com a perspectiva. - Tanner lutava para manter a voz controlada -        Concordmos em manter o assunto 
confidencial, at ele se encontrar legalmente capaz de poder abandonar a empresa. Mas  bvio que deve ter falado do assunto a algum, porque veio uma reportagem 
a esse respeito num jornal, e... - Tanner parou mais uma vez, por um longo momento, e, em seguida continuou. - Um dia depois de a reportagem ter aparecido, Iso foi 
encontrado morto num quarto de hotel.
     -        Senhor Kingsley,  possvel existirem outras razes para explicar a sua morte? - quis saber Robert Praegitzer.
     Tanner abanou a cabea.
     -        No. No acredito sequer que ele se tenha suicidado. Contratei investigadores que mandei para l e alguns dos meus empregados no Japo tentaram saber 
o que se passara. No foram capazes de encontrar nada que provasse que tinha sido crime e pensei que podia estar enganado e que talvez existisse alguma tragdia 
na vida de Iso que eu desconhecia.
     -        Ento porque  que tem tanta certeza de que ele foi morto? - perguntou Greenburg.
     -        Como voc prprio j disse, uma cientista chamada Madeleine Smith supostamente suicidou-se em Zurique, h trs anos. O que voc no sabe  que Madeleine 
Smith tambm pretendia abandonar as pessoas para quem trabalhava e vir para a nossa empresa.
     Greenburg franziu o sobrolho.
     -        O que o leva a pensar que existe uma ligao entre estas duas mortes?
     O rosto de Tanner era uma esfinge.
     -        Porque a empresa para a qual ela trabalhava  uma filial do mesmo Tokyo First Industrial Group.
     Fez-se um silncio de espanto.
     -        H aqui algo que eu no estou a compreender - interrompeu Praegitzer. - Porque haviam de assassinar um empregado s porque ela se queria vir embora? 
Se...
     -        Madeleine Smith no era uma empregada qualquer. Nem to pouco Iso. Eram fsicos brilhantes, que estavam prestes a resolver problemas que fariam com 
que qualquer empresa ganhasse uma fortuna, maior do que alguma vez se possa imaginar. Era por isso que no estavam interessados em perder nenhum deles.
     -        A polcia sua investigou a morte de Smith?
     -        Claro. E ns tambm. Mas, mais uma vez, no fomos capazes de provar absolutamente nada. Na realidade, continuamos a trabalhar em todas as mortes que 
tiveram lugar e tenho esperanas de e sejamos capazes de solucionar algumas delas. O KIG tem grandes reaes por todo o mundo. Se alguma vez eu tiver alguma informao 
que possa ser til, terei todo o prazer em partilh-la convosco. Espero o mesmo do vosso lado.
     Greenburg respondeu:
     -        Claro.
     Um telefone folheado a ouro sobre a secretria de Tanner tocou.
     Desculpem. - Encaminhou-se para secretria e atendeu o telefone. - Alo... sim... A investigao est a correr bem. Na verdade, tenho neste momento no meu gabinete 
dois detectives e eles concordaram em cooperar connosco... - E olhou para Praegitzer e Greenburg. - Certo. Eu digo-te qualquer coisa assim que tivermos notcias. 
- E pousou o telefone.
     -        Senhor Kingsley, esto a trabalhar em alguma coisa que seja secreta? - perguntou Greenburg.
     -        Est a querer dizer alguma coisa suficientemente importante para justificar o assassnio de meia dzia de pessoas? Detective Greenburg, existem mais 
de cem think tanks em todo o mundo, alguns deles a trabalhar exactamente nos mesmos problemas que ns.
     Ns aqui no construmos bombas atmicas. A resposta  sua pergunta  no.
     A porta abriu-se e Andrew Kingsley entrou no gabinete, transportando um monte de papis. Andrew Kingsley era pouco parecido com o irmo. Os seus traos pareciam 
desfocados. Tinha cabelo grisalho que comeava a desaparecer, um rosto enrugado e caminhava com uma postura algo inclinada. Enquanto Tanner irradiava vitalidade 
e inteligncia, Andrew Kingsley parecia ser pouco esperto e aptico. Falava de forma hesitante e parecia ter dificuldade em junto as frases.
     -        Aqui esto aqueles... sabes... aqueles papis que pediste, Tanner. Peo desculpa por no os ter terminado... mais cedo.
     - No h qualquer problema, Andrew. - E Tanner virou-se para Os dois detectives. - Este  o meu irmo, Andrew. Os detectives Greenburg e Praegitzer.
     Andrew olhou inseguro para eles e piscou os olhos. Andrew, queres falar-lhes do teu Prmio Nobel? Andrew olhou para Tanner e respondeu evasivamente: Sim... 
pois...o Prmio Nobel... o Prmio Nobel.
     Ficaram a olhar enquanto ele se virava e saa do gabinete, arrastando os ps.
     Tanner suspirou.
     -        Como disse, Andrew foi o fundador desta empresa, um homem perfeitamente brilhante. H sete anos atrs recebeu o Prmio Nobel por uma das suas descobertas. 
Infelizmente, meteu-se numa experincia que correu mal e... Tudo mudou nele. - O seu tom de voz era amargo.
     -        Deve ter sido um homem extraordinrio.
     - Nem faz idia.
     Earl Greenburg ergueu-se e estendeu a mo:
     -        Bom, no lhe tomamos mais tempo, senhor Kingsley. Estaremos em contacto.
     -        Meus senhores - a voz de Tanner era gelada -, que estes crimes se resolvam... E depressa.
     
CAPTULO 16
     
     Durante toda a manh, os jornais foram apresentando sempre a mesma histria. Uma seca na Alemanha provocara pelo menos cem mortes e dizimara milhes de dlares 
de colheitas.
     Tanner ligou para Kathy e pediu:
     - Manda este artigo  senadora van Luven, com uma nota a dizer: "Mais notcias sobre o aquecimento global. Cumprimentos..."
      Tanner no conseguia parar de pensar na mulher a quem chamara Princesa. E quanto mais pensava na insolncia dela e na forma como o ridicularizara, mais furioso 
ficava. Vamos ter que melhorar as suas deixas, querido. Faz alguma idia do pirosas que so?... J est com teso, querido?... Ento saque l do seu livrinho negro 
e vamos tentar encontrar algum que esteja disponvel para hoje  noite...
     Era como se precisasse de a exorcizar de dentro de si. Decidiu que a voltaria a ver uma vez mais, para lhe dar a paga que merecia e em seguida poder esquec-la.
     Tanner esperou trs dias e depois telefonou:
     - Princesa?
     -        Quem fala?
     - Estava prestes a desligar o telefone. Mas quantos homens j lhe teriam chamado Princesa ? Conseguiu manter a voz calma: Fala Tanner Kingsley.
     Ah! Sim. E como est? - O tom da voz dela era completamente indiferente.
     Cometi um erro, pensou Tanner. Nunca lhe devia ter telefonado.
     - Pensei que podamos jantar outra vez um dia destes, mas provavelmente est muito ocupada, por isso talvez seja melhor...
     - Que tal esta noite?
     Tanner foi mais uma vez apanhado desprevenido. Estava ansioso dar uma lio quela cabra.
     Quatro horas depois, Tanner estava sentado  mesa em frente de Paula Cooper num pequeno restaurante francs a leste da Lexington Avenue. Ficou espantado pelo 
prazer que sentiu em voltar a v-la. Esquecera o vigorosa e viva que ela era.
     -        Senti a sua falta, Princesa - disse ele.
     Ela sorriu.
     -        Oh, eu tambm senti a sua. Voc  o mximo.  uma pessoa especial.
     Eram as suas prprias palavras a serem-lhe devolvidas, troando dele. Maldita.
     Parecia que a noite ia ser uma repetio do seu ltimo encontro. Nas noites romnticas de Tanner fora sempre ele quem controlara a conversa. Com a Princesa 
tinha a estranha sensao de que ela estava sempre um passo  sua frente. Tinha sempre resposta pronta para tudo o que ele dizia. Era espirituosa e rpida e no 
aceitava parvoces.
     As mulheres com quem costumava sair eram sempre belas e disponveis, mas, pela primeira vez na vida, Tanner sentia que talvez tivesse andado a perder alguma 
coisa. As outras eram todas demasiado fceis. Eram agradveis, mas demasiado agradveis. No havia ali qualquer desafio. Mas Paula...
     -        Fale-me de si - pediu Tanner.
     Ela encolheu os ombros:
     No dia seguinte, Tanner voltou a ligar.
     -        Princesa?
     -        Estava  espera que me telefonasse, Tanner. - A voz calorosa.
     Tanner sentiu um pequeno frmito de prazer.
     - O meu pai era rico e poderoso e eu cresci como uma menina mimada, no meio de criadas e mordomos, empregados a servir-nos na piscina, Radcliffe e uma escola 
de aperfeioamento para raparigas. Enfim, o habitual. Depois o meu pai perdeu tudo e morreu. Tenho trabalhado como assistente de um poltico.
     -        E gosta do que faz?
     -        No. Ele  um chato. - Os olhos deles encontraram-se. - Ando  procura de algum mais interessante.
     - Estava?...
     - Sim. Onde  que me vai levar a jantar hoje a noite?
     Ele riu.
     - Onde lhe apetecer.
     - Apetecia-me ir ao Maxim's em Paris, mas qualquer coisa onde possa estar consigo serve.
     Apanhara-o mais uma vez desprevenido, mas, por qualquer razo, as palavras dela tinham-no deixado feliz.
     Jantaram no La Cote Basque na Fifty-fifth Street e durante o jantar Tanner no parou de olhar para ela e de se interrogar porque se sentia to atrado por ela. 
No era a beleza, era a sua cabea e a sua personalidade que eram estonteantes. Todo o seu ser brilhava de inteligncia e autoconfiana. Era a mulher mais independente 
que alguma vez conhecera.
     As conversas cobriam inmeros temas e Tanner verificou que ela era espantosamente culta.
     -        O que  que quer fazer com a sua vida, Princesa?
     Ela estudou Tanner por instantes antes de lhe responder:
     -        Quero poder... O poder de fazer as coisas acontecerem.
     Tanner sorriu:
     -        Ento somos muito parecidos.
     -        A quantas mulheres disse a mesma coisa, Tanner?
     Ele deu por si a ficar zangado.
     -        Importa-se de parar com isso? Quando eu lhe digo que  diferente de todas as outras mulheres que alguma vez...
     -        Alguma vez o qu?
     Tanner respondeu, exasperado:
     -        Voc deixa-me frustrado.        :
     -        Pobre querido. Se est frustrado, porque no vai tomar uma ducha...?
     A raiva surgiu de novo. J ouvira o suficiente. Levantou-se.
     -        No interessa. No vale a pena...
     - ...em minha casa.
     Tanner nem podia acreditar no que acabara de ouvir. Em sua casa?
     -        Sim. Tenho um pequeno pied--terre em Park Avenue - respondeu ela. - Quer levar-me a casa?
     No comeram a sobremesa.
     O pequeno pied--terre era um sumptuoso apartamento maravilhosamente decorado. Tanner olhou em volta, maravilhado com o luxo e a elegncia. O apartamento combinava 
com ela, uma coleco de quadros variados, uma mesa de refeitrio, um enorme candeeiro de tecto, um canap italiano e um conjunto de seis cadeiras Chipplldau e um 
sof. Foi tudo o que Tanner conseguiu ver antes de ela lhe dizer:
     - Venha ver o meu quarto.
     O quarto era todo branco, com mveis brancos e um enorme espelho no tecto sobre a cama.
     Tanner olhou  sua volta e comentou: - Estou impressionado. Este  o mais...
     -        Chiu! - Paula comeava a despi-lo. - Podemos conversar depois.
     Assim que ela o despiu, comeou devagarinho a tirar as prprias roupas. Tinha um corpo que era a perfeio ertica. Os seu braos estavam em volta de Tanner, 
o corpo contra o dele, e ela encostou os lbios ao ouvido dele e murmurou:
     - J chega de preliminares.
     Deitaram-se e ela estava pronta para o receber e, quando ele a penetrou, ela apertou as coxas e as ancas e depois relaxou-as e, repetindo esta operao, foi 
fazendo com que Tanner ficasse cada vez mais excitado. Ela mudava sempre levemente o corpo de posio para que ele recebesse sempre sensaes diferentes. Deu-lhe 
sensaes voluptuosas como ele jamais sentira, estimulando-o a um ponto de xtase total.
     Mais tarde, bastante mais tarde, conversaram pela noite dentro.
     Depois dessa, ficaram juntos todas as noites. A Princesa no cessava de o surpreender com o seu humor e o seu encanto e, gradualmente, aos olhos dele transformou-se 
numa mulher maravilhosa.
     Uma manh, Andrew disse a Tanner:
     -        Nunca antes te vi sorrir tanto. Temos mulher?
     Tanner anuiu.
     -        Sim.
     -        E  srio? Vais casar com ela?
     -        Tenho pensado nisso.
     Andrew ficou a olhar para Tanner por momentos.
     -        Talvez no fosse m idia dizeres-lhe.
     Tanner apertou o brao ao irmo. - Talvez o faa.
     Na noite seguinte, Tanner e a Princesa estavam sozinhos no apartamento dela. Tanner comeou a falar:
     - Princesa, um dia pediste-me que te dissesse algo que nunca antes tenha dito a outra mulher.
     -        Sim, querido?
             Ento aqui vai. Quero que cases comigo.
     Houve um momento de hesitao, ela sorriu e voou para os braos dele.
     -        Oh, Tanner!
     Ele olhou-a nos olhos.
     -        Isso  um sim?
             Querido, eu gostava muito de me casar contigo, mas receio que tenhamos um problema.
     -        Que tipo de problema?
     -        J te falei disso. Quero fazer alguma coisa de importante.
     Quero ter poder suficiente para fazer com que as coisas aconteam, para poder mudar as coisas. E a base de tudo isso  o dinheiro. Como podemos ter futuro juntos 
se tu no tens futuro?
     Tanner pegou-lhe na mo.
     -        Isso no  problema. Eu sou dono de metade de um negcio muito importante, Princesa. Um dia vou ter dinheiro que chegue para te dar tudo o que quiseres.
     Ela abanou a cabea.
     -        No, o teu irmo Andrew, ele  que te diz o que tens de fazer. Sei tudo sobre vocs os dois. Ele nunca vai permitir que a empresa cresa e eu preciso 
mais do que aquilo que me podes dar agora.
     -        Ests enganada. - E Tanner reflectiu por momentos. - Quero que conheas o meu irmo.
     Os trs almoaram no dia seguinte. Paula foi encantadora, e era bvio que Andrew gostou imediatamente dela. Nos ltimos tempos, Andrew preocupara-se com o tipo 
de mulheres com que o irmo andava. Aquela era diferente. Tinha personalidade e era inteligente e engraada. Andrew olhou para o irmo e o seu aceno significava 
"boa escolha".
     - Sei que o KIG tem tido imenso sucesso, Andrew, a ajudar tantas pessoas por esse mundo fora. Tanner contou-me tudo - comentou Paula.
     -        Fico satisfeito por o podermos fazer. E vamos fazer muito mais.
     -        Quer dizer que a empresa tem intenes de se expandir?
     -        No exactamente. O que quero dizer  que vamos mandar muita gente para mais pases onde possamos ser teis.
     -        Nessa altura, comearemos a receber propostas de contratos de... - interrompeu Tanner rapidamente.
     Andrew sorriu.
     -        Tanner  to impaciente! No h qualquer pressa. Vamos fazer primeiro aquilo que devemos fazer, Tanner. Ajudar os outros.
     Tanner olhou para a Princesa do outro lado. A expresso dela no se comprometia.
     No dia seguinte, Tanner telefonou-lhe:
     -        Ol, Princesa. A que horas queres que eu te v buscar?
     Houve um momento de silncio:
     -        Querido, lamento muito. Mas no posso manter o nosso encontro de hoje  noite.
     Tanner foi apanhado de surpresa.
     -        Passa-se alguma coisa?
     -        No. Um amigo meu est na cidade e eu tenho de o ver.
     Um amigo? Tanner sentiu uma ponta de cime.
     -        Compreendo. Ento e que tal amanh  noite? Podamos...
     -        No. Amanh tambm no posso. Que tal segunda-feira?
     Ela ia passar o fim de semana com o outro fulano. Tanner desligou, preocupado e frustrado.
     Na segunda-feira  noite, a Princesa desculpou-se.
     -        Desculpa aquilo do fim de semana, querido.  que era um velho amigo meu que veio at c para me ver.
     No esprito de Tanner surgiu a imagem do maravilhoso apartamento onde ela vivia. No havia hiptese de ela o poder pagar com o dinheiro que ganhava.
     -        Quem  ele?
     -        Lamento, mas no te posso dizer o nome.  que... bom, ele  muito conhecido e no gosta de publicidade.
     -        E ests apaixonada por ele?
     Ela pegou na mo de Tanner e disse suavemente:
     -        Tanner, eu estou apaixonada por ti. E s por ti.
     -        E ele, est apaixonado por ti?
     -        Sim, est - disse ela hesitando.
     Tanner pensou: Tenho que encontrar uma maneira de lhe dar tudo aquilo que ela quer. No me posso dar ao luxo de a perder.
     Na manh seguinte, s 8 e 45, Andrew Kingsley foi despertado pelo som do seu telefone a tocar.
     -        Tenho uma chamada da Sucia. Um momento, por favor.
     Instantes depois ouviu-se uma voz com um toque de sotaque sueco a dizer:
     -        Parabns, senhor Kingsley. O Comit do Nobel escolheu-o para receber o Prmio Nobel da Fsica deste ano, pelo seu inovador trabalho em nano tecnologia...
     O Prmio Nobel! Assim que a conversa terminou, Andrew vestiu-se apressadamente e dirigiu-se de imediato ao seu gabinete. No minuto em que Tanner chegou, Andrew 
correu para o irmo para lhe dar as novidades. E Tanner abraou-o.
     - O Nobel! Mas isso  maravilhoso, Andrew! Maravilhoso! E era. Porque agora todos os problemas de Tanner estavam em vias de ser resolvidos.
     Cinco minutos mais tarde, Tanner falava com a Princesa.
     -        Percebes o que isto significa, minha querida? Agora que o KIG tem o Prmio Nobel, podemos conseguir todos os negcios que quisermos. Estou a falar 
em termos de grandes contratos com o governo e com as grandes empresas. Vou poder dar-te o mundo.
     -        Mas isso  fabuloso, querido.
     -        E casas comigo?
     -        Tanner, eu quero casar contigo mais do que qualquer outra coisa no mundo.
     Quando Tanner desligou estava eufrico. Correu para o gabinete do irmo.
     -        Andrew, vou-me casar.
     Andrew levantou os olhos e disse calorosamente:
     -        Que excelentes notcias. E quando  o casamento?
     -        Vai ser marcado para muito em breve. E todo o pessoal da em presa vai ser convidado. 
     Quando Tanner chegou ao seu escritrio na manh seguinte, Andrew o aguardava. E tinha uma flor na lapela.
     -        Para que  isso?
     Andrew sorriu.
     - Estou a preparar-me para o teu casamento. Sinto-me muito feliz por ti.
     -        Muito obrigado, Andrew.
     As notcias espalharam-se rapidamente. Como o casamento ainda no tinha sido oficialmente anunciado, ningum fez qualquer comentrio a Tanner, mas havia olhares 
e sorrisos.
     Tanner entrou no gabinete do irmo.
     -        Andrew, com esta coisa do Nobel, todos viro ter connosco. E com o dinheiro do prmio...
     Andrew interrompeu-o:
     -        Com o dinheiro do prmio vamos poder mandar mais gente para a Eritreia e para o Uganda.
     -        Mas vais usar este prmio para desenvolver a empresa, no vais? - perguntou Tanner bem devagar.
     Andrew abanou a cabea:
     -        Vamo-nos limitar a fazer aquilo que nos propusemos, Tanner.
     Este olhou longamente para o irmo:
     - A empresa  tua, tu  que sabes, Andrew.
     
     Tanner telefonou-lhe assim que decidiu o que fazer.
     -        Princesa, vou ter que ir a Washington em trabalho. Pode ser que no tenhas notcias minhas durante dois ou trs dias.
     -        Mas nada de louras, nem morenas, nem ruivas - respondeu ela para o arreliar.
     -        No h hiptese. s a nica mulher no mundo por quem estou apaixonado.
     -        E eu por ti.
     
     Na manh seguinte, Tanner Kingsley estava no Pentgono em reunio com o chefe do pessoal, o general Alan Barton.
     -        Considero a sua proposta muito interessante - comentou o general. - Andvamos sem saber quem devamos usar para fazer o teste.
     -        O vosso teste tem a ver com nanotecnologia e o meu irmo acaba de ganhar o Prmio Nobel pelo trabalho que desenvolveu nesse domnio.
     - Todos ns sabemos disso.
     -        Ele est to excitado que est disposto a fazer tudo pro bono.
     -        Ficamos muito lisonjeados, senhor Kingsley. No temos assim tantos laureados com o Prmio Nobel a oferecerem os seus servios.
     -        E olhou para cima para se certificar de que a porta estava fechada.
     -        Isto  top secret. Se resultar, vai ser um dos mais importantes componentes do nosso armamento. A nanotecnologia molecular pode dar-nos o controle 
do mundo fsico, ao nvel dos tomos individuais.
     At hoje, todos os esforos para tornar os chips ainda mais pequenos do que o seu tamanho actual tm sido bloqueados devido  interferncia electrnica chamada 
"cross talk", quando os electres ficam fora de controle. Se esta experincia for bem sucedida, vai dar-nos novas e importantes armas de autodefesa e de ataque.
     -        No existe qualquer perigo nesta experincia, pois no? No quero que acontea nada ao meu irmo - perguntou Tanner.
     -        No precisa de se preocupar. Ns mandamos todo o equipamento de que vo precisar, incluindo os fatos de segurana, e dois dos nossos cientistas para 
trabalharem com o seu irmo.
     -        Ento temos luz verde?
     -        Tm.
     No regresso a Nova Iorque, Tanner ia pensando: Agora s me falta convencer Andrew.
      
CAPTULO 17
     
     Andrew estava no seu gabinete a olhar para um folheto colorido que o Comit do Prmio Nobel lhe tinha mandado, juntamente com uma mensagem: Aguardamos a sua 
chegada. Viam-se fotografias da enorme sala de concertos em Estocolmo, com a audincia a aplaudir um laureado com o Nobel enquanto este caminhava pelo palco para 
receber o prmio das mos do rei Carl XVI Gustav da Sucia. E em breve l estarei eu tambm, pensou.
     A porta abriu-se e Tanner entrou.
     -        Temos que conversar.
     Andrew ps o folheto de lado: - Est bem. O que , Tanner?
     Este respirou fundo.
     -        Acabei de comprometer o KIG para dar assistncia ao exrcito em uma experincia que esto a fazer.
     -        Tu fizeste o qu?
     -        O teste tem a ver com criognicos. Eles precisam da tua ajuda.
     Andrew abanou a cabea.
     -        Nem pensar. No me quero envolver nisso, Tanner. No  o tipo de coisas que ns fazemos aqui.
     -        Isto agora no se trata de dinheiro, Andrew. Tem a ver com a defesa dos Estados Unidos da Amrica.  muito importante para o exrcito. Estars a trabalhar 
para o bem do teu pas e sem ganhar dinheiro. Eles precisam de ti.
     Tanner passou uma hora a tentar convencer Andrew. Por fim ele cedeu.
     -        Est bem. Mas, Tanner, esta  a ltima vez que nos metemos em coisas deste tipo. Combinado?
     -        Combinado. No tenho palavras para te dizer come estou orgulhoso de ti. - E Tanner sorriu.
     Telefonou  Princesa e deixou uma mensagem no gravador de chamadas: Querida, estou de volta. Vamos ter uma experincia muito importante. Telefono-te assim que 
estiver concluda. Amo-te.
     Os dois tcnicos do exrcito chegaram para relatar a Andrew o progresso que tinham feito at  altura. Andrew estivera relutante, de incio, mas,  medida que 
eles iam discutindo o projecto, foi ficando cada vez mais entusiasmado. Se os problemas fossem resolvidos, isso ia constituir um avano espectacular.
     Uma hora mais tarde, Andrew observava enquanto um camio da tropa atravessava os portes do KIG, escoltado por outro dois que transportavam soldados armados. 
Saiu para receber o coronel da unidade operacional.
     -        Aqui est tudo, senhor Kingsley. O que fazemos agora?
     -        S tm de descarregar, que ns encarregamo-nos de tudo - respondeu Andrew.
     -        Sim, senhor. - E o coronel virou-se para dois soldados que se encontravam junto do camio. - Descarreguem-no. E tenham cuidado. Mas mesmo muito cuidado.
     Os homens entraram no camio e, com o maior dos cuidados, retiraram uma pequena mala em metal.
     Em poucos minutos, ela era transportada por dois assistentes, sob a orientao de Andrew, para um laboratrio.
     -        Ponham-na em cima daquela mesa - pediu. - Com muito cuidado. - E ficou a ver enquanto eles a pousavam. - Muito bem.
     -        Bastava um de ns para a transportar.  muito leve.
     -Vocs nem iam acreditar como  pesada - comentou Andrew. Os dois assistentes olharam para ele, intrigados.
     -        Desculpe?
     Andrew abanou a cabea: - Nada. No interessa.
     Dois qumicos, Perry Stanford e Harvey Walker, tinham sido escolhidos para trabalhar com Andrew no projecto.
     Ambos j tinham vestido os fatos de alta proteco que eram requeridos para levar a cabo a experincia.
     -        Vou-me vestir - disse Andrew. - J volto.
     Caminhou ao longo do corredor at uma porta fechada e abriu-a. L dentro havia vrias filas de cabides cheios de fatos de proteco Hl contra qumicos, semelhantes 
aos fatos espaciais, assim como mscaras, culos de proteco, sapatos especiais e pesadas luvas.
     Andrew entrou no compartimento e vestiu o seu fato, e Tanner estava l para lhe desejar boa sorte.
     Quando regressaram ao laboratrio, Stanford e Walker j estavam  espera. Os trs homens selaram meticulosamente a sala, de forma a ficar estanque, e, em seguida, 
trancaram cuidadosamente a porta. Todos sentiam a excitao no ar.
     -        Tudo a postos?
     -        Pronto - respondeu Stanford.
     -        Pronto - respondeu Walker.
     -        Mscaras.
     E colocaram as mscaras de proteco.
     -        Assim sendo, podemos comear - disse Andrew. E levantou cuidadosamente a tampa da caixa de metal. L dentro estavam seis pequenos tubos de ensaio cuidadosamente 
aninhados nas suas al mofadas de proteco.
     -        Tenham cuidado - avisou. - Estes pequenos gnios encontram-se a duzentos e vinte e dois graus abaixo de zero. - A sua voz soava abafada devido  mscara.
     Stanford e Walker observaram enquanto Andrew erguia com delicadeza o primeiro tubo de ensaio e o abriu. Ouviu-se um silvo e de dentro do tubo saiu uma onda 
de vapor que se transformou numa nuvem gelada que pareceu saturar a sala.
     -        Muito bem - disse Andrew. - Agora, a primeira coisa que temos de fazer... A primeira coisa... - Os olhos dele estavam muito abertos. Comeou a sufocar, 
o rosto a ficar branco, cor de gesso. Tentou falar, mas as palavras no lhe saam.
     Stanford e Walker olhavam horrorizados enquanto o corpo dele caa ao cho. Walker tapou rapidamente o tubo e fechou a caixa. Stanford correu para a parede e 
premiu um boto, activando uma enorme ventoinha que afastou o glido gs para fora do laboratrio- Assim que o ar ficou de novo limpo, os dois cientistas abriram 
a porta e transportaram apressadamente o corpo de Andrew l para fora. Tanner, que passava no corredor, viu o que se estava a passar e o pnico tomou conta do seu 
rosto.
     Correu para os dois homens e olhou o irmo.
     - Que diabo se passa?
     Foi Stanford quem lhe respondeu:
     Houve um acidente e...
     - Um acidente? Que tipo de acidente? - Tanner gritava como um louco. - O que foi que vocs fizeram ao meu irmo? - As pessoas comeavam a aproximar-se e a rode-los. 
- Liguem j para o 911. Deixem. No temos tempo para isso. Levamo-lo para o hospital num dos nossos carros.
     Vinte minutos depois, Andrew estava deitado numa maca, numa sala de urgncias do hospital de St. Vincent em Manhattan. Sobre a cara tinha uma mscara de oxignio 
e uma agulha de endovenoso espetada no brao. Dois mdicos debruavam-se sobre ele.
     Tanner andava freneticamente de um lado para o outro.
     -        Vocs tm que tratar dele - gritava. - E j!
     -        Senhor Kingsley, tenho de lhe pedir que abandone a sala - retorquiu um dos mdicos.
     -        Nem pensar - gritou ele. - Eu fico aqui com o meu irmo.
     - Dirigiu-se  maca onde Andrew jazia inconsciente e pegou-lhe na mo e apertou-a. - V, mano. Acorda. Ns precisamos de ti.
     No houve resposta.
     Os olhos de Tanner encheram-se de lgrimas.
     -        Tu vais ficar bom. No te preocupes. Vamos mandar vir os melhores mdicos do mundo. E tu vais ficar bom. - Virou-se para os mdicos. - Quero um quarto 
particular e enfermagem vinte e quatro horas, e quero que ponham uma cama no quarto. Eu fico com ele.
     -        Senhor Kingsley, gostaramos de poder terminar o exame.
     -        Estarei  espera no trio - respondeu Tanner, provocador.
     Andrew foi levado para baixo para fazer uma srie de ressonncias magnticas, e radiografias, e anlises completas ao sangue. Um exame mais completo, um PET, 
foi efectuado. Em seguida, ele foi levado para um quarto, onde trs mdicos lhe comearam a prestar assistncia.
     Tanner estava no trio sentado numa cadeira,  espera. Quando, finalmente, um dos mdicos surgiu  porta do quarto de Andrew, ps-se de p num salto.
     - Ele vai ficar bom, no vai?
     O mdico hesitou.
     -        Vamos transferi-lo imediatamente para o Walter Reed Arm Medical Center, em Washington, para um diagnstico mais apurado, mas, honestamente, senhor 
Kingsley, no temos grandes esperanas.
     -        Que diabo est para a a dizer? - gritava Tanner. -  claro que ele vai ficar bom. S esteve uns minutos dentro do laboratrio.
     O mdico ia comear a repreend-lo quando, ao olhar para cima, viu que os olhos de Tanner estavam cheios de lgrimas.
     Tanner acompanhou o irmo inconsciente no avio ambulncia at Washington. Tentou tranqiliz-lo durante todo o vo:
     -        Os mdicos dizem que vais ficar bom... Vo-te dar uma coisa para ficares bom...S precisas de descansar um pouco... - E Tanner ps os braos em redor 
do irmo. - Tens que ficar bom a tempo de ires  Sucia receber o teu Prmio Nobel.
     Durante os trs dias seguintes, Tanner dormiu num colcho no quarto de Andrew e ficou ao lado dele todo o tempo que os mdicos lhe permitiram. Tanner estava 
na sala de espera de Walter Reed quando um dos mdicos de servio se aproximou.
     -        Como est ele? - perguntou Tanner. - Ele vai... - E viu a expresso no rosto do mdico. - O que se passa?
     -        Receio ter ms notcias. O seu irmo tem muita sorte em estar vivo. Aquele gs, fosse ele qual fosse, era extremamente txico.
     -        Ns podemos mandar vir mdicos de...
     -        No vai servir de nada. Receio que as toxinas j tenham afectado as clulas do crebro do seu irmo.
     Tanner estremeceu.
     -        Mas... no existe cura para... o que ele tem?
     O mdico respondeu duramente:
     -        Senhor Kingsley, o exrcito nem sequer tem um nome para lhe chamar e o senhor quer saber se existe cura? No. Lamento muito. Receio que ele nunca mais 
venha a ser o mesmo.
     Tanner ali ficou, as mos cerradas, o rosto lvido.
     -        O seu irmo est acordado, neste momento. Pode ir v-lo, mas unicamente durante alguns minutos.
     Quando Tanner entrou no quarto de hospital de Andrew, ele tinha os olhos abertos. Ficou a olhar fixamente para o visitante, uma expresso vazia no rosto.
      O telefone tocou e Tanner atendeu. Era o general Barton.
     -         Lamento muito o que se passou com o seu...
             Seu filho da me! Voc garantiu-me que o meu irmo no corria qualquer perigo.
     - No fao idia do que se passou, mas garanto-lhe que...
     Tanner desligou o telefone com toda a fora. Ouviu a voz do irmo e virou-se.
     - Onde... Onde estou eu? - balbuciou Andrew.
     - Ests no Walter Reed Hospital, em Washington.
     -        Porqu? Quem est doente?
     -        Tu, Andrew.
     - O que foi que aconteceu?
     - Alguma coisa correu mal com a experincia.
     -        No me lembro...
     -        No faz mal. No te preocupes. Vamos cuidar de ti. Eu garanto-te.
     Tanner ficou a ver os olhos de Andrew a fecharem-se. Deitou uma ltima olhadela ao irmo deitado naquela cama e saiu do quarto.
     A Princesa mandou flores para o hospital. Tanner planeara telefonar-lhe, mas a secretria dele dissera-lhe:
     -        Oh, ela telefonou. Disse que precisava de sair da cidade. Telefona-lhe assim que voltar.
     Uma semana mais tarde, Andrew e Tanner estavam de regresso a Nova Iorque. A notcia do que acontecera a Andrew correra clere pelo KIG. Sem ele a dirigir, continuaria 
o KIG a sua existncia? Assim que as notcias sobre o acidente se tornassem do conhecimento do pblico, com certeza que iriam prejudicar a imagem do KIG.
     Isso no tem qualquer importncia, pensou Tanner. Eu vou fazer desta empresa o maior diink tank do mundo. Agora vou poder dar  Princesa muito mais do que aquilo 
que ela alguma vez sonhou. Dentro de poucos anos...
     A secretria de Tanner ligou.
     -        Est aqui um motorista de limusina que lhe quer falar.
     -        Mande-o entrar - ordenou o intrigado Tanner.
     Um motorista uniformizado entrou, empunhando um envelope.
     -        Senhor Tanner Kingsley?
     -        Exactamente.
     -        Pediram-me que lhe entregasse pessoalmente este envelope.
     Deu-lhe o envelope e saiu.
     Tanner olhou para o envelope e sorriu. Reconheceu a escrita da Princesa. Ela imaginara qualquer coisa para o surpreender. Ansioso abriu-o. A mensagem dizia:
     No vai resultar, meu querido. Neste momento, preciso de muito mais do que aquilo que tu me podes dar, por isso vou casar com outra pessoa, que est em condies 
de o fazer. Amo-te e sempre te amarei Sei que vais ter dificuldade em acreditar no que te digo, mas a verdade  que o que fao  para o bem de ambos.
     O rosto de Tanner ficou plido. Ficou a olhar para a mensagem durante muito tempo e em seguida deixou-a cair nervosamente dentro do cesto dos papis.
     O seu triunfo chegara um dia atrasado.
     
CAPTULO 18
     
      No dia seguinte, Tanner estava calmamente sentado no seu gabinete quando a secretria lhe ligou.
     -        Est aqui uma comisso para falar com o senhor.
     -        Uma comisso?
     -        Exactamente.
     -        Eles que entrem.
     Supervisores de vrios departamentos do KIG entraram no gabinete de Tanner.
     -        Senhor Kingsley, gostaramos de lhe dar uma palavrinha.
     -        Faam o favor de se sentarem.
     Todos se sentaram.
     -        Qual  o problema?
     Um dos encarregados comeou:
     -        Bom...  que ns estamos um pouco preocupados. Depois do que aconteceu ao seu irmo... O KIG vai continuar a funcionar?
     Tanner abanou a cabea.
     -        No fao idia. Neste momento, ainda estou em estado de choque. No consigo aceitar o que aconteceu a Andrew. - E ficou por momentos pensativo. - Mas 
eu digo-vos o que vou fazer. No posso predizer as nossas hipteses, mas, pelo meu lado, vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para que permaneamos a funcionar. 
Esta  uma promessa que eu prprio fao. Manter-vos-ei ao corrente.
     Ouviram-se murmrios de aprovao e Tanner ficou a ver os homens sair.
      No dia em que Andrew saiu do hospital, Tanner colocou-o numa das casas do pessoal que havia nas instalaes, onde facilmente podiam cuidar dele, e deu-lhe 
um gabinete mesmo ao lado do seu. Os empregados ficaram atnitos ao ver o que acontecera a Andrew.
     Passara de um cientista brilhante e atento para um zombie. A maior parte do dia passava-o sentado numa cadeira, a olhar pela janela, meio a dormir, mas parecia 
feliz por estar de volta ao KIG, embora tivesse apenas uma vaga idia do que fazia ali. Todos os empregados estavam comovidos com a forma como Tanner tratava bem 
do irmo e pela solicitude e cuidado que demonstrava para com ele. A atmosfera no KIG mudou quase de um dia para o outro. Quando fora Andrew a dirigi-la, tudo era 
informal. Agora, de repente, transformara-se numa empresa formal e era gerida como um verdadeiro negcio, em lugar da anterior filantropia. Tanner comeou a enviar 
agentes para fora da empresa com a finalidade de angariarem clientes. Os negcios comearam a florescer a uma velocidade extraordinria.
     A notcia da mensagem de adeus de Princesa espalhou-se rapidamente pela empresa. Os empregados que se tinham preparado para um casamento interrogavam-se como 
Tanner ia encaixar este rude golpe. Houve inmeras especulaes entre o pessoal sobre o que ele faria depois desta rejeio.
     Dois dias depois de Tanner ter recebido a carta, apareceu uma notcia nos jornais a anunciar que a que fora noiva de Tanner se casara com Edmond Barclay, um 
milionrio e grande senhor dos media. As nicas alteraes no comportamento de Tanner foi um aumento na rabugice e uma tica de trabalho que era ainda mais forte 
do que anteriormente. Todas as manhs passava duas horas sozinho, a trabalhar num projecto que estava envolto em total secretismo.
     Uma noite, Tanner foi convidado para falar na MENSA, a sociedade de pessoas de QI elevado. Como muito dos empregados do KIG eram seus membros, ele acabara por 
aceitar.
     Quando chegou, na manh seguinte, ao quartel-general, estava acompanhado por uma das mais belas mulheres que os seus empregados alguma vez tinham visto. Tinha 
aspecto latino, olhos escuros, uma tez cor de azeitona e uma figura sensacional.
     Tanner apresentou-a ao pessoal.
     - Esta  Sebastiana Cortez. Discursou ontem na MENSA. Uma apresentao brilhante.
      De repente, toda a atitude de Tanner parecia mais ligeira. Levou-a para o seu escritrio e no voltaram a aparecer durante uma hora. Quando saram, almoaram 
na sala de jantar particular de Tanner.
     Uma das funcionrias fez uma busca sobre Sebastiana na internet. Era uma antiga Miss Argentina e vivia em Cincinati, onde estava casada com um proeminente homem 
de negcios.
     Quando regressaram ao escritrio dele depois do almoo, a voz de Tanner ouvia-se na recepo atravs do intercomunicador, que ele deixara ligado.
     -        No te preocupes, querida. Acabamos por descobrir uma maneira de resolver as coisas.
     As secretrias juntaram-se em redor do intercomunicador, ouvindo interessadamente a conversa.
     -        Temos de ter muito cuidado. O meu marido  um homem muito ciumento.
     -        No vai haver problema. Tratarei de tudo para que nos continuemos a manter em contacto.
     No era preciso ser-se um gnio para perceber o que estava a acontecer. As secretrias estavam com dificuldade em evitar o riso.
     -        Tenho muita pena que tenhas de regressar j a casa.
     -        Tambm eu. Quem me dera poder ficar, mas no  possvel.
     Quando Tanner e Sebastiana saram do escritrio, eram a imagem do decoro. Os empregados deliciaram-se com a idia de que Tanner no imaginava que eles sabiam 
o que se passava.
     No dia seguinte  partida dela, Tanner mandou vir um telefone banhado a ouro, para ser instalado no seu escritrio com um misturador digital. A sua secretria 
e as assistentes tinham ordens expressas para nunca o atenderem.
     Da em diante, Tanner falava no telefone dourado praticamente todos os dias e no fim de cada ms partia para um prolongado fim-de-semana de onde regressava 
com aspecto refrescado. Nunca disse aos empregados onde ia, mas eles adivinhavam.
     Dois dos assistentes de Tanner estavam a conversar e um deles disse ao outro:
     - A palavra rendez-vous diz-te alguma coisa?
     A vida amorosa de Tanner recomeara novamente e a mudana nele era bem visvel. Todos andavam satisfeitos.
     
CAPTULO 19
     
     As palavras martelavam continuamente na cabea de Diane Stevens. Fala Ronjones. Era s para lhe dizer que recebemos os documentos que nos enviou e que a mudana 
de planos j foi levada a cabo, tal como nos pediu... Acabmos de cremar o corpo do seu marido h cerca de uma hora.
     Como  que uma funerria conseguira cometer um erro daqueles? No meio da sua dor, seria possvel que lhes tivesse telefonado e pedido que cremassem Richard? 
Jamais. E, alm disso, no tinha qualquer secretria. Nada daquilo fazia sentido. Algum na funerria percebera mal, confundira o nome de Richard com o nome de outra 
pessoa.
     Tinham entregue a urna com as cinzas dele. E Diane esperara a olhar para ela. Richard estava mesmo ali dentro?... E o seu riso, tambm l estava?... E os braos 
que a tinham apertado... E os lbios quentes que comprimira contra os seus... A mente que fora to brilhante e to divertida.. A voz que lhe dizia alto "Amo-te"... 
Todos os seus sonhos e as suas paixes e mais mil e uma coisas, ali dentro daquela pequena urna?
     Cinzas...
     
     Os seus pensamentos foram interrompidos pelo toque do telefone.
     -        Senhora Stevens?
     -        Sim...
     -        Fala do gabinete do senhor Tanner Kingsley. O senhor Kingsley gostaria de saber se seria possvel marcar uma hora para poder encontrar-se aqui nas 
nossas instalaes.
     Isto passara-se h dois dias e agora Diane atravessava a entrada do KIG e aproximava- se da secretria na recepo.
     -        Em que posso ser til? - perguntou a recepcionista.
     -        O meu nome  Diane Stevens e tenho uma reunio marcada com o senhor Tanner Kingsley.
     -        Oh! Senhora Stevens! Todos ns lamentamos muito o que aconteceu ao seu marido. Mas que coisa horrvel. Horrvel.
     Diane engoliu em seco. - Pois foi.
     
     Tanner dizia a Retra Tyler:
     -        Vou ter agora duas reunies. Quero que as graves e as examines. - E ficou a olhar enquanto o seu assistente saa.
     O intercomunicador soou:
     -        Senhor Kingsley, est aqui a senhora Stevens para falar consigo.
     Tanner premiu um dos botes no painel electrnico sobre a sua secretria e Diane Stevens surgiu num dos ecrs de televiso na parede. Trazia o cabelo louro 
amarrado num carrapito e vestia uma saia de riscas azuis escuras e brancas e uma blusa branca. Tinha um aspecto plido.
     -        Mande-a entrar, por favor.
     Olhou enquanto Diane cruzava a porta e ergueu-se para a cumprimentar.
     -        Obrigado por ter vindo, senhora Stevens.
     -        Bom dia - cumprimentou Diane.
     -        Queira sentar-se, por favor.
     Diane sentou-se numa cadeira em frente dele, do outro lado da secretria.
     -        Escusado ser dizer que ficmos todos imensamente chocados com o brutal assassnio do seu marido. Posso garantir-lhe que tudo faremos para que a pessoa 
responsvel seja presente  Justia o mais brevemente possvel.
     -        Se no se importa, gostaria de lhe fazer algumas perguntas.
     -        Sim?
     -        O seu marido falava muitas vezes consigo sobre o seu trabalho?
     Diane abanou a cabea.
     -        No, nem por isso. Era uma parte separada da nossa vida de casal, porque era muito tcnica.
     Na sala de vigilncia ao fundo do corredor, Retra Tyler ligou um aparelho identificador de voz, um analisador da tenso na voz e um vdeo gravador e comeou 
a gravar a cena que decorria no gabinete de Tanner.
     -        Imagino que lhe seja muito difcil falar nisto - prosseguiu Tanner - mas o que sabe, de facto, sobre a ligao que o seu marido com drogas?
     Diane olhava fixamente para ele, demasiado estupefacta para conseguir responder. Por fim, reuniu foras:
     -        Desculpe? Mas que pergunta  essa? Richard jamais teve alguma coisa a ver com drogas.
     -        Senhora Stevens, a polcia encontrou uma mensagem ameaadora da Mfia dentro do bolso do casaco dele e...
     A idia de que Richard pudesse estar envolvido com drogas era simplesmente impensvel. Teria ele uma vida secreta sobre a qual ela nada sabia? No, no, no.
     O corao dela comeou a bater fortemente e sentiu o sangue a subir-lhe ao rosto. Eles mataram-no para me castigarem a mim?
     -        Senhor Kingsley, Richard no...
     O tom na voz de Tanner era compreensivo, mas ao mesmo tempo determinado.
     -        Lamento muito obrig-la a passar por isto, mas estou decidido a saber a razo do que aconteceu ao seu marido.
     Saber a razo, pensou, infeliz, Diane. Sou eu quem tu buscas. Richard morreu porque eu testemunhei contra Auieri. E comeou a hiperventilar. Tanner Kingsley 
observava-a e em seguida disse:
     -        No lhe vou tomar muito do seu tempo. Vejo como ficou perturbada. Falaremos depois. Pode ser que se lembre de alguma coisa.
     Se achar que h algo que possa ser til, ficaria muito satisfeito se entrasse em contacto comigo. - E Tanner abriu uma gaveta e tirou um carto de visita personalizado. 
- Este  o meu nmero privado de celular. Encontra-me nele a qualquer hora do dia ou da noite.
     Diane guardou o carto. S tinha o nome de Tanner e um nmero de telefone.
     Diane ergueu-se, as pernas a tremer.
     -        Peo desculpa por t-la feito passar por isto. Entretanto, se houver alguma coisa que eu possa fazer por si, seja o que for, estou  sua disposio.
     Diane mal conseguia falar:
     -        Muito obrigada. Agradeo-lhe muito. - E virou-se e saiu do gabinete meio atordoada.
     Assim que Diane chegou  recepo, ouviu a mulher que estava atrs da secretria dizer para algum:
     -        Se eu fosse supersticiosa, acreditava que algum lanou uma praga sobre o KIG. E agora o seu marido, senhora Harris. Ficmos todos to chocados quando 
tivemos conhecimento da coisa horrvel que lhe aconteceu. Morrer assim  horrvel.
     As palavras soaram-lhe sinistramente conhecidas. O que teria acontecido ao marido dela? Diane virou-se para ver a quem  que a recepcionista se dirigia. Era 
uma jovem afro-americana de cortar a respirao, que vestia umas calas pretas com uma camisa de seda de gola alta. No dedo tinha um anel com uma enorme esmeralda 
e um anel de casamento de diamantes. Diane, de repente, teve a sensao de que era muito importante que falasse com ela.
     No momento em que Diane se comeou a aproximar, surgiu a secretria de Tanner.
     - O senhor Kingsley vai j receb-la.
     E Diane ficou a ver Kelly Harris desaparecer entrando no gabinete de Tanner Kingsley.
     Tanner ergueu-se para cumprimentar Kelly.
     -        Muito obrigada por ter vindo, senhora Harris. O seu vo foi agradvel?
     -        Foi, sim, obrigada.
     -        Quer tomar alguma coisa? Caf ou...?
     Kelly abanou a cabea.
     -        Imagino como estes momentos devem ser difceis para si, senhora Harris, mas preciso de lhe fazer algumas perguntas.
     Na sala de vigilncia, Retra Tyler observava Kelly no ecr de televiso e no registo.
     -        A senhora e o seu marido tinham uma relao estreita? - perguntou Tanner.
     -        Muito.
     -        Diria que ele era honesto consigo?
     Kelly olhou para ele espantada.
     -        No tnhamos segredos. Mark era o ser humano mais honesto e mais aberto que alguma vez conheci. Ele... - E Kelly sentiu dificuldade em continuar.
     -        Ele falava muitas vezes consigo sobre o seu trabalho?
     -        No. O que ele fazia era muito... muito complicado. Normal mente no falvamos nele.
     -        A senhora e o seu marido tinham muitos amigos russos?
     Kelly olhou espantada para ele.
     -        Senhor Kingsley, no percebo onde quer chegar com estas perguntas...
     - O seu marido alguma vez lhe disse um grande negcio e que ia ganhar muito dinheiro?
     Kelly comeava a ficar incomodada. - No, e, se assim fosse, o Mark ter-me-ia dito.
     -        Ele alguma vez lhe falou de Olga?
     Kelly, de repente, comeou a imaginar onde a conversa ia chegar.
     -        Senhor Kingsley, onde est exactamente a querer chegar?
     - A polcia de Paris encontrou um recado num dos bolsos do seu marido. Mencionava uma recompensa por uma informao que fora dada e vinha assinada "Com amor, 
Olga".
     Kelly ficou sentada, sem se mexer.
     -        Eu... Eu no sei o que...
     -        Mas disse-me que falavam de tudo.
     -        Sim, mas...
     -        Por aquilo que nos foi dado saber, aparentemente o seu marido andava envolvido com esta mulher e...
     -        No! - E Kelly levantou-se. - Esse no  o Mark de quem estvamos a falar. J lhe disse, no havia quaisquer segredos entre ns.
     -        Tirando aquele que estar por detrs da causa da morte dele.
     De repente, Kelly sentiu que estava prestes a desmaiar.
     -        Peo desculpa... senhor Kingsley, mas no me estou a sentir bem.
     Ele tornou-se imediatamente solcito.
     -        Compreendo perfeitamente. Gostava de poder ajudar. - E Tanner deu-lhe o seu carto pessoal. - Pode entrar em contacto comigo por este nmero a qualquer 
hora, senhora Harris.
     Kelly acenou com a cabea, incapaz de falar, e, atordoada, saiu do gabinete.
     A cabea de Kelly fervilhava quando ele abandonou o edifcio. Mas quem era Olga ? E porque  que Mark andava metido com russos ? Porque  que ele...
     
     -        Desculpe, senhora Harris.
     Kelly virou-se:
     -        Sim?
     Uma mulher loura e atraente estava parada do lado de fora do edifcio.
     -        O meu nome  Diane Stevens e gostaria de falar consigo. Do outro lado da rua h um caf.
     Lamento, mas eu agora no posso falar. - E Kelly comeou a andar.
     -  sobre o seu marido.
     Kelly parou abruptamente e virou-se:
     Sobre Mark? O que  que se passa?
     Podemos falar num local com mais privacidade?
     **
     No escritrio de Tanner, ouviu-se a voz da secretria vinda do inter-comunicador:
     -        Est aqui o senhor Higholt.
     -        Mande entrar.
     Um minuto depois, Tanner cumprimentava-o.
     -        Boa tarde, John.
     -        Boa? Tem sido uma merda de uma tarde, Tanner. Parece que todos nesta empresa esto a ser assassinados. Mas que raio  que se passa?
     -        E isso mesmo que eu pretendo descobrir. No acredito que a morte repentina de trs dos meus empregados seja pura coincidncia. Anda algum l fora 
interessado em prejudicar a reputao desta empresa, mas vamos descobrir quem  e conseguir parar com isto.
     A polcia concordou em cooperar connosco e eu tenho gente a tentar seguir os movimentos dos trs que foram mortos. Gostaria que visse as duas entrevistas que 
acabei de gravar. So com as vivas de Richard Stevens e Mark Harris. Est pronto?
     -        Avance.
     -        Esta  Diane Stevens. - Tanner premiu um boto e a sua entrevista com Diane Stevens surgiu no ecr. No canto direito deste havia um grfico que ia 
traando linhas para cima e para baixo  medida que ela falava.
     -O que sabe, de facto, sobre a ligao que o seu marido tinha com drogas ?
     -        Desculpe? Mas que pergunta  essa? Richard jamais teve alguma coisa a ver com drogas.
     As imagens grficas permaneciam constantes. Tanner premiu o boto que avanava a fita rapidamente para a frente.
     -        E esta  a senhora Mark Harris, cujo marido foi empurrado ou caiu do cimo da torre Eiffel.
     E uma imagem de Kelly surgiu no ecr.
     - Ele alguma vez lhe falou de Olga?
     -        Senhor Kingsley, onde est exactamente a querer chegar?
     - A polcia de Paris encontrou um recado num dos bobos do seu marido Mencionava uma recompensa por uma informao que fora dada e vinha assinada "Com amor, 
Olga".
     -        Eu... eu no sei o que...
     -        Mas disse-me que falavam de tudo.        .
     -        Sim, mas...
     - Por aquilo que nos foi dado saber, aparentemente o seu marido andava envolvido com esta mulher e...
     -        No! Esse no  o Mark de quem estvamos a falar. J lhe disse, no havia quaisquer segredos entre ns.
     As linhas no grfico do analisador de tenso na voz permaneciam regulares. A imagem de Kelly desapareceu.
     -        O que eram aquelas linhas no ecr? - perguntou John Higholt.
     -        Aquilo  um analisador de tenso, um CVSA. Regista os micro-tremores na voz humana. Se o sujeito estiver a mentir, as ondulaes das freqncias de 
udio aumentam.  este o estado em que a tecnologia se encontra. J no so precisos fios, como nos polgrafos. Estou convencido de que as duas mulheres disseram 
a verdade. Tm de ser protegidas.
     John Higholt franziu o sobrolho: - O que quer dizer? Protegidas do qu?
     -        Penso que elas correm perigo. Que, inconscientemente, tm muito mais informao do que aquilo que pensam. Eram ambas muito prximas dos maridos. Estou 
convencido de que, em algum momento, algo de revelador pode ter sido dito que lhes escapou na altura, mas que se encontra guardado nos bancos das suas memrias.
     O mais natural  que, quando comearem a pensar no assunto, se lembrem do que foi. E, nesse momento, as vidas delas correm perigo, pois quem quer seja que lhes 
matou os maridos pode planear mat-las tambm. E eu tenho todas as intenes de fazer com que nada de mal lhes acontea.
     -        Quer que elas sejam seguidas?
     -        Isso era antigamente, John. Hoje em dia usamos equipamento electrnico. O apartamento da Stevens j foi posto sob vigilncia, com cmaras, telefones, 
microfones, tudo. Estamos a empregar toda a tecnologia que temos  nossa disposio para as guardar. No momento em que algum as tentar atacar, ficaremos imediatamente 
a saber.
     John Higholt ficou, por momentos, pensativo.
     -        E quanto a Kelly Harris?
     -        Essa est num hotel. Infelizmente, no nos foi possvel entrar na suite dela e preparar as coisas. Mas tenho homens no trio e, se houver qualquer 
sinal de perigo, eles encarregam-se do assunto. - Tanner hesitou. - Quero que o KIG oferea uma recompensa de cinco milhes de dlares para quem der informaes 
que conduzam  priso de...
     -        Ei, Tanner, espere a - objectou John Higholt. - No  preciso nada disso. Resolvemos isto e...
     -        Muito bem. Se no for o KIG a faz-lo, fao-o eu pessoalmente.
     O meu nome est identificado com o desta empresa. - E a voz dele endureceu. - Eu quero apanhar seja quem for que est por detrs disto.
     
CAPTULO 20
     
     No caf em frente s instalaes do KIG, Diane Stevens e Kelly Harris sentavam-se a uma mesa de canto. Kelly aguardava que Diane falasse.
     Esta no sabia como comear. Qual foi a coisa horrvel que aconteceu ao seu marido, senhora Harris? Ele tambm foi assassinado, como Richard?
     -        Ento? Disse que me queria falar sobre o meu marido. Conhecia bem Mark? - disse Kelly impacientemente.
     -        Eu no o conhecia, mas...
     Kelly ficou furiosa.
     -        Mas voc disse que...
     -        Eu disse que queria falar consigo sobre ele.
     Kelly levantou-se.
     -        Minha senhora, eu no tenho tempo para isto. - E comeou a dirigir-se para a porta.
     - Espere! Acho que temos as duas o mesmo problema e podemo-nos ajudar mutuamente.
     Kelly parou.
     -        Do que  que est a falar?
     -        Por favor, sente-se.
     Relutante, Kelly regressou ao seu lugar.
     - Diga l.
     -        Queria perguntar-lhe se...
     Um criado aproximou-se delas com a carta.
     -        O que desejam?
     Sair daqui para fora, pensou Kelly.
     -        Para mim, nada.
     -        Dois cafs - respondeu Diane.
     Kelly olhou para ela e respondeu em tom de desafio:
     -        Eu prefiro ch.
     -        Sim, minha senhora. - E o criado foi-se embora.
     -        Acho que eu e a senhora... - comeou Diane a dizer.
     Uma mida aproximou-se da mesa e dirigiu-se a Kelly:
     - Pode dar-me o seu autgrafo? Kelly olhou para ela.
     -        Sabes quem eu sou?
     -        Eu no, mas a minha me disse que era importante.
     -        No sou, no - respondeu Kelly.
     -        Oh!
     E ficou a ver a mida a ir-se embora.
     Diane olhava para ela, intrigada.
     -        Eu devia saber quem voc ?
     -        No. - E Kelly continuou de forma contundente: - E no gosto de bisbilhoteiros a meterem o nariz na minha vida. Vamos l a saber o que  que se passa, 
senhora Stevens.
     -        Chame-me Diane, por favor. Ouvi dizer que o seu marido sofreu um acidente horrvel e...
     -        Sim. Foi morto. - Ele alguma vez lhe falou de Olga?
     -        O meu marido tambm foi morto. E ambos trabalhavam para o KIG.
     -        E depois? - exclamou Kelly, impaciente. - Assim como milhares de outras pessoas. E se dois deles apanharem uma constipao, vai achar que se trata 
de uma epidemia?
     Diane debruou-se sobre a mesa:
     -        Olhe, isto  importante. Primeiro que tudo...
     -        Lamento muito, mas no me apetece estar a ouvir isto - respondeu Kelly, e pegou na carteira.
     -        No lhe apetece estar a ouvir isto - respondeu, furiosa, Diane - mas pode muito bem...
     A voz de Diane de repente ouviu-se em todo o caf.
     -        Havia quatro homens na sala...
     Sobressaltadas, Diane e Kelly viraram-se para a origem do som. A voz dela vinha de um aparelho de televiso sobre o balco. Estava no Tribunal, sentada no banco 
das testemunhas.
     - Um deles estava amarrado e sentado numa cadeira. O senhor Altieri parecia interrog-lo enquanto os outros dois homens estavam junto dele. O senhor Altieri 
puxou de uma arma, berrou qualquer coisa e... disparou sobre o homem na cabea.
     O apresentador apareceu no ecr.
     -        Acabmos de ouvir o testemunho de Diane Stevens, no julgamento por assassnio do chefe da Mfia, Anthony Altieri. O jri acabou de entregar um veredicto 
de no culpado.
     Diane ficou sentada, atordoada. "No culpado?"
     -        O homicdio que teve lugar h quase dois anos levou a que Anthony Altieri fosse acusado da morte de um dos seus empregados. Apesar do testemunho de 
Diane Stevens, o jri acreditou em outros testemunhos que a contradisseram.
     Kelly olhava espantada para o ecr. Uma nova testemunha surgiu a depor no banco.
     Jake Rubinstein, o advogado de Altieri perguntava:
     -        Dr. Russel, o senhor tem consultrio montado em Nova Iorque? '.
     -        No. Eu exero unicamente em Boston.
     -        No dia em questo, tratou o senhor Altieri de algo relacionado com problemas de corao ?
     -        Exactamente. Cerca das nove da manh. E mantive-o em observao durante o resto do dia.
     -Portanto, ele no podia ter estado em Nova Iorque, a catorze de Outubro ?
     -        De forma nenhuma Outra testemunha apareceu no ecr.
     -        Importa-se de nos dizer qual a sua ocupao ?
     -        Sou gerente do Hotel Boston Park.
     -        Estava de servio no dia catorze de Outubro ?
     -        Sim, estava.
     -        E nesse dia passou-se alguma coisa de especial?
     -        Sim. Recebi um telefonema urgente da suite do ltimo andar, pedindo para mandar um mdico com a maior urgncia.
     -        E o que se passou a seguir?
     -        Liguei para o doutor Joseph Russell e pedi-lhe que viesse imediatamente. Assim que ele chegou, subimos para a sute para ver o que se passava com o 
hspede, o senhor Altieri.
     -        E o que foi que viu quando l chegou ?
     -        O senhor Altieri estava cado no cho.
     
     Diane empalideceu.
     -        Eles esto a mentir - disse com voz rouca. - Os dois.
     Anthony Altieri estava a ser entrevistado. Tinha um aspecto frgil e doente.
     -        Tem alguns planos para o futuro imediato, senhor Altieri?
     -        Agora que foi feita justia, vou levar as coisas com calma. - Altieri sorriu debilmente. - Talvez cobrar umas dvidas antigas.
     Kelly no sabia o que dizer. Virou-se para Diane.
     -        Voc testemunhou contra ele?
     -        Testemunhei. Eu vi-o matar...
     As mos a tremer de Kelly entornaram um pouco do ch por cima de um saleiro.
     -        Eu vou-me pr a andar daqui para fora.
     -        Porque  que ficou assim to nervosa de repente?
     -        Porque  que fiquei nervosa? Voc tentou mandar o chefe da Mfia para a cadeia e ele agora est livre e diz que vai cobrar algumas dvidas antigas, 
e voc ainda me pergunta porque  que eu estou assim nervosa? Eu, no seu lugar, estaria bem nervosa. - Kelly levantou-se e lanou umas moedas sobre a mesa. - Eu 
pago. E melhor que poupe o seu dinheiro para poder fazer uma viagem, senhora Stevens.
     -        Espere! No falmos sequer dos nossos maridos, nem...
     -        Esquea. - Kelly dirigiu-se para a porta e Diane, relutante, acabou por a acompanhar.
     -        Acho que est a exagerar - disse Diane.
     -        Acha?
     No momento em que chegaram  porta, Kelly disse:
     -        No consigo perceber como  que foi to estpida a ponto de...
     Um senhor de idade que acabava de entrar escorregou e comeou a cair. Por instantes, Kelly viu-se em Paris e era Mark quem caa, e dobrou-se para o ajudar, 
e no mesmo instante Diane atirou-se tambm para a frente para o ajudar. Nesse preciso instante, do outro lado da rua, ouviu-se o som de dois disparos e as balas 
esmagaram-se na parede onde as mulheres tinham acabado de estar. A exploso trouxe Kelly de imediato de volta  realidade. Estava em Manhattan e acabara de tomar 
ch com uma mulher maluca.
     -        Meu Deus! - exclamou Diane. - Ns...
     - Agora no  altura para comear a rezar. Vamos mas  pirar-nos daqui para fora!
     E Kelly puxou Diane at  curva onde Colin estava, junto da limusina. Ele abriu a porta e Kelly e Diane entraram de rompante para o banco traseiro.
     -        O que foi aquele barulho? - perguntou ele.
     As duas mulheres estavam sentadas, atordoadas, incapazes de falar. Por fim, Kelly respondeu:
     -        Eeer... Deve ter sido um tubo de escape - e virou-se para Diane, que se tentava recompor. - Espero no estar a exagerar - comentou, sarcstica. - Eu 
deixo-a em casa. Onde mora?
     Diane respirou fundo e deu a Colin a morada do apartamento.
     As duas mulheres viajaram em glido silncio, abaladas por tudo o que acabara de se passar.
     Assim que o carro parou em frente do prdio, Diane virou-se para Kelly:
     -        Importa-se de entrar? Ainda estou um pouco abalada e tenho a sensao de que ainda se vo passar mais coisas.
     Kelly respondeu secamente:
     -        Tambm eu... Mas a mim no me vai acontecer mais nada.
     Adeus, senhora Stevens.
     Diane olhou por momentos para Kelly e ia comear a dizer qualquer coisa, mas desistiu, abanou a cabea e saiu do carro.
     Kelly ficou a olhar enquanto Diane passava pelo trio do prdio! e entrava no seu apartamento no primeiro andar, e depois deu um suspiro de alvio.
     Colin perguntou:
     -        E agora para onde, senhora Harris?
     -        De volta ao hotel, Colin, e...
     Ouviu-se um grito que vinha do apartamento. Kelly hesitou um instante e em seguida abriu a porta do carro e correu para dentro do prdio. Diane deixara a porta 
do apartamento escancarada e estava no meio da sala a tremer.
     -        O que foi que aconteceu?
     -        Algum... algum entrou aqui. A pasta de Richard que estava sobre a mesa desapareceu. Estava cheia de papis. E no seu lugar deixaram a aliana de 
casamento dele.
     Kelly olhou em redor, nervosa.
     -        O melhor  chamar a polcia.
     -        Concordo.
     E Diane lembrou-se do carto que o detective Greenburg deixara em cima da mesa. Dirigiu-se  mesa, pegou no carto e um minuto depois falava ao telefone:
     -        Queria falar com o detective Greenburg, por favor.
     Momentos depois ouviu-se:
     -        Greenburg.
     -        Detective Greenburg, fala Diane Stevens. Aconteceu uma coisa c em casa. Ser que podia vir c e... Muito obrigada.
     Diane respirou fundo e virou-se para Kelly:
     -        Ele vem j. Se no se importar de esperar at ele...
     -        Claro que me importo. Este problema  seu. E eu no queo ter nada a ver com isto. E, j agora, pode dizer-lhe que houve algum que a tentou matar. 
Eu, quanto a mim, vou partir para Paris. Adeus, senhora Stevens.
     E Diane ficou a ver Kelly sair e entrar na limusina.
     -        Para onde? - perguntou Colin.
     -        Para o hotel, por favor.
     Onde estaria a salvo.
     
CAPTULO 21
     
      Quando Kelly regressou ao seu quarto de hotel constatou que continuava perturbada com o que se passara. A sensao de ter estado to perto de ser morta era 
terrvel. A ltima coisa que eu agora preciso  de uma loura maluca a fazer com que me matem.
     Deixou-se cair num sof enquanto se tentava acalmar e fechou os olhos. Tentou meditar e concentrar-se num mantra, mas sem sucesso. Estava demasiado perturbada. 
Havia uma sensao de vazio, de solido, enraizada dentro dela. Mark, sinto tanto a tua falta. As pessoas dizem que com o tempo passa, que me vou sentir melhor. 
Mas no  verdade, meu querido. Cada novo dia  pior do que o anterior.
     O som de um carrinho com comida a ser empurrado pelo corredor fez com que Kelly se apercebesse de que no tinha comido nada durante todo o dia. No sentia fome, 
mas sabia que tinha que manter as foras.
     Telefonou para o servio de quartos:
     -        Quero uma salada de camaro e ch quente, por favor.
     -        Com certeza. Estar a dentro de vinte cinco a trinta minutos, senhora Harris.
     -        ptimo.
     E Kelly desligou. Deixou-se ficar sentada a rever mentalmente o seu encontro com Tanner Kingsley e sentiu-se como se tivesse sido acabada de lanar num tremendo 
pesadelo. O que diabo se passava? Porque  que o Mark nunca lhe falara de Olga? Seria uma relao de negcios ? Um romance? Mark, meu querido, quero que tu saibas 
que se tiveste um romance com algum, eu te perdoo, porque eu amo-te e amar-te-ei sempre. Tu ensinaste-me o que era o amor. Eu era uma pessoa fria e tu foste capaz 
de me aquecer. Devolveste-me o meu orgulho, e fizeste com que eu me sentisse uma mulher.
     Pensou em Diane. Aquela bisbilhoteira acabou por pr a minha vida em risco. Ali est algum a evitar. O que no vai ser difcil. Amanh j estarei em Paris, 
com a Angel.
     Os seus pensamentos foram interrompidos pelo som de algum bater  porta: "Servio de quartos".
     -        Um momento, por favor. - Kelly levantou-se e dirigiu-se para a porta, quando de repente estacou, perplexa. Acabara h uns minutos de encomendar. To 
rpido! - S um momento - pediu.
     -        Com certeza.
     Kelly pegou no telefone e ligou para o servio de quartos.
     -        O meu pedido ainda no chegou.
     -        Estamos a termin-lo, senhora Harris. Estar a daqui a quinze ou vinte minutos.
     Kelly desligou, com o corao a bater descompassado. Ligou para a telefonista.
     -        Tem... tem um homem a tentar entrar no meu quarto.
     -        Vou j mandar o segurana, senhora Harris.
     Dois minutos depois ouviu de novo a baterem  porta. Kelly dirigiu-se receosa para a porta.
     -        Quem ?
     -        Segurana.
     Kelly olhou para o relgio. Demasiado rpido.
     -        J abro. - E correu para o telefone e ligou de novo para a telefonista.
     -        Eu liguei agora mesmo a pedir segurana e...
     -        Ele vai j a caminho, senhora Harris. Deve chegar a dentro de um minuto ou dois.
     -        E como  que ele se chama? - A voz dela estava tensa de medo.
     -        Thomas.
     Kelly ouvia murmrios do lado de fora da porta. Comprimiu o ouvido contra a porta at que o som das vozes desapareceu. Ali ficou, aterrorizada.
     Um minuto mais tarde bateram  porta.
     -        Quem ?
     -        Segurana.
     -        Bill? - perguntou Kelly, e susteve a respirao.
     -        No, senhora Harris. O meu nome  Thomas.
     Kelly abriu imediatamente a porta e deixou-o entrar.
     Ele olhou por momentos para ela e perguntou:
     - O que foi que aconteceu?
     -        Uns... uns homens tentaram entrar aqui no meu quarto.
     -Conseguiu v-los?
     -        No. S os ouvi. Importa-se de ir comigo para eu apanhar txi?
     -        Com certeza, senhora Harris.
     Kelly tentava obrigar-se a ficar calma. Demasiado estava a acontecer e demasiado depressa.
     Thomas permaneceu junto dela enquanto entraram no elevador Quando chegaram ao trio do hotel, Kelly olhou em volta, mas no conseguiu ver nada de suspeito. 
Caminharam at l fora e, quando chegaram junto da paragem dos txis, Kelly disse:
     -        Muito obrigada. Agradeo-lhe muito.
     Kelly entrou para um txi e, quanto olhou pelo retrovisor, viu dois homens a correr e a entrarem apresados para um limusina que estava parada ali perto.
     -        Para onde? - perguntou o motorista.
     A limusina colocou-se mesmo atrs do txi. Em frentes deles, um polcia dirigia o trnsito.
     -        Siga sempre em frente - pediu Kelly.
     -        Certo.
     Quando se aproximaram da luz verde, Kelly disse ao homem, ansiosa:
     -        Quero que abrande e que espere que a luz mude para amarelo, e em seguida vire rapidamente para a esquerda.
     O motorista olhou para ela pelo espelho:
     -        O qu?
     -        No passe com a luz verde. Espere que mude para amarelo.
     - Ela via a expresso do homem reflectida no espelho. Kelly obrigou-se a sorrir:
     -        Estou a tentar ganhar uma aposta.
     - Oh! - Mais um passageiro doido.
     Assim que a luz mudou de verde para amarelo, Kelly pediu:
     -        Agora!
     O txi fez uma viragem brusca para a esquerda no momento preciso em que a luz passava a vermelho. Atrs deles, o polcia parava o trnsito seguinte. Os homens 
na limusina viraram-se um para o outro, em frustrao.
     Assim que o txi percorreu um quarteiro, Kelly exclamou:
     -        Oh! Esqueci-me de uma coisa. Tenho de sair aqui.
     O motorista encostou ao passeio e Kelly saiu, dando-lhe algum dinheiro.
     -        Aqui tem.
     Ele ficou a olhar enquanto ela entrava apressadamente num edifcio de consultrios mdicos. S espero que v ver um psiquiatra.
     Na esquina, no momento em que a luz passou a verde, a limusina virou para a esquerda. O txi levava dois quarteires de vantagem e eles apressaram-se a apanh-lo.
     Cinco minutos mais tarde, Kelly chamava outro txi.
     No apartamento de Diane Stevens, o detective Greenburg perguntava:
     -        Senhora Stevens, conseguiu ver a pessoa que disparou contra si?
     Diane abanou a cabea:
     -        No, tudo se passou to depressa...
     -        Seja l quem foi, no estava a brincar. Os homens da balstica tiraram as balas da parede e eram calibre quarenta e cinco, capazes de furar uma armadura. 
A senhora teve muita sorte... - Hesitou.
     - Pensamos que a pessoa que o fez deve ter ido a mando de Anthony Altieri.
     Diane engoliu em seco. Vou levar as coisas com calma... Cobrar umas dvidas antigas.
     -        Ns estamos a verificar essa hiptese.
     Diane acenou com a cabea.
     Greenburg estudou-a por momentos: -        Quanto  pasta que desapareceu, faz alguma idia do que l estava dentro?
     -        No sei bem. Richard levava-a com ele para o laboratrio todas as manhs e trazia-a sempre para casa  noite. Uma vez vi os papis e eram coisas muito 
tcnicas.
     Greenburg pegou na aliana que estava sobre a mesa.
     -        E a senhora diz que o seu marido nunca tirava a aliana?
     -        Sim. Exactamente.
     -        Nos dias anteriores  morte dele, o seu marido agiu de alguma forma diferente, como se estivesse sob grande presso ou preocupado com alguma coisa? 
Lembra-se de alguma coisa que ele tenha dito ou feito na ltima noite que o viu?
     Era manh bem cedo, estavam deitados, nus, e Richard acariciava-lhe as coxas com suavidade e disse:
     -        Hoje  noite vou ter que trabalhar at tarde, mas guarda uma ou duas horas para mim, para quando eu chegar, meu amor.
     Ela tocara-lhe onde ele gostava de ser tocado e respondera:
     (Nota da revisora: aqui um pequeno trecho truncado. Impossvel transcrever) - o favor de dizer aos seus amiguinhos da Mfia que me deixem... e eu lutava para 
tentar no entrar em histeria.
     -        Fanfarro.
     -        Senhora Stevens?
     Diane foi bruscamente chamada  realidade.
     - No. Nada fora do normal.
     -        Vou arranjar-lhe proteco - disse Greenburg.
     A campainha da porta da frente tocou. - Est  espera de algum?
     -        No.
     Greenburg acenou com a cabea. - Eu abro.
     Caminhou at  porta e abriu-a. Kelly Harris entrou de rompante e empurrou-o para o lado. Dirigiu-se a Diane:
     -        Temos que falar.
     Esta olhou para ela espantada. - Pensei que ia a caminho de Paris!?
     -        Resolvi fazer um desvio.
     Greenburg juntou-se-lhes.
     -        Este  o detective Earl Greenburg. Kelly Harris.
     Kelly virou-se para Greenburg:
     -        Algum tentou forar a entrada no meu quarto no hotel, detective.
     -        E chamou a segurana?
     -        Chamei. J se tinham ido embora. Um segurana acompanhou-me at c abaixo.
     -        Faz alguma idia de quem eles eram?
     -        No.
     -        Quando diz que algum tentou forar a entrada no seu quar to, quer com isso dizer que tentaram forar a porta?
     -        No. Eles limitaram-se a ficar do lado de fora. Fingiram que eram do servio de quartos.
     -        E a senhora tinha pedido alguma coisa?
     -        Tinha.
     Diane interrompeu:
     -        Ento  natural que estivesse a imaginar coisas, devido ao que se passou hoje, esta manh...
     Kelly virou-se irritada para ela:
     -        Oua l. Eu disse-lhe que no queria ter nada a ver com isto nem consigo. Vou fazer as malas e partir para Paris hoje  tarde.
     E ficaram os dois a olhar enquanto ela saa.
     -        O que foi isto? - perguntou Greenburg.
     -        O marido dela foi... foi morto. Trabalhava para a mesma em presa que Richard, o Kingsley Internacional Group.
     Quando Kelly regressou ao seu hotel, dirigiu-se imediatamente  recepo:
     -        Eu vou-me embora - informou. - Pode fazer-me uma reserva no prximo avio para Paris?
     -        Com certeza, senhora Harris. Tem preferncia por alguma companhia?
     -        S quero que me tirem daqui.
     Kelly atravessou o trio, entrou num dos elevadores e premiu o boto para o quarto andar. No momento em que as portas se fechavam, dois homens foraram-nas 
a abrir e entraram. Kelly estudou-os durante uns segundos, depois saiu rapidamente para o trio. Aguardou at que as portas se fechassem e dirigiu-se s escadas 
e comeou a subir. No vale a pensa correr riscos, pensou.
     Assim que chegou ao quarto andar, um homem enorme barrava-lhe a passagem.
     -        Com licena - pediu Kelly e comeou a tentar passar por ele.
     -        Chiu! - Ele apontava-lhe uma arma com um silenciador.
     Kelly empalideceu.
     -        O que  que...
     -         Calada. Penso que tem o nmero correcto de buracos, minha senhora. A no ser que pretenda ter mais outro, esteja quieta. Muito quieta. Voc e eu vamos 
descer as escadas.
     O homem sorria, mas quando Kelly olhou mais de perto verificou que uma facada que ele recebera no lbio superior lhe repuxara a boca, obrigando-a a sorrir constantemente. 
Tinha o olhar mais gelado que Kelly alguma vez vira.
     -        Vamos embora.
     No! Eu no estou disposta a morrer por causa daquela cabra!.
     -        Ei! Espere a um segundo. Voc est enganado...
     E sentiu a arma a esmagar-se contra as costelas com tal fora que sentiu vontade de gritar.
     -        Eu disse-lhe para estar calada! Vamos a p para baixo.
     - Por favor - pediu baixinho. - Eu no sou... - A dor que Ele segurava-lhe o brao, magoando-a, a arma oculta na mo atrs das costas.
     Sentiu quando ele lhe espetou a arma contra a coluna, era terrvel. Ele apertava-lhe o brao com tanta fora que sentia o sangue a pulsar Comearam a descer 
as escadas. Chegaram ao trio. Estava cheio de gente e, quando Kelly pensou na possibilidade de gritar para pedir ajuda, o homem disse:
     -        Nem sequer pense nisso.
     E chegaram l fora. Havia uma carrinha  espera na curva. Dois carros mais acima, um polcia passava uma multa de estacionamento. O captor de Kelly conduziu-a 
para a porta traseira da carrinha.
     -        Entra - ordenou.
     Kelly olhou de soslaio para o polcia mais  frente.
     -        Est bem - berrou Kelly em voz alta e zangada. - Eu fao-o, mas antes quero dizer-lhe uma coisa. Aquilo que quer que eu faa vai-lhe custar mais cem 
dlares. Acho que  nojento.
     O polcia virara-se para ver o que se estava a passar. O homenzarro olhava firmemente para ela.
     -        Mas que raio est...
     -        Se no me pagar, ento esquea, seu sacana.
     Kelly comeou a caminhar rapidamente na direco do polcia. O homem olhava para ela. Os seus lbios sorriam, mas o seu olhar era letal.
     Kelly apontou para ele:
     -        Aquele pervertido est a incomodar-me.
     Olhou para trs, para ver o polcia que se dirigia ao matulo. Entrou para um txi que estava parado.
     Assim que o matulo comeou a entrar na carrinha, o polcia chamou-o:
     -        Espere um momento, senhor! Segundo a lei deste estado,  proibido angariar os servios de uma prostituta.
     -        Mas eu no...
     -        Mostre-me os seus papis. Como se chama?
     -        Harry Flint.
     E Flint ficou a ver o txi de Kelly a partir apressadamente dali para fora. Aquela puta! Eu mato-a! Devagarinho!
      
CAPTULO 22
     
     Kelly saiu do txi  porta do prdio de Diane, atravessou como um furaco a porta da rua e premiu o boto da campainha. A porta de casa foi aberta pelo detective 
Greenburg.
     -        Posso...?
     Kelly viu Diane na sala e passou rapidamente por ele.
     - Mas afinal o que se passa? - perguntou Diane. - Voc disse que...
     -        Voc  que me vai dizer o que se passa. Eu disse-lhe para dizer aos seus amigos da Mfia para me deixarem em paz. S que tentaram apanhar-me outra 
vez. Porque  que os seus amiguinhos esto to interessados em me matar?
     -        Eu... Eu no fao a mnima idia. Eles no... Se calhar viram-nos juntas e pensaram que somos amigas e...
     -        Pois a verdade  que no o somos, senhora Stevens. Tire-me disto.
     -        Mas, do que  que est a falar? Como  que eu posso...?
     -        Da mesma maneira que me meteu. Quero que diga ao seu amiguinho Altieri que acabmos de nos conhecer e que voc nunca me tinha visto antes. No estou 
disposta a deixar que algum me mate por causa de uma estupidez sua.
     -        Eu no posso... - respondeu Diane.
     -        Ai pode, pode. Voc vai falar com o Altieri e vai faz-lo agora.
     No saio daqui enquanto no o fizer.
     -        O que me est a pedir  impossvel - respondeu Diane. - Lamento muito que tenha acabado por ser envolvida em tudo isto, mas... - Ficou por instantes 
pensativa e em seguida virou-se para o detective Greenburg:
     -        Acha que se eu falar com Altieri ele  capaz de nos deixar s duas em paz?
     -        Ora a est uma pergunta interessante - respondeu ele. - E possvel. Principalmente se pensar que ns estamos de olho nele.
     - Quer falar pessoalmente com ele? - gaguejou Diane.
     - No. Eu... 
     - O que ela quer dizer  sim - interrompeu Kelly.
     A casa de Anthony Altieri era um edifcio clssico em pedra, do tipo colonial, em Hunterdon County, New Jersey. A enorme casa surgia no fundo de uma rua sem 
sada e estava rodeada por cinqenta acres de terra, cercados por uma enorme vedao em ferro. Nos terrenos em volta da casa havia enormes rvores, lagos e um jardim 
colorido.
     Numa guarita junto ao porto de frente estava sentado um guarda. Assim que o carro com Greenburg, Kelly e Diane se aproximou, o guarda saiu da guarita e abeirou-se 
deles.
     Reconheceu Greenburg.
     -        Boas tardes, tenente.
     -        Como ests, Csar? Queremos falar com o senhor Altieri.
     -        Traz um mandado de captura?
     -        No  esse tipo de visita. Esta  uma visita social.
     O guarda olhou para as duas mulheres.
     -        Queiram aguardar aqui. - Entrou na guarita e uns minutos mais tarde saiu e abriu o porto. - Faam o favor de entrar.
     -        Muito obrigado. - E Greenburg guiou at  frente da casa.
     Assim que os trs saram do carro, apareceu um segundo guarda.
     -        Sigam-me.
     E conduziu-os l para dentro. A enorme sala de estar era uma ecltica combinao de antiguidades e moblias modernas e francesas. Apesar de o dia estar quente, 
na enorme lareira de pedra ardia um fogo. O trio seguiu o guarda atravs da sala at um quarto de dormir escurecido. Anthony Altieri estava deitado na cama, ligado 
a um ventilador. O seu aspecto era plido e exangue e parecia ter envelhecido consideravelmente desde que aparecera em tribunal. A seu lado estava um padre e uma 
enfermeira.
     Altieri olhou para Diane, Kelly e Greenburg e em seguida voltou o olhar de novo para Diane. Quando falou, a sua voz era rouca e spera:
     -        Que diabo quer daqui?
     -        Senhor Altieri - disse Diane - quero que nos deixe, a mim e  senhora Harris, em paz. Chame os seus homens. J no chega que tenha mandado matar o 
meu marido...
     Altieri interrompeu-a:
     -        Mas do que  que est para a a falar? Eu nunca ouvi falar sequer no seu marido. Li sobre aquela treta da mensagem que encontraram no bolso dele. - 
E troou: - Vais nadar com os peixinhos.
     H para a algum que viu demasiados episdios de Os Sopranos. Eu no ando atrs de si. Quero l saber se est viva ou morta. Eu no ando atrs de absolutamente 
ningum... - E estremeceu de dor. - Estou demasiado ocupado a fazer as pazes com Deus. Eu... - e engasgou-se.
     O padre virou-se para Diane:
     -        Penso que  melhor que saia.
     -        O que se passa? - perguntou o detective Greenburg.
     -        Cancro - respondeu o padre.
     Diane olhou para o homem deitado na cama. Quero l saber se est viva ou morta... Eu no ando atrs de absolutamente ningum... Estou demasiado ocupado a fazer 
as pazes com Deus. Ele estava a falar verdade.
     De repente, Diane sentiu-se invadida por um pnico terrvel e cego.
     Na viagem de regresso de casa de Altieri, Greenburg parecia preocupado:
     -        Tenho de reconhecer que me pareceu que ele falava verdade.
     -        Tambm eu. O homem est a morrer - concordou relutantemente Kelly.
     - Alguma de vocs tem idia da razo por que algum vos quer matar?
     -        No - respondeu Diane. - Se no  Altieri... - e abanou a cabea - no fao a mnima idia.
     -        Nem eu - disse Kelly e engoliu em seco.
     O detective Greenburg escoltou Diane e Kelly at ao apartamento da primeira.
     - Vou ter de trabalhar nisto agora - disse -, mas vocs aqui esto em segurana. Dentro de quinze minutos vo ter um carro da polcia em frente do apartamento 
para as prximas vinte e quatro horas, e depois logo veremos o que podemos fazer. Se precisarem de mim, telefonem.
     E foi-se embora.         Diane e Kelly ficaram a olhar uma para a outra. Fez-se um silncio embaraoso.
     -        Quer tomar um ch? - perguntou Diane.
     -        Caf - respondeu Kelly, perversa.
     Diane olhou para ela com irritao e por fim respondeu, suspirando:
     -        Como queira - e partiu para a cozinha. Kelly vagueou pela sala a ver os quadros.
     No momento em que Diane saiu da cozinha, Kelly observava um dos quadros de Diane.
     -        Stevens - disse, virando-se para ela. - Foi voc quem pintou isto?
     -        Sim - respondeu Diane.
     -        Bonito - comentou Kelly num tom de voz depreciativo.
     Os lbios de Diane apertaram-se:
     -        Percebe muito de arte?
     -        Nem por isso, senhora Stevens.
     -        E de quem  que gosta? A Grandma Moses, imagino!
     -         interessante.
     - E que outros artistas primitivos lhe tocam o corao? Kelly virou-se para Diane:
     -        Para ser honesta, prefiro a representao curvilnea, no representativa.  claro que h excepes. Por exemplo, em A Vnus de Robin de Ticiano, o 
lanamento diagonal da forma dela  simplesmente de cortar a respirao e...
     Da cozinha veio o som do caf a passar pelo filtro.
     -        O caf est pronto - disse Diane secamente.
     Sentaram-se em frente uma da outra na sala de estar, taciturnas, deixando esfriar o caf. Foi Diane quem quebrou o silncio:
     -        Ocorre-lhe alguma razo para algum nos querer matar?
     -        No. - E tambm Kelly ficou calada por alguns momentos.
     - A nica ligao que existe entre ns  o facto de que ambos os nossos maridos trabalhavam para o KIG. Talvez estivessem envolvidos num projecto qualquer que 
era top-secret. E quem quer que seja que nos quer matar, pensa que eles falaram connosco.
     Diane empalideceu. - Sim...
     Olharam uma para a outra consternadas.
     
     No seu gabinete, Tanner observava num dos ecrs na parede a cena que se desenrolava no apartamento de Diane. Com ele estava o seu chefe de segurana.
     -        No... A nica ligao que existe entre ns  o facto de que ambos os nossos maridos trabalhavam para o KIG. Talvez estivessem envolvidos num projecto 
qualquer que era top-secret. E quem quer que seja que nos quer matar, pensa que eles falaram connosco.
     -        Sim...
     O apartamento dos Stevens fora trabalhado com tudo o que havia de topo de gama em matria de televiso e som. Tal como Tanner dissera ao amigo, a casa estava 
repleta de tecnologia de ponta. Havia sistemas de vdeo ocultos em todas as divises, com uma cmara web do tamanho de um boto oculta no meio dos livros, fios de 
fibra ptica passados pelas portas e uma cmara sem fios. No sto, fora instalado um servidor de vdeo do tamanho de um computador porttil, para servir seis cmaras; 
ligado a ele, havia um modem sem fios que permitia que o equipamento funcionasse por tecnologia celular.
     Quando Tanner se inclinou para a frente para observar com ateno o ecr, Diane dizia:
     -        Temos que descobrir em que  que os nossos maridos estavam a trabalhar.
     -        Concordo. Mas vamos precisar de ajuda. E como o vamos fazer?
     -        Podemos telefonar ao Tanner Kingsley. Ele  a nica pessoa que nos pode ajudar e ele tambm anda a tentar saber quem est pode detrs de tudo isto.
     -        Ento vamos ligar-lhe.
     -        Pode dormir c - disse Diane. - Aqui estar em segurana.
     H um carro da polcia parado l fora. - E dirigiu-se  janela e puxou a cortina para trs. No se via carro nenhum.
     Ficou parada por momentos a olhar e sentiu um arrepio.
     -        Mas que estranho - comentou. - Devia estar ali um carro patrulha. Vamos telefonar.
     Diane tirou o carto do detective Greenburg de dentro da carteira, dirigiu-se ao telefone e marcou um nmero.
     -        Queria falar com o detective Greenburg, por favor.
     Ficou a ouvir por instantes.
     -        Tem a certeza? Sim... Estou a perceber. Posso ento falar com o detective Praegitzer? - Fez-se outro silncio. - Sim, muito obrigada. - Diane pousou 
devagarinho o telefone.
     Kelly olhava para ela.
     -        O que se passa?
     -        Os detectives Greenburg e Praegitzer foram transferidos para outra esquadra.
     Kelly engoliu em seco.
     -        Mas que estranha coincidncia, no acha?
     -        Lembrei-me agora de uma coisa - disse Diane.
     -        O qu?
     -        O detective Greenburg perguntou-me se nos ltimos tempos Richard fizera alguma coisa fora da rotina habitual. Houve uma coisa que me esqueci de mencionar. 
Sei que ele ia a Washington falar com algum. Eu s vezes ia com ele, mas desta vez ele insistiu que era melhor que eu ficasse em casa.
     Kelly olhava para ela com uma expresso de espanto no rosto.
     -        Mas isso  muito estranho. Mark tambm me disse que iria a Washington e que tinha de ir sozinho.
     -        Temos de descobrir porqu.
     Kelly caminhou at  janela e puxou as cortinas para trs.
     -        Continua a no haver carro nenhum. - E virou-se para Diane.
     - Acho melhor sairmos rapidamente daqui para fora.
     -        Concordo - respondeu a outra. - Conheo um pequeno hotel meio escondido, em Chinatown, chamado The Mandarin. Nunca ocorrer a ningum procurar a por 
ns. Depois telefonamos do quarto ao senhor Kingsley.
     Tanner virou-se para o seu chefe da segurana, Harry Flint, o do sorriso perptuo, e ordenou:.. - Mata-as.
     
CAPTULO 23
     
     Harry Flint  perfeitamente capaz de tomar conta delas, pensou Tanner com satisfao. Nunca lhe falhara.
     Tanner achava engraada a forma como Flint entrara na sua vida. H alguns anos, o irmo Andrew, menino bonito dos coraes feridos de todo o mundo, criara uma 
casa de transio para presos acabados de sair da cadeia, com a finalidade de os ajudar na reinsero na vida normal. Em seguida encontrava-lhes trabalho.
     Tanner tinha um plano muito mais til para os ex-criminosos, pois acreditava que ex- criminosos era coisa que no existia. Atravs dos seus contactos, conseguia 
obter informaes privadas sobre o passado dos presos recm libertos, e se tinham as qualificaes de que Tanner precisava, saam da casa de transio e comeavam 
a trabalhar directamente com Tanner, executando aquilo a que ele chamava "delicadas tarefas de nvel particular".
     Conseguira que um ex-condenado chamado Vince Carballo comeasse a trabalhar para o KIG. Era um homem forte com uma barba hirsuta e olhos azuis penetrantes como 
adagas. Tinha um longo cadastro. Fora julgado por assassnio. As provas contra ele eram tremendas, mas um membro do jri teimara em absolv-lo e no final acabara 
por haver um empate nos jurados. Poucas pessoas sabiam que a pequena filha do membro do jri desaparecera e que fora deixada uma nota onde se lia: Se no falar acerca 
disto, o destino da sua filha ser determinado pelo veredicto do jri.
     Tanner ouvira tambm falar num ex-presidirio de nome Harry Flint. Investigara minuciosamente o seu passado e conclura que era perfeito para os seus objectivos.
     Harry Flint nascera em Detroit, numa famlia de classe mdia. O Pai era um amargo vendedor falhado, que passava o tempo sentado em casa a queixar-se. Era um 
mando sdico e  menor infraco do filho deliciava-se em bater-lhe com uma rgua, um cinto, ou o que quer que encontrasse  mo, como se pretendesse punir o filho 
pela sua incapacidade.
     A me do mido trabalhava como manicura num barbeiro. Enquanto o pai era um tirano, a me era-lhe completamente devotada e mimava-o, e,  medida que o jovem 
Harry crescia, foi ficando emocionalmente dividido entre estes dois opostos.
     Os mdicos tinham dito  sua me que era demasiado velha para ter filhos, por isso ela considerara a sua gravidez como um milagre. Depois do nascimento dele, 
acariciava-o amorosamente e abraava-o, fazendo-lhe festas e beijando-o at Harry se sentir sufocado com tanto amor. A medida que crescia, comeou a detestar que 
lhe tocassem.
     Quando Harry Flint chegou aos catorze anos encurralou um rato na cave e deu-lhe pontaps. Enquanto olhava para o rato a morrer dolorosamente, Harry Flint teve 
uma epifania. De repente percebeu que tinha o tremendo poder de tirar a vida, de matar. F-lo sentir-se Deus. Era omnipotente, todo poderoso. Precisava de voltar 
a sentir a mesma coisa, por isso comeou a caar furtivamente pequenos animais pelas vizinhanas, e estes tornaram-se suas presas. No havia nada de pessoal nem 
de maldoso naquilo que Flint fazia. Limitava-se a usar o talento que Deus lhe dera.
     Os furiosos vizinhos cujos animais de estimao estavam a ser torturados e mortos queixaram-se s autoridades e foi montada uma armadilha para o apanharem. 
A polcia colocou um Scottish Terrier na jardim relvado de uma casa, preso por uma trela para evitar que fugisse, e montou vigilncia. Uma noite, enquanto a polcia 
vigiava, Harry Flint aproximou-se do animal. Abriu-lhe a boca e comeou a enfiar-lhe um pau de fogo de artifcio a arder pela boca do bicho. A polcia saltou-lhe 
em cima. Quando o revistaram, encontram-lhe no bolso uma pedra coberta de sangue e uma navalha com uma lmina de quinze centmetros.
     Foi mandado para o Challenger Memorial Youth Center por doze meses.
     Uma semana depois da sua chegada, atacou um dos rapazes, deixando-o bastante mutilado. Os psiquiatras que o examinaram diagnosticaram-lhe uma esquizofrenia 
paranide.
     - Ele  psictico - disse o mdico, avisando os guardas que o tinham a seu cargo. - Tenham cuidado. Mantenham-no afastado dos outros.
     Quando Harry Flint terminou a sua pena, tinha quinze anos e saiu em liberdade condicional. Voltou para a escola. A maior parte dos seus companheiros consideraram-no 
um heri. Muitos deles j andavam metidos em vrios tipos de pequenos crimes, roubos de carteiras, roubo por estico e roubos em lojas, e depressa ele se tornou 
chefe do grupo.
     Uma noite, numa rixa num beco, uma faca cortou um dos cantos da boca de Harry, deixando-o para sempre com um sorriso constante.
      medida que os rapazes iam crescendo, foram-se virando para o furto de viaturas, assaltos e roubos. Um dos roubos que efectuaram tornou-se violento e um lojista 
acabou por ser morto. Harry Flint foi condenado por assalto  mo armada e por cumplicidade em assassinato e condenado a dez anos de cadeia. Foi o prisioneiro mais 
perverso que o superintendente da cadeia alguma vez viu.
     Havia algo nos olhos de Harry Flint que fazia com que os outros presos no se metessem com ele. Ele aterrorizava-os constantemente, mas nunca ningum se atreveu 
a denunci-lo.
     Um dia, quando um guarda passava junto da sua cela ficou a olhar l para dentro sem poder acreditar. O companheiro de cela de Flint estava cado no meio de 
uma poa de sangue. Fora sovado at  morte.
     O guarda olhou para Flint e havia um sorriso de satisfao no seu rosto.
     -        Muito bem, seu cabro. Desta  que tu no vais conseguir escapar. Podemos comear a aquecer a cadeira para ti.
     Flint devolveu-lhe o olhar e, devagarinho, levantou o brao esquerdo. Enterrado na carne tinha uma faca de talho.
     -        Legtima defesa - respondeu friamente Flint.
     O preso na cela em frente jamais contou fosse a quem fosse que vira Flint sovar selvaticamente o seu companheiro de cela at  morte e que em seguida sacara 
de uma faca de talho de dentro do colcho e a enterrara no brao.
     A caracterstica que Tanner mais admirava em Flint  que ele gostava muito do seu trabalho.
     Lembrava-se da primeira vez que Flint lhe provara como podia ser til. Fora durante uma viagem de urgncia a Tquio...
     - Diga ao piloto que ponha o Challenger a trabalhar. Vamos ao Japo. E s ns os dois.
     As notcias chegavam em m altura, mas tinham de ser tratadas imediatamente e eram demasiado delicadas para se poderem confiar a outra pessoa. Tanner conseguira 
que Akira Iso aceitasse encontrar-se com ele em Tquio e que reservasse um quarto no Hotel Okura.
     Enquanto o avio cruzava o oceano Pacfico, Tanner ia planeando a sua estratgia. Quando o avio aterrou ele arranjara uma soluo em que no poderia perder.
     A viagem de carro desde o aeroporto Narita demorou uma hora, e Tanner espantava-se com o facto de Tquio nunca mudar. Em tempos de sucesso e em tempos de carncia, 
a cidade parecia vestir sempre o mesmo rosto impassvel.
     Akira Iso aguardava-o no restaurante Fumiki Mashimo. Iso andava pelos cinqenta anos, era magro, de cabelo grisalho e olhos escuros e brilhantes. Levantou-se 
para saudar Tanner.
     -         para mim uma honra conhec-lo, senhor Kingsley. Francamente, confesso que fiquei surpreso com o seu telefonema. No fao idia do que o levou a fazer 
toda esta viagem para se encontrar comigo.
     Tanner sorriu.
     -        Sou portador de boas notcias que achei que eram demasiado importantes para serem faladas ao telefone. Penso que vou poder fazer de si um homem muito 
feliz, e tambm muito rico.
     Akira Iso olhava para ele, curioso:
     -        Sim?
     Um criado de casaco branco aproximou-se da mesa.
     - Antes de comearmos a falar de negcios, que tal se pedssemos?
     -        Como queira, senhor Kingsley. Conhece os pratos japoneses ou prefere que eu escolha por si?
     -        Muito obrigado. Eu posso pedir. Gosta de sushi?
     -        Sim.
     Tanner virou-se para o criado.
     -        Eu quero hamachi-temaki, kaibasbira e amartbi.
     Akira Iso sorriu.
     - Parece-me bem - e olhou para o criado. - Eu quero a mesma coisa.
     Enquanto comiam, Tanner disse:
     - O senhor trabalha para uma excelente empresa, o Tokyo First Industrial Group.
     -        Muito obrigado.
     -        H quanto tempo?
     -        H dez anos.
     -        Isso j  muito tempo - e olhou para Akira Iso de frente. - Na realidade, acho que est chegada a altura de mudar.
     -E porque havia eu de querer fazer uma coisa dessas, senhor Kingsley?
     -        Porque eu vou fazer-lhe uma oferta que no pode recusar. No fao idia de quanto dinheiro voc ganha, mas estou disposto a pagar-lhe o dobro para 
sair e vir trabalhar connosco no KIG.
     -        Senhor Kingsley, isso no  possvel.
     -        E porque no? Se  por causa de contrato, eu consigo tratar...
     Akira Iso pousou os pauzinhos.
     -        Senhor Kingsley, no Japo, quando trabalhamos para uma empresa,  como uma famlia. E, quando j no podemos trabalhar mais, eles tomam conta de ns.
     -        Mas o dinheiro que eu lhe estou a oferecer...
     -        No. Aisha seishin.
     -        Como?
     -        Significa que colocamos a lealdade acima do dinheiro. - Akira Iso olhou para ele com ar curioso. - Porque foi que me escolheu a mim?
     -        Porque ouvi muitos elogios  sua pessoa.
     -        Lamento que tenha feito uma viagem to longa para nada, senhor Kingsley. Eu jamais deixarei o Tokyo First Industrial Group.
     -        Bom, tinha que tentar.
     -        No fica ressentido?
     Tanner encostou-se para trs e riu:
     -        Mas  claro que no. Bem gostaria que todos os meus empregados me fossem assim leais. - De repente lembrou-se de uma coisa. - A propsito, trouxe um 
presente para si e para a sua famlia. Um meu associado vai levar-lho mais tarde ao seu hotel. Daqui a uma hora. Ele chama-se Harry Flint.
     Uma empregada do turno da noite encontrou o corpo de Akira Iso pendurado num gancho, dentro de um armrio. O veredicto oficial foi suicdio.
     
CAPTULO 24
     
     
      O Mandarin Hotel, uma construo de dois pisos no meio de Chinatown, a trs quarteires da Mott Street, j vira melhores dias,.
     Quando Kelly e Diane saram do txi, Diane reparou num enorme letreiro do outro lado da rua com a fotografia de Kelly num lindssimo vestido de noite, a segurar 
um frasco de perfume. Diane olhou-o, espantada.
     -        Mas aquela  voc!
     -        Est enganada - respondeu Kelly. - Aquilo  o que eu fao, senhora Stevens. No  quem em sou. - E virou-se e entrou no trio do hotel, seguida por 
uma exasperada Diane.
     Atrs do balco da pequena recepo estava sentado um empregado chins a ler um exemplar do China Post.
     -        Queremos um quarto por uma noite - pediu Diane.
     O recepcionista olhou para as duas mulheres elegantemente vestidas e quase se ouviu a dizer alto "Como? Aqui?", mas dominou-se e respondeu:
     -        Com certeza. - E olhou com mais ateno para as roupas de marca delas. - So cem dlares por noite.
     -        Cem...? - comeou a dizer chocada Kelly, mas Diane interrompeu-a.
     -        Muito bem.
     -        Adiantados.
     Diane abriu a carteira, tirou uma srie de notas para fora e deu-as ao recepcionista. Este entregou-lhe uma chave.
     -        Quarto nmero dez, ao fundo do corredor, do lado esquerdo.
     Tm bagagem?
     -        Vai chegar mais tarde - respondeu Diane.
     -        Se precisarem de alguma coisa  s chamarem por Ling.
     - Lng? - perguntou Kelly.
     -        Sim,  a vossa criada de quartos.
     -        Ah, claro! - retorquiu, cptica, Kelly.
     As duas mulheres comearam a andar pelo corredor mal iluminado.
     Voc pagou muito caro - disse Kelly.
     Quanto vale para si um tecto seguro sobre a sua cabea?
     -        No estou l muito convencida que este hotel tenha sido uma boa escolha - comentou Kelly.
     Vai ter que servir at encontrarmos algo melhor. Mas no se preocupe. O senhor Kingsley vai cuidar de ns.
     Quando chegaram ao nmero dez, Diane abriu a porta e entraram. O pequeno quarto cheirava e aparentava estar desocupado h muito tempo. Tinha duas camas grandes 
com colchas amarrotadas e duas velhas cadeiras junto de uma secretria estragada.
     Kelly olhou em volta.
     -        Pode ser pequeno, mas  horroroso. Aposto que nunca foi limpo. - Pegou numa almofada e ficou a ver o p a subir no ar. - Gostava de saber quando foi 
a ltima vez que a Ling passou por aqui.
     -         s por hoje - assegurou-lhe Diane. - Vou ento ligar ao senhor Kingsley.
     Kelly ficou a olhar enquanto Diane se dirigia ao telefone e marcava o nmero do carto que Tanner Kingsley lhe dera. A chamada foi imediatamente atendida.
     -        Fala Tanner Kingsley.
     Diane suspirou de alvio.
     -        Senhor Kingsley, fala Diane Stevens. Peo desculpa por o estar a incomodar, mas eu e a senhora Harris precisamos da sua ajuda. H algum que nos quer 
matar e ns no fazemos a mnima idia do que se est a passar. Estamos as duas escondidas.
     -        Ainda bem que ligou, senhora Stevens. Podem ficar descansadas. Acabmos de descobrir o que est por detrs de tudo isto. No vo ter mais problemas. 
Posso garantir-lhe que, de agora em diante, a senhora e a senhora Harris estaro em perfeita segurana.
     Diane fechou os olhos por instantes. Graas a Deus.
     -        Pode dizer-me quem...?
     -        Explico-lhe tudo quando nos encontrarmos. Agora fiquem onde esto. Vou mandar algum para vos apanhar, dentro de trinta minutos.
     -        Isso ... - E a chamada foi desligada. Diane pousou o telefone e virou-se para Kelly a sorrir:
     -        Boas notcias! Os nossos problemas esto resolvidos.
     -        O que foi que ele disse?
     -        Disse que sabe quem est por detrs de tudo isto e que de agora em diante estamos em segurana.
     Kelly suspirou.
     -        Excelente. Agora posso voltar para Paris e recomear a minha vida.
     -        Disse que ia mandar algum para nos vir buscar dentro de meia hora.
     Kelly olhou em redor do sujo quarto.
     -        Vou ter dificuldade em abandonar tudo isto.
     -        Vai ser estranho - comentou Diane tristemente virando-se para ela.
     -        O qu?
     -Voltar para uma vida sem Richard. No consigo imaginar como  que vou ser capaz de...
     -         Ento no o faa - interrompeu bruscamente Kelly. - Minha senhora, no vamos entrar por esse caminho, seno eu no me vou agentar. No quero pensar 
nisso. Mark era toda a minha razo de viver, a minha nica razo...
     Diane olhou para o rosto inexpressivo de Kelly e pensou: Ela  como uma bela obra de arte sem vida - bela e fria.
     Kelly sentou-se numa das camas de costas para Diane. Fechou os olhos bloqueando a dor que sentia no peito e lentamente... lentamente... lentamente...
     Caminhava ao longo da margem esquerda com Mark, conversando sobre tudo e sobre nada, e Kelly pensou que nunca se sentira to bem e to  vontade com algum 
na sua vida.
     Dissera a Mark:
     -        Amanh  noite vai haver uma inaugurao de uma galeria, se estiveres interessado...
     -        Oh! Lamento, Kelly. Mas amanh  noite tenho que fazer.
     -        Tens outro encontro? - perguntara com uma ponta de cime, enquanto tentava manter o tom de voz ligeiro.
     -        No, no. Vou sozinho.  um banquete. - E viu a cara de Kelly. - ...  um jantar de cientistas. Tu ias-te aborrecer.
     -        Achas que sim?
     -        Tenho a certeza. Dizem-se muitas palavras que provavelmente nunca ouviste falar e...
     -        Acho que j ouvi falar sobre tudo - respondera, picada. - Porque no me experimentas?
     -        Sabes, no acho que seja boa idia.
     -        Diz. J sou crescidinha.
     Ele suspirou.
     -        Est bem: anatripsologia... malacostracologia... aneroidgrafo...
     -        Oh! - exclamou Kelly. - Esse tipo de palavras.
     -        Eu sabia que isto no te ia interessar.
     -        Pois ests enganado. Isso interessa-me. - Porque te interessa a ti.
     O banquete teve lugar no Hotel Prince de Galles e foi um acontecimento importante. Estavam cerca de trs centenas de pessoas no salo de baile, entre elas os 
mais importantes dignitrios de Frana. Um dos convidados na mesa da frente onde Kelly e Mark se sentavam era um homem muito atraente, com uma personalidade calorosa 
e muito agradvel.
     -        O meu nome  Sam Meadows - disse a Kelly. - E j ouvi falar muito de si.
     -        E eu de si - respondeu ela. - Mark diz que o senhor  o seu mentor e o seu melhor amigo.
     Sam Meadows sorriu.
     -        Sinto-me muito honrado por ser amigo dele. Mark  uma pessoa muito especial. Trabalhmos juntos durante muito tempo.
     Ele  a pessoa mais dedicada...
     Mark ouvia, embaraado.
     -        Algum quer vinho? - perguntou, interrompendo.
     O mestre de cerimnias apareceu no palco e os discursos comearam. Mark tinha toda a razo quando dissera que a noite no ia ter qualquer interesse para Kelly. 
Estavam a ser concedidos prmios cientficos e tcnicos e, no que lhe dizia respeito, os oradores podiam estar a falar chins. Mas observava o entusiasmo espelhado 
no rosto do Mark e sentia-se feliz por estar ali.
     Quando os pratos do jantar foram retirados, o presidente da Academia Francesa das Cincias subiu ao palco. Comeou por elogiar as realizaes que a Frana conseguira 
obter no ano anterior e foi s quando ele ergueu uma estatueta dourada e chamou pelo nome de Mark Harris que Kelly percebeu que ele era a estrela da noite.
     
     O chins olhou para cima quando Flint entrou no trio do Mandarin Hotel.
     -        Em que posso ser til? - Vira o sorriso de Flint e devolvia-o.
     -        A minha mulher e uma amiga acabaram de se instalar aqui. A minha mulher  loura e a amiga  uma mida negra muito gira. Em que quarto esto?
     
     Modestamente, no lhe contara nada. Era por isso que ele no queria que eu viesse. Kelly ficou a ver Mark a subir ao palco e a audincia a aplaudir calorosamente.
     -        Ele no me tinha falado sobre nada disto - disse Kelly a Sam Meadows.
     Este sorriu.
     -        Tpico de Mark. - E estudou Kelly por instantes. - Sabe que ele est perfeitamente apaixonado por si. Quer casar consigo. Fez uma pausa e disse com 
ar srio. - Espero que ele no se magoe.
     Ao ouvir estas palavras, Kelly sentiu a culpa invadi-la. Mas eu no posso casar com Mark. Ele  um bom amigo, mas eu no estou apaixonada por ele. O que foi 
que eu fiz ? No o quero magoar. O melhor  parar de o ver. Eu nunca serei capaz de dar a um homem aquilo que ele espera receber de uma mulher. Como  que eu vou 
conseguir...
     
     -        Ouviu alguma coisa do que eu disse? O tom zangado na voz de Diane acordou Kelly do seu sonho. O belo salo de baile desapareceu e estava de novo num 
sujo quarto de hotel com uma mulher que s desejava nunca ter encontrado.
     -        O qu?
     -        Tanner Kingsley disse que dentro de meia hora vinha algum para nos buscar - dizia Diane, ansiosa.
     -        Voc disse-me isso. E depois?
     -         que ele nem sequer me perguntou onde  que ns estvamos.
     -        Provavelmente pensa que estamos no seu apartamento.
     -        No. Eu disse-lhe que andvamos as duas escondidas.
     Fez-se uns segundos de silncio e os lbios de Kelly formaram um silencioso "Oh".
     Ambas se viraram para olhar para o relgio em cima da mesa de cabeceira.
     
     - No quarto nmero dez, mas infelizmente no o posso deixar entrar. Vai ter que telefo...
     Flint ergueu uma pistola Rugerde calibre 45 equipada com silenciador e meteu uma bala na testa do recepcionista. Empurrou o corpo para trs do balco e comeou 
a caminhar pelo corredor, a arma a seu lado. Assim que chegou ao quarto nmero dez, recuou, deu dois passos, meteu os ombros  porta e entrou no quarto.
     Estava vazio, mas atravs da porta fechada da casa de banho ouvia o som de gua de um chuveiro a correr. Dirigiu-se  porta da casa de banho e escancarou-a. 
A torneira do chuveiro estava toda aberta e as cortinas corridas ondulavam suavemente. Flint disparou vrios tiros para as cortinas, aguardou uns momentos e em seguida 
abriu-as.
     No estava l ningum.
     Num restaurante do outro lado da rua, Diane e Kelly tinham visto a carrinha SUV de Flint a chegar e depois ele a entrar no hotel.
     -        Meu Deus - exclamou Kelly. - Aquele foi o homem que me tentou raptar.
     Aguardaram. Quando Flint surgiu um pouco depois, os seus lbios continuavam a sorrir, mas o seu rosto era uma mscara de fria. Kelly virou-se para Diane.
     -        L vai o Godzila. E agora, que falso movimento vamos fazer a seguir?
     -        Temos de sair daqui.
     -        E vamos para onde? Eles vo estar a vigiar os aeroportos, as estaes de comboio, as estaes dos autocarros...
     Diane ficou pensativa.
     -        Eu conheo um lugar onde eles no nos vo poder tocar.
     -        Deixe-me imaginar. A nave espacial que a trouxe c para a Terra.
     
CAPTULO 25
     
     O letreiro de non em frente do edifcio dizia WILTON HOTEL PARA MULHERES.
     No trio, Kelly e Diane faziam o seu registo sob nomes falsos. A mulher atrs do balco deu uma chave a Kelly:
     -        Suite nmero quatro dois quatro. Tm bagagem?
     -        No, ns...
     -        Perdeu-se - interrompeu Diane. - Chega c amanh de manh. Entretanto, os nossos maridos vm buscar-nos daqui a pouco.
     Importa-se de lhes indicar o nosso quarto e...
     A empregada abanou a cabea.
     -        Lamento muito, mas no so permitidos homens l em cima.
     -        Ah! - E Diane lanou a Kelly um sorriso de satisfao.
     -        Se quiserem encontrar-se com eles c em baixo...
     -        No tem importncia. Eles tero que se agentar sem ns.
     A suite 424 estava muito bem decorada, com uma sala com um sof, cadeiras, mesas e um armrio, e o quarto tinha duas camas duplas de aspecto bem confortvel.
     Diane olhou em redor.
     -        Isto  agradvel, no ?
     -        O que  que ns andamos a fazer? A tentar entrar para o livro de recordes do Guiness? - respondeu Kelly asperamente. - Um hotel diferente a cada meia 
hora?
     -        Tem um plano melhor?
     -        Isto no  nenhum plano - troou Kelly. - Isto  mais um jogo do gato e do rato, e ns  que somos o rato.
     -        Se pensarmos muito no assunto, a verdade  que os homens do maior think tank do mundo andam atrs de ns para ver se nos matam - comentou Diane.
     -        Ento talvez seja melhor no pensar no assunto.
     - Isso  mais fcil de dizer do que de fazer. H suficientes cabeas de ovo no KIG para fazer uma omeleta maior do que o estado do Kansas.
     - Bom, ento s nos resta sermos mais espertas do que eles.
     - Pois, mas vamos precisar de uma arma qualquer - comentou Diane de sobrolho franzido. - Sabe usar uma arma?
     -        Eu no.
             Maldio. Eu tambm no.
             No interessa. De qualquer das maneiras no temos nenhuma.
     -        E karat?
             Tambm no, mas fiz parte da equipa de debate na faculdade - respondeu secamente Diane. - Talvez os consiga convencer a desistirem de nos matar.
     -        Pois.
     Diane foi at  janela e olhou l para fora, para o trnsito na Thirty-fourth Street. De repente, os olhos abriram-se-lhe de espanto e arquejou:
     -        Oh!
     Kelly correu para junto dela. -        O que foi? O que  que viu?
     Diane sentia a garganta seca.
     -        Um... um homem que passou. Era exactamente igual a Richard. Por instantes... pensei... - E afastou-se da janela.
     Kelly comentou, desdenhosa:
     -        Por acaso no quer que eu mande chamar os caa-fantasmas, pois no?
     Diane ia comear a responder-lhe, mas depois pensou: Para qu? Em breve estarei fora daqui.
     Kelly olhou para Diane e pensou: Por que raio  que no te calas e vais pintar para outro lado?
     Flint falava no seu celular com um furioso Tanner        !
     -        Lamento muito, senhor Kingsley, mas elas no estavam no quarto do Mandarin. Desapareceram. Deviam saber que eu ia aparecer.
     Tanner estava apoplctico.
     -        Essas duas cabras querem jogar joguinhos comigo? Comigo? - Eu j te telefono. - E desligou furiosamente o telefone.
     Andrew estava deitado no sof do seu gabinete e divagava relembrando o enorme espectculo na sala de concertos em Estocolmo. A audincia rejubilava, entusistica, 
gritando "Andrew! Andrew!" O salo ecoava com o som do seu nome.
     Ouvia a audincia a aplaudir enquanto ele se dirigia ao palco para receber o prmio das mos do rei Carl XVI Gustav da Sucia No momento em que estendia a mo 
para receber o Prmio Nobel algum comeara a insult-lo:
     - Andrew, meu filho da me, anda c.
     O salo de Estocolmo desapareceu e Andrew estava de volta ao seu gabinete. Tanner chamava por ele.
     Ele precisa de mim, pensou, feliz, Andrew. Ergueu-se devagarinho e dirigiu-se ao gabinete do irmo.
     -        C estou eu - disse Andrew.
     -        Estou a ver - rosnou Tanner. - Senta-te.
     Andrew sentou-se.
     -        Tenho uma srie de coisas para te ensinar, irmo mais velho.
     Dividir para conquistar. - Havia um toque de arrogncia na sua voz. - Tenho Diane Stevens a pensar que a Mfia lhe matou o marido. E Kelly Harris preocupada 
com uma Olga que no existe, percebeste?
     Andrew respondeu vagamente:
     -        Sim, Tanner.
     Tanner deu umas palmadinhas nas costas do irmo.
     -        Tu s, realmente, o perfeito eco para mim. H uma srie de coisas que quero discutir, mas no posso falar delas com mais ningum. Mas tambm no te 
posso dizer nada, pois s demasiado estpido para as perceberes - e olhou para os olhos vazios de Andrew.
     - Quem no v, no ouve, no fala. - De repente, Tanner passava a ser todo homem de negcios. - Tenho um problema que preciso resolver. Desapareceram duas mulheres. 
Sabem que andamos atrs delas para as matar e esto a tentar manter-se escondidas. Onde achas que elas se vo esconder, Andrew?
     Andrew olhou por momentos para o irmo e em seguida respondeu:
     -        Eu... eu no fao idia.
     -        H duas maneiras de as procurar. Primeiro, empregamos o mtodo cartesiano, a lgica, construindo a nossa soluo um passo de cada vez. Vamos raciocinar.
     Andrew olhava para ele e disse com ar vazio: - Como quiseres...
     Tanner comeou a andar de um lado para o outro.
     -        No vo voltar para o apartamento da Stevens, porque  muito perigoso. Ns temo-lo sob observao. Sabemos que Kelly Harris no tem amigos chegados 
aqui nos Estados Unidos, porque vive h muitos anos em Paris e no ia confiar em ningum aqui. - Olhou para o irmo. - Ests a seguir o meu raciocnio?
     -        Sim... Tanner - respondeu Andrew a pestanejar.
     -        Bom, vamos a saber. Diane Stevens, ser ela capaz de se aproximar dos amigos em busca de ajuda? No me parece. Podia p-los em perigo. Outra possibilidade 
seria irem  polcia com a histria delas, mas sabem que ningum ia ligar. Portanto, qual ser o prximo passo? - Tanner fechou por momentos os olhos e em seguida 
continuou. - Obviamente que pensaram nos aeroportos e nas estaes de autocarros, mas com certeza que lhes ocorreu que os temos sob vigilncia. Por isso, onde  
que ns estamos?
     -        Eu... eu...  o que tu quiseres, Tanner.
     -        Isso deixa-nos com um hotel, Andrew. Elas precisam de um hotel para se esconderem. Mas que tipo de hotel? Temos aqui duas mulheres aterrorizadas em 
fuga, pois sabem que correm perigo de vida. Percebes? Seja qual for a escolha, vo sempre pensar que podemos ter ligaes e que estaro expostas. No se vo sentir 
confiantes.
     Lembras-te de Sonja Verbrugge, em Berlim? Ns conseguimos engan-la com aquela histria da mensagem no computador. Foi para o Artemisia Hotel porque, como era 
um hotel unicamente para mulheres, achou que ia estar em segurana. Bom. Eu acho que as senhoras Stevens e Harris sentiro exactamente o mesmo. Portanto, onde ficamos?
     Virou-se mais uma vez para olhar para o irmo. Os olhos de Andrew estavam fechados. Dormia. Furioso, Tanner dirigiu-se a ele e bateu-lhe com toda a fora na 
cara. Andrew acordou, sobressaltado. 
     -        O que...
     -        Presta ateno quando estou a falar contigo, seu cretino.
     -        Desculpa... desculpa Tanner. Eu s estava...
     Tanner virou-se para o computador.
     -        Ora bem. Vamos l a ver quais so os hotis para mulheres que existem em Manhattan.
     Tanner fez uma rpida pesquisa na Internet e imprimiu os resultados. Leu alto os nomes: O El Carmelo Residence na West Fourtheenth Street... o Centro Maria 
Residence na West Fifty-fourth Street, o Parkside Evangeline na Gramercy South e o Wilton Hotel Para Mulheres. - Olhou para cima e sorriu. -  aqui que a lgica 
cartesiana nos conduz, Andrew. Agora vamos a ver onde nos leva a tecnologia.
     E Tanner dirigiu-se  paisagem pintada na parede, procurou por trs dela e premiu um boto oculto. Uma parte da parede deslizou revelando um ecr com um mapa 
informatizado de Manhattan.
     -        Andrew, lembras-te do que isto ? Tu costumavas operar este equipamento. A verdade  que eras bom nisto e eu sentia enormes cimes de ti.  um GPS. 
Com isto, podemos localizar seja quem for pelo mundo. Lembras-te?
     Andrew acenou, lutando para se manter acordado.
     -        Quando as senhoras saram do meu gabinete dei a cada uma delas um carto meu. Ambos tm gravado um chip do tamanho de um gro de areia. O sinal por 
eles emitido  captado por um satlite e o GPS  activado e d-nos a exacta localizao. - Virou-se para o irmo. - Ests a perceber?
     -        Sim... sim... Tanner. -Andrew engoliu em seco.
     Tanner virou-se outra vez para o ecr e premiu um segundo boto. Pequenas luzes surgiram a brilhar no mapa e comearam a descer. Avanaram mais devagar numa 
pequena zona e em seguida fluram de novo para cima. Um trao iluminado a luz vermelha ondulou atravs de uma rua, deslocando-se to devagar que os nomes das lojas 
eram visveis.
     Tanner apontou.
     -        Esta aqui  a West Fourteenth Street. - A luz vermelha continuou a deslocar-se. - Aqui temos o restaurante Tequila... Uma farmcia... O Saint Vincent 
Hospital... A Banana Republic... A igreja de Nossa Senhora de Guadalupe... E a luz parou.
     Uma nota de vitria notou-se na voz de Tanner.
     -        E aqui est o Wilton Hotel Para Mulheres. Isto acaba de confirmar a minha lgica. Eu tinha razo, ests a ver?
     Andrew passou a lngua pelos lbios.
     -        Pois. Tu tinhas razo...
     -        Agora, j te podes ir embora - disse Tanner olhando Andrew, e, pegando no telefone, marcou um nmero.
     -        Senhor Flint, elas esto no Wilton Hotel Para Mulheres, Thirty-fourth Street. - E desligou.
     Olhou para cima e viu o irmo de p junto da porta.
      - O que ? - perguntou Tanner, impaciente.
     -        Eu vou... sabes...  Sucia, para receber o prmio Nobel que eles acabaram de me dar?
     -        No, Andrew. Isso foi h sete anos.
     -        Oh! - Andrew virou-se e partiu, arrastando os ps, para o seu escritrio.
     Tanner pensou na viagem urgente que tivera de fazer  Sucia trs anos atrs...
     Estava embrenhado num problema de logstica complicado quando a voz da sua secretria chegou at ele vinda do intercomunicador:
     -        Tenho Zurique em linha para si, senhor Kingsley.
     -        Estou demasiado ocupado agora para... Ora, deixe l que eu falo com eles.
     Pegou no telefone e, impaciente, disse:
     -        Sim? - Enquanto ouvia, o seu rosto foi ficando sombrio. - Sim... Estou a ver... Tem a certeza?... No, no interessa. Eu prprio trato disto. - E premiu 
o boto do intercomunicador:
     -        Menina Ordonez, avise o piloto para preparar o Challenger.
     Vamos ter que ir a Zurique. Seremos dois passageiros.
     Madeleine Smith estava sentada num privado do La Rotonde, um dos melhores restaurantes de Zurique. Andava pelos trinta anos, um belo rosto oval, cabelo apanhado 
e uma pele maravilhosa. Era visvel a sua gravidez.
     Tanner dirigiu-se  mesa e Madeleine Smith levantou-se.
     Tanner Kingsley tomou-lhe a mo.
     -        Por favor, sente-se. - E instalou-se na frente dela.
     -        Tenho muito prazer em conhec-lo. - Ela tinha um leve sotaque suo. - Inicialmente, quando recebi o telefonema, pensei que se tratava de uma brincadeira.
     -        Porqu?
     -        Bom, o senhor  um homem muito importante e, quando me disseram que vinha a Zurique unicamente para falar comigo, no consegui perceber...
     Tanner sorriu.
     Eu explico-lhe porque  que estou aqui. Porque ouvi falar de si como uma cientista brilhante, Madeleine. Posso Chamar-lhe assim?
     -        Por favor, senhor Kingsley.
     -        No KIG apreciamos o talento. Voc  o tipo de pessoa que devia estar a trabalhar para ns, Madeleine. H quanto tempo trabalha para o Tokyo First Industrial 
Group?
     -        H sete anos.
     -        Bom. Sete  o seu nmero de sorte, porque eu estou aqui para lhe oferecer um emprego no KIG, pagando-lhe o dobro do que recebe agora, e tendo a seu 
cargo o seu prprio departamento e...
     -        Oh, senhor Kingsley! - O sorriso dela era rasgado.
     -        Madeleine, est interessada?
     - Mas  claro! Estou muito interessada.  claro que no posso comear imediatamente...
     A expresso de Tanner alterou-se:
     -        O que quer dizer com isso?
     -        Bom,  que vou ter um beb e casar...
     Tanner sorriu.
     -        Mas isso no  problema. Ns tratamos de tudo.
     Madeleine Smith acrescentou:
     -        Mas existe uma outra razo pela qual eu no posso sair imediatamente. Estou a trabalhar num projecto no nosso laboratrio e estamos quase a chegar... 
estamos quase a termin-lo.
     -        Madeleine, eu no sei que projecto , nem me interessa. Mas a verdade  que a oferta que lhe fao tem de ser aceita imediatamente. Para lhe ser franco, 
estava  espera que viesse no meu avio com o seu noivo - sorriu, - ou, melhor dizendo, o seu futuro marido, de volta para a Amrica comigo.
     -        Eu posso ir assim que o projecto terminar. Seis meses, talvez um ano.
     Tanner ficou silencioso por momentos.
     -        Tem a certeza de que no h maneira de vir comigo agora?
     -        Tenho. Eu chefio este projecto. No seria leal da minha parte sair neste momento. - E entusiasmou-se. - No prximo ano..?
     Tanner sorriu:
     -        Com certeza.
     -        Lamento tanto que tenha feito esta viagem em vo.
     Tanner respondeu calorosamente:
     -        No foi nada em vo. Tive a oportunidade de a conhecer.
     -         muito simptico da sua parte - ela corou.
     -        A propsito, trouxe-lhe um presente. Um meu associado vai-lho levar ao seu apartamento por volta da seis da tarde. Ele chama-se Harry Flint.
     Na manh seguinte, o corpo de Madeleine Smith foi encontrado no cho da cozinha de sua casa. O fogo fora ligado e o apartamento estava cheio de gs.
     Os pensamentos de Tanner voltaram ao presente. Flint nunca falhara. Dentro de bem pouco tempo, Diane Stevens e Kelly Harris estariam tratadas e, com elas fora 
do caminho, o projecto podia prosseguir.
     
     L em cima, na suite, Kelly ligou o rdio numa estao popular e o quarto encheu-se, de repente, com o som alto de msica rap.
     -        Como  que consegue ouvir uma coisa dessas? - perguntou Diane, irritada.
     -        No gosta de msica rap?
     -        Isso no  msica. Isso  barulho.
     -        Quer dizer que no gosta de Eminem? Nem de LLCool? R. Kelly? Ludacris?
     -         isso que gosta ouvir?
     -        No - respondeu Kelly abruptamente. - Gosto da Sinfonia 166.
     
CAPTULO 26
     
     Harry Flint entrou e dirigiu-se ao balco da recepo do Wilton Hotel.
     -        Ol.
     -        Ol. - O recepcionista viu o sorriso no rosto dele. - Posso ajudar?
     -        Sim. A minha mulher e uma amiga, uma afro-americana, instalaram-se h pouco aqui. Eu gostava de poder ir l acima e fazer-lhes uma surpresa.
     -        Lamento muito, senhor - respondeu o empregado -, mas este hotel  unicamente para mulheres. Os homens no so autorizados l em cima. Se quiser telefonar...
     Flint olhou em redor. Infelizmente, o trio estava cheio de gente.
     -        No faz mal. Tenho a certeza de que elas vo j descer.
     Flint saiu para a rua e fez uma chamada do seu celular.
     -        Senhor Kingsley, elas esto l em cima no quarto e eu no posso subir.
     Tanner ficou por instantes calado, a pensar.
     -        Senhor Flint, a lgica diz-me que elas vo optar por se separar. Vou mandar Carballo para a para te ajudar.
     
     ... Fantstica de Berlioz, dos estudos de Chopin e da Almira de Handel. Acima de tudo gosto de...
     Kelly viu Diane dirigir-se ao rdio e deslig-lo.
             O que vamos fazer quando gastarmos os hotis todos, senhora Stevens? Conhece, por acaso, algum que nos possa ajudar?
     Diane abanou a cabea.
             A maior parte dos amigos de Richard trabalhavam no KIG e os nossos outros amigos... No os posso envolver nisto. - Olhou para Kelly. - E voc?
     Kelly encolheu os ombros.
     -        Eu e Mark vivemos em Paris nos ltimos trs anos. No conheo ningum aqui a no ser as pessoas da agncia de modelos, e tenho a sensao de que no 
serviro de muito.
     -        Mark chegou a dizer o que ia fazer a Washington?
     -        No.
     -        Nem Richard. Tenho a sensao de que est a a razo por que foram assassinados.
     -        Excelente. J temos a chave. Agora s nos falta a porta.
     -        Vamos acabar por encontr-la. - Diane ficou pensativa por instantes e em seguida o seu rosto iluminou-se. - Espere! Eu conheo algum que  capaz de 
nos ajudar - e dirigiu-se ao telefone.
     -        Para quem est a ligar?
     -        Para a secretria de Richard. De certeza que ela sabe o que se est a passar.
     Uma voz do outro lado do telefone respondeu:
     -        KIG.
     -        Queria falar com Betty Barker, por favor.
     No seu gabinete, Tanner observava a luz azul do identificador de voz a piscar. Premiu um interruptor e ouviu a telefonista dizer:
     -        A menina Barker neste momento no est na sua secretria.
     -        Sabe dizer-me como consigo falar com ela?
     -        Lamento. Mas se me der o seu nome e o seu nmero de telefone, eu digo-lhe...
     -        Deixe estar. - Diane desligou.        .
     A luz azul apagou-se.
     Eram horas de jantar, mas estavam com medo de largar a segurana que o quarto lhes proporcionava. Encomendaram alguma coisa pelo servio de quartos.
     A conversa era irregular. Diane tentava fazer conversa com Kelly, mas no resultava. - Ento, tem vivido em Paris.
     Diane virou-se para Kelly - Tenho a sensao de que Betty Barker pode ser a tal porta de que andamos  procura. Tenho de arranjar maneira de entrar em contacto 
com ela. - Franziu o sobrolho. - Tudo isto  to estranho .
     -        O qu?
     -        Uma vidente um dia previu tudo isto. Disse-me que via a morte  minha volta e que...
     -        No me diga! - exclamou Kelly. - E no falou nisso ao FBI nem  CIA?
     Diane ficou a olhar para ela por momentos.
     -        No interessa. - Kelly cada vez a irritava mais. - Vamos jantar.
     -        Primeiro tenho de fazer uma chamada - disse Kelly, e levantou o telefone e marcou o nmero da telefonista. - Quero fazer uma chamada para Paris. - 
Deu o nmero  operadora e aguardou. Ao fim de uns minutos, o rosto de Kelly iluminou-se.
     - Ol, Philippe. Como est? Aqui est tudo bem... - E virou-se para olhar para Diane. - Sim. Devo voltar para casa daqui a um ou dois dias. Como est a Angel 
? Oh, ainda bem. E ela tem saudades minhas? Podia p-la ao telefone? - A voz de Kelly mudou para o tom que os adultos normalmente usam quando falam com uma criana. 
- Angel, como ests minha querida? E a tua mam. Philippe diz que tens muitas saudades minhas. Eu tambm tenho saudades tuas. Em breve estarei de volta e vou-te 
pegar ao colo e dar-te muitos mimos, meu doce.
     Diane virara-se e olhava-a, espantada.
     -        Adeus, minha querida. Tudo bem, Philippe. Muito obrigada.
     Vemo-nos em breve. At ao meu regresso.
     Kelly notou a expresso de espanto no rosto de Diane.
     -        Estava a falar com o meu co.
     -        Pois. E o que foi que ele disse?
     -        Ela.  uma cadela.
     -        Tinha de ser.
      -        Sim.
     - Mark era francs?
     -        No.
     - J estavam casados h muito tempo?
     -        No.
     -        Como foi que vocs se conheceram?
     No tens nada a ver com isso. -No me lembro. Conheci tantos homens.
     Diane estudou Kelly.
     -        Porque  que no pe de lado essa parede que construiu  sua volta?
     -        Nunca ningum lhe explicou que as paredes servem para manter as pessoas do lado de fora? - respondeu Kelly rispidamente.
     -        As vezes servem para fechar as pessoas l dentro e...
     -        Olhe, senhora Stevens. Meta-se na sua vida. Eu estava muito bem at voc ter aparecido na minha frente. Vamos parar por aqui.
     -        Muito bem. - Ora aqui est a pessoa mais fria que alguma vez conheci.
     Quando terminaram o silencioso jantar, Kelly anunciou:
     -        Vou tomar uma ducha.
     Diane no respondeu.
     Na casa de banho, Kelly despiu-se, entrou na ducha e abriu a torneira. O calor da gua contra a sua pele sabia-lhe maravilhosamente. Fechou os olhos e a sua 
mente comeou a vaguear...
     Ouvia as palavras de Sam Meadows, Sabe que ele est perfeitamente apaixonado por si. Quer casar consigo. Espero que ele no se magoe. Kelly sabia que Sam Meadows 
tinha razo. Kelly gostava de estar com Mark. Ele era divertido, atencioso, cuidadoso e um bom amigo. Esse era o lado bom. Ele  um bom amigo. Isto no  justo para 
ele. Tenho que deixar de o ver.
     Mark ligara na manh a seguir ao banquete.
     -        Ol, Kelly. O que queres fazer hoje  noite?
     A voz dele estava cheia de antecipao.
     -        Queres ir jantar e depois ao teatro? Ou ento, h uma srie de lojas que esto abertas  noite e h tambm...
     -        Desculpa, Mark, mas hoje  noite estou ocupada.
     Do outro lado fez-se um curto silncio.
     -        Oh! Pensei que eu e tu tnhamos...
     - Pois no temos. - E Kelly ali ficou a odiar-se por aquilo que lhe estava a fazer. A culpa  toda minha, por ter deixado chegar as coisas at este ponto.
     -        Ento est bem, telefono-te amanh.
     E ligou no dia seguinte.
     -        Kelly, se te ofendi de alguma forma...
     E Kelly teve de reunir todas as suas foras para ser capaz de lhe dizer:
     -        Desculpa, Mark.  que eu... eu apaixonei-me por outra pessoa - e ficou  espera. O longo silncio que se seguiu era insuportvel.
     -        Oh! - A voz dele tremia. - Compreendo. Eu... eu devia ter... Parabns... Espero sinceramente que sejas feliz, Kelly. Por favor, diz adeus por mim  
Angel.
     E Mark desligara. Kelly ficou parada, a segurar no telefone sem vida, sentindo-se extremamente infeliz. No tarda nada ele esquece-me, pensou, e encontrar 
algum que lhe poder dar a felicidade que merece.
     Kelly trabalhava todos os dias, sorrindo sobre as passarelas e ouvindo o aplauso das multides, mas por dentro estava vazia. A vida no era a mesma sem o seu 
amigo. Sentia constantemente vontade de lhe telefonar, mas ia resistindo. No posso. No o posso magoar mais.
     Passaram-se vrias semanas e Kelly nunca mais soube nada dele. Finalmente saiu da minha vida. O mais natural  que j tenha encontrado algum. Fico feliz por 
ele. E tentava ser verdadeira.
     Numa tarde de sbado, Kelly estava numa mostra de moda numa elegante sala apinhada com a elite de Paris. Caminhou sobre a passarela e, como de costume, assim 
que apareceu, foi aclamada por todos. Kelly seguia atrs de um modelo que vestia um vestido de passeio e levava um par de luvas. Uma das luvas escorregou-lhe das 
mos e caiu sobre a passarela. Quando Kelly a viu j era demasiado tarde. Tropeou nela e caiu ao cho, de cara para a frente. Ouviu-se um arquejo vindo da multido. 
E Kelly no cho, humilhada. Recomps-se, tentou no chorar, respirou fundo, levantou-se e fugiu da passarela.
     Quando chegou ao camarim, a chefe do guarda-roupa dizia: Tenho o vestido de noite pronto para si.  melhor...
     Kelly soluava.
     - No... Eu no vou ser capaz de voltar ali  frente de todas aquelas pessoas. Todos se vo rir de mim. - Comeava a ficar histrica. - Estou acabada. Nunca 
mais vou voltar s passarelas. Nunca mais!
     -        Mas  claro que vais.
     Kelly deu um salto. Ali estava Mark, no umbral da porta!
     -        Mark! O que ests... aqui a fazer?
     -        Bom, tenho andado muito por aqui, nestes ltimos tempos.
     -        Tu... tu viste o que se passou agora l fora?
     -        Foi maravilhoso - respondeu ele a sorrir. - Ainda bem que aconteceu.
     -        O qu? - Kelly olhava espantada para ele.
     Mark aproximou-se e tirou um leno para lhe secar as lgrimas.
     -        Kelly, antes de entrares naquela passarela, as pessoas pensavam que no passavas de um sonho belo mas intocvel, uma fantasia fora do alcance de qualquer 
um. Quando tropeaste e caste, isso mostrou-lhes que s humana, e eles adoraram-te por isso. Agora, vais voltar para l e fazer todos felizes.
     Olhou para os olhos cheios de compaixo de Mark e foi nesse momento que percebeu que estava apaixonada por ele.
     A chefe do guarda-roupa repunha o vestido de noite no cabide.
     -        D-me c isso - pediu Kelly. Olhou para Mark e sorriu atravs das lgrimas.
     Cinco minutos mais tarde, Kelly caminhava confiante sobre a passarela, e ouviu-se uma onda de palmas, e todos aplaudiam de p. Kelly olhava para eles, completamente 
dominada pela emoo. Era a coisa mais maravilhosa do mundo, ter Mark de volta  sua vida. Lembrava-se dos medos que tivera no incio...
     Kelly estivera tensa,  espera que Mark se atirasse a ela, mas ele fora sempre um verdadeiro cavalheiro. A sua timidez fazia com que ela se sentisse confiante. 
Era ela quem iniciava a maior parte das conversas e, fosse qual fosse o tema, Mark mostrava-se sempre culto e uma pessoa divertida.
     Uma noite, Kelly disse:
     - Mark, amanh  a abertura de uma grande orquestra sinfnica.
     Gostas de msica clssica?
     - Cresci com ela - respondeu ele.
     -        Excelente. Ento vamos.
     O concerto foi brilhante e a assistncia entusistica. Quando chegaram ao apartamento de Kelly, Mark disse:
     -        Eu... eu menti-te.
     Eu devia imaginar, pensou Kelly. Ele  como os outros todos. Acabou E preparou-se para a resposta que ele lhe ia dar.
     -        Mentiste?
     -        Sim. Sabes,  que na realidade no gosto de msica clssica.
     Kelly mordeu o lbio para evitar desatar a rir s gargalhadas.
     No dia seguinte, Kelly disse:
     -        Quero agradecer-te pela Angel. Ela  uma excelente companhia. - Assim como tu, pensou Kelly.
     Mark tinha os maiores e mais brilhantes olhos azuis que alguma vez vira, e um atraente e cativante sorriso. Ela apreciava imenso a companhia dele e...
     A gua estava comear a ficar fria. Kelly desligou o chuveiro, secou-se com uma toalha, vestiu o robe dado pelo hotel e passou para o quarto.
     -         toda sua.
     -        Obrigada.
     Diane levantou-se e entrou na casa de banho. Parecia que tinha sido varrida por um vendaval. O cho estava encharcado e havia toalhas espalhadas por todo o 
lado. Zangada, Diane voltou ao quarto.
     - A casa de banho est um nojo. Est habituada a que os outros venham atrs de si para limpar o que sujou?
     -        Sim, senhora Stevens - respondeu Kelly a sorrir. - Na realidade, eu cresci rodeada de criadas para tomarem conta de mim.
     -        Pois olhe que eu no sou uma delas.
     - Tu no tinhas capacidade.
     - Acho que seria melhor se ns... - respondeu Diane respirando fundo.
     - Aqui no h nenhum "ns", senhora Stevens. H voc e eu. Ficaram a olhar uma para a outra, um longo momento. Em seguida, Diane, sem dizer mais nada, virou-se 
e voltou para a casa de de banho. Quinze minutos mais tarde, quando saiu, j Kelly estava deitada. Diane estendeu a mo para o interruptor para apagar a luz do tecto.
             No toque nisso! - Era um grito.
             - O qu? - perguntou Diane, espantada.
     -         Deixe as luzes acesas.
     -        Tem medo do escuro? - perguntou, desdenhosa, Diane.
     -        Sim. Eu... Eu tenho medo do escuro.
     -        Porqu? Os seus pais contavam-lhe histrias do papo antes de ir para a cama? - troou Diane.
     Fez-se um longo silncio e em seguida veio a resposta:
     -        Sim.  isso mesmo.
     Diane deitou-se na cama, deixou-se ficar quieta um minuto e em seguida fechou os olhos.
     Richard, meu querido. Nunca acreditei que se pudesse morrer de dor.
     Mas agora sei que  possvel. Preciso tanto de ti. Preciso de ti para me guiares.
     Preciso do teu calor e do teu carinho. Eu sei que tu ests aqui, algures, eu sei.
     Eu sinto-te. Tu s a ddiva que Deus me deu, mas, infelizmente, no foi por muito tempo. Boa noite, meu querido anjo da guarda. Por favor, nunca me abandones. 
Por favor...
     Na sua cama, Kelly ouvia Diane a soluar baixinho. Apertou os lbios com fora. Cala- te. Cala-te. E as lgrimas comearam a rolar-lhe pelas faces.
     
CAPTULO 27
     
     Na manh seguinte, quando Diane acordou, Kelly estava sentada numa cadeira virada para a parede.
     -        Bom dia - disse Diane. - Conseguiu dormir alguma coisa?
     No obteve qualquer resposta.
     -        Temos de pensar no que vamos fazer a seguir. No podemos ficar aqui para sempre.
     Nada de resposta. Exasperada, disse alto:
     -        Kelly, est-me a ouvir?
     Esta girou na cadeira: -        Importa-se? Estou a meio de um mantra.
     -        Oh! Desculpe. No fazia...
     - Esquea - e Kelly ps-se de p. - J alguma vez lhe disseram que ressona?
     Diane sentiu um pequeno choque. Recordou a voz de Richard a dizer-lhe, na primeira noite que dormiram juntos: Querida, sabias que ressonas ? Bom, melhor dizendo. 
No  bem ressonar. O teu nariz entoa deliciosas melodias atravs da noite, quais msicas celestiais. E tomara-a nos braos e...
     -        Pois ressona - continuou Kelly. Dirigiu-se  televiso e ligou-a.
     - Vamos ver o que se passa no mundo. - Comeou a fazer zapping atravs dos vrios canais e de repente parou. Um noticirio estava no ar e o apresentador era 
Ben Roberts.
     -         Ben! - exclamou Kelly.
     -        E quem  Ben? - perguntou Diane com ar indiferente.
     -        Ben Roberts.  ele que faz os noticirios e as entrevistas.  o nico entrevistador de quem realmente gosto. Ele e Mark eram grandes amigos. Um dia...
     De repente parou.
     Ben Roberts dizia: - ...notcia de ltima hora, Anthony Altieri, o alegado chefe da Mfia recentemente absolvido no julgamento por assassnio, morreu esta manh 
de cancro.
     Kelly virou-se para Diane:
     -        Ouviu aquilo? Altieri morreu.
     Diane no sentia nada. Eram notcias de um outro mundo, de uma outra poca. Olhou para Kelly e respondeu:
     -        Acho que ser melhor que nos separemos. As duas juntas somos demasiado fceis de detectar.
     -        Pois - disse Kelly secamente. - Somos da mesma altura.
     -        O que eu queria dizer  que...
     -        Eu sei o que queria dizer. Mas eu podia pintar a minha cara de branco e...
     Diane olhava para ela sem perceber.
     -        O qu?
     -        Estava a brincar. Separarmo-nos  boa idia.  quase como se fosse um plano, no ? - Kelly...
     -        Foi, sem dvida, interessante conhec-la, senhora Stevens.
     -        Vamos mas  sair daqui para fora - respondeu Diane.
     O trio estava apinhado de gente, com um enorme grupo de mulheres a chegarem e outras que partiam. Kelly e Diane aguardaram na fila.
     
     L fora a olhar para o trio, Harry Flint viu-as e escondeu-se. Pegou no celular.
     -        Chegaram neste momento ao trio.
     -        ptimo. Carballo j a est?
     - J.
     -        Faam exactamente como eu vos disse. Cubram a entrada do hotel em ambas as esquinas para que elas fiquem encurraladas de todos os lados. Quero que 
desapaream sem deixar rasto.
     
     Kelly e Diane tinham finalmente chegado ao balco da recepo.
     O recepcionista sorriu-lhes:
     -        Espero que tenham tido uma boa estadia.
     - Foi muito agradvel, sim - respondeu Diane.
     Quando se dirigiam para a sada, Kelly perguntou: - Sabe para onde vai, senhora Stevens?
     - No. S quero ver-me livre de Manhattan. E voc?
     Eu s me quero ver livre de si.
     -        Eu vou voltar para Paris.
     As duas puseram o p na rua e, com ateno, olharam em volta. Havia o trnsito normal de pees e tudo parecia normal.
     -        Adeus, senhora Stevens - disse Kelly com uma ponta de alvio na voz.
     -        Adeus, Kelly.
     Kelly virou  esquerda e comeou a caminhar em direco  esquina. Diane ficou parada por instantes a olhar para ela e em seguida virou para a direita e comeou 
a andar em sentido contrrio. Ainda mal tinham dado doze passos quando Harry Flint e Vince Carballo apareceram em pontas opostas do quarteiro. A expresso no rosto 
de Carballo era perigosa. Os lbios de Flint estavam virados num meio sorriso.
     Os dois homens comearam a aproximar-se das mulheres, esgueirando-se por entre os pees. Diane e Kelly viraram-se uma para a outra em pnico. Tinham cado numa 
armadilha. Caminharam apressadamente de volta  porta do hotel, mas esta encontrava- se de tal forma apinhada de gente que no tinham possibilidade de entrar. No 
tinham para onde ir. Os dois homens aproximavam-se.
     Kelly virou-se para Diane e ficou a olhar espantada, pois esta acenara alegremente primeiro a Flint e depois a Carballo.
     -        Ficou maluca? - perguntou baixinho.
     Diane, sempre a sorrir, tirou o celular para fora a e comeou a falar rapidamente.
     -        Neste momento, estamos mesmo em frente do hotel... Oh! Excelente. J esto na esquina? - E sorriu e acenou vitoriosamente para Kelly e disse em voz 
alta. - Eles vo chegar dentro de um minuto.
     Olhou para Flint e para Carballo e falou para o telefone:
     -        No, so s dois. - E ficou a ouvir. Em seguida riu:
     -        Certo... J a esto? ptimo.
     Enquanto Kelly e os dois homens olhavam para ela, Diane desceu do passeio para a rua, a observar os carros que passavam. Comeou a fazer sinais a um carro que 
se aproximava  distncia e ia acenando cada vez mais agitada. Flint e Carballo tinham parado, intrigados com o que viam.
     Diane apontou para os dois homens:
     - Ali! - gritou para o trnsito que passava, continuando a acenar furiosamente. - Ali!
      Flint e Carballo olharam um para o outro e tomaram uma deciso. Viraram-se na direco de onde tinham vindo e desapareceram no meio da multido.
     Kelly olhava fixamente para Diane, o corao aos saltos dentro do peito.
     -        Eles foram-se embora - disse. - Com quem... com quem falava?
     Diane respirou fundo para se recompor.
     -        Com ningum. Estou sem bateria.
     
CAPTULO 28
     
     Kelly olhava fixamente para Diane, sem palavras.
     -        Mas voc foi espantosa. Quem me dera ter pensado nisso.
     -        Vai pensar - respondeu secamente Diane.
     -        E agora, o que  que vai fazer?
     -        Vou sair de Manhattan.
     -        Mas como? - perguntou Kelly. - Eles vo vigiar todas as estaes de comboios, os aeroportos, as camionetas e as empresas de aluguel de automveis...
     -         Podemos ir at Brooklyn - alvitrou Diane depois de pensar um pouco. - A, no nos vo procurar.
     -        ptimo. Ento, v andando - respondeu Kelly.
     -        Como?
     -        Eu no vou consigo.
     Por segundos, pareceu que Diane ia dizer qualquer coisa, mas em seguida mudou de idias.
     -        Tem a certeza?
     -        Tenho sim, senhora Stevens.
     -        Muito bem - respondeu Diane. - Ento adeus.
     -        Adeus.
     Kelly ficou a ver enquanto Diane fazia sinal a um txi e entrava nele. Kelly ali estava, hesitante, a tentar decidir-se. Estava sozinha, numa rua desconhecida, 
sem nenhum lugar para onde ir, nem ningum  sua espera.
     -        Espere! - gritou. O txi parou e Kelly correu para ele.        :
     Diane abriu a porta e Kelly entrou e sentou-se.
     -        O que a fez mudar de idias?
     -        De repente lembrei-me que nunca fui a Brooklyn.
     Diane olhou para Kelly e abanou a cabea.
     O motorista perguntou:
     -        Para onde?
     -        Leve-nos at Brooklyn, por favor - pediu Diane.
     O txi comeou a andar.
     - Algum lugar em especial?
     - V andando.
     Kelly olhava para Diane, incrdula.
     -        No sabe para onde vamos?
     -        No se preocupe. Quando l chegarmos, eu saberei.
     Mas porque  que eu voltei ?, interrogava-se Kelly.
     Durante a viagem, as duas sentaram-se silenciosamente lado a lado. Ao fim de vinte minutos estavam a atravessar a ponte de Brooklyn.
     -        Andamos  procura de um hotel - disse Diane ao motorista. - No sei qual...
     -        Minha senhora, quer um hotel simptico? Eu conheo um. Chama-se Adams. Tenho a certeza de que vo gostar.
     O Adams Hotel era um edifcio de cinco andares com um avanado na frente e um porteiro  entrada.
     Quando o txi chegou  curva, o motorista perguntou: - Que tal lhes parece?
     -        Parece-nos bem - respondeu Diane.
     Kelly no fez comentrios.
     Saram do txi e o porteiro saudou-as.
     -        Bom dia, minhas senhoras. Vo-se hospedar?
     -        Sim - respondeu Diane.
     -        E tm bagagem?
     -        A companhia de aviao perdeu as nossas bagagens - respondeu Diane sem hesitar. - Conhece algum lugar aqui perto onde possamos comprar umas roupas?
     -        Ali ao fundo do quarteiro h uma loja de roupa de senhora bastante boa. Talvez prefiram registar-se primeiro e ns depois mandamos as vossas coisas 
para cima.
     -        ptimo. Acha que tm quarto?
     -        Nesta poca do ano, no h problema.
     O recepcionista deu-lhes as fichas para preencherem. Enquanto Kelly assinava a sua, disse alto "Emily Bront".
     Diane olhou rapidamente para o recepcionista para ver se ele reagia.
     Nada. E Diane escreveu "Mary Cassat".
     O empregado recebeu as duas fichas e perguntou:
     -        Como vo pagar? Com carto de crdito?
     -        Sim. Ns...
     -        No - interrompeu Diane rapidamente.
     Kelly ficou a olhar para ela e com relutncia concordou.
     -        Tm bagagem?
     -        Vai chegar. Ns j voltamos.
     -        Suite nmero 515.
     O empregado ficou a olhar para elas, enquanto saam a porta. Duas belezas. E sozinhas. Que desperdcio.
     A loja For Madame era um manancial. Havia roupas de senhora de todos os tipos e uma seco de couros com carteiras e malas.
     -        Parece que acertmos em cheio - comentou Kelly depois de olhar em volta.
     Uma vendedora aproximou-se delas.
     -        Posso ajudar?
     -        Estamos s a ver - respondeu Diane.
     A vendedora olhava enquanto cada uma delas tirava um carrinho de compras e partia pela loja.
     -        Olha! - exclamou Kelly. - Meias! - E agarrou numa meia dzia de pares. Diane seguiu-lhe o exemplo.
     -        Collants...
     -        Sutis.
     -        Cuecas.
     Depressa os seus carrinhos comearam a transbordar de lingerie. A vendedora trouxe solicitamente outros dois carrinhos.
     -        Eu ajudo.
     -        Muito obrigada.        .
     Diane e Kelly comearam a encher os novos carros.        !
     Kelly examinava um expositor com calas. Escolheu quatro pares e virou-se para Diane:
     -        Nunca se sabe quando teremos oportunidade de voltar a fazer compras.
     Diane escolheu algumas calas e um vestido de vero de riscas.
     -        No vai poder usar isso - disse Kelly. - As riscas vo fazer com que parea gorda.
     Diane ia a repor o vestido no expositor, depois olhou para Kelly e deu o vestido  vendedora:
     -        Vou levar este.
     A empregada olhava espantada enquanto Diane e Kelly vasculhavam tudo, expositor por expositor. Quando deram a sua busca por terminada, o que tinham escolhido 
encheu quatro malas.
     Kelly olhou para elas e sorriu.
     -        Acho que nos vai chegar por uns tempos.
     Quando chegaram junto da caixa para pagar, a vendedora perguntou:
     -        Vo pagar em dinheiro ou com carto de crdito?
     -        Carto...
     -        Dinheiro - interrompeu Diane.
     Kelly e Diane abriram as bolsas e dividiram a conta. Ambas tiveram o mesmo pensamento Estamos a ficar sem dinheiro.
     -        Ns estamos instaladas no Hotel Adams. Ser que podiam...? - perguntou Kelly  caixa:
     -        Entregar as vossas coisas? Mas com certeza. Os vossos nomes, por favor?
     Kelly hesitou uns segundos:
     -        Charlotte Bront.
     Diane olhou para ela e corrigiu rapidamente: -        Emily. Emily Bront.
     -         isso - lembrou-se Kelly.
     A caixa olhava para elas com um ar espantado. Em seguida virou-se para Diane:
     -        E o seu?
     -        Eu... bem, eu... - Diane pensava a toda a velocidade. Qual fora o nome que dera? Georgia O'Keeffe... Frida Kahlo... Joan Mitchell?
     -        O nome dela  Mary Cassatt - interveio Kelly.
     -        Com certeza - respondeu a empregada engolindo em seco.
     Ao lado da For Madame havia uma drugstore.
     -        Hoje  o nosso dia de sorte - comentou Diane sorrindo.
     Entraram apressadamente e deram incio a uma segunda voragem de compras.
     -        Rmel.
     -        Blush.
     -        Escovas de dentes.
     - Pasta de dentes.
     -        Tampes e pensos dirios.
     -        Batons.
     -        Ganchos para o cabelo.
     - P.
     Quando Diane e Kelly regressaram ao hotel, as quatro malas j tinham sido entregues no quarto. Kelly ficou a olhar para elas.
     -        Gostava de saber quais so as suas e quais so as minhas.
     -        Isso no interessa - comentou Diane. - Vamos ficar aqui pelo menos uma semana, ou talvez mais, por isso o melhor  pendurarmos as coisas.
     -        Tambm acho que sim.
     E comearam a pendurar os vestidos e as calas, a arrumar a lingerie nas gavetas e os artigos de toilette na casa de banho.
     Assim que as malas ficaram vazias e tudo estava nos seus lugares, Diane descalou os sapatos, despiu o vestido e, satisfeita, deixou-se cair sobre uma das camas.
     -        Isto soube-me muito bem - e suspirou de satisfao. - No sei quais so as suas intenes, mas, quanto a mim, vou jantar na cama. Em seguida vou tomar 
um longo banho. Daqui j no saio.
     Uma simptica criada fardada bateu  porta e entrou na suite, com um braado de toalhas limpas. Dois minutos depois, saiu da casa de banho.
     -        Se precisarem de alguma coisa, por favor toquem para me chamar. Tenham uma boa noite.
     Diane lia um folheto do hotel que estava na mesa de cabeceira.
     -        Sabe em que ano foi construdo este hotel?
     -        Vista-se - disse Kelly. - Vamo-nos embora.
     -        Foi construdo em...
     -        Vista-se. Ns vamo-nos pirar daqui para fora.
     -        Est a brincar comigo? - perguntou Diane a olhar para ela.
     -        No. Vai acontecer uma coisa horrvel. -A voz dela transbordava de pnico.
     Diane sentou-se, alarmada.
     -        Mas o que  que vai acontecer?
     -        No fao idia, mas ou nos vamos embora daqui depressa ou morremos ambas.
     O medo dela era contagioso, mas no fazia qualquer sentido.
     - Kelly, no est a ser razovel. Se...
     - Diane, peo-lhe.
     Quando Diane mais tarde relembrou a situao, no percebeu se tinha cedido devido  tenso que havia na voz de Kelly, ou se fora por ela lhe ter chamado pela 
primeira vez Diane.
     - Tudo bem - respondeu Diane levantando-se. - Arrumamos as nossas roupas e...
     - No! Deixe tudo para trs.
     Diane olhava para Kelly sem querer acreditar:
     -        Deixar tudo? Mas acabmos de comprar...
     -        Depressa! J!
     -        Est bem.
     S espero que ela saiba o que est a fazer, pensava Diane enquanto, relutante, se voltava a vestir.
     -        Mais depressa! - Era como um grito estrangulado.
     Diane vestiu-se rapidamente.
     -        Embora!
     Pegaram nas carteiras e correram pelo corredor.
     Eu devo estar doida para estar afazer isto, pensava Diane, aborrecida. Quando chegaram ao trio do hotel, Diane deu por si a correr para conseguir acompanhar 
Kelly.
     -        Importa-se de me dizer onde raio  que ns vamos?
     Na rua, Kelly olhou para ambos os lados.
     -        H um parque ali do outro lado, em frente do hotel. Eu... eu preciso de me sentar.
     -        Mas, o que  que estamos ns a fazer? - perguntou Diane.
     Nesse instante, ouviu-se uma enorme exploso vinda de dentro do hotel e, de onde estavam sentadas, Diane e Kelly viram as janelas do quarto onde tinham estado 
instaladas a saltar e detritos a voarem pelos ares.
     Muda de espanto, Diane olhava o que estava a acontecer.
     -        Aquilo... aquilo foi uma bomba - o terror instalara-se-lhe na voz. - No nosso quarto. Como ... como  que sabia? - perguntou, virando-se para Kelly 
-        A criada.
     -        O que  que ela tinha? - perguntou, intrigada, Diane.
     -        As criadas de hotel no usam sapatos de trezentos dlares do Manolo Blahnik - respondeu Kelly num murmrio.
     Diane sentia dificuldade em respirar.
     -        Como  que eles nos descobriram?
     -        No fao idia - respondeu Kelly. - Mas no se esquea com que tipo de pessoas estamos a lidar.
     E ali ficaram sentadas, as duas, aterrorizadas.
     -        Tanner Kingsley deu-lhe alguma coisa quando esteve no gabinete dele? - perguntou Diane.
     -        No. E a si? - respondeu Kelly abanando a cabea.
     -        Tambm no.
     Lembraram-se ambas ao mesmo tempo.
     -        O carto!
     Abriram as bolsas e tiraram para fora os cartes que Tanner Kingsley lhes dera.
     Diane tentou rasgar o seu ao meio, mas ele nem sequer dobrava.
     -        Tem uma espcie de chip l dentro - disse, furiosa.
     Kelly tambm tentou dobrar o seu.
     -        O meu tambm tem.  assim que os filhos da me nos tm conseguido localizar.
     Diane pegou no carto de Kelly e disse, zangada:
     -        Pois agora acabou-se.
     Kelly ficou a olhar enquanto Diane caminhava at  rua e lanava os cartes para o meio da faixa de rodagem. Em poucos minutos j tinham passado por cima deles 
uma boa dzia de carros e camies.  distncia, o som das sirenes que se aproximavam enchia o ar.
     Kelly levantou-se:
     -        O melhor  desaparecermos daqui, Diane. Agora j no vo poder mais localizar-nos. Vamos estar em segurana. Eu vou regressar a Paris, e voc, o que 
vai fazer?
     -        Tentar descobrir porque  que tudo isto est a acontecer.
     -        Tenha cuidado.
     -        Voc tambm.
     Diane hesitou uns segundos:
     -        Kelly, muito obrigada. Salvou-me a vida.
     -        H uma coisa com que no me sinto bem. Eu menti-lhe - disse Kelly atrapalhada.
     -        Mentiu?
     -        Lembrasse do que eu lhe disse sobre o seu quadro?
     -        Lembro.
     -        Eu gostei dele, gostei mesmo muito. Pinta muito bem.
     -        Obrigada - e Diane sorriu. - Receio que tambm eu tenha sido muito brusca consigo.
     -        Diane?
      -         Sim?
     -        Eu no cresci rodeada de criados.
     Diane riu e as duas abraaram-se.
     -        Fico satisfeita por nos termos conhecido - disse Diane calorosamente.
     -        Eu tambm.
     Ali ficaram a olhar uma para a outra, com dificuldade em dizer adeus.
     -        Tenho uma idia - disse Diane. - Se precisar de mim, aqui tem o meu nmero de celular. - Escreveu-o num pedao de papel.
     -        E este  o meu - respondeu Kelly e deu-o a Diane.
     -        Ento... Uma vez mais adeus.
     -        Pois. Eu... Bom, adeus Kelly - respondeu Diane, hesitante.
     Diane ficou a ver Kelly afastar-se. A esquina, ela virou-se e acenou com a mo. Diane retribuiu o aceno. Assim que Kelly desapareceu, Diane olhou para o buraco 
enegrecido que deveria ter sido o seu tmulo e sentiu um arrepio.
     
CAPTULO 29
     
     Kathy Ordonez entrou no gabinete de Tanner Kingsley com os jornais da manh na mo e disse:
     - Aconteceu mais uma vez - e deu-lhe os jornais. Todos traziam enormes cabealhos.
     "Nevoeiro perturba as mais importantes cidades alems" "Todos os aeroportos alemes fechados devido ao nevoeiro" "Nmero de mortos aumenta devido ao nevoeiro 
na Alemanha"
     -        Quer que mande tudo isto  senadora van Luven? - perguntou Kathy.
     -        Sim. E rapidamente - respondeu Tanner a sorrir.
     Kathy saiu apressadamente do gabinete.
     Tanner olhou para o relgio de pulso e sorriu. A estas horas a bomba j deve ter explodido. Finalmente estou livre daquelas duas cabras. A voz da sua secretria 
soou no intercomunicador:
     -        Senhor Kingsley, a senadora van Luven est ao telefone, para falar consigo. Quer atender?
     -        Sim. - Tanner atendeu o telefone. - Daqui Tanner Kingsley.
     -        Como est, senhor Kingsley? Fala a senadora van Luven.
     -        Muito boa tarde, senadora.
     -        Eu e as minhas assistentes estamos perto das vossas instalaes e gostaria de saber se seria conveniente para si aparecermos para uma pequena visita?
     -        Com certeza - respondeu Tanner com entusiasmo. - Terei muito gosto em lhe mostrar a nossa empresa.
     -        Muito bem. Estaremos a dentro em breve.
     Tanner premiu o boto do intercomunicador:
     -        Estou  espera de umas visitas, daqui a minutos. Por favor, no me passe mais chamadas.
     Pensou no obiturio que lera h poucas semanas nos jornais. O marido da senadora van Luven morrera de um ataque cardaco. Vou apresentar os meus sentimentos.
      Quinze minutos mais tarde, a senadora van Luven e as suas duas atraentes assistentes chegaram.
     Tanner ergueu-se para as cumprimentar.
     -        Sinto-me encantado por ter decidido aparecer.
     - J conhece Corinne Murphy e Karolee Trost - respondeu a senadora. Tanner sorriu:
     -        Sim. Tenho muito gosto em voltar a v-las - e virou-se para a senadora. - Soube da morte do seu marido. Lamento muito.
     Ela agradeceu.
     -        Muito obrigada. H j uns tempos que ele estava doente e por fim, h umas semanas... - respondeu, forando um sorriso. - A propsito, as informaes 
que me tem enviado sobre o aquecimento global tm sido muito interessantes.
     -        Muito obrigado.
     -        Quer ter a amabilidade de nos mostrar ento o que fazem aqui?
     -        Mas  claro. E que tipo de visita tm em mente? Temos visitas de cinco dias, de quatro e de hora e meia.
     -        A de cinco dias no seria m... - comentou Corinne Murphy a sorrir.
     A senadora van Luven interrompeu-a:        -Contentamo-nos com a de meia hora.
     -        Com todo o gosto.
     -        Quantas pessoas trabalham no KIG? - perguntou a senadora.
     -        Perto de duas mil. O KIG tem escritrios em cerca de uma dzia das mais importantes cidades do mundo.
     Corinne Murphy e Karolee Trost estavam impressionadas.
     -        Nestas instalaes, temos quinhentos empregados. Os membros da equipa e todos os que se encontram ligados  pesquisa encontram-se em instalaes  
parte. Cada cientista que aqui empregamos tem um QI mnimo de cento e sessenta.
     -        So gnios! - arquejou Corinne Murphy.
     A senadora olhou para ela com um olhar de desaprovao.
     -        Queiram seguir-me, por favor - pediu Tanner.
     A senadora, Murphy e Trost seguiram Tanner atravs de uma porta lateral que conduzia aos edifcios contguos e chegaram a uma sala cheia de equipamento de aspecto 
esotrico.
     A senadora dirigiu-se a uma daquelas estranhas mquinas e perguntou: - Para que serve isto?
     -        Esta mquina  um espectgrafo de som, senadora. Converte o som da voz em escrita impressa. Tem capacidade para reconhecer milhares de vozes.
     -        E como  que funciona? - perguntou Trost, franzindo o sobrolho.
     - Pense assim, quando um amigo lhe telefona, voc reconhece-lhe imediatamente a voz porque o padro de som da voz dele est registado no circuito do seu crebro. 
Ns programmos esta maquina da mesma forma. Um filtro electrnico permite apenas a entrada no registo de uma certa gama de freqncias, por isso recebemos simplesmente 
os traos distintivos da voz dessa pessoa.
     O resto da visita transformou-se numa sequncia fascinante de gigantescas mquinas, diminutos microscpios electrnicos e salas de laboratrio cheias de quadros 
negros repletos de misteriosos smbolos, laboratrios onde uma dzia de cientistas trabalhavam em grupo e gabinetes onde um nico cientista se encontrava embrenhado 
a tentar resolver um arcano problema qualquer.
     Passaram por um edifcio em tijolo vermelho com um conjunto duplo de fechaduras na porta.
     -        E aqui, o que se passa? - perguntou a senadora van Luven.
     -        Uma pesquisa governamental secreta. Desculpem-me, mas no  permitido o acesso.
     A visita demorou duas horas. Quando terminou, Tanner acompanhou-as de volta ao seu gabinete.
     -        Espero que tenham gostado - disse.
     -        Sim. Foi interessante - respondeu a senadora.
     -        Muito interessante. - Corinne Murphy sorria. Os seus olhos s viam Tanner.
     -        Eu adorei! - exclamou Karolee Trust.
     Tanner virou-se para a senadora:
     -        A propsito, j teve oportunidade de conversar com os seus colegas acerca do problema ambiental de que falamos?
     -        Sim - respondeu a senadora, num tom de voz em que no se comprometia.
     E pode dizer-me se pensa que existem hipteses, senadora?
     - Senhor Tanner, aqui no se trata de um jogo de pensar. Ser informado assim que for tomada uma deciso.
             Muito obrigado - retorquiu Tanner, tentando sorrir. - Muito obrigado por terem vindo at c.
     E ficou a v-las sair. Assim que a porta se fechou nas costas delas, a voz de Kathy Ordonez soou no intercomunicador:
     -        Senhor Kingsley, Saida Hernandez tem estado a tentar entrar em contacto consigo. Disse que era urgente, mas o senhor pediu-me que no lhe passasse 
chamadas.
     -        Ligue para ela - pediu Tanner.
     Saida Hernandez era a mulher que ele mandara ao Adams Hotel para colocar a bomba.
     -        Linha um.
     Tanner atendeu o telefone,  espera de ouvir boas notcias.
     -        Ento Saida? Correu tudo de acordo com o plano?
     -        Lamento muito, senhor Kingsley, mas no! - Sentiu o medo na voz dela. - Elas conseguiram escapar.
     -        Elas o qu? - O corpo de Tanner ficou rgido.
     -        Pois foi, senhor. Saram do hotel antes da bomba explodir.
     Um dos porteiros viu-as sair.
     Tanner desligou, batendo com toda a fora o telefone, e carregou no boto que ligava  sua secretria.
     -        Diga a Flint e a Carballo para virem c.
     Um minuto mais tarde, Harry Flint e Vince Carballo entravam no gabinete de Tanner. Este olhou-os. Estava furioso.
     -        As cabras conseguiram mais uma vez escapar. Esta  a ltima vez que permito que isto acontea. Esto a perceber? Eu vou dizer onde elas esto e vocs 
vo tratar-lhes da sade. Alguma pergunta?
     -        No, senhor - responderam Flint e Carballo olhando um para o outro.
     Tanner premiu um boto e imediatamente apareceu o mapa electrnico da cidade.
     -        Enquanto elas tiverem os meus cartes, conseguimos sempre saber onde esto.
     E ficaram a ver no ecr da televiso as luzes a acenderem-se no mapa. Tanner premiu outro boto. As luzes no se mexeram. Cerrou os dentes.
     -        Desfizeram-se dos cartes.
     E o rosto dele foi ficando vez mais vermelho. Virou-se para Flint e Carballo. - Eu quero-as hoje!
     Flint olhou para Tanner e perguntou:
     -        Mas como, se ns nem sabemos onde  que elas esto! Com  que quer...?
     -        Acham mesmo que ia permitir que uma mulher fosse mais esperta do que eu? - interrompeu. - Enquanto elas tiverem os celulares, no vo a lado nenhum 
sem ns sabermos.
     -        O senhor conseguiu arranjar os celulares delas? - perguntou Flint espantado.
     Tanner nem se dignou responder. Examinava o mapa.
     -        Nesta altura j devem estar separadas. - Premiu outro boto.
     -        Vamos tentar primeiro Diane Stevens. - Marcou um nmero.
     As luzes no mapa comearam a mexer e, devagarinho, foram-se centrando nas ruas de Manhattan, mostrando hotis, lojas e centros comerciais. Por fim, pararam 
numa loja em cujo letreiro se lia "O Shopping para Todos".
     - Diane Stevens est num centro comercial. - Premiu outro boto. - Vamos ver onde est Kelly Harris.
     E repetiu o procedimento. As luzes recomearam a mover-se, desta vez centrando-se numa outra parte da cidade.
     Os homens olhavam enquanto a zona iluminada se ia reduzindo e mostrava uma rua com uma loja de roupas, um restaurante, uma farmcia e uma paragem de autocarros. 
As luzes pesquisaram a rea e, de repente, pararam em frente de um edifcio grande e aberto.
     -        Kelly Harris est numa estao de camionetas. - A voz dele era sinistra. - Temos que as apanhar e depressa.
     -        Mas como? - perguntou Carballo. - Cada uma est no seu lado da cidade. Quando l chegarmos, j tero partido.
     -        Venham comigo - pediu Tanner virando-se.
     E dirigiu-se a uma sala ao lado, com Flint e Carballo mesmo atrs dele. A sala onde entraram era uma imensido de monitores, de computadores e de teclados electrnicos, 
com diferentes teclas de cores codificadas. Numa prateleira estava instalada uma pequena mquina com dzias de CDs e de DVDs. Tanner procurou e inseriu na mquina 
um que tinha escrito por fora Diane Stevens. E foi explicando aos homens:
     -        Isto que aqui temos  um sintetizador de voz. As vozes das senhoras Stevens e Harris foram previamente digitalizadas. Os padres da fala delas foram 
registados e analisados. Ao premir um boto, cada palavra que eu disser ser calibrada de forma a duplicar vozes delas. - Tanner pegou num celular e marcou uns nmeros. 
Ouviu-se um cauteloso:
     Al? - ouviu-se a voz de Kelly Harris.
     Kelly? Que bom que a apanho. - Era Tanner quem falava, mas era a voz de Diane Stevens que eles ouviam.
     -        Diane! Apanhou-me mesmo a tempo. Estou prestes a sair daqui para fora.
     Flint e Carballo ouviam, maravilhados.
     -        Kelly, para onde vai?
     - Vou para Chicago. Vou apanhar um avio para casa, de O'Hare.
     -        Kelly, no pode ir embora.
     Houve um silncio e em seguida:
     -        Porqu?
     -        Porque eu finalmente descobri o que se estava a passar. J sei quem matou os nossos maridos e porqu.
     -        Oh, meu Deus! Mas como foi... Tem a certeza?
     -        Absoluta. Tenho todas as provas de que possamos precisar.
     -        Diane, isso  maravilhoso.
     -        Tenho as provas comigo. Estou no Delmont Hotel, na Penthouse A. Daqui vou ao FBI. E queria que viesse comigo, mas se tem mesmo que voltar para casa, 
compreendo.
     -        No! De forma nenhuma. Eu quero terminar aquilo que Mark estava a tentar fazer.
     Flint e Carballo ouviam cada palavra, fascinados. Ao fundo, ouvia-se o anncio do autocarro para Chicago.
     -        Eu vou consigo, Diane. Disse que era o Delmont Hotel?
     -        Sim. Fica na Eighty-sixth Street. Penthouse A.
     -        Vou a caminho. Encontramo-nos daqui a pouco.
     A ligao foi cortada. Tanner virou-se para Flint e Carballo.
     -        Metade do problema est resolvido. Agora vamos tratar da outra parte.
     E Flint e Carballo observavam enquanto Tanner inseria um CD com o nome de Kelly Harris no sintetizador. Tanner moveu um interruptor no telefone e marcou uns 
nmeros.
     A voz de Diane surgiu quase imediatamente.
     -        Al?
     Tanner falou no telefone, mas era a voz de Kelly que se ouvia.
     -        Diane...
     -        Kelly! Est tudo bem?
     -        Est tudo muito bem. Tenho excitantes notcias. Descobri quem matou os nossos maridos e porqu.
     -        O qu? Mas quem... Quem...?
     -        No podemos falar disto ao telefone, Diane. Estou instalada no Delmont Hotel, na Eighty-sixth Street. Penthouse A. Pode vir c ter comigo?
     -        Mas  claro. Vou j.
     -        Excelente, Diane. Fico  espera.
     E Tanner desligou e virou-se para Flint:
     -        Tu  que vais estar  espera! - Deu uma chave a Flint. - Esta  a chave da  Penthouse A.  uma suite da empresa. Vai imediatamente para l e espera 
por elas. Quero que as mates assim que entrarem a porta. Eu depois trato dos corpos.
     Carballo e Tanner viram Flint sair apressadamente pela porta.
     -        E eu, o que quer que eu faa, senhor Tanner? - perguntou Carballo.
     -        Tu encarregas-te de Saida Hernandez.
     Dentro da suite,  espera, Flint estava determinado a no deixar que, daquela vez, alguma coisa corresse mal. Ouvira falar sobre o que Tanner fazia aos que 
lhe atrapalhavam a vida. Comigo no, pensou. Pegou na arma, verificou o carregador e aplicou o silenciador. Agora s lhe restava esperar.
     Num txi, a seis quarteires do hotel, Kelly pensava excitadamente no que Diane lhe dissera. Descobri finalmente o que se estava a passar. J sei quem matou 
os nossos maridos e porqu. Tenho todas as provas de que possamos precisar. Mark, finalmente vou fazer com que paguem por aquilo que te fizeram.
     Diane estava febril de impacincia. O pesadelo chegava ao fim. Kelly descobrira de alguma forma quem estava por detrs de toda aquela trama para as matar e 
tinha provas. Richard, vou fazer com que te sintas orgulhoso de mim. Sinto-te perto e...
     Os seus pensamentos foram interrompidos pelo motorista do txi.
     - Chegmos, minha senhora. Delmont Hotel.
     
CAPTULO 30
     
     Enquanto Diane atravessava o trio do Delmont Hotel em direco aos elevadores, o seu corao comeou a bater aceleradamente. Estava ansiosa por ouvir o que 
Kelly tinha para lhe contar.
     A porta de um dos elevadores abriu-se e vrias pessoas saram.
     -        Sobe?
     -        Sim. - Diane entrou. - Para a Penthouse, por favor.
     Pensava velozmente Mas em que projecto estavam os nossos maridos envolvidos que era to secreto que acabaram por serem mortos? E como foi que Kelly o conseguiu 
descobrir?.
     O elevador encheu. A porta foi fechada e comeou a subir. Diane vira Kelly ainda h umas horas atrs, mas, para seu espanto, percebeu que estava com saudades 
dela.
     Ao fim de uma meia dzia de paragens, o rapaz do elevador abriu a porta e disse:
     -        Penthouses.
     Na sala de estar da Penthouse A, Flint aguardava junto da porta, tentando ouvir os sons que vinham do corredor. O problema  que a porta era bastante grossa 
e Flint sabia porqu. No era para evitar que o som de fora se ouvisse no interior. Era para evitar que o som do interior se ouvisse l fora.
     Era naquela Penthouse que tinham lugar as reunies de administrao, mas Flint costumava brincar e dizer que ali nunca ningum se aborrecera. Trs vezes por 
ano, Tanner convidava alguns directores do KIG de uma dzia de pases. Quando os assuntos agendados terminavam, era trazido um enxame de lindssimas jovens para 
divertir os convidados. Flint vrias vezes ficara de guarda nessas orgias e agora, ali de p, relembrava o mar de corpos nus, de gemidos e de libertinagem que se 
desenrolava, pelas camas e sofs, e imediatamente sentiu uma ereco. Sorriu. Em breve as senhoras resolveriam a situao.
     Quando Diane ia a sair do elevador, perguntou ao rapaz:
     -        Para que lado fica a Penthouse A?
     -        No lado esquerdo do elevador, mas no est l ningum 
     - Como? - Diane virou-se.
     -        Essa Penthouse s  usada para reunies de administrao e a prxima  apenas em Setembro.
     -        Eu no vou a nenhuma reunio de administrao. - Diane sorriu. - Vou ter com uma amiga que est  minha espera.
     O rapaz, que a ficou a ver enquanto ela virava  esquerda e se dirigia para a Penthouse A, encolheu os ombros, fechou a porta do elevador e comeou a descida.
     A medida que Diane se aproximava da porta da Penthouse, acelerou o passo, tal era a excitao que sentia a crescer dentro de si.
     L dentro, Flint aguardava que batessem  porta. Qual delas ser a primeira a chegar? A loura ou a negra ? Quero l saber, no sou racista!
     Pareceu-lhe ouvir o som de algum a aproximar-se e segurou na arma com firmeza.
     Kelly lutava para combater a impacincia. Chegar ao Delmont Hotel fora complicado, o trnsito... os sinais vermelhos... as obras nas ruas. Estava atrasada. 
Correu pelo trio do hotel e entrou no elevador.
     - Para a Penthouse, por favor.
     No quinquagsimo andar, enquanto Diane se aproximava da Penthouse A, a porta da sutezinha abriu-se e um empregado apareceu, recuando para o corredor, enquanto 
puxava um enorme carrinho cheio de bagagens, bloqueando-lhe a passagem.
     -        Eu j tiro isto da frente - disse, em jeito de desculpa.
     Voltou a entrar na suite e apareceu com mais duas malas. Diane tentou passar, mas no havia espao. O empregado disse:
     -        Pronto, j est. Queira desculpar o incmodo - e afastou o carrinho para que Diane pudesse passar.
     Ela caminhou at  Penthouse A e erguia a mo para bater  porta quando se ouviu uma voz a chamar, vinda do fundo do corredor:
     - Diane!
     Virou-se. Kelly acabava de sair do elevador.
     - Kelly!
     Diane voltou para trs ao seu encontro.
     Dentro da Penthouse, Flint tentava ouvir o que se passava. Estaria ali algum? Podia abrir a porta para espreitar, mas, se o fizesse, podia pr o plano em risco. 
Mata-as assim que entrarem pela porta.
     No corredor, Kelly e Diane abraavam-se, encantadas por se reencontrarem.
     -        Desculpe estar atrasada, mas o trnsito estava uma desgraa.
     Apanhou-me no momento em que ia apanhar o autocarro para Chicago - dizia Kelly.
     Diane olhava intrigada para ela.
     -        Eu? Eu apanhei-a?
     -        Sim. Estava a entrar para o autocarro quando me ligou.
     Fez-se um momento de silncio.
     -        Mas, Kelly... Eu no lhe liguei. Foi voc quem me ligou. Para me dizer que tinha as provas de que precisamos... - E viu o olhar de horror a aparecer 
no rosto de Kelly.
     -        Eu no...
     Viraram-se as duas a olhar para a Penthouse A. Diane respirou fundo.
     -        Vamos...
     -        Isso.
     Desceram a correr um lano de escadas, entraram no elevador e saram do hotel, tudo em menos de trs minutos.
     Dentro da Penthouse, Flint olhava para o relgio. Mas porque  que as cabras esto a demorar tanto tempo?
     Diane e Kelly sentaram-se no metropolitano numa carruagem apinhada de gente.
     -        No sei como eles fizeram isto - comeou Diane. - Mas era a sua voz.
     -        E eu ouvi a sua. Eles no vo descansar enquanto no nos matarem. So como polvos com milhares de tentculos sangrentos que querem colocar em redor 
dos nossos pescoos.
     - Para nos matarem, precisam primeiro de nos encontra ripostou Diane.
     -        Como  que nos encontraram desta vez? J nos desfizemos dos cartes do Kingsley e no temos mais nada com que possam... Olharam uma para a outra e 
em seguida para os celulares.
     -        Mas como foi que eles conseguiram os nossos nmeros? -  interrogou-se Kelly.
     -        Lembre-se de com quem estamos a lidar. De qualquer das maneiras, este , talvez, o lugar mais seguro em toda Nova Iorque. Pod mos ficar no metropolitano 
at que... - Diane olhou para o outro lado da coxia e ficou plida.
     -        Vamos sair na prxima paragem - pediu com urgncia na voz. - Na prxima.
     -        O qu?  Mas voc disse...
     E Kelly seguiu o olhar de Diane. Na placa de anncios que corria por cima das janelas estava uma fotografia de uma sorridente Kelly que anunciava um lindssimo 
relgio de senhora. - Oh, meu Deus!
     Levantaram-se e dirigiram-se apressadamente para a porta,  espera da prxima paragem. Dois marines sentados junto  porta olhavam de boca aberta para elas.
     Kelly sorriu-lhes, tirou o celular a Diane, pegou no seu e deu um a cada um dos militares. - Ns depois ligamo-vos.
     E desapareceram.
     Na Penthouse, o telefone tocou. Flint atendeu-o.
     - J passou uma hora. O que se passa, senhor Flint? - perguntou Tanner.
     -        Elas no apareceram.
     -        O qu?
     -        Tenho estado aqui  espera.
     - Volta j para o escritrio.-Tanner desligou o telefone com fora.
     
     No incio comeara como um assunto de trabalho sem importncia de que Tanner tinha de tratar. Agora passara a ser um assunto pessoal. Tanner pegou no seu celular 
e marcou o nmero do celular de Diane.
      Um dos marines a quem Kelly dera os telefones atendeu: - finalmente, querida! Ento, o que fazemos hoje  noite?
     As cabras desfizeram-se dos telefones.
     
     Era uma penso de aspecto rasca, numa rua lateral do West Side. Quando o txi ia a passar em frente, Diane e Kelly repararam no anncio que dizia "TEMOS QUARTOS" 
e Diane pediu ao motorista:
     -        Pare aqui, por favor.
     As duas saram e bateram  porta da frente do prdio. A dona da penso, que lhes abriu a porta, era uma simptica mulher de meia idade chamada Alexandra Upshaw.
     -        Posso arranjar-vos um excelente quarto a quarenta dlares por noite, com pequeno almoo.
     -        Isso  ptimo - respondeu Diane, mas viu a expresso no rosto de Kelly. - O que se passa?
     -        Nada! - Kelly fechou por instantes os olhos. No, aquela no se parecia nada com a penso em que fora criada, a limpar retretes, a ter de cozinhar 
para gente desconhecida e a ouvir os sons do padrasto bbado a bater na me. Conseguiu esboar um sorriso. - Serve perfeitamente.
     Na manh seguinte, Tanner estava reunido com Flint e Carballo.
     -        Elas deitaram fora os meus cartes e despacharam tambm os celulares - disse.
     -        Ento, quer dizer que as perdemos - comentou Flint.
     -        Nada disso, senhor Flint - respondeu Tanner. - S por cima do meu cadver. Ns no vamos atrs delas. Elas  que viro ter connosco.
     Os dois homens olharam um para o outro e em seguida de volta para Tanner.
     -        Como assim?
     -        Diane Stevens e Kelly Harris vo estar aqui, no KIG, na prxima segunda-feira, s onze e um quarto da manh.
     
CAPTULO 31
     
     Kelly e Diane acordaram ao mesmo tempo. Kelly sentou-se na cama e olhou para Diane:
     -        Bom dia. Dormiu bem?
     -        Tive uns sonhos esquisitos.
     -        Tambm eu. - Diane hesitou. - Kelly, quando ontem saiu do elevador exactamente no momento em que eu ia bater  porta da suite, acha que foi pura coincidncia?
     -          claro que sim. E muita sorte tivemos ns.
     - Kelly olhava para Diane. - O que quer dizer com isso?
     -        At aqui temos tido muita sorte - respondeu ela com muito cuidado. - Mesmo muita sorte.  como se... Como se algum, ou alguma coisa, nos estivesse 
a ajudar ou a guiar.
     Os olhos de Kelly estavam presos nela.
     -        Quer dizer... Do tipo anjo da guarda?
     - Isso. - Kelly respondeu, cheia de pacincia. - Diane, sei que acredita nessas coisas, mas eu no. E eu sei que no tenho nenhum anjo da guarda sobre o meu 
ombro.
     -        Voc tem, o problema  que no o v - respondeu Diane.
     -        Como queira - retorquiu Kelly rolando os olhos.
     -        Vamos tomar o pequeno almoo - sugeriu Diane. - Aqui estamos em segurana. Acho que no corremos perigo.
     Kelly grunhiu.
     -        Se acha que j no corremos perigo, ento  porque no conhece os pequenos almoos das penses. Vestimo-nos, sim, mas depois vamos comer fora. Parece-me 
que vi um caf ali na esquina.
     -        Est bem. Preciso de fazer uma chamada. - Diane dirigiu-se ao telefone e pediu um nmero.
     Uma telefonista apareceu na linha:
     -        KIG.
     -        Queria falar com Betty Barker.
     -  s um momento, por favor.
     Tanner vira a luz azul a brilhar e ouvia na linha de conferncia.
     - A menina Barker neste momento no se encontra no gabinete dela - Quer deixar mensagem?
     - Oh! No, muito obrigada.
     Tanner franziu o sobrolho. Demasiado rpido para conseguir localizar.
     
     Diane virou-se para Kelly: - Betty Barker continua a trabalhar no KIG, por isso s precisamos de encontrar uma maneira de chegarmos at ela.
     -        Talvez o nmero de casa venha na lista.
     -         possvel, mas tambm pode estar sob escuta - lembrou Diane. Pegou na lista telefnica junto do telefone e comeou a procurar a letra que pretendia. 
- Est aqui.
     Diane marcou o nmero, ficou a ouvir e em seguida desligou devagarinho.
     Kelly aproximou-se.
     -        O que foi?
     Diane demorou um bocado at conseguir responder:
     -        O telefone dela foi desligado.
     Kelly respirou fundo.
     -        Acho que vou tomar uma ducha.
     Quando Kelly acabou a ducha e ia a sair da casa de banho reparou que deixara as toalhas sujas espalhadas pelo meio do cho. Ia continuar a andar, mas hesitou, 
apanhou- as e colocou-as direitas na prateleira. Entrou no quarto.
     -         toda sua.
     Diane respondeu com ar distrado:
     -        Obrigada.
     A primeira coisa que Diane reparou assim que entrou na casa de banho foi que todas as toalhas que tinham sido usadas estavam colocadas direitinhas na prateleira. 
Sorriu.
     Entrou na ducha e deixou que a gua quente a descontrasse. Lembrou-se de quando tomava ducha com o Richard e como era bom os seus corpos a tocarem-se... Nunca 
mais. Mas as recordaes estariam l para sempre. Para sempre....- E havia as flores.
     - Elas so lindas, meu querido. O que  que estamos a comemorar?
     -        O Dia de So Swithin.
     E mais flores.
     -        O Dia em que Washington atravessou o Delaware.
     -        O Dia Nacional do Periquito.
     -        O Dia dos Amantes do Aipo.
     Quando o carto com as flores tinha escrito "Dia dos Lagartos Saltadores", Diane rira e dissera:
     -        Amor, os lagartos no saltam.
     E Richard levara as mos  cabea e respondera alarmado:
     -        Maldio! Enganaram-me!
     E ele adorava escrever-lhe poemas de amor. Quando Diane se vestia, encontrava um poema num sapato, ou no meio dos sutis, ou no bolso do casaco...
     E depois houvera aquela vez em que ele chegara a casa depois do trabalho e ela estava parada do lado de dentro da porta, completamente nua, tirando um par de 
sapatos de salto alto, e lhe perguntara:
     -        Querido, gostas destes meus sapatos?
     E as roupas dele tinham cado no cho e o jantar fora atrasado. Eles...
     
     A voz de Kelly chamava-a:
     -        Vamos tomar o pequeno almoo ou vamos jantar?
     Dirigiram-se ao caf. O dia estava fresco e limpo e o cu era de um azul translcido.
     - Cus azuis - comentou Diane. - Um bom pressgio.
     Kelly mordeu o lbio para evitar rir. De uma certa maneira, as supersties de Diane eram engraadas.
     A poucos metros do caf, Diane e Kelly passaram por uma pequena loja. Olharam uma para a outra, fizeram um enorme sorriso e entraram.
     Uma vendedora aproximou-se:        - Posso ajudar?
     - Sim - respondeu Kelly entusiasmada.
     -        Temos de ter calma - avisou Diane. - Lembre-se do que aconteceu da outra vez.
     - Pois. Nada de exageros.
     As duas vaguearam pela loja, escolhendo um nmero bastante reduzido de artigos. Deixaram as roupas velhas que tinham vestidas nos provadores.
     - No vo levar estas roupas? - perguntou a vendedora.
     - No. Pode d-las para a caridade - respondeu Diane a sorrir.
      esquina havia uma loja de convenincia.
     -        Olha - disse Kelly. - Celulares descartveis.
     Kelly e Diane entraram e compraram dois, cada um deles com mil minutos includos.
     -        Vamos trocar os nmeros outra vez - disse Kelly.
     -        Okay. - Diane sorriu.
     Demorou-lhes apenas uns segundos. Quando estavam para sair e Diane pagava na caixa, olharam para as carteiras.
     -        Estou quase a ficar sem dinheiro.
     -        Eu tambm - corroborou Kelly.
     -        Talvez tenhamos que comear a usar os cartes de crdito - opinou Diane.
     -        No enquanto no encontrarmos o buraco mgico do coelho.
     -        O qu?
     -        Esquea.
     Quando j estavam sentadas  mesa do caf, a empregada aproximou-se e perguntou:
     -        O que querem tomar, minhas senhoras?
     Kelly virou-se para Diane:
     -        Escolha primeiro.
     -        Eu quero um sumo de laranja, ovo, torradas e caf.
     A empregada dirigiu-se a Kelly:
     -        E a senhora?
     -        Meia toranja.
     -        S isso? - comentou Diane.
     -        Exactamente.
     A empregada partiu.
     -        Voc no pode viver s com meia toranja.
     -         o hbito. H uma srie de anos que fao uma dieta rigorosa.
     Alguns modelos chegam mesmo a comer os Kkeaex para enganar a fome.
     - A srio?
     -        A srio. Mas agora j no interessa. Nunca mais vou trabalhar como modelo.
     Diane olhou para ela por momentos.
     -        Porqu?
     -        Porque agora j no  mais importante. Mark ensinou-me o que  verdadeiramente importante e... - Calou-se, tentando evitar as lgrimas. - Gostaria 
que o tivesse conhecido.
     -        Eu tambm. Mas voc agora vai ter de recomear a sua vida.
     -        E a Diane? - perguntou Kelly. - Vai recomear a pintar?
     Fez-se um longo silncio.
     -        Eu tentei... No.
     Quando Kelly e Diane terminaram o pequeno almoo e se dirigiam para a porta, a primeira reparou que os jornais da manh estavam a ser colocados nos escaparates.
     Diane continuou a andar, mas Kelly pediu:
     - Espere um segundo. -Voltou atrs e tirou um dos jornais. - Olhe!
     Apontou para um artigo no topo da primeira pgina.
     O Kingsley Internacional Group vai celebrar um servio religioso em honra de todos os seus empregados cujas recentes mortes tm sido causa de especulao universal. 
O tributo ter lugar nas instalaes do KIG, em Manhattan, na prxima segunda feira, pelas 11.25 da manh.
      - Eu no quero ser chata, mas como  que espera sair de l com vida?
     -        Vou pensar numa forma. - Olhou para Kelly e sorriu. - Confie em mim.
     Kelly abanou a cabea.
     -        No h nada que me deixe mais nervosa do que quando algum me diz "Confie em mim". - O seu rosto de repente iluminou-se. - Tenho uma idia. J sei 
como sair disto.
     -        Qual  a sua idia?
     -        Vai ser uma surpresa.
     Diane olhou para ela, preocupada.
     -        Tem a certeza de que nos consegue safar?
     -        Confie em mim.
     Quando voltaram para a penso, Kelly fez um telefonema.
     Nessa noite, ambas dormiram mal. Kelly estava deitada na cama, preocupada. Se o meu plano falhar, morremos as duas. No momento em que adormeceu, pareceu-lhe 
ver a cara de Tanner Kingsley a olhar para ela. E ele ria.
     Diane rezava, os olhos bem fechados. Meu amor,  bem possvel que esta seja a ltima vez que falo contigo. No sei muito bem se deva dizer adeus se ol. Amanh, 
eu e Kelly vamos ao KIG, ao servio em tua memria. No me parece que as hipteses de escaparmos com vida sejam muito boas, mas tenho que ir, para te tentar ajudar. 
S te queria dizer, uma vez mais, antes que seja, talvez, demasiado tarde, que te amo. Boa noite, meu querido.
     -         amanh. - Kelly olhou para Diane.
     - Porque  que acha que eles esto a fazer isto?
     -        Acho que nos esto a preparar uma armadilha.
     -        Tambm eu - concordou Kelly. - Kingsley pensar que ns somos to estpidas que vamos cair... - Olhou para a expresso de Diane e disse espantada:
     -        Ns vamos, ?
     Diane acenou que sim..
     -  impossvel!
     -        Temos que ir. Tenho a certeza de que Betty Barker vai l estar. E eu tenho que falar com ela.
     
CAPTULO 32
     
     O servio tinha lugar no Parque KIG, uma zona que fora especialmente arranjada nas traseiras do complexo do Kingsley Internacional Group para servir de lugar 
de recreio para os empregados. Cerca de uma centena de pessoas estavam reunidas no parque, ao qual se acedia apenas por dois caminhos com portes, um para entrada 
e outro para sada.
     No centro, fora erguido um estrado onde se sentavam meia dzia de executivos do KIG. Numa ponta da fila estava sentada a secretria de Richard Stevens, Betty 
Barker. Era uma mulher atraente de aspecto aristocrtico, nos trinta anos. Tanner falava ao microfone:
     - ...e esta empresa foi construda com a dedicao e a lealdade dos seus empregados. Estamos gratos a todos eles e saudamo-los. Sempre gostei de considerar 
a nossa empresa como uma famlia, em que todos trabalham para um objectivo comum.
     Enquanto falava, ia observando as pessoas ali reunidas. - No KIG, temos resolvido problemas e executado idias que tornam o mundo um lugar melhor e no existe 
maior satisfao do que...
     Ao fundo do parque, viu Diane e Kelly, que tinham acabado de entrar. Tanner deitou uma olhadela ao relgio. Eram onze e quarenta. No seu rosto apareceu um sorriso 
de satisfao. Continuou a falar:
     -        ... saber que o sucesso desta empresa a todos vs se deve.
     Diane olhou para a plataforma e, excitada, deu uma cotovelada a Kelly:
     -        Est ali Betty Barker. Tenho que falar com ela.
     -        Tenha cuidado.
     Diane olhou em volta e disse, pouco  vontade:
     -        Isto  demasiado fcil. Tenho a sensao de que fomos... - Virou-se para olhar para trs e arquejou. Num dos portes via-se Harry Flint com dois dos 
seus homens. Olhou para o outro porto. Estava bloqueado por Carballo com mais dois homens.
     -        Olhe! - Diane sentiu a garganta a ficar seca.
     Kelly virou-se para ver seis homens a bloquearem as sadas.
     -        H mais alguma maneira de sair daqui?
     - Acho que no.
     Tanner dizia:
     -        ... infelizmente, desgraas recentes tm atingido vrios membros da nossa famlia. E quando uma tragdia se abate sobre algum da famlia, isso afecta-nos 
a todos. Por isso, o KIG oferece uma recompensa de cinco milhes de dlares a quem possa provar quem se encontra por detrs de tudo isto.
     -        Cinco milhes de dlares que saem de um dos teus bolsos para entrarem no outro - disse Kelly baixinho.
     Tanner olhava por cima da multido para Diane e para Kelly e os seus olhos estavam gelados.
     -        Temos hoje entre ns dois membros enlutados, as esposas de Mark Harris e Richard Stevens. Vou-lhes pedir que faam o favor de vir at aqui ao pdio.
     -        Ns no podemos permitir que ele nos faa ir at ali - disse Kelly horrorizada. - Temos de nos manter no meio desta gente. E agora, o que  que fazemos?
     Diane olhou para Kelly, espantada.
     -        O que  que quer dizer com isso? A Kelly  que ficou encarregada de nos tirar daqui, lembra-se? Ponha o seu plano a funcionar.
     -        No resultou - respondeu Kelly engolindo em seco.
     -        Ento passe para o plano B - pediu nervosamente Diane.
     -        Diane...
     -        Sim?
     -        No h um plano B.
     Os olhos de Diane abriram-se.
     -        Quer dizer que... que nos trouxe at aqui sem ter maneira de nos fazer sair?
     -        Eu pensei...
     A voz de Tanner soava no altifalante.
     -        As senhoras Stevens e Harris importam-se de vir at aqui, por favor?
     Kelly virou-se para Diane.
     -        Eu... eu peo muita desculpa.
     -        A culpa  toda minha. Nunca devamos ter vindo.
     As pessoas na multido comeavam a vrar-se para olhar para elas. EWstavam encurraladas.
     -        Senhoras Stevens e Harris...
     Kelly murmurou:  - O que  que vamos fazer?
     Diane respondeu:
     -        No temos alternativa. Temos de ir. - Respirou fundo. - Vamos.
     Relutantes, as duas mulheres comearam a caminhar devagar em direco ao pdio.
     Diane olhava para cima para Betty Baker, cujos olhos estavam pregados nela, um ar de pnico espelhado no rosto.
     Diane e Kelly aproximaram-se, os coraes a bater desordenados. Diane pensava: Meu querido Richard, eu tentei. Seja o que for que acontecer, quero que saibas...
     Ouviu-se o som de alguma agitao vinda da zona traseira do parque. As pessoas esticavam o pescoo para verem melhor.
     Ben Roberts fazia a sua entrada, acompanhado por uma enorme equipa de operadores de cmara e de assistentes.
     As duas voltaram-se para olhar. Kelly agarrou o brao de Diane, exultante:
     -        O plano A chegou! Ben est aqui!
     E Diane olhou para cima e disse baixinho:
     -        Obrigada, Richard.
     -        O qu? - perguntou Kelly, mas de repente percebeu o que Diane queria dizer. E comentou cinicamente: - Est bem. Vamos. Ben est  nossa espera.
     Tanner observava o que se estava a passar, o rosto tenso. E disse alto:
     - Desculpe, lamento muito, senhor Roberts, mas esta  uma cerimnia privada. Vejo-me obrigado a pedir-lhe a si e  sua equipa que saiam.
     Roberts respondeu-lhe:
     - Bom dia, senhor Kingsley. O meu programa est a fazer um segmento sobre as senhoras Harris e Stevens no estdio, mas, j que estamos aqui, pensei que gostaria 
de mostrssemos o seu servio de homenagem.
     Tanner abanou a cabea. - No. No posso permitir que permaneam.
     -        Tanto pior. Ento, sendo assim, vejo-me obrigado a levar as senhoras Harris e Stevens comigo de volta ao estdio, neste momento.
     -        No pode - disse Tanner rispidamente.
     -        Desculpe, eu no posso o qu? - disse Ben, olhando para cima.
     -        Eu... o que eu quero dizer  que... No interessa. - Tanner tremia de fria.
     As duas mulheres aproximaram-se de Ben. Este disse baixinho:
     -        Desculpem o atraso. Mas  que chegou uma notcia sobre um assassinato e...
     -        Quase vos chegou outra notcia sobre mais dois - retorquiu Kelly. - Vamos mas  sair daqui para fora.
     Tanner olhava frustrado enquanto Kelly, Diane, Ben Roberts e toda a sua equipa afastavam os homens de Tanner e saam do parque.
     Harry Flint olhou para Tanner em busca de instrues. Enquanto este abanava a cabea devagar numa negativa, ia pensando: No pensem que isto fica assim, suas 
cabras.
     Diane e Kelly entraram no carro de Ben. Os outros membros da equipa seguiam atrs em duas carrinhas. Roberts olhou para Kelly. - J me podes explicar o que 
se estava a passar ali?
     -        Quem me dera, Ben. Mas ainda no te posso dizer nada. Assim que souber realmente o que se passa, prometo que te explico tudo.
     -        Kelly, tu sabes que eu sou um reprter. Preciso de saber...
     -        Tu hoje vieste como amigo.
     Roberts suspirou.
     -        Est bem. Onde queres que vos deixe?
     -        Importas-te de nos deixar na esquina da Forty-second Street com a Times Square? - perguntou Diane.
     -        Com certeza.
     Vinte minutos mais tarde, Kelly e Diane apeavam-se. Kelly beijou Ben Roberts na face.
     - Muito obrigada, Ben. No me esquecerei do que fizeste. Depois falamos.
     -        Tem cuidado.
     Enquanto se afastavam, viraram-se para dizer adeus.
     -        Sinto-me nua - disse Kelly.
     -        Porqu?
     -        Diane, ns no temos uma arma, nada. Quem me dera que tivssemos uma arma.
     -        Mas temos os nossos crebros.
     -        Eu gostava de ter uma arma. Porque  que viemos para aqui? O que vamos fazer agora?
     -        Vamos parar de fugir. De agora em diante, passamos  ofensiva.
     -        E o que significa isso? - perguntou Kelly, curiosa.
     -        Significa que estou farta de ser o alvo a atingir. Agora somos ns que vamos atrs deles, Kelly.
     Kelly estacou e olhou para Diane.
     -        Ns vamos atrs do KIG?
     -        Exactamente.
     -        Deve ter andado a ler demasiados livros policiais. E como  que acha que ns as duas vamos ser capazes de deitar abaixo o maior think tank do mundo?
     -        Vamos comear por arranjar os nomes de todos os funcionrios deles que morreram nas ltimas semanas.
     -        O que a leva a pensar que morreu mais gente alm de Mark e Richard?
     -        Porque os jornais diziam todos os funcionrios, o que significa que foram mais do que dois.
     - Oh! E quem  que nos vai dar esses nomes?
     - J lhe digo - respondeu Diane.
     O Easy Access Ciber Caf era uma sala enorme com mais de uma dzia de filas de computadores, quase todos eles ocupados. Fazia parte de uma cadeia que comeava 
a aparecer por todo o mundo.
     Quando entraram, Diane dirigiu-se  mquina que vendia cartes para comprar uma hora de acesso  Internet. Quando voltou para junto de Kelly, esta perguntou-lhe: 
- Por onde comeamos?
     -        Vamos perguntar ao computador.
      Encontraram um cubculo vazio e sentaram-se. Kelly observou enquanto Diane se ligava.
             E agora o que acontece?
             Primeiro fazemos uma pesquisa no Google para descobrirmos os nomes das outras vtimas que trabalhavam para o KIG.
     Diane surfou na net entrando no site www.google.com e teclou os critrios de pesquisa: "necrologia" e "KIG".
     No ecr apareceu uma longa lista de sites possveis. Diane procurou especificamente os de jornais que estavam disponveis online e encontrou vrios. Clicou 
nesses links que a levaram a uma srie de registos de bitos e outros artigos. Um dos artigos levou-a at ao KIG de Berlim, e ela entrou no web site.
     -        Isto  interessante... Franz Verbrugge.
     -        Quem  esse?
     -        A questo : onde  que ele est! Parece que desapareceu. Trabalhava para o KIG de Berlim e a mulher, Sonja, morreu em condies misteriosas.
     Diane clicou noutro link. Hesitou e olhou para Kelly.
     -        Em Frana... Mark Harris.
     Kelly respirou fundo e disse que sim com a cabea.
     -        Continue.
     Diane teclou mais umas palavras.
     -        Denver, Gary Reynolds, e em Manhattan - a voz fraquejou, - Richard.
     Levantou-se.
     -        E  tudo.
     -        E agora? - perguntou Kelly.
     -        Agora tentamos descobrir qual a ligao que existe entre tudo isto. Vamos embora.
     A meio do quarteiro, Kelly e Diane passaram por uma loja que vendia computadores.
     -         s um minuto - pediu Kelly.
     Diane seguiu-a enquanto ela entrava na loja e abordava o gerente.
     -        Desculpe. O meu nome  Kelly Harris. Sou assistente do senhor Tanner Kingsley. Precisamos de trs dzias dos melhores e mais caros computadores que 
tiver, para esta tarde. Acha que  possvel?
     O gerente entusiasmou-se.
     -        Claro que sim. Com certeza, senhora Harris. Para o senhor Kingsley, tudo o que quiser.  claro que no temos o material todo aqui, mas temos nos nossos 
armazns. Eu prprio me encarrego do caso. Vai ser pago em dinheiro ou para facturar?
     -        Ser pago em dinheiro, no acto de entrega - respondeu Kelly Enquanto o gerente se apressava a tratar do caso, Diane comentou: - Gostaria de ter pensado 
isso.
     E Kelly fez um enorme sorriso.
     -        Vai pensar.
     
     - Pensei que gostaria de ver estes, senhor Kingsley.
     Kathy Ordonez deu-lhe uma srie de jornais. Os cabealhos eram elucidativos:
     "AUSTRLIA SOB INESPERADO TORNADO"
     O primeiro tornado que alguma vez atingiu a Austrlia j destruiu meia dzia de aldeias. O nmero de mortos  por enquanto desconhecido. Os meteorologistas 
dizem-se desconcertados com estes novos padres do clima. Culpa atribuda  camada de ozono.
     -        Envie tudo  senadora van Luven acompanhados de uma nota:
     "Cara senadora van Luven, penso que o tempo urge. Melhores cumprimentos, Tanner Kingsley."
     -        Com certeza, senhor.
     Tanner olhou para o computador quando ouviu o som que o avisava de que tinha recebido um alerta da diviso de segurana do Departamento de Informao e Tecnologia.
     Conseguira instalar "spiders", software de alta. tecnologia que constantemente pesquisava a internet em busca de informaes. Inicialmente, colocara-as para 
ser alertado quando algum entrava em busca de informaes delicadas sobre as mortes de Richard Stevens e de Mark Harris, e agora olhava interessado para o computador 
que lhe enviava os alertas.
     Premiu um intercomunicador e chamou:
     - Andrew, anda c.
     Andrew estava no seu gabinete a pensar no acidente que sofrera e a lembrar-se. Estava no vestirio onde fora buscar o fato espacial que o exrcito tinha mandado. 
Comeara a tirar um do cabide, mas Tanner estava l e fora ele quem lhe dera um fato e uma mscara de gs. Veste este. Vai-te dar sorte! Tanner era...
     - Andrew, anda c!
     Andrew ouviu a ordem, levantou-se e dirigiu-se devagar ao gabinete de Tanner.
     -        Senta-te.
     -        Sim, Tanner. - E sentou-se.
     -        As cabras acabaram de entrar do nosso site de Berlim. Sabes o que isso significa?
     -        Sim... eu... No.
     A secretria de Tanner fez-se ouvir pelo intercomunicador:, -        Senhor Kingsley, os computadores chegaram.
     -        Quais computadores?
     -        Aqueles que encomendou.
     Intrigado, Tanner levantou-se e dirigiu-se  recepo. Trs dzias de computadores empilhavam-se em cima de carrinhos. O gerente da loja e trs homens em fato 
macaco estavam junto deles.
     O rosto do gerente iluminou-se quando viu Tanner a aproximar-se.
     -        Trouxe tudo aquilo que pediu, senhor Kingsley. Tudo topo de gama. E teremos todo o gosto em lhe arranjar aquilo que...
     Tanner olhava fixamente para a pilha de computadores.
     -        Quem foi que encomendou tudo isto?
     -        A sua assistente, Kelly Harris. Disse que o senhor precisava deles com urgncia, por isso...
     -        Leve-os de volta - respondeu baixinho Tanner. - Ela no vai precisar deles, no stio para onde vai.
     E virou-se e regressou ao gabinete.
     -        Andrew, tens alguma idia da razo por que elas acederam ao nosso site? Bom, ento eu vou-te explicar. Esto a fazer uma busca sobre as vtimas e vo 
procurar saber quais as razes que se encontram por detrs das suas mortes. - E Tanner sentou-se. - Para o fazerem, teriam de ir  Europa. S que no vo conseguir 
l chegar...
     -        Pois no... - respondeu Andrew, sonolento.
     -        E como  que ns as vamos impedir, Andrew?
     Andrew acenou com a cabea: - Impedir...
     Tanner olhou para o irmo e disse, desdenhoso: - Como gostava de ter algum com um crebro para poder falar. - Os olhos de Andrew observavam tudo enquanto Tanner 
se dirigia a um computador e se sentava na frente do teclado.
     - Vamos comear por limpar todos os bens delas. Temos os nmeros da Segurana Social. - Batia as teclas enquanto falava. Diane Stevens... - ia dizendo enquanto 
usava o software clandestino que o KIG instalara quando tinham sido contratados para fazer com que os sistemas do Experian fossem compatveis com o Y2K. Este software 
clandestino permitia a Tanner ter acesso a coisas que nem os principais directores do Experian conseguiam ter.
     -        Olha. O Experian tem toda a informao bancria dela, um fundo de penses do IRA, a linha de crdito no banco. Ests a ver?
     -        Sim, Tanner - respondeu Andrew engolindo em seco. - Sim.
     Tanner voltou a olhar para o computador.
     -        Vamos dar os cartes de crdito dela como roubados... Agora vamos fazer a mesma coisa com os de Kelly Harris... O nosso prximo passo  entrar no site 
do banco de Diane.
     Acedeu ao site e em seguida clicou num link que dizia "Gerir as suas Contas".
     Em seguida, Tanner digitou o nmero de conta de Diane Stevens e os quatro ltimos nmeros da Segurana Social e o acesso foi-lhe concedido imediatamente. Uma 
vez l dentro, transferiu todos os saldos para a linha de crdito e depois voltou  base de crdito do Experian e cancelou-lhe a linha de crdito sob "Em Cobrana".
     -        Andrew...
     -        Sim, Tanner.
     -        Percebeste o que eu fiz? Transferi todo o dinheiro de Diane Stevens para o campo das dvidas a serem cobradas pelo departamento de cobranas. - A voz 
dele soava satisfeita. - Agora vou fazer a mesma coisa com Kelly Harris.
     Quando terminou, levantou-se e chegou junto de Andrew.
     - Est feito. Agora no tm dinheiro nem crdito. No tm maneira de sair do pas. Conseguimos encurral-las. O que pensas tu do teu irmo mais novo?
     Andrew abanou a cabea: - Ontem  noite na televiso, vi um filme sobre...
     Furioso, Tanner cerrou a mo e esmurrou o irmo na cara, de tal maneira que ele caiu da cadeira e esta bateu contra uma parede, fazendo enorme estardalhao.
     -        Seu grande filho da me! Presta ateno ao que eu digo quando estou a falar contigo!
     A porta abriu-se de repente e Kathy Ordonez, a secretria de Tanner, entrou, ansiosa:
     -        Est tudo bem, senhor Kingsley?
     -        Sim, est tudo bem. Foi o pobre Andrew que caiu.
     -        Oh, meu Deus!
     Os dois ergueram Andrew e puseram-no de p.
     -        Eu ca?
     -        Sim, Andrew. Tu caste, mas agora est tudo bem - respondeu Tanner, todo suavidade.
     Kathy Ordonez sussurrou:
     -        Senhor Kingsley, no acha que o seu irmo estaria melhor num lar?
     -         claro que estaria - respondeu. - Mas isso seria um enorme desgosto para ele. Esta  a sua casa e eu posso muito bem tomar conta dele aqui.
     Kathy Ordonez olhou com admirao para Tanner.
     -        O senhor  um homem maravilhoso, senhor Kingsley.
     Ele encolheu os ombros.
     -        Todos temos de fazer o que melhor que podemos.
     Dez minutos mais tarde a secretria de Tanner estava de volta.
     -        Boas notcias, senhor Tanner. Chegou agora mesmo este fax do gabinete da senadora van Luven.
     -        Mostre c. - Tanner arrancou-lho da mo.
     Caro senhor Kingsley, Serve a presente para o informar de que a Comisso Especial do Senado para o Ambiente decidiu atribuir fundos para aumentar imediatamente 
a investigao sobre o aquecimento global e as formas de o combater. Melhores cumprimentos, senadora van Luven.
     
CAPTULO 33
     
     -        Tem passaporte? - perguntou Diane.
     -        Ando sempre com ele quando estou no estrangeiro - e acrescentou: - E este, de facto, tem sido ultimamente um pas estrangeiro para mim.
     Diane anuiu.
     - O meu est num cofre no banco. Vou busc-lo. E alm disso tambm precisamos de dinheiro.
     Quando entraram no banco, Diane desceu para a zona dos cofres e abriu o seu. Tirou o passaporte, meteu-o na carteira e subiu as escadas direita a uma das caixas.
     -        Pretendo fechar a minha conta.
     -        Com certeza. O seu nome, por favor?
     -        Diane Stevens.
     O caixa acenou com a cabea. -  s um segundo, por favor.
     Dirigiu-se a um ficheiro, abriu uma gaveta e comeou a procurar nos cartes. Puxou um, olhou por momentos para ele e em seguida voltou para junto de Diane.
     -        A sua conta j foi fechada, senhora Stevens.
     Diane sacudiu a cabea.
     -        No. Deve haver algum engano. Eu tenho...
     O caixa colocou o carto na frente dela. Dizia: "Conta fechada. Razo: falecimento."
     Diane ficou a olhar para o carto sem querer acreditar e em seguida olhou para o caixa:
     -        Estou com cara de quem faleceu?
     -         claro que no. Lamento muito. Se pretender falar com o gerente, eu...
      -        No! - Diane de repente percebeu o que acontecera e sentiu um arrepio. - No, obrigada.
     Correu para a entrada, onde Kelly esperava por ela. - J tem o passaporte e o dinheiro?
     -        O passaporte sim, o dinheiro  que no. Os filhos da me fecharam a minha conta.
     -        Mas como  que eles...?
     -         muito simples, eles so o KIG e ns no. - Diane ficou pensativa. - Oh, meu Deus!
     -        O que foi agora?
     -        Tenho de fazer j uma chamada.
     Diane apressou-se em direco a uma cabina, marcou um nmero e tirou para fora o carto de crdito. Uns segundos mais tarde falava com um funcionrio:
     -        A conta est em nome de Diane Stevens.  uma conta...
     -        Lamento muito, senhora Stevens. Os nossos registos mostram que o seu carto foi dado como roubado. Se quer apresentar uma reclamao, ns podemos mandar-lhe 
outro carto dentro de um ou dois dias e...
     -        No faz mal - respondeu.
     Desligou o telefone e voltou para junto de Kelly.
     -        Eles cancelaram todos os meus cartes de crdito.
     Kelly respirou fundo.
     -         melhor eu fazer um ou dois telefonemas.
     E Kelly esteve ao telefone durante quase meia hora. Quando voltou para junto de Diane, fumegava de raiva.
     -        O polvo atacou de novo. Mas eu ainda tenho uma conta em Paris, por isso...
     -        Kelly, no temos tempo para isso. Temos de sair daqui agora.
     Quanto dinheiro tem ainda consigo?
     -        O suficiente para voltarmos para Brooklyn. E voc?
     -        Para chegar a New Jersey.
     -        Ento estamos tramadas. Sabe porque  que eles esto a fazer isto, no sabe? Para nos impedir de chegar  Europa e descobrir a verdade.
     -        Parece que conseguiram.
     Kelly ficou pensativa.
     -        No, no conseguiram. Ns vamos na mesma.
     -        Como? Na minha nave espacial? - perguntou, cptica, Diane.
     -        No. Na minha.
     
     Joseph Beny, o gerente da joalharia da Quinta Avenida, viu Kelly e Diane aproximarem-se e deu-lhes o seu melhor sorriso profissional - Posso ser til?
     -        Sim - respondeu Kelly. - Pretendo vender o meu anel.
     O sorriso desapareceu.
     -        Lamento muito, mas ns no compramos jias.
     -        Oh! Mas que pena.
     Joseph Berry comeou a virar-se. Kelly abriu a mo. Nela tinha um enorme anel de esmeralda.
     -        Esta  uma esmeralda de sete quilates rodeada por diamantes de trs quilates, montados em platina.
     Joseph Berry olhou para o anel, impressionado. Pegou numa lupa de joalheiro e colocou-a no olho.
     -        , de facto, lindssimo, mas ns temos uma firme regra de no...
     -        Pretendo vinte mil dlares por ele.
     -        A senhora disse vinte mil dlares?
     -        Exactamente. Em dinheiro.
     Diane olhava para Kelly.
     -        Kelly...
     Berry analisou de novo o anel e acenou:
     - Eu... eu penso que podemos resolver este assunto.  s um momento. - E desapareceu no seu escritrio das traseiras.
     -        Voc enlouqueceu? - perguntou Diane. - Est a ser roubada.
     -        Estou? Se ficarmos aqui vamos acabar por ser mortas. Diga-me, por favor, quanto valem as nossas vidas.
     Diane ficou sem resposta. Joseph Berry regressou do escritrio com um sorriso.
     -        Vou imediatamente mandar algum ao banco do outro lado da rua para arranjar o dinheiro.
     Diane virou-se para Kelly: - Ficaria mais feliz se no fizesse isto.
     Kelly encolheu os ombros.
     -        No passa de uma jia... - respondeu, e fechou os olhos.
     No passa de uma jia...
     Era o seu dia de anos. O telefone tocou.
     - Bom dia, minha querida.
      Era Mark.
     -        Bom dia.
     Ficou a aguardar que ele dissesse "Parabns"
     Em vez disso, ele disse: - Hoje no trabalhas, pois no? Gostas de fazer caminhadas?
     No era nada daquilo que Kelly estava  espera de ouvir. Sentiu um pequeno tremor de desapontamento. Na semana anterior tinham falado sobre os anos dela. Pelos 
vistos, Mark esquecera-se.
     -        Sim.
     -        Que tal irmos agora, de manh?
     -        Est bem.
     -        Vou ter contigo daqui a meia hora.
     -        Estarei pronta.
     - Onde vamos? - perguntou Kelly quando entraram no carro.
     Estavam ambos vestidos para andar a p.
     -        H uns caminhos muito engraados perto de Fontainebleau.
     -        Oh! Vais l muitas vezes?
     -        Costumava ir at l, quando queria fugir.
     -        Fugir do qu? - perguntou Kelly, olhando-o com ar intrigado.
     Ele hesitou. - Da solido. Ali sentia-me menos s.
     Olhou para ela e sorriu...
     -        Nunca mais l voltei desde que te conheci.
     Fontainebleau era um magnfico palcio real rodeado por florestas silvestres a sudeste de Paris.
     Quando o maravilhoso e imponente palcio se comeou a ver  distncia, Mark comentou:
     -        Muitos reis chamados Lus viveram aqui, e o primeiro foi Lus IV.
     -        Sim? - Kelly olhava para ele e pensava: Ser que nessa poca j havia cartes de aniversrio? Gostava que ele me tivesse dado um. Estou a agir como 
uma idiota.
     Chegaram aos jardins do palcio. Mark entrou num dos parques de estacionamento.
     Quando saram do carro e se dirigiam para os bosques, Mark perguntou: - Achas que agentas um quilometro e meio?
     -        Fao muito mais do que isso por dia nas passarelas - deu ela a rir.
     -        ptimo, ento vamos - e Mark pegou-lhe na mo.
     -        A vou eu.
     Passaram uma srie de imponentes edifcios e entraram no bosque. Estavam completamente sozinhos, cercados pela verdura de campos antigos e velhas rvores carregadas 
de histria. Era um maravilhoso dia de vero. O vento estava quente e suave e acima deles havia um cu azul sem nuvens.
     -        No  maravilhoso? - perguntou Mark.
     -         lindo, Mark.
     -        Estou feliz por no trabalhares hoje.
     Kelly lembrou-se de uma coisa: - E tu, no devias estar a trabalhar?
     -        Tirei o dia.
     -        Oh!
     Continuaram a caminhar, embrenhando-se cada Vez mais na misteriosa floresta.
     Ao fim de quinze minutos, Kelly perguntou:
     -        Aonde vamos?
     -        H l em cima um lugar de que gosto muito. Estamos quase a chegar.
     Uns minutos mais tarde, entraram numa clareira com um enorme carvalho no meio.
     -        Ora c estamos - disse Mark.
     -         to calmo.
     Pareceu-lhe ver algo gravado na rvore. Kelly avanou para ver melhor. Dizia: "PARABNS, KELLY". Ficou a olhar para Mark, sem fala.
     -        Oh, Mark, meu querido. Muito obrigada.
     Afinal ele no se esquecera.
     -        Acho que h mais qualquer coisa nessa rvore.
     -        Na rvore? - Kelly aproximou-se. A altura dos olhos havia um buraco. Meteu a mo l dentro, sentiu um pequeno embrulho e tirou-o para fora. Era um 
presente.
     -        Mas o que...?
     -        Abre.
     Kelly abriu-o e os seus olhos aumentaram de espanto. Dentro da caixa estava um anel com uma esmeralda de sete quilates, rodeada por trs quilates de diamantes, 
tudo encastoado em platina. Kelly olhava, sem conseguir acreditar. Virou-se e lanou os braos ao pescoo dele.
     -        Mas isto  muito generoso.
     -        Eu dava-te a Lua, se ma pedisses. Kelly, eu estou apaixonado por ti.
     Ela apertou-o contra o peito, perdida numa alegria que nunca antes conhecera. E em seguida disse uma coisa que no pensara nunca, nunca vir a dizer:
     -        Tambm estou apaixonada por ti, meu amor.
     Ele estava radiante.
     -        Ento vamos casar j. Ns...
     -        No! - Era como uma chicotada.
     Mark olhava para ela, espantado.
     -        Porqu?
     -        No podemos.
     -        Kelly, no acreditas que eu te amo?
     -        Acredito.
     -        E tu amas-me?
     -        Amo.
     -        Mas no queres casar comigo?
     -        Eu quero. Mas... no posso.
     -        No estou a perceber. O que se passa?
     Ele estudava-a, confuso. E Kelly sabia que no momento em que contasse a Mark a traumtica experincia por que passara ele nunca mais a quereria voltar a ver.
     -        Eu... eu nunca poderei ser uma verdadeira mulher para ti.
     -        O que queres dizer com isso?
     Esta era a coisa mais difcil que Kelly alguma vez tivera que dizer.
     -        Mark, ns nunca poderamos ter relaes sexuais. Quando eu tinha oito anos, fui violada. - Ela olhava para as impvidas rvores, enquanto contava a 
sua srdida histria ao primeiro homem que alguma vez amara. - Eu no estou interessada em sexo. S a idia me deixa enojada. Assusta-me. Eu... eu sou meia mulher. 
Eu no sou normal.
     Kelly respirava com dificuldade, tentando no chorar.
     Sentiu as mos de Mark nas suas.        .
     -        Lamento tanto, Kelly. Deve ter sido devastador.
     Kelly ficou silenciosa.
     -        O sexo  muito importante num casamento - disse ele.
     Kelly anuiu, mordendo o lbio. Sabia o que ele ia dizer a seguir.
     -         claro. Por isso percebo perfeitamente porque no vais querer...
     -        Mas no  a essncia do casamento. O casamento  passar a nossa vida com algum que se ama, ter algum com quem falar, algum com quem partilhar os 
bons e os maus momentos.
     Ela ouvia, sem saber que dizer, com medo de acreditar no que estava a ouvir.
     - No fim, o sexo desaparece, Kelly, mas no o verdadeiro amor. Eu amo-te pelo teu corao e pela tua alma. Quero passar o resto da minha vida contigo. Posso 
perfeitamente viver sem sexo.
     Kelly tentou manter a voz calma.
     -        No, Mark. Eu no posso permitir.
     -        Porqu?
     -        Porque um dia ias arrepender-te. Acabarias por te apaixonar por outra pessoa que te pudesse dar... aquilo que eu no posso e deixar-me-ias... E isso 
ia destruir-me.
     Mark estendeu os braos e abraou-a, apertando-a contra o peito. - Sabes porque  que eu jamais seria capaz de te deixar? Porque tu s a minha melhor parte. 
Ns vamo-nos casar.
     Kelly olhou para Mark nos olhos.
     -        Mark, tens conscincia daquilo em que te vais meter?
     -        Acho que devias dizer isso de outra maneira - disse ele sorrindo.
     Kelly riu e abraou-o.
     -        Oh, meu amor, tens a certeza que...?
     -        Claro que tenho a certeza - disse ele, feliz. - E tu, que dizes?
     Ela sentia as lgrimas escorrerem-lhe pela cara. - Eu digo... sim!
     Mark enfiou o anel de esmeraldas no dedo dela. Ficaram abraados por muito tempo.
     -        Quero que venhas amanh de manh comigo ao salo e que conheas algumas das modelos com quem trabalho.
     -        Pensei que isso era proibido.
     -        As regras agora mudaram.
     Mark riu.
     -        Vou falar com um juiz meu amigo parai nos casar no domingo que vem.
      Na manh seguinte, quando Kelly e Mark chegaram ao salo, Kelly apontou para o cu.
     -        Parece que vai chover. Toda a gente fala do tempo, mas ningum faz nada a seu respeito.
     Mark virou-se para ela e olhou-a de forma estranha. Kelly viu a expresso no rosto dele.
     -        Oh, desculpa. Isto que eu disse  um clich, no ?
     Mark no respondeu.
     Quando Kelly entrou, havia uma meia dzia de modelos nos vestirios.
     -        Tenho um anncio a fazer. Vou casar no domingo e vocs esto todas convidadas.
     A sala ficou imediatamente cheia de conversa animada.
     -         com o famoso jovem que no nos apresentavas?
     -         algum que ns conhecemos?
     -        Como  que ele ?
     -         como um Cary Grant, verso mais nova - respondeu Kelly orgulhosamente.
     -        Uau! E ns podemos conhec-lo?
     -        Claro. Ele est aqui. - Kelly abriu a porta. - Entra, querido.
     Mark entrou no salo e o silncio instalou-se. Uma das modelos olhou para Mark e perguntou por entre dentes:
     -        Isto  uma brincadeira?
     -        Deve ser.
     Mark Harris tinha menos uns trinta centmetros do que Kelly, era um homem de aspecto normal, sem nada de especial, com uma escassa cabeleira que comeava a 
ficar grisalha.
     Quando o choque inicial passou, as modelos avanaram para cumprimentar os noivos.
     -        Mas que notcia maravilhosa.        Estamos encantadas e felizes por ti. Tenho certeza de que sero muito felizes.
     Quando os cumprimentos terminaram, Kelly e Mark saram. Enquanto avanavam pelo corredor, Mark perguntou:
     -        Achas que elas gostaram de mim?
     -        Claro que gostaram - respondeu Kelly a sorrir. - Como  que algum pode no gostar de ti... - Oh! - Parou de repente.
     -        O que foi?
     - Eu estou na capa de uma revista de moda que acabou de sair. Quero que a vejas. J volto.
     Kelly dirigiu-se aos vestirios. Quando deitava a mo  porta, ouviu as vozes l dentro:
     -        Kelly vai mesmo casar com aquele?
     Kelly parou e ficou a ouvir.
     -        Deve ter enlouquecido.
     -        Eu j a vi rejeitar alguns dos homens mais giros do mundo e dos mais ricos. O que  que ela v neste?
     Uma das modelos que tinha estado calada falou:
     -        E muito simples - disse.
     -        O qu?
     -        No se riam - e hesitou.
     -        Diz l.
     -        Vocs nunca ouviram a frase: "Ver com os olhos do amor"?
     Ningum riu.
     O casamento teve lugar no Ministrio da Justia em Paris e todas as modelos foram damas de honra. L fora, na rua, juntara-se uma grande multido de gente que 
ouvira falar do casamento da modelo Kelly. Os paparazzi estavam l todos.
     Sam Meadows foi o padrinho de Mark.
     - Onde vo passar a lua de mel? - perguntou.
     Mark e Kelly olharam um para o outro. Nem sequer tinham pensado nisso.
     Mark pensou num nome ao acaso:
     -        Eeer... Saint Moritz...
     -        Saint Moritz - corroborou Kelly pouco  vontade.
     Nenhum deles estivera antes em Saint Moritz e a vista era de cortar a respirao, uma vista sem fim sobre as majestosas montanhas e os luxuriantes vales.
     O Badrutt Palace Hotel fora construdo numa encosta. Mark telefonara antes para fazer a reserva e o gerente dava-lhes agora as boas-vindas.
     - Boas tardes, senhora e senhor Harris. Tenho a sute de lua-de-mel preparada.
     Mark interrompeu:
     Desculpe, seria possvel... hum... mandar colocar duas camas duplas no quarto?
     - Duas camas? - perguntou o gerente sem se perturbar.
     -         Eer... isso mesmo.
     -        Mas com certeza.
     -        Muito obrigado. - Mark virou-se para Kelly: - Aqui  volta h imensas coisas para ver - e tirou uma lista do bolso. - O Museu Engadine, a pedra Druida, 
a fonte de So Maurcio, a torre inclinada...
     Quando Mark e Kelly ficaram a ss na suite, Mark perguntou:
     -        Querida, eu no quero que fiques numa situao desconfortvel. S estamos a fazer isto para evitar que as pessoas faam comentrios. Vamos passar o 
resto da nossa vida juntos. E aquilo que vamos partilhar  muito mais importante do que qualquer coisa fsica. Eu s quero estar contigo e quero-te a meu lado.
     Kelly lanou os braos ao pescoo dele e abraou-o.
     -        Eu... eu nem sei o que dizer.
     -        No digas nada - respondeu ele a sorrir.
     Jantaram no rs-do-cho e em seguida regressaram  suite. No quarto tinham sido colocadas duas camas de casal.
     -        Atiramos uma moeda ao ar?
     -        No, podes ficar com a que quiseres - e Kelly sorriu.
     Quando Kelly saiu da casa de banho, quinze minutos mais tarde, j Mark estava na cama.
     Kelly aproximou-se e sentou-se na borda da cama.
     -        Mark , tens a certeza de que isto vai resultar contigo?
     -        Nunca na minha vida estive to seguro de uma coisa como desta.
     Boa noite, minha bela querida.
     -        Boa noite.
     Kelly deitou-se na cama a pensar, a reviver a noite que mudara toda a sua vida. Chiu! No faas barulho! Mas, se alguma vez contares alguma coisa sobre isto 
 tua me, eu volto e mato-a. O que aquele monstro lhe fizera destrura a sua vida. Matara algo dentro dela e fizera com que passasse a ter medo do escuro... medo 
dos homens... medo de amar. Ela dera quele homem poder sobre ela. Eu no o vou permitir. Nunca mais. Todas as emoes que reprimira durante aqueles anos que se 
seguiram, toda a paixo que sentira crescer explodiram dentro de si. Kelly olhou para Mark e, de repente, sentiu uma desesperada necessidade de o ter. Atirou a roupa 
da cama para trs caminhou at  cama dele.
     -        Chega para l - pediu baixinho.
     Mark sentou-se, espantado.
     -        Mas tu... tu disseste que no me querias na tua cama e por isso eu...
     Kelly olhou para ele e disse com suavidade:
     -        Mas eu no disse que no podia estar na tua cama. - Ficou a ver a cara dele enquanto despia a camisa de noite e se esgueirava para junto dele. - Faz 
amor comigo - pediu baixinho.
     -        Oh, Kelly! Sim!
     Ele comeou devagarinho e com toda a suavidade. Devagar de mais. Suave de mais. As torrentes abriram-se e Kelly sentiu nascer dentro de si uma enorme necessidade 
de o ter. Amou-o de forma violenta, e jamais sentira algo to maravilhoso na vida.
     Quando descansavam nos braos um do outro, Kelly disse:
     -        Aquela lista que me mostraste, sabes...?
     -        Sim.
     -        Podes deit-la fora - disse suavemente.
     Mark riu.
     -        Mas que parva que eu tenho sido - comentou Kelly. E apertou Mark nos seus braos e falaram e fizeram amor e voltaram a falar e a fazer amor at que 
ficaram exaustos.
     -        Vou apagar a luz - disse ele.
     Ela ficou tensa e cerrou os olhos com fora. Ia a dizer "No", mas calou-se.
     Quando ele voltou, depois de apagar a luz, Kelly abriu os olhos. J no tinha mais medo do escuro. Ela...
     
     - Kelly? Kelly?
     Foi bruscamente chamada  realidade. Olhou em volta e estava de novo na joalharia da Quinta Avenida, em Nova Iorque, e Joseph Berry tinha um gordo envelope 
na mo para ela.
     - Aqui tem. Vinte mil dlares em notas de cem, tal como pediu.
     Kelly demorou um pouco a cair na realidade.
     - Muito obrigada.
     Kelly abriu o envelope, tirou dez mil dlares e deu-os a Diane. Esta olhou-a, espantada.
      .        O que significa isto?
              a sua metade.
     - A minha metade de qu? Mas eu no...
     - Paga-me depois - disse Kelly, encolhendo os ombros. - Se ainda c estivermos. Se no, tambm j no vou precisar deles. Bom, agora vamos ver se conseguimos 
sair daqui para fora.
     
CAPTULO 34
     
     Na Lexington Avenue, Diane chamou um txi.
     -        Para onde vamos?
     -        Para o aeroporto La Guardia
     Kelly olhou para Diane, espantada.
     -        No sabe que eles vo estar a vigiar todos os aeroportos?
     -        Espero bem que sim.
     -        Mas o que  que... - gemeu Kelly. - Tem um plano, no tem?
     -        Tenho - respondeu Diane, dando-lhe uma palmadinha no brao para a acalmar.
     Em La Guardia, Kelly seguiu Diane at ao balco da Alitlia. O agente atrs do balco cumprimentou:
     -        Bom dia. Posso ajudar?
     -        Sim. - Diane sorriu. - Queremos dois bilhetes em turstica para Los Angeles.
     -        Quando pretendem partir?
     -        No primeiro vo disponvel. Os nossos nomes so Diane Stevens e Kelly Harris.
     Kelly encolheu-se.
     O funcionrio consultou um horrio.
     -        O prximo avio comea o embarque s duas e um quarto.
     -        Excelente. - Diane olhou para Kelly.
     -        Excelente - confirmou Kelly com um sorriso amarelo.
     -        Como vo pagar, dinheiro ou carto de crdito?
     -        Dinheiro. - Diane pagou.
     Kelly perguntou:
     -        Porque no pomos um anncio sobre as nossas cabeas para avisar Kingsley de que estamos aqui?
     -        A Kelly preocupa-se demasiado - foi a resposta de Diane.
     Quando passavam o balco da American Airlines, Diane parou e dirigiu-se ao funcionrio:
     -        Queramos dois bilhetes em turstica para Miami, no prximo vo que tenha lugares.
     -        Com certeza. - Ele consultou o horrio. - Esse vo embarca daqui a trs horas.
     -        Muito bem. Os nossos nomes so Diane Stevens e Kelly Harris.
     Kelly fechou os olhos por momentos.
     -        Vo pagar a dinheiro ou por carto de crdito?
     -        A dinheiro.
     Diane pagou e ele deu-lhe os bilhetes. Quando se afastavam, Kelly comentou:
     -         assim que ns vamos enganar os gnios? Isto no engana nem um mido de dez anos.
     Diane comeou a caminhar em direco  porta de sada do aeroporto.
     -        Onde  que vai? - perguntou Kelly, correndo atrs dela.
     -        Vamos...
     -        No interessa. Acho que nem sequer quero saber.
     Em frente ao aeroporto havia uma fila de txis parados. Quando as duas saram do terminal, um dos txis saiu da fila e dirigiu-se  porta da frente. Kelly e 
Diane entraram no carro.
     -        Para onde?
     -        Aeroporto de Kennedy.
     -        Eu no fao idia se eles ficaro baralhados, mas eu j estou - comentou Kelly. - Continuo a pensar que me sentiria mais confortvel se tivssemos 
uma arma para proteco.
     -        No fao idia onde podemos arranjar uma Howitzer.
     O txi comeou a andar. Diane inclinou-se para examinar o carto de identificao do condutor, "Mrio Silva".
     -        Senhor Silva, acha que nos consegue levar ao Kennedy sem sermos seguidas?
     O sorriso rasgado do homem era visvel no retrovisor.
     -        Esto em boas mos.
     Acelerou e fez uma repentina inverso de marcha. Na esquina seguinte virou e, assim que estava a meio da rua, saiu para uma ruela.
     As mulheres olharam pela janela traseira. No havia qualquer carro atrs delas.
     O sorriso de Mrio Silva cresceu. - Assim est bem?
     -        Muito bem - respondeu Kelly.
     Nos trinta minutos que se seguiram, Mrio Silva continuou a fazer inesperadas inverses de marcha e a entrar em pequenas ruelas para se certificar de que ningum 
os seguia. Por fim, o txi chegou  porta principal do aeroporto de Kennedy.
     -        Ora c estamos - anunciou com ar triunfante.
     Diane tirou algumas notas da carteira.
     -        Tem aqui um bnus para si.
     O motorista recebeu o dinheiro e sorriu:
     -        Muito obrigado, minha senhoras.
     Ficou sentado no txi a ver as suas passageiras a entrarem no terminal de Kennedy. Quando desapareceram de vista, pegou no celular.
     -        Tanner Kingsley, por favor.
     No balco da Delta Airlines, o funcionrio olhou para o quadro:
     -        Sim, temos dois bilhetes para o vo que pretendem. Sai s cinco e cinqenta. Tem uma hora de paragem em Madrid e o avio chega a Barcelona s nove 
e vinte da manh.
     -        Serve perfeitamente - disse Diane.
     -        Dinheiro ou carto de crdito?
     -        Dinheiro.
     Diane deu o dinheiro ao empregado e virou-se para Kelly:
     -        Vamos esperar na sala de embarque.
     Trinta minutos mais tarde, Harry Flint estava a falar com Tanner no celular.
     -        J tenho a informao que pediu. Vo apanhar um vo da Delta para Madrid. O avio sai de Kennedy s cinco e cinqenta e cinco desta tarde e tem uma 
paragem de uma hora em Madrid. Chegam a Barcelona s nove e vinte da manh.
     -        Muito bem. Senhor Flint, leve o avio da empresa para Barcelona e esteja l  espera delas quando chegarem. Estou a contar consigo para que lhes faa 
uma calorosa recepo.
     Quando Tanner desligou, Andrew entrou. Tinha uma flor na lapela.
     -        Aqui tens os horrios para...
     -        Que diabo  isso?
     Andrew ficou com ar confuso.
     -        Tu pediste-me para eu te trazer...
     -        No estou a falar disso. Estou a falar dessa estpida flor que trazes a.
     O rosto de Andrew iluminou-se.
     -        Estou a usar isto para o teu casamento. Eu vou ser o teu padrinho.
     Kingsley franziu o sobrolho.
     -        Mas de que raio ests tu a falar? - E de repente percebeu. - Mas isso foi h sete anos, seu cretino. E no houve casamento nenhum. Pira-te mas  daqui 
para fora!
     Andrew ficou ali parado, sem saber o que fazer, tentando perceber o que se passava.
     -        Sai!
     Kingsley ficou a olhar enquanto o irmo saa do gabinete. Tenho que o pr em algum lado, pensou. Est na altura.
     
     A descolagem do vo para Barcelona foi suave e sem percalos. Kelly olhava pela janela e via Nova Iorque l em baixo, a desaparecer.
     -        Acha que nos conseguimos ver livres deles?
     Diane abanou a cabea.
     -        No. Mais cedo ou mais tarde vo arranjar maneira de nos descobrir. Mas pelo menos estamos do outro lado. - Tirou da carteira a folha de computador 
e estudou-a. - Sonja Verbrugge morreu em Berlim e o marido desapareceu... Gary Reynolds, em Denver...
     - Hesitou - Mark e Richard.
     Kelly olhou para a folha impressa:
     -        Ento ns vamos a Paris, Berlim, Denver e depois voltamos para Nova Iorque.
     -        Isso mesmo. Atravessamos a fronteira para Frana em San Sebastian.
     Kelly estava ansiosa por voltar a Paris. Queria falar com Sam Meadows. Tinha a sensao de que seria til. E a Angel estava  sua espera.
     -J esteve em Espanha?
     - Mark levou-me l uma vez. Foi a coisa mais... - E de repente Kelly calou-se, ficando calada durante um bom bocado. - Sabe qual  o problema que vou ter de 
enfrentar para o resto da minha vida Diane?  que no existe em todo o mundo ningum como o Mark. Sabe como , quando somos crianas e lemos sobre as pessoas que 
se apaixonam e de repente o mundo passa a ser maravilhoso? Era esse tipo de casamento que eu tinha com Mark. - Olhou para Diane. - Provavelmente passava-se o mesmo 
consigo e Richard.
     -        Sim - respondeu ela muito devagar. - Fale-me de Mark - pediu.
     Kelly sorriu:
     -        Havia nele algo maravilhosamente infantil. Sempre achei que ele tinha o esprito de uma criana e o crebro de um gnio. - Deu uma pequena risada.
     -        O qu?
     - A forma como ele se vestia. No nosso primeiro encontro levava um fato cinzento muito mal cortado, sapatos castanhos, camisa verde e uma gravata de um tom 
encarnado vivo. Depois de nos casarmos, passei a fazer com que ele se vestisse como deve ser. - E calou-se. Quando voltou a falar tinha a voz embargada: - Sabe uma 
coisa? Neste momento daria tudo para poder ver Mark uma vez mais com o seu fato cinzento, os sapatos castanhos, a camisa verde e a gravata encarnada. - Os olhos 
dela estavam hmidos. - Mark gostava imenso de me surpreender com pequenos presentes. Mas o maior de todos os presentes foi o ter-me ensinado a amar. - Enxugou os 
olhos com um leno. - E Richard, como era? Diane sorriu.
     - Era um romntico. Quando  noite amos para a cama ele dizia: "Carrega no meu boto secreto", e eu ria e respondia: "Ainda bem que ningum est a gravar esta 
conversa."
     Olhou para Kelly e explicou: - O boto secreto dele era a tecla de "No incomodar" do telefone. Richard dizia que estvamos num castelo, sozinhos, e que a tecla 
do telefone era o fosso que rodeava o castelo e que nos mantinha protegidos do resto do mundo.
     Diane lembrou-se de qualquer coisa e riu. - Ele era um cientista brilhante e adorava reparar coisas em casa. Arranjava as torneiras que pingavam ou os curto-circuitos, 
e eu depois tinha que chamar os homens para arranjarem o que ele tinha arranjado, mas nunca lhe contei isso. Continuaram a falar quase at  meia-noite.
     Diane apercebeu-se de que era a primeira vez que falavam dos maridos. Era como se uma barreira invisvel entre elas tivesse cado.
     Kelly bocejou.
     .- Acho que devamos dormir. Tenho a sensao de que o dia de amanh vai ser muito excitante.
     No fazia idia do excitante que viria a ser.
     Harry Flint furava por entre a multido no aeroporto de El Prat, em Barcelona, e dirigiu- se  enorme janela que dava para a pista. Virou a cabea para olhar 
o quadro que anunciava as partidas e as chegadas. O avio vindo de Nova Iorque estava no horrio, e devia aterrar dali a trinta minutos. Tudo estava a correr de 
acordo com os planos. Flint sentou-se e esperou.
     Trinta minutos mais tarde, os passageiros do vo de Nova Iorque comearam a desembarcar. Todos pareciam excitados, um grupo tpico de turistas, vendedores, 
algumas crianas, casais em lua-de-mel. Flint teve o cuidado de se manter fora do campo de viso da porta de desembarque enquanto observava a corrente de passageiros 
que entrava no terminal e que, de seguida, parou. Franziu o sobrolho. No havia sinais de Diane nem de Kelly. Flint aguardou mais cinco minutos e em seguida dirigiu-se 
 porta de embarque. - Senhor, no pode passar por a.
     -        FAA! 2 - ladrou. - Temos informao da segurana nacional de, que um embrulho foi escondido na casa de banho deste avio.
     Recebi ordens para o inspeccionar imediatamente.
     Flint j estava na placa. Quando chegou ao avio, a tripulao comeava a sair.
     Uma assistente de bordo perguntou:
     -        Posso ajudar?
     -        FAA, inspeco - respondeu.        E dirigiu-se s escadas do avio. No se avistavam quaisquer passargeiros.
     A assistente perguntou:
     -        H algum problema?
     -        Sim. Uma possvel bomba.
     Ela ficou a olhar enquanto Flint percorria a cabina e abria as portas das casa de banho. Estavam todas vazias.
     As mulheres tinham desaparecido.
     -        Senhor Kingsley, elas no estavam no avio.
     A voz de Tanner Kingsley parecia perigosamente suave:
     -        Senhor Flint, no as viu embarcar?
     -        Vi, sim.
     -        E continuavam a bordo quando o avio descolou?
     -        Estavam, sim.
     -        Ento parece-me que, se raciocinarmos, chegamos  concluso de que ou saltaram no meio do Atlntico sem pra-quedas, ou ento desembarcaram em Madrid. 
Concorda com o meu raciocnio?
     -        Claro que sim, senhor Kingsley. Mas...
     -        Muito obrigado. Portanto, isso significa que pretendem seguir de Madrid para Frana, via San Sebastian. - Fez uma pausa. - Tm quatro possibilidades, 
ou apanham um outro vo para Barcelona, ou vo de comboio, de autocarro ou de carro. - Tanner ficou pensativo. - Provavelmente vo achar que autocarros, avies e 
comboios so demasiado limitativos. A lgica diz-me que vo de carro at  fronteira de San Sebastian e que entram por a em Frana.
     -        Se...
     -        No me interrompa, senhor Flint. Devem levar cinco horas de Madrid a San Sebastian. O que quero que faa  o seguinte: apanhe um avio para Madrid. 
Verifique todas as empresas de aluguel de automveis. Descubra que tipo de carro alugaram, cor, marca, tudo.
     -        Sim, senhor.
     -        Em seguida, quero que voe de volta para Barcelona e que alugue um carro. Um carro grande. E fique  espera delas na auto-estrada de San Sebastian. 
No quero que consigam chegar  fronteira. E, senhor Flint...
     - Diga, senhor?
     -        No se esquea: faa com que parea um acidente.
     
CAPTULO 35
     
     Diane e Kelly estavam em Barajas, o aeroporto de Madrid. Podiam escolher entre alugar um carro na Hertz, na Europe Car, na Avis, ou noutra empresa qualquer, 
mas optaram pela Aksa, uma agncia de aluguel de automveis menos conhecida.
     -        Qual  a maneira mais rpida para chegar a San Sebastian? - perguntou Diane.
     -         muito simples, seora. Apanhe a N-l at  fronteira em Hondarribia e em seguida v directa a San Sebastian. So cerca de quatro a cinco horas de 
viagem.
     Kelly e Diane meteram-se a caminho. Quando, uma hora mais tarde, o jacto privado do KIG aterrou em Madrid, Harry Flint percorreu apressadamente as empresas 
de aluguel de automveis.
     -        Fiquei de me encontrar com a minha irm e uma amiga dela - a amiga  uma afro-americana lindssima. S que desencontrmo-nos.
     Chegaram num vo da Delta, nove dois um, vindo de Nova Iorque.
     Alugaram um carro aqui?
     -        No, seor.
     -        No, seor.
     -        No, seor.
     Finalmente, no balco da Alesa, Flint teve sorte.
     -        Oh, sim, seor. Lembro-me muito bem delas. Elas...
     -        Lembra-se qual foi o carro que alugaram?
     -        Sim. Foi um Peugeot.
     -        De que cor?
     -        Vermelho. Era o nico...
     -        Lembra-se da matrcula?
     -        Claro. E s um segundo.
     Flint ficou a olhar enquanto o empregado abria um livro de registo e verificava.
     Deu o nmero a Flint.
     -        Espero que as encontre.
     -        Encontro, sim.
     Dez minutos mais tarde, Flint voava de volta a Barcelona. Ia alugar um carro, prestar ateno aos Peugeots vermelhos, segui-las at um local onde no houvesse 
trnsito, empurr-las para fora da estrada e assegurar-se de que tinham morrido.
     Diane e Kelly estavam apenas a trinta minutos de San Sebastian, conduzindo num confortvel silncio. A auto-estrada no tinha grande movimento e conseguiam 
andar bem. A paisagem era maravilhosa. Campos maduros para as colheitas, pomares que enchiam o ar com os aromas das romzeiras, dos damasqueiros e das laranjeiras, 
e, longe da estrada, antigas casas com as paredes cobertas por trepadeiras de jasmim. Poucos minutos depois de terem passado a cidade medieval de Burgos, o cenrio 
comeou a transformar-se e surgiram as faldas dos Pireneus.
     - Estamos quase a chegar - comentou Diane.
     Olhou em frente, franziu o sobrolho e comeou a travar. A seiscentos metros  sua frente, ardia um carro e uma pequena multido juntara-se em volta dele. A 
estrada estava bloqueada por homens fardados.
     Diane ficou intrigada.
     -        O que se passa?
     -         Ns estamos no Pas Basco - respondeu Kelly. - Eles esto em guerra. H cinqenta anos que os bascos se revoltam contra o governo espanhol.
     Um homem num uniforme verde com debruns vermelhos e dourados e um cinto preto, sapatos pretos e um bon preto colocou-se no meio da estrada em frente do carro 
e ergueu a mo para as mandar parar. Fez sinal para encostarem na beira da estrada.
     Kelly disse por entre dentes:
     -  a ETA No podemos parar, ou ficamos aqui sabe-se l quanto tempo.
     O polcia aproximou-se do carro e disse-lhes:
     - Eu sou o capito Iradi. Queiram sair da viatura.
     Diane olhou para ele e sorriu.
     -        Gostava muito de poder ser til nesta vossa guerra, mas temos a nossa prpria para tratar. - E carregou no acelerador, passou pelo carro a arder e 
seguiu velozmente em frente, com o carro aos zigue zagues por entre a multido que gritava.
     Kelly fechara os olhos. - Ainda c estamos?
     - Est tudo bem.
     Quando Kelly voltou a abrir os olhos, olhou pelo retrovisor e ficou gelada. Um Citroen Berlingo estava atrs delas, e conseguiu ver o homem que guiava.
     -         o Godzilla! - arquejou. - Est no carro atrs de ns.
     -        O qu? Mas como foi que eles nos descobriram to depressa?
     - Diane carregou no acelerador at ao fundo. O Citroen estava a aproximar-se. Diane olhou para o velocmetro. Marcava 175 km por hora.
     Nervosa, Kelly disse:
     -        Aposto que em Indianapolis ningum a agarra.
     Um quilmetro e meio mais  frente, Diane viu o controle de fronteiras entre Espanha e Frana. - D-me um murro - pediu Diane.
     Kelly riu:
     -        Eu estava s a brincar...
     -        D-me um murro. - A voz dela estava cheia de urgncia.
     O Citroen estava cada vez mais perto.
     -        O que ...?
     - J!
     Relutante, Kelly deu-lhe uma bofetada.
     -        No. D-me um murro com toda a fora.
     J s havia dois carros entre elas e o Citroen.
     -        Depressa - gritou Diane.
     Aflita, Kelly deu-lhe um murro na cara.
     -        Com mais fora.
     Kelly tentou mais uma vez. Desta feita, o seu anel de casamento fez um golpe no rosto de Diane e o sangue comeou a escorrer. Kelly olhava, horrorizada, para 
Diane.
     -        Diane, desculpe, desculpe. Eu no queria...
     Tinham chegado ao posto de controle. Diane travou e parou.
     O guarda da fronteira aproximou-se. -        Boas tardes, minhas senhoras.
     -        Boas tarde. - Diane virou a cabea para que o guarda visse o sangue que lhe escorria pela cara.
     Ele olhou outra vez para ela, horrorizado.
     -        Minha senhora, o que foi que lhe aconteceu?
     Diane mordeu o lbio.
     -         o meu ex-marido. Ele gosta de me bater. Eu consegui uma ordem do tribunal que o probe de se aproximar de mim, mas  impossvel. Passa a vida a perseguir-me. 
Est ali atrs. Eu sei que no vale de nada pedir a vossa ajuda. Ningum o consegue deter.
     Quando o guarda se virou para ver a fila de carros que se aproximavam, o rosto dele estava srio.
     -        Qual  o carro dele?
     -         o Citroen preto, dois carros atrs. Acho que tem intenes de me matar.
     -        Ah, tem? Ento vamos ver! - rugiu. - As senhoras sigam.
     No vo ter que se preocupar mais com ele.
     Diane olhou para cima e disse:
     -        Oh, muito obrigada. Muito obrigada.
     Uns segundos mais tarde, tinham atravessado a fronteira e guiavam em Frana.
     -        Diane?
     -        Sim?
     Kelly pousou a mo no ombro dela.
     -        Peo desculpa pelo... - E apontou para a cara dela.
     Diane sorriu.
     -        Conseguiu que nos vssemos livres do Godzilla, no conseguiu? - Olhou para Kelly. - Mas, est a chorar?
     -        No, no estou. - Kelly fungou. -  a porcaria do rmel.
     Aquilo que voc fez foi... A Diane no  s uma cara bonita, pois no? - perguntou Kelly enquanto tentava limpar com um leno de papel a ferida de Diane.
     Esta viu-se no espelho retrovisor e fez uma careta.
     -        Bem, agora j no sou.
     
     Quando Harry Flint chegou  fronteira o agente estava  espera dele.
     -        Saia do carro, por favor.
     -        No tenho tempo para isso - respondeu Flint. - Estou cheio de pressa. Tenho que...
     -        Saia do carro.
     Flint olhou para ele.
     -        Mas porqu? Qual  o problema?
     -        Temos informao de que um carro com esta matrcula anda a fazer contrabando de drogas. Vamos ter de revistar o carro.
     Flint ficou a olhar para ele.
     -        Est doido? J lhe disse, estou com pressa. Nunca houve drogas de contrabando... - Parou e sorriu. - J percebi. - Meteu a mo no bolso e deu ao guarda 
uma nota de cem dlares. - Ora tome, tome l isto e esquea.
     O guarda chamou alto: - Jos!
     Um capito fardado aproximou-se. O guarda deu-lhe a nota de cem dlares.
     -        Tentativa de suborno.
     -        No. Voc no me pode prender agora. Eu estou a meio de...
     -        E resistncia  autoridade. - Virou-se para o outro guarda.
     - Pede reforos.
     Flint respirou fundo e olhou para a auto-estrada na frente dele. O Peugeot desaparecera.
     Virou-se para capito.
     -        Preciso de fazer um telefonema.
      medida que Diane e Kelly avanavam a toda a velocidade em territrio francs, o planalto central da meseta de Castela comeou a dar lugar s faldas dos Pirenus 
e  Serra de Urbasa. Pamplona estava mesmo na frente delas.
     -        Disse-me que tinha um amigo em Paris? - perguntou Diane.
     -        Sim. Sam Meadows. Trabalhava com Mark. Tenho a sensao de que ele nos pode ajudar. - Kelly meteu a mo na carteira, tirou para fora o seu novo celular 
e marcou um nmero em Paris.
     Uma telefonista atendeu:
     -        KIG.
     -        Posso falar com Sam Meadows, por favor?
     Um minuto mais tarde, Kelly ouviu a voz dele.
     -        Al.
     - Sam? Fala a Kelly. Estou a caminho de Paris.
     -        Meu Deus! Tenho andado muito preocupado contigo. Ests bem?
     - Sim. Acho que sim. - Kelly hesitou.
     - Isto  um pesadelo - dizia Sam Meadows. - Ainda no consigo acreditar.
     Nem eu, pensou Kelly.
     -        Sam, tenho que te contar uma coisa. Penso que Mark foi assassinado.
     A resposta dele deixou-a arrepiada.
     - Tambm eu.        .
     Kelly estava com dificuldade em responder.
     -        Tenho que descobrir o que se passou. Podes ajudar-me?
     -        No me parece que seja coisa que possamos falar ao telefone, Kelly. - Ele estava a tentar que a voz lhe soasse normal.
     -        Eu... compreendo.
     -        Porque no falamos disso logo  noite? Podamos jantar em minha casa.
     -        Tudo bem.
     -        s sete?
     -        L estarei - respondeu Kelly e desligou. - Hoje vou conseguir obter algumas respostas.
     -        Enquanto estiver a fazer isso, eu vou a Berlim tentar falar com as pessoas que trabalhavam com Franz Verbrugge.
     De repente, Kelly ficou silenciosa. Diane olhou para ela.
     -        O que foi?
     -        Nada.  que... ns juntas fazemos uma excelente equipa. No gosto da idia de nos separarmos. Porque no vamos ambas a Paris e...?
     Diane sorriu.
     -        Ns no nos vamos separar, Kelly. Quando tiver terminado de falar com Sam Meadows, telefone-me. Podemo-nos encontrar em Berlim. Nessa altura imagino 
j ter as informaes que so precisas.
     Temos os nossos celulares. Podemos permanecer em contacto.
     Estou ansiosa por ficar a saber o que vai descobrir hoje  noite.
     Chegaram a Paris. Diane olhou pelo retrovisor.
     -        Nada de Citroen. Finalmente despistmo-los. Onde quer que a leve agora?
     Kelly olhou pela janela. Estavam a chegar  Place de la Concorde.
     -        Diane, porque  que no vai entregar o carro e parte para Berlim? Eu posso apanhar um txi.
     - Tem a certeza, companheira?
     -        Tenho sim, companheira.
     -        Tenha cuidado.
     -        Voc tambm.
     Dois minutos depois, Kelly estava dentro de um txi a caminho do seu apartamento, ansiosa por regressar a casa. Dentro de pouco tempo ia encontrar-se com Sam 
Meadows no apartamento dele para um jantar.
     Quando o txi parou em frente do seu prdio, Kelly, sentiu uma enorme sensao de alvio. Estava em casa. O porteiro abriu-lhe a porta.
     Kelly olhou para cima e comeou a dizer - Estou de volta, Martin... - e parou. O porteiro era um perfeito desconhecido.
     -        Boas tardes, minha senhora.
     -        Boas tardes. Onde est Martin?
     -        Martin j c no trabalha. Despediu-se.
     Kelly ficou sem saber o que dizer. - Oh! Que pena.
     - Por favor, minha senhora. Permita que me apresente. O meu nome  Jerme Maio.
     Kelly assentiu.
     Entrou no trio. Um outro desconhecido, alto e magro, estava de p atrs da secretria, junto de Nicole Paradis.
     O desconhecido sorriu.
     - Boas tardes, senhora Harris. Temos estado  sua espera. O meu nome  Alphonse Girouard e sou o porteiro do prdio.
     Kelly olhou em redor, intrigada.
     -        Onde est Philippe Cendre?
     -        Ah! Philippe e a famlia mudaram-se algures para Espanha. - respondeu, encolhendo os ombros. - Razes de trabalho, imagino.
     Kelly estava ficar cada vez mais alarmada.
     -        E a filha?
     -        Foi com eles.
     J lhe disse que a minha filha entrou para a Sorbonne ?  um sonho que se tornou realidade.
     Kelly tentou manter a voz calma.
     - E quando partiram?
     - H apenas uns dias, mas, por favor, no se preocupe, senhora, ns trataremos muito bem de si. O seu apartamento est  sua espera.
     Nicole Paradis, que estava sentada atrs da secretria, ergueu os olhos.
     -        Bem vinda a casa. - Mas os seus olhos diziam outra coisa.
     -        Onde est Angel?
     -        A sua cadelinha? Philippe levou-a com ele.
     Kelly lutava contra uma onda de pnico. Comeava a sentir dificuldade em respirar.
     -        Vamos, minha senhora? Temos uma pequena surpresa para si, no apartamento.
     Aposto que tens. O crebro de Kelly trabalhava velozmente.
     -        Muito bem, mas  s um segundo - pediu. - Esqueci-me de ir buscar uma coisa.
     E antes que Girouard pudesse dizer fosse o que fosse, Kelly j estava na rua, apressando-se pela rua abaixo.
     Jerme Maio e Alphonse Girouard ficaram parados no passeio a olhar para ela. Apanhados desprevenidos, era demasiado tarde para a impedirem. Viram-na entrar 
num txi.
     Meu Deus! O que foi que eles fizeram com Philippe e a famlia? E Angel ?, interrogava- se Kelly.
     -        Para onde, menina?
     -        V andando!
     Hoje  noite vou descobrir o que est por trs de tudo isto, pensava Kelly. Entretanto, tenho de fazer tempo durante quatro horas.
     No seu apartamento Sam Meadows terminava um telefonema:
     -        Sim, compreendo perfeitamente como  importante. Eu trato de tudo... Estou  espera que ela chegue dentro de minutos para jantar... Sim... J tenho 
algum para me ver livre do corpo depois...
     Muito obrigado.  muita generosidade sua, senhor Kingsley.
     Assim que Sam Meadows desligou, olhou para o relgio. A sua convidada devia estar a chegar a qualquer altura.
     
CAPTULO 36
     
     Quando Diane chegou a Berlim, ao aeroporto Tempelhof, havia uma espera de cerca de quinze minutos para os txis. Por fim chegou a sua vez.
     O motorista sorriu.
     -        Wohin?
     -        Fala ingls?
     -         claro, frulein.
     -        Para o Kempiski Hotel, por favor.
     Vinte minutos mais tarde, Diane registava-se no hotel.
     -        Queria alugar um carro com motorista.
     -        Com certeza, menina. - E o recepcionista olhou para baixo.
     - Tem bagagem?
     - J vem.
     Assim que o carro chegou, o motorista perguntou:
     -        Que pretende visitar, menina?
     Precisava de tempo para pensar.
     -        V andando durante um bocado, por favor.
     -        Muito bem. H muitas coisas para ver em Berlim.
     Berlim deixou Diane espantada. Sabia que, durante a Segunda Guerra Mundial, tinha sido bombardeada at quase ser varrida do mapa, mas aquilo que agora via era 
uma cidade activa, cheia de modernos edifcios e com um vivo ar de sucesso.
     Os nomes da ruas pareciam-lhe estranhos: Windscheidstrasse, Regenburgerstrasse, Ltzowfer... Enquanto iam andando, o motorista ia explicando a histria dos 
parques e das construes, mas Diane no ouvia nada. Tinha que falar com as pessoas com que frau Verbrugge trabalhava e descobrir o que sabiam. Segundo a Internet, 
a mulher de Franz Verbrugge fora assassinada e ele desaparecera.
     Diane inclinou-se para a frente e perguntou ao motorista:
     -        Conhece algum "for caf"?
     -        Com certeza, menina.
     -        Importa-se de me levar l?
     -         muito bom.  muito popular. Pode conseguir a todas as informaes que pretende.
     Espero bem que sim, pensou Diane.
     O Cyberlin Caf no era to grande como o de Manhattan, mas parecia igualmente movimentado.
     Assim que Diane entrou pela porta, uma mulher saiu de trs do balco.
     -        Temos um computador disponvel dentro de minutos.
     -        Queria falar com o gerente - pediu Diane.
     -        Sou eu.
     - Oh!
     -        Porque quer falar comigo?
     -        Eu gostaria de falar sobre Sonja Verbrugge.
     A mulher abanou a cabea.
     -        A frau Verbrugge no est c.
     -        Eu sei - respondeu Diane. - Ela morreu. Estou a tentar descobrir como morreu.
     A mulher olhava fixamente para Diane.
     -        Foi um acidente. Quando a polcia confiscou o computador dela, descobriu... - Uma expresso dissimulada surgiu-lhe no rosto. - Se no se importar de 
entrar para aqui, menina, eu j chamo algum para a ajudar. J venho.
     Assim que Diane a viu dirigir-se apressadamente para as traseiras sentiu-se invadida por uma estranha inquietao. Logo que ela desapareceu, Diane saiu rapidamente 
da loja e entrou no carro. Ali no havia ningum que a pudesse ajudar. Tenho de falar com a secretria do Franz Verbrugge.
     Numa cabina telefnica, obteve o nmero do KIG e ligou. - KIG Berlim.
      - Posso falar com a secretria de Franz Verbrugge? - pediu Diane.
     -        Quem fala?
     -        Fala Susan Stratford.
     -        S um segundo, por favor.
     No gabinete de Tanner, a luz azul comeou a piscar. Tanner sorriu para o irmo.
     -        Diane Stevens est a fazer um telefonema. Vamos ver se a podemos ajudar. - E passou a chamada para o sistema alta voz.
     A voz da telefonista do KIG dizia:
     -        A secretria dele no est. Quer falar com a assistente?
     -        Se faz favor.
     -        S um momento. Uma voz feminina apareceu em linha: - Fala Heidi Fronk. Em que posso ser til?
     O corao de Diane comeou a bater mais depressa.
     -        O meu nome  Susan Stratford. Sou jornalista do Wall Street Journal Estamos a fazer uma reportagem sobre as recentes tragdias que aconteceram a alguns 
dos empregados do KIG. Ser que me podia conceder uma entrevista?
     -        No sei se...
     -        S para obter informaes de carcter geral.
     Tanner ouvia com ateno.
     -        E se fssemos almoar? Est livre hoje?
     -        Lamento, mas no.
     -        E jantar?
     Ela hesitou.
     -        Sim, suponho que isso seja possvel.
     -        Onde quer encontrar-se comigo?
     -        H um bom restaurante chamado Rockendorf. Podamo-nos encontrar a.
     -        Muito obrigada.
     -        s oito e meia?
     -        Oito e meia.
     E Diane desligou a sorrir. Tanner virou-se para Andrew:
     -        Decidi que vou fazer aquilo que j devia ter feito h muito tempo.
     Vou ligar a Greg Holliday e pedir-lhe que trate disto para mim. Esse nunca me falhou. - E olhou para Andrew. - Tem um ego enorme. Custa couro e cabelo, mas... 
- sorriu - vale bem a pena.
     
CAPTULO 37
     
     Quando Kelly se aproximava da porta do apartamento, hesitou.. Tocou  campainha. No momento em que a porta foi aberta e viu Sam Meadows, todos os seus temores 
passaram. Sentiu prazer e alivio ao ver o homem que fora to prximo de Mark. Depois de um caloroso abrao, ele pegou-lhe na mo: - Entra.
     Era um encantador apartamento de dois quartos num edifcio que pertencera a um membro da nobreza francesa A sala era espaosa e luxuosa, com moblia francesa 
muito bem escolhida e, numa pequena alcova, um bar.
     -Quero te dizer o quanto lamento a morte de Mark - disse Sam, sem jeito.
     -        Eu sei - respondeu Kelly, fazendo-lhe uma festa no brao.
     -  inacreditvel.
     - Ando a tentar perceber o que aconteceu - disse Kelly -  por isso que estou aqui. Espero que me possas ajudar E sentou-se num dos sofs, ansiosa por ouvir 
e, ao mesmo tempo apreensiva. O rosto de Sam ficou sombrio.
     - Preciso conhecer toda a histria.
     - Mark estava trabalhar num projecto secreto. Aparentemente, colaborava com dois outros funcionrios do KIG. Dizem que ele se suicidou.
     - No acredito nisso - retorquiu Kelly veementemente. Kelly olhava para ele sem perceber.
     -        No estou a perceber...
     -        Como  que Mark alguma vez podia deixar uma pessoa to encantadora como tu? Como  que algum o poderia fazer? - Ele aproximava-se. - O que aconteceu 
foi uma enorme tragdia, Kelly. Mas a vida continua, no ? - E pousou a mo dele sobre a dela. - Todos ns precisamos de algum, no ? Ele partiu, mas eu estou 
aqui. E o teu tipo de mulher precisa de um homem.
     -        O meu tipo de...?
     -        Mark contou-me como s apaixonada. Ele dizia que tu adoravas faz-lo.
     Kelly virou-se para ele, espantada. Mark nunca diria aquilo. Jamais comentaria com algum como ela era. Sam colocou um brao em redor dos ombros dela.
     -        Sim. Mark dizia que tu precisavas mesmo disso. Costumava falar-me de como eras quente na cama.
     De repente, Kelly entrou em pnico.
     -        E sabes, Kelly, se isso te pode ajudar em alguma coisa, Mark no sofreu - disse ele.
     E ela olhou para os olhos dele e percebeu.
     -        Daqui a instantes, vamos jantar - continuou. - Por que no aproveitamos para abrir o apetite na cama?
     Kelly, de repente, sentiu-se desfalecer. Conseguiu sorrir.
     -        Parece-me uma boa idia.
     Pensava furiosamente. Ele era demasiado grande para ela o conseguir vencer, e no tinha nada com que lutar. Ele comeou a acarici-la.
     -        Querida, sabias que tens um rabo maravilhoso? Eu gosto disso.
     Kelly sorriu.
     -        Achas? - E cheirou o ar. - Estou cheia de fome. H qualquer coisa que cheira muito bem.
     -        O nosso jantar.
     Antes que ele a conseguisse impedir, ela levantou-se e dirigiu-se  cozinha. Quando passou pela mesa de jantar teve um choque. A mesa estava posta s para um.
     Kelly virou-se. Na sala, Sam dirigira-se  porta e fechara-a  chave. Viu-o guard-la na gaveta do armrio.
     Olhou em redor da cozinha  procura de uma arma. No tinha forma de saber em qual das gavetas estavam as facas. Sobre o balco estava uma caixa com massa cabelo 
de anjo. No fogo, havia um tacho com gua a ferver e junto a ele outro pequeno tacho onde fervia um molho encarnado.
     Sam entrou na cozinha e ps os braos em redor de Kelly. Ela fingiu no lhe ligar. Olhou para o molho que estava a ferver.
     -        Aquilo est com um aspecto magnfico.
     Ele acariciava o corpo dela.
     -         verdade. O que  que gostas de fazer na cama, querida?
     Kelly pensava rapidamente. Respondeu baixinho:
     -        Tudo. Havia uma coisa escaldante que eu costumava fazer que deixava Mark louco.
     O rosto de Sam iluminou-se.
     -        E o que era?
     -        Costumava pegar num pano molhado e quente e... - Pegou um pano que estava sobre o lava louas. - Eu j te mostro. Baixa as calas.
     Sam Meadows estava encantado.
     -        Claro.
     Baixou as calas e deixou-as cair ao cho. Tinha umas boxers vestidas.
     -        Agora as boxers.
     Ele baixou-as, e o seu rgo estava ingurgitado. Kelly disse num tom admirativo:
     -        Mmm... - Pegou no pano macio com a mo esquerda e moveu-o na direco dele. Com a mo direita pegou no tacho cheio de gua a ferver e despejou o contedo 
sobre os rgos genitais dele.
     Kelly continuava a ouvir os gritos dele enquanto tirava a chave de dentro da gaveta do armrio, abria a porta e fugia.
     
CAPTULO 38
     
     O Rockendorfs  um dos mais famosos restaurantes na Alemanha, com a sua decorao art nouveau h muito a servir como smbolo da prosperidade de Berlim.
     Quando Diane entrou, foi recebida pelo maitre.
     -        Posso ajudar?
     -        Tenho uma reserva em nome de Stevens. Venho encontrar-me com a menina Fronk.
     -        Por aqui, por favor.
     O maitre sentou-a a um canto. Diane olhou em redor com ateno. No restaurante havia mais umas quarenta pessoas, na sua maior parte homens de negcios. Na mesa 
 sua frente estava sentado um homem atraente muito bem vestido, que jantava sozinho.
     Diane ali ficou sentada, a pensar na conversa que tivera com Heidi Fronk. Quanto saberia ela?
     O criado deu-lhe a carta.
     -        Bitu.
     -        Muito obrigada.
     Diane deu-lhe uma vista de olhos. Leberks, Haxen, Labskaus... No fazia idia do que eram aqueles pratos. Heidi Fronk ia ajud-la. Diane olhou para o relgio. 
Heidi estava vinte minutos atrasada.
     -        Deseja encomendar alguma coisa, frulein?
     -        No. Espero pela minha convidada. Muito obrigada.
     Os minutos passavam. Diane comeava a interrogar-se se alguma coisa teria corrido mal.
     Quinze minutos mais tarde, o criado aproximou-se de novo da sua mesa.
     -        Posso trazer-lhe alguma coisa?
     -        No, muito obrigada. A minha convidada deve estar a chegar a qualquer momento.
     s nove horas, Heidi Fronk continuava sem aparecer. Com uma sensao de frustrao Diane compreendeu que a outra no viria.
     Quando olhou para cima, Diane apercebeu-se de dois homens que estavam sentados numa mesa perto da entrada. Estavam mal vestidos e tinham mau aspecto e a palavra 
que lhe ocorreu imediatamente foi "rufies". Observou quando o criado se aproximou e eles o mandaram embora com rudeza. No estavam interessados na comida. Viraram-se 
para olhar de frente para Diane e, com uma sensao de espanto, ela compreendeu que acabara de cair numa armadilha. Heidi Fronk tramara-a. Diane sentiu o sangue 
a subir- lhe  cabea. Olhou em volta  procura de uma forma de poder escapar. No havia nenhuma. Podia continuar ali sentada, mas chegaria uma altura em que teria 
que sair, e nessa altura eles caavam-na. Pensou em usar o celular, mas no havia ningum que a pudesse ajudar.
     Diane pensava, desesperada.
     Eu tenho de sair daqui, mas como?
     Enquanto olhava em redor da sala, o seu olhar caiu sobre o atraente homem que se sentava sozinho na mesa em frente  sua. Estava a beber o caf.
     Diane sorriu e disse:
     -        Boa noite.
     Ele olhou para cima com ar espantado e respondeu de forma simptica:
     -        Boa noite.
     Diane sorriu-lhe, calorosa e convidativa.
     -        Vejo que estamos ambos sozinhos.
     -         verdade.
     -        Gostaria de se juntar a mim?
     Ele hesitou um segundo e sorriu.
     -        Com todo o gosto.
     -        No tem graa nenhuma comer sem companhia, pois no? - comentou Diane de forma leve.
     -        Tem toda a razo. No tem graa nenhuma.
     Ela estendeu a mo.
     -        Chamo-me Diane Stevens.
     -        Greg Holliday.
     
     Kelly Harris ficara aterrorizada com a sua experincia com Sam Meadows. Depois da sua fuga, passara a noite a caminhar pelas ruas de Montmartre, olhando constantemente 
por cima do ombro, com medo de estar a ser seguida.
     Eu no posso deixar Paris sem saber o que se est a passar, pensava.
     Rompia a manh quando parou num pequeno quiosque e tomou um caf. A resposta ao seu problema surgiu-lhe inesperadamente. A secretria de Mark, lembrou-se.
     s nove da manh, Kelly telefonou de uma cabina telefnica. Marcou o nmero to seu conhecido e uma voz feminina de uma telefonista com um forte sotaque francs 
respondeu:
     -        Kingsley Internacional Group.
     -        Queria falar com Yvonne Renais.
     -        Um momento, por favor.
     Segundos depois, ouviu a voz de Yvonne.
     -        Fala Yvonne Renais. Em que posso ser til?
     -        Yvonne? Fala Kelly Harris.
     Do outro lado ouviu-se uma exclamao de espanto. -        Oh! Senhora Harris...
     No gabinete de Tanner Kingsley, uma luz azul acendeu-se.
     Tanner levantou o telefone. Em Nova Iorque eram trs da manh, mas decidira que no ia sair do escritrio at que aquele aborrecido problema estivesse resolvido. 
Agora, enquanto Tanner escutava no telefone, ouvia a conversa que tinha lugar em Paris.
     -        Lamento muito o que aconteceu ao senhor Harris. Foi horrvel.
     -        Muito obrigada, Yvonne. Preciso de falar consigo. Podemo-nos encontrar para almoar? Est livre?
     -        Sim.
     - Num lugar pblico qualquer.
     - Conhece o Le Ciei de Paris?  na Tour Montparnasse.
     -        Est bem.
     No seu gabinete, Tanner tomou nota mentalmente.
     -        Ao meio dia?
     -        Certo. Encontramo-nos l.
     Os lbios de Tanner abriram-se num fino sorriso. Aproveita bem o teu ltimo almoo. Destrancou uma gaveta, puxou-a e tirou para fora um telefone dourado.
     Quando a voz do outro lado atendeu, Tanner disse:
     -        Boas notcias. Acabou. Tenho as duas.
     Ouviu durante algum tempo e depois assentiu com a cabea.
     -        Eu sei. Demorou um pouco mais do que prevamos, mas agora estamos prontos para avanar... Eu sinto a mesma coisa... Adeus.
     A Tour de Montparnasse  uma torre com cerca de duzentos e dez metros de altura, toda em ao e vidro. O edifcio fervilhava de actividade. Os escritrios estavam 
todos ocupados. O bar e o restaurante situavam-se no qinquagsimo sexto andar.
     Kelly foi a primeira a chegar. Yvonne chegou quinze minutos mais tarde, desculpando- se.
     Kelly s a encontrara algumas vezes, mas lembrava-se bem dela. Yvonne era uma senhora pequenina de rosto doce. Muitas vezes Mark elogiara a sua eficincia.
     -        Muito obrigada por ter vindo - disse Kelly.
     -        Eu faria o que fosse preciso. O senhor Harris era um homem maravilhoso. Todos no escritrio o adoravam. Nenhum de ns conseguiu acreditar no que... 
no que aconteceu.
     -         exactamente por isso que eu queria falar consigo, Yvonne.
     Voc esteve com o meu marido quanto tempo, cinco anos?
     -        Exactamente.
     -        Portanto, conheceu-o bem.
     -        Oh, sim!
     -        Apercebeu-se de alguma coisa nos ltimos meses que lhe parecesse estranha? Quero dizer, uma alterao naquilo que ele dizia e fazia?
     Yvonne evitou os olhos dela.
     -        No tenho a certeza... Quero dizer...
     Kelly encorajou-a.
     -        Seja o que for que diga no lhe vai fazer mal. E pode ser que me consiga ajudar a compreender o que se passou. - Kelly preparou-se para fazer a pergunta 
seguinte:
     -        Ele alguma vez lhe falou em Olga?
     Yvonne olhou para ela intrigada.
     -        Olga? No.
     -        No faz idia de quem seja?
     -        Nenhuma.
     Kelly sentiu-se aliviada. Inclinou-se para a frente. - Yvonne, h alguma coisa que me queira contar?
     -        Bom...
     O criado aproximou-se da mesa.
     -        Bonjour mesdames. Bienvenues au Ciei de Paris. Je m'appelk Jacques Brion. Notre chef de cuisine a prepare quelques spcialits pour le djeuner d'aujourd'hui. 
Avez-vous fait votre choix?
     -        Oui monsieur. Nous avons choisi le Chateubriand pour deux. 3
     Assim que o criado partiu, Kelly olhou para Yvonne.
     -        Estava a dizer...?
     -        Bom, nos ltimos dias antes de... antes da sua morte, o senhor Harris parecia andar nervoso. Pediu-me para lhe arranjar um bilhete de avio para Washington, 
D.C.
     -        Eu sei disso. Mas pensei que fosse uma viagem de rotina.
     -        No era. Penso mesmo que era qualquer coisa muito pouco habitual, algo muito urgente.
     -        Tem alguma idia do que se tratava?
     -        No. De repente, tudo comeou a ser muito secreto.  a nica coisa que sei.
     Kelly interrogou Yvonne durante toda a hora seguinte, mas no havia mais nada que ela pudesse adiantar. Quando terminaram o almoo, Kelly pediu: -Yvonne, eu 
gostaria que este nosso encontro ficasse s entre ns.
     -        No se preocupe, senhora Harris. No comento com ningum - e Yvonne levantou-se. - Tenho de regressar ao trabalho. - Os lbios dela tremiam. - Mas 
nunca mais ser a mesma coisa.
     -        Muito obrigada, Yvonne.
     Com quem iria Mark encontrar-se em Washington? E havia ainda aqueles estranhos telefonemas da Alemanha, Denver e Nova Iorque.
     Kelly apanhou o elevador at  entrada. Vou telefonar a Diane e ver o que ela descobriu. Talvez...
     Assim que chegou  entrada do edifcio, viu-os. Dois enormes homens, um de cada lado da porta da rua. Olharam para ela e sorriram um para o outro. Tanto quanto 
sabia, no havia mais nenhuma sada ali perto. Ser que Yvonne me traiu?
     Os homens comearam a avanar na sua direco, empurrando as pessoas que entravam e saam do edifcio.
     Kelly olhou desesperada em seu redor e encostou-se com fora contra a parede. O brao bateu contra qualquer coisa dura. Olhou para ver o que era e, quando os 
dois homens se aproximaram, Kelly pegou no pequeno martelo que estava ligado ao alarme de incndios, partiu o vidro e o alarme disparou, ecoando por todo o edifcio. 
Kelly comeou a gritar: - Fogo! Fogo!
     O pnico foi imediato. As pessoas comearam a sair apressadamente dos escritrios, das lojas, dos restaurantes, direitas  sada. Em poucos segundos, o trio 
estava apinhado, toda a gente a esforar-se por sair dali. Os dois homens tentavam encontrar Kelly no meio da multido. Quando, finalmente, conseguiram chegar ao 
local onde a tinham visto pela ltima vez, ela desaparecera.
     O restaurante Rackendorfs comeava a ficar cheio de gente.
     -        Eu estava  espera de uma amiga - explicou Diane a Greg Holliday, o atraente homem que convidara para a sua mesa. - Parece que ela no pde vir.
     -        Aborrecido. Est em Berlim de visita?
     -        Sim.
     -        Berlim  uma cidade maravilhosa. Eu sou um homem muito bem casado, seno oferecia-me para a acompanhar. Mas h excelentes tours que posso recomendar.
     -        Isso seria muito simptico - respondeu Diane, distrada.
     Olhou para a entrada. Os dois homens dirigiam-se para a porta.
     Iam ficar  espera dela l fora. Chegara a hora de tomar uma atitude.
     -        Na realidade - disse Diane - eu estou aqui com um grupo - olhou para o relgio. - Neste momento esto  minha espera.
     Se no se importasse de me acompanhar at um txi...
     -        De maneira nenhuma.
     Momentos mais tarde dirigiam-se para a sada. Diane sentiu um enorme alvio. Se estivesse sozinha, os dois homens podiam tentar atac-la, mas no lhe parecia 
que se iam atrever com um homem a seu lado. Isso chamaria muito as atenes.
     Quando Diane e Greg chegaram l fora, os dois homens tinham desaparecido. Em frente da porta do restaurante estava parado um txi e, atrs dele, um Mercedes. 
Diane disse:
     - Gostei muito de o conhecer, senhor Holliday. Espero...
     Ele olhou para ela, segurou-lhe o brao e apertou-lho tanto que ela sentiu uma dor terrvel.
     Olhou sobressaltada para ele.
     -        Mas que...?
     -        Porque no entramos no carro? - disse ele suavemente. E ia puxando Diane na direco do Mercedes. O seu aperto foi aumentando.
     -        Mas eu no...
     Assim que chegaram junto do carro, Diane viu os homens do restaurante l dentro sentados, nos lugares da frente. Horrorizada, percebeu o que acontecera e ficou 
em pnico.
     -        Por favor - pediu. - No. Eu... - E sentiu-se empurrada para dentro do carro.
     Greg Holliday entrou para o lado dela e fechou a porta.
     -        Schnell!
     Quando o carro se embrenhava no meio do trnsito, Diane comeou a ficar histrica.
     -        Por favor...
     Greg Holliday virou-se para ela e sorriu de forma tranqilizadora.
     -        Pode ficar calma. No lhe vou fazer mal. Garanto-lhe que amanh j vai estar a caminho de casa.
     E enfiou a mo dentro da bolsa traseira que estava presa ao banco do condutor e tirou para fora uma agulha hipodrmica.
     -        Vou dar-lhe uma injeco. No faz mal nenhum. Vai p-la a dormir durante uma ou duas horas.
     E pegou no pulso de Diane.
     -        Scheisse! - berrou o condutor. De repente, um peo surgira na frente do Mercedes e o condutor teve de travar a fundo para no o atropelar. Apanhado 
desprevenido, Holliday bateu com a cabea contra a parte metlica do apoio para a cabea.
     Tentou endireitar-se, atordoado. E gritou ao condutor:
     -        Mas que raio...?
     Nesse momento, num gesto instintivo Diane agarrou a mo de Holliday que segurava a seringa, virou-lhe o pulso e enterrou-lhe a agulha na carne.
     Holliday virou-se para ela, horrorizado:
     -        No! - gritou.
     Com um horror crescente, Diane viu o corpo dele entrar em espasmos, em seguida endurecer e ter um colapso. Morrera em segundos. Os dois homens no banco da frente 
viraram-se para ver o que se passava. Diane j estava fora da porta e, segundos mais tarde, sentava-se num txi para seguir na direco oposta.
     
CAPTULO 39
     
     O som do seu celular a tocar f-la estremecer. Pegou nele com cuidado e atendeu-o:
     -        Al?
     -        Ol, Diane! Onde est?
     -        Estou em Munique. E voc?
     -        Estou no ferry que atravessa o canal da Mancha a caminho de Londres.
     -        Como correu o encontro com Sam Meadows?
     Kelly ainda era capaz de ouvir os gritos dele.
     -        Eu conto-lhe quando nos encontrarmos. Conseguiu algumas informaes?
     -        Nada de especial. Temos de decidir o que vamos fazer a seguir. Estamos a esgotar as possibilidades. O avio de Gary Reynolds caiu perto de Denver. 
Penso que devamos ir at l. Talvez seja a nossa ltima hiptese.
     -        Est bem.
     -        O obiturio dele dizia que tinha uma irm em Denver. Pode ser que ela saiba alguma coisa. Porque no nos encontramos em Denver, no Brown Palace Hotel? 
Eu parto do aeroporto de Schoenfeld, em Berlim, daqui a trs horas.
     -        Eu apanho um avio em Heathrow.
     -        ptimo. O quarto vai ficar reservado em nome de Harriet Beecher Stowe. Kelly?
     -        Sim?
     - E s... sabe...
     -        Eu sei. Voc tambm.
     Tanner estava sozinho no seu gabinete a falar no telefone dourado.
     -        ...e conseguiram escapar. Sam Meadows no est nada feliz e Greg Holliday morreu. - Ficou calado por momentos. - Segundo a lgica, o lugar que lhes 
resta  Denver. Na verdade,  provavelmente a sua ltima opo... Parece que vou ter que ser eu a tratar disto. Elas conseguiram ganhar o meu respeito, por isso 
 natural que seja eu a tratar do caso delas como deve ser. - Ficou a ouvir e riu. -  claro. Adeus.
     Andrew estava sentado no seu gabinete, a divagar e a criar vises nubladas. Estava deitado numa cama de hospital e Tanner dizia: Tu espantas-me, Andrew. Devias 
ter morrido. Agora os mdicos dizem-me que vais ter alta dentro de poucos dias. Vou dar- te um gabinete no KIG. Quero que vejas como te vou salvar a pele. S que 
tu no aprendias, pois no, meu imbecil? Bom, vou transformar a tua operao de tuta e meia numa mina de ouro e tu bem podes ficar sentado a ver como o vou fazer. 
A propsito, a primeira coisa que fiz foi cancelar a porcaria daqueles projectos de boa vontade que iniciaste, Andrew... Andrew... Andrew...
     A voz era cada vez mais forte.
     -        Andrew! Ests surdo?
     Tanner chamava por ele. Andrew levantou-se e dirigiu-se ao gabinete do irmo.
     Este olhou para cima.
     -        Espero no estar a interferir com o teu trabalho - disse, sarcasticamente.
     -        No, eu s estava a...
     Tanner estudou o irmo por instantes.
     -        Tu no serves mesmo para nada, pois no, Andrew? No semeias nem colhes.  bom para mim ter algum com quem falar, mas no sei por mais quanto tempo 
te quero manter por aqui.
     Kelly chegou a Denver antes de Diane e instalou-se no venervel Brown Palace Hotel.
     -        Esta tarde vai chegar uma amiga minha.
     -        Pretendem dois quartos?
     - No, um duplo.
     Assim que o avio de Diane aterrou no aeroporto internacional de Denver, ela apanhou um txi que a levou ao hotel. Deu o nome ao recepcionista.
     -        Sim, senhora Stevens. A senhora Stowe est  sua espera. Est no quarto.
     Foi um alvio ouvir aquilo.
     Kelly esperava por ela. As duas trocaram um caloroso abrao - Tive saudades suas.
     -        E eu suas. Que tal a sua viagem? - perguntou Kelly.
     -        Nada de especial. Graas a Deus.
     Diane olhou para ela e perguntou:
     -        O que foi que se passou em Paris?
     -        Tanner Kingsley - explicou ela. - E o que se passou em Berlim?
     -        Tanner Kingsley - respondeu numa voz sem timbre.
     Kelly dirigiu-se a uma mesa, pegou numa lista telefnica e trouxe-a para junto de Diane.
     - A irm de Gary Reynolds, Lois, continua na lista telefnica. Vive na Marion Street.
     - ptimo. - Diane olhou para o relgio. - Hoje j  muito tarde para fazermos alguma coisa. Vamos l logo de manhzinha.
     Jantaram no quarto e conversaram at  meia-noite, depois preparam-se para se deitar.
     -        Boa noite - disse Diane, e estendeu a mo para o interruptor.
     O quarto ficou mergulhado em escurido.
     -        No! - gritou Kelly. - Por favor, acenda a luz.
     Diane acendeu-a imediatamente.
     - Desculpe, Kelly. Esqueci-me completamente.
     -        At Mark aparecer, eu tinha medo do escuro. Depois de ele ter sido morto... - Kelly comeou a hiperventilar, a tentar combater o pnico. Respirou fundo. 
- Como gostava de ser capaz de superar isto.
     -        No se preocupe. Vai ser capaz, quando se sentir de novo segura.
     Na manh seguinte, quando Diane e Kelly saram do hotel, havia uma fila de txis em frente da entrada. Entraram num e Kelly deu o nmero da casa de Lois Reynolds, 
na Marion Street.
     Quinze minutos depois, o motorista encostava ao passeio.
     - Ora c estamos.
     Kelly e Diane olhavam pela janela de boca aberta. O que viam eram as runas queimadas de uma casa que ardera at s fundaes. No ficara nada a no ser cinzas, 
pedaos de madeira queimada e fundaes em cimento completamente desfeitas.
     -        Os sacanas mataram-na - exclamou Kelly. Olhou para Diane, desesperada. - Chegmos ao fim do caminho.
     Diane pensava.
     -        Ainda h uma possibilidade.
     Ray Fowler, o amargo gerente do aeroporto de Denver, troou de Diane e de Kelly:
     - Vamos l a ver se percebi bem. Vocs as duas esto a investigar a queda de um avio, sem qualquer autoridade para o fazerem e querem que eu lhes arranje a 
possibilidade de falarem com o controlador areo que estava de servio, para que ele vos d informaes confidenciais? Percebi bem?
     Diane e Kelly olharam uma para a outra.
     -        Sabe, ns tnhamos esperana de... - respondeu Kelly.
     -        De qu?
     -        De que nos pudesse ajudar.
     -        E porque havia eu de o fazer?
     -        Senhor Fowler, ns s queremos ter a certeza de que aquilo que aconteceu a Gary Reynolds foi unicamente um acidente.
     Ray Fowler estudava as duas mulheres.
     -        Que interessante - disse.
     E ali ficou sentado, espantado, e por fim disse:
     -        H uns tempos que isto no me sai da cabea. Talvez devam, de facto, falar com Howard Miller. Era ele o controlador que estava de servio no dia do 
acidente. Tm aqui a morada. Eu entretanto telefono-lhe e digo-lhe que vocs vo aparecer.
     -        Muito obrigada.  muito amvel da sua parte - disse Diane.
     Ray Fowler grunhiu:
     -        Eu s fao isto porque o relatrio da FAA sobre o acidente  um perfeito disparate. Encontrmos os destroos do avio, mas, coincidncia das coincidncias, 
a caixa negra tinha desaparecido. Desaparecido, pura e simplesmente.
     Howard Miller vivia numa pequena casa a cerca de dez quilmetros do aeroporto. Era um homem baixinho, cheio de energia, nos quarenta anos. Abriu a porta da 
frente a Diane e Kelly.
     - Entrem. Ray Fowler telefonou-me e disse que vinham a. Em que as posso ajudar?
     -        Gostaramos de falar consigo, senhor Miller.
     -        Sentem-se. - E sentaram-se no sof. - Querem um caf?
     -        No, muito obrigada. Ns estamos aqui para falar consigo sobre o acidente de aviao de Gary Reynolds...
     -        Sim, ter sido um acidente ou...?
     Howard Miller encolheu os ombros.
     -        Honestamente, no sei. Nunca esperei que uma coisa daquela viesse a acontecer, em todos os anos que trabalho ali. Tudo estava a decorrer segundo o 
regulamento. Gary Reynolds chamou via rdio a pedir autorizao para aterrar e ns concedemo-la. Quando voltou a falar, ele estava apenas a duas milhas de ns e 
reportava a existncia de um furaco! Um furaco! Os nossos monitores no registavam nada. No havia qualquer vento naquela altura. Para lhe dizer a verdade, pensei 
que ele ou tinha bebido ou estava drogado. Depois disso, s sei que ele foi embater contra um dos lados da montanha.
     -        Pelo que percebi, a caixa negra no apareceu, no  verdade? - perguntou Kelly.
     -        Pois. Isso  outra coisa - confirmou Howard Miller, pensativo. - Encontrmos tudo o resto. Mas o que foi que aconteceu  caixa negra? Os desgraados 
dos FAA apareceram a e diziam que tnhamos os registos todos errados. No acreditaram em ns quando lhes contmos o que se passara. Sabe quando se tem a sensao 
de que h qualquer coisa que no est bem?
     -        Sim.
     -        Eu acho que h qualquer coisa errada, mas no sei dizer exactamente o qu. Lamento no poder ajudar mais.
     Diane e Kelly levantaram-se, frustradas.
     -        De qualquer das maneiras, muito obrigada, senhor Miller. Agradecemos o tempo que nos dispensou.
     -De nada.
     Quando Miller acompanhava as duas mulheres at  porta, disse:
     -        Espero que a irm dele fique boa.
     -        O qu? - perguntou Kelly, estacando.
     -        A irm dele. Est no hospital. Coitada. A casa dela ardeu at ao cho, a meio da noite. No sabem se ela vai conseguir sobreviver.
     -        O que aconteceu? - perguntou Diane, sentindo-se gelar.
     -        Os bombeiros pensam que foi provocado por um curto-circuito. Lois conseguiu arrastar-se at  porta de rua, para o jardim, mas quando os bombeiros 
chegaram estava em muito mau estado.
      Diane conseguiu manter a voz calma.
     -        E em que hospital est ela?
     -        Est no Hospital da Universidade do Colorado. No centro de queimados. Ala Trs Norte.
     A enfermeira na recepo na Trs Norte disse:
     -        Lamento muito, mas a menina Reynolds no pode receber visitas.
     -        Pode dizer-nos em que quarto est? - pediu Kelly.
     -        No. Lamento muito, mas no posso.
     -         que isto  uma emergncia - disse Diane. - Ns temos que a ver e...
     -        Ningum a v sem autorizao escrita.
     O tom da voz ela punha um ponto final  conversa.
     Diane e Kelly olharam uma para a outra.
     -        Muito bem. Ento muito obrigada.
     As duas mulheres afastaram-se.
     -        O que vamos fazer agora? - perguntou Kelly. - Esta  a nossa ltima hiptese.
     -        Tenho um plano.
     Um mensageiro fardado transportando um enorme embrulho atado com fitas abordou a recepo.
     -        Tenho aqui um embrulho para Lois Reynolds.
     -        Eu assino - disse a enfermeira.
     O rapaz abanou a cabea.
     - Lamento muito. As minhas instrues so para o entregar pessoalmente .  muito valioso. A enfermeira hesitou.
     -        Ento terei que o acompanhar.
     -        Tudo bem.
     E ele seguiu a enfermeira at ao fim do corredor. Quando chegaram ao quarto 391, a enfermeira comeou a abrir a porta e o mensageiro deu-lhe o embrulho.
     -        Pode entregar-lho - disse.
     Num andar imediatamente abaixo, o mensageiro dirigiu-se ao banco onde Diane e Kelly se sentavam  espera. 
      -  o quarto 391 - disse.
     -        Muito obrigada - respondeu Diane, grata. E deu-lhe algum dinheiro para a mo.
     As duas mulheres subiram as escadas para o terceiro andar, entraram no corredor e esperaram at que a enfermeira fosse ao telefone. Estava de costas para elas. 
Ento apressaram-se pelo corredor e entraram no quarto 391.
     Lois Reynolds estava deitada na cama com uma cadeia de tubos e de fios ligados ao seu corpo. O seu corpo estava coberto de ligaduras. Tinha os olhos fechados, 
quando Kelly e Diane se aproximaram da cama.
     Diane falou baixinho:
     -        Menina Reynolds. O meu nome  Diane Stevens e esta  a Kelly Harris. Os nossos maridos trabalhavam para o KIG.
     Os olhos de Lois Reynolds abriram-se devagarinho e ela tentou foc-los. Quando falou, a sua voz era a sombra de um sussurro.
     -        O qu?
     -        Os nossos maridos trabalhavam para o KIG - disse Kelly. - Ambos foram mortos. Pensmos que, devido ao que aconteceu ao seu irmo, nos pudesse ajudar 
em alguma coisa.
     Lois Reynolds tentou abanar a cabea.
     -        Eu no posso ajudar... Gary est morto.
     Os seus olhos encheram-se de lgrimas.
     Diane inclinou-se sobre ela.
     -        O seu irmo disse-lhe alguma coisa antes do acidente?
     -        Gary era uma pessoa maravilhosa. - A voz dela era lenta e dolorosa. - Ele morreu num acidente de avio.
     -        Ele disse-lhe alguma coisa que nos possa ajudar a descobrir o que se passou? - insistiu Diane pacientemente.
     Lois Reynolds fechou os olhos.
     -        Menina Reynolds, por favor, no adormea j. Por favor. Isto  muito importante. O seu irmo disse-lhe alguma coisa que nos possa ajudar?
     Lois Reynolds abriu de novo os olhos e olhou para Diane, intrigada.
     -        Mas quem so vocs?
     -        Ns estamos convencidas de que o seu irmo foi assassinado - respondeu Diane.
     -        Eu sei... - murmurou Lois.
     As duas sentiram um arrepio gelado.
     -        Porqu? - perguntou Kelly.
     -        Prima... - No era mais do que um murmrio.
     Kelly aproximou-se mais.
     -        Prima?
     -        Gary contou-me... falou sobre isso... uns dias antes de ser mor to. A mquina deles pode controlar... controlar o tempo. Pobre Gary. Ele... ele nunca 
conseguiu chegar a Washington.
     -        Washington? - perguntou Diane.
     -        Sim.. Eles iam todos... iam todos ter com uma senadora qualquer e falar... falar sobre Prima... Gary disse que Prima era muito mau...
     -        Lembra-se do nome da senadora? - perguntou Kelly.
     -        No.
     -        Pense, por favor, pense.
     Lois Reynolds murmurava qualquer coisa.
     -        Senadora no sei o qu...
     -        Qual senadora? - insistiu Kelly.        .
     -        Levin... Luven... van Luven. Eles iam falar com ela. Iam encontrar-se com...
     A porta abriu-se de repente e um mdico com um casaco branco e um estetoscpio pendurado ao pescoo entrou pelo quarto. Olhou para Diane e Kelly e disse, furioso:
     -        Ningum vos disse que no so permitidas visitas?
     Kelly respondeu:
     -        Desculpe. Tnhamos que falar...
     -        Saiam, por favor.
     As duas mulheres olharam para Lois Reynolds.
     -        Adeus. As suas melhoras.
     O homem ficou a v-las sair do quarto. Quando a porta se fechou, dirigiu-se  cama, ficou de p junto de Lois Reynolds e pegou numa almofada.
     
CAPTULO 40
     
     Kelly e Diane conseguiram encontrar o caminho at ao trio do hospital.
     -        Era por isso que Richard e Mark iam a Washington. Para falar com a senadora van Luven - disse Diane.
     -        E ns, como  que falamos com ela?
     -         simples - respondeu Diane, puxando do celular.
     Kelly ergueu a mo para a impedir.
     -        No.  melhor usarmos uma cabina. Conseguiram o nmero de telefone do Senado atravs das informaes e Diane fez a ligao.
     -        Gabinete da senadora van Luven.
     -        Gostaria de falar com a senadora, por favor.
     -        Pode dizer-me o seu nome?
     -         um assunto pessoal - respondeu Diane.
     -        O seu nome, por favor?
     -        No posso... Diga-lhe s que  muito importante.
     -        Lamento, mas no o posso fazer.
     E a ligao foi cortada. Diane virou-se para Kelly. - Ns no podemos usar os nossos nomes. E Diane ligou outra vez o mesmo nmero.
     -        Gabinete da senadora van Luven.
     -        Por favor, oua-me. Isto no  uma brincadeira. Eu preciso de falar com a senadora van Luven e no lhe posso dar o meu nome.
     -        Ento receio no poder permitir que fale com a senadora.
     E a chamada foi mais uma vez cortada.
     Diane ligou outra vez.
     -        Gabinete da senadora van Luven.
     -        Por favor, no desligue. Eu sei que se limita a fazer o seu trabalho, mas este  um caso de vida ou de morte. Eu estou a ligar de uma cabina. Vou dar-lhe 
o nmero. Por favor, pea  senadora que me ligue. - Deu  secretria o nmero e ouviu-a desligar o telefone.
     Kelly perguntou:
     -        E agora, o que fazemos?
     -        Agora ficamos  espera.
     Esperaram duas horas e por fim Diane disse: -        No vai funcionar. Vamos...
     O telefone tocou. Diane respirou fundo e correu para o atender.
     -        Al?
     Uma aborrecida voz feminina disse:
     -        Daqui fala senadora van Luven. Quem fala?
     Diane inclinou o telefone para Kelly de forma que as duas conseguissem ouvir o que a senadora dizia. Diane estava to perturbada que mal conseguia falar.
     -        Senadora, o meu nome  Diane Stevens. Estou com Kelly Harris.
     Sabe quem ns somos?
     -        No. Lamento, mas no...
     -        Os nossos maridos foram assassinados quando se preparavam para se encontrar consigo.
     Do outro lado, ela arquejou.
     -        Oh, meu Deus! Richard Stevens e Mark Harris.
     -        Exactamente.
     -        Os vossos maridos tinham marcado um encontro comigo, mas a minha secretria recebeu um telefonema a dizer que tinham alterado os planos deles. E depois... 
morreram.
     -        O telefonema que recebeu no foi feito por eles, senadora - disse Diane. - Eles foram assassinados por quem os queria impedir de chegar at si.
     -        O qu? - parecia chocada. - Mas porque  que algum...?
     -        Foram mortos para que no falassem consigo. Eu e Kelly gosta ramos de ir a Washington falar consigo sobre o que os nossos ma ridos lhe queriam dizer.
     Houve uma pequena hesitao.
     -        Eu encontro-me convosco, mas no no meu gabinete.  demasiado pblico. Se o que me est a dizer  verdade, pode ser muito perigoso. Tenho uma casa 
em Southampton, em Long Island. Posso encontrar-me convosco a. De onde me esto a telefonar?
     -        De Denver.
     -        S um segundo.
     Trs minutos mais tarde, a senadora voltou de novo  linha.
     -        O prximo vo que sai de Denver para Nova Iorque  da United, 263 directo a La Guardia. Sai  meia noite e vinte e cinco e chega a Nova Iorque s seis 
e nove da manh. Se o vo estiver cheio, h outro...
     -        Ns iremos nesse vo.
     Kelly olhava para Diane, espantada.
     -        Diane, e se no conseguirmos...
     Diane ergueu a mo para a acalmar.
     -        Ns apanhamos esse vo.
     -        Quando chegarem ao aeroporto, uma limusina cinzenta estar  vossa espera. Dirijam-se imediatamente ao carro. O condutor  asitico. Chama-se Kunio, 
K-U-N-I-O. Ele as levar at  minha casa.
     Estarei  vossa espera.
     -        Muito obrigada, senadora.
     Diane desligou o telefone e respirou fundo. Virou-se para Kelly.
     -        Est tudo tratado.
     -        Como  que sabe que conseguimos apanhar esse vo? - perguntou Kelly.
     -        Tenho um plano.
     -        Est a brincar comigo!
     -        No, no estou.
     
      O porteiro no hotel arranjou-lhes um carro de aluguel e, quarenta e cinco minutos depois, Diane e Kelly estavam a caminho do aeroporto. Kelly ia dizendo:
     -        No sei se estou excitada ou se estou com medo.
     -        No creio que daqui para a frente tenhamos mais nada com que nos preocupar.
     -        Parece que havia um monte de pessoas que queriam falar com a senadora, mas nenhuma delas conseguiu. Foram todos mortos.
     -        Ento ns vamos ser as primeiras a conseguir faz-lo.
     -        Gostaria que tivssemos... - disse Kelly.
     -        Eu sei, uma arma. J disse isso. Mas temos a nossa inteligncia.
     -        Est bem. Mas mesmo assim gostava de ter uma arma.
     Kelly olhou l para fora.
     - Encoste a.
     Diane encostou ao passeio.
     -        O que foi?
     -        H uma coisa que eu quero fazer.
     Pararam em frente de um salo de beleza. Kelly abriu aporta do carro.
     -        Onde  que vai? - perguntou Diane.
     -        Vou fazer um novo penteado.
     -        Vai fazer um novo penteado agora? Kelly, ns estamos a caminho do aeroporto para apanhar um avio, e no temos tempo para...
     -        Diane, nunca se sabe o que vai acontecer. E, no caso de vir a morrer, quero estar bonita.
     Diane ficou sentada, sem saber o que dizer, a ver Kelly entrar no salo de beleza.
     Vinte minutos depois, Kelly saiu. Usava uma peruca preta, um luxuriante cabelo apanhado bem alto sobre a cabea. - Estou pronta - disse Kelly. - Passemos ao 
ataque.
     
CAPTULO 41
     
     -        Vem um Lexus branco atrs de ns - disse Kelly.
     -        Eu sei. E tem uma meia dzia de homens l dentro.
     -        Consegue despist-los?
     -        No preciso.
     -        O qu?- exclamou Kelly, olhando para ela.
     -        Olhe.
     Aproximavam-se de um porto do aeroporto com um letreiro que dizia "S ENTREGAS". O guarda atrs do porto abriu-o para deixar entrar o carro.
     Os homens no Lexus olhavam enquanto Kelly e Diane saram e se dirigiam a um carro oficial do aeroporto, que estava parado na placa. Quando o Lexus chegou junto 
do porto, o guarda disse:
     -        Esta entrada  privada.
     -        Mas deixou entrar o outro carro.
     -        Esta entrada  privada.
     E fechou o porto.
     O carro do aeroporto atravessou a placa e parou ao lado de um jumbo. Quando Diane e Kelly saram, Howard Miller estava  espera delas.
     -        Conseguiram c chegar.
     -        Claro - respondeu Diane. - Muito obrigada por ter tratado de tudo.
     -        Foi um prazer. - O rosto dele ficou srio. - Espero que saia alguma coisa de bom de tudo isto.
     -        Agradea por ns a Lois Reynolds e diga-lhe...
     A expresso do rosto de Howard Miller alterou-se.
     -        Lois Reynolds morreu ontem  noite.
     As duas mulheres ficaram chocadas. Kelly precisou de um bom bocado para conseguir responder:
     -        Lamento muito.
     -        O que aconteceu? - perguntou Diane.
     -        Pelos vistos, o corao no agentou.
     Howard Miller olhou para o avio. - Esto prontos para partir. Consegui-vos lugares junto  porta.
     -        Mais uma vez, muito obrigada.
      Miller ficou a ver Kelly e Diane subirem as escadas. Momentos mais tarde, a assistente de bordo fechou a porta e o avio comeou a taxiar. Kelly virou-se para 
Diane e sorriu.
     -        Conseguimos. Conseguimos ser mais espertas do que todos aqueles crebros. O que vai fazer depois de falarmos com a senadora van Luven?
     -        Confesso que ainda no pensei nisso. E, Kelly, vai voltar para Paris?
     -        Depende. Acha que vai ficar em Nova Iorque?
     -        Vou.
     -        Ento talvez fique em Nova Iorque por mais uns tempos - respondeu Kelly.
     -        Ou podemos ir as duas at Paris.
     Estavam sentadas a sorrir uma para a outra.
     -        Estava agora mesmo a pensar como Richard e Mark estariam orgulhosos se soubessem que conseguimos terminar o trabalho que eles comearam - comentou 
Diane.
     -        Pode ter a certeza.
     Diane olhou pela janela para o cu e disse baixinho:
     -        Obrigada, Richard.
     Kelly olhou para ela e abanou a cabea, mas no fez qualquer comentrio.
     Richard, eu sei que me podes ouvir, meu querido. Ns vamos terminar aquilo que tu comeaste. Vamos vingar-te a ti e aos teus amigos. Isso no te vai trazer 
de volta, mas ajuda um bocadinho. Sabes do que  que eu mais sinto falta, meu amor? De tudo!
     Quando a avio aterrou no aeroporto de La Guardia, trs horas e meia mais tarde, Diane e Kelly foram os primeiros passageiros a desembarcar. Diane recordou 
as palavras da senadora: Quando chegarem ao aeroporto, uma limusina cinzenta estar  vossa espera.
     O carro aguardava perto da entrada do terminal. Junto dele estava um japons de alguma idade, fardado. Ps-se praticamente em sentido quando Kelly e Diane apareceram.
     -        Senhoras Stevens e Harris?
     -        Exactamente.
     -        Eu sou Kunio. -Abriu a porta do carro e elas entraram. Momentos mais tarde, estavam a caminho de Southampton.
     -        A viagem demora perto de duas horas e meia - disse o motorista. - A paisagem  lindssima.
     A ltima coisa em que estavam interessadas era na paisagem. Estavam ambas ocupadas a pensar na forma mais rpida de explicarem  senadora o que se passara.
     Kelly perguntou:
     -        Acha que a senadora vai correr perigo, depois de lhe contarmos o que sabemos?
     - Tenho a certeza de que ela tem proteco. Saber como lidar com isto.
     -        Espero bem que sim.
     Ao fim de quase duas horas, a limusina entrou por fim nos terrenos de uma casa em pedra com um telhado de lousa e esguias chamins, ao estilo da Inglaterra 
do sculo dezoito. Tinha dois grandes jardins muito bem cuidados e havia uma casa separada para os criados e a garagem.
     Assim que o carro parou  porta da frente, Kunio disse:
     -        Ficarei c fora  espera, se precisarem de mim.
     -        Muito obrigada.
     A porta foi aberta por um mordomo.
     -        Boa noite. Entrem, por favor. A senadora est  vossa espera.
     As duas mulheres entraram. A sala era elegante e de aspecto prtico, mobilada com uma grande variedade de antiguidades e com sofs e cadeiras de aspecto confortvel. 
Na parede, sobre uma enorme lareira com uma prateleira barroca, ardiam velas em dois castiais de vidro espelhado.
     O mordomo disse:
     -        Por aqui, por favor.
     Kelly e Diane seguiram o mordomo e entraram numa grande sala de estar.
     A senadora van Luven aguardava-as. Vestia um fato leve de seda azul com uma blusa e tinha o cabelo solto. Era muito mais feminina do que Diane esperara.
     -        Eu sou Pauline van Luven.
     -        Diane Stevens.
     -        Kelly Harris.
     -        Estou satisfeita por vos ver. Demorou demasiado tempo.
     Kelly olhou para a senadora van Luven, intrigada.
     -        Desculpe?
     Ouviu-se a voz de Tanner Kingsley atrs delas.
     -        O que ela quer dizer  que tiveram muita sorte, mas que finalmente a vossa sorte acabou.
     Diane e Kelly viraram-se. Tanner Kingsley e Harry Flint tinham acabado de entrar na sala.
     -        Agora, senhor Flint - disse Tanner.
     Harry Flint ergueu uma pistola. Sem dizer uma s palavra, fez pontaria s duas mulheres e disparou duas vezes. Pauline van Luven e Tanner Kingsley ficaram a 
olhar enquanto os corpos de Diane e Kelly cambaleavam para trs e caam no cho.
     Tanner dirigiu-se  senadora van Luven e abraou-a.
     -        Finalmente terminou, Princesa.
     Flint perguntou: - Que quer que eu faa com os corpos?
     Tanner no hesitou.
     -        Amarra-lhes uns pesos aos tornozelos, leva-os de avio para cerca de duzentas milhas da costa e deixa-os cair ao Atlntico.
     -        No h qualquer problema. - Flint saiu da sala.
     Tanner virou-se para a senadora van Luven:
     -        Terminou, Princesa. Podemos finalmente partir.
     Ela aproximou-se dele e beijou-o.
     -        Senti tanto a tua falta, meu amor.
     -        Tambm tive saudades tuas.
     -        Aqueles encontros de uma vez por ms eram frustrantes, por que eu sabia que acabavas por ter de ir embora.
     Tanner apertou-a contra si.
     -        De agora em diante, estaremos sempre juntos. Vamos aguardar uns respeitveis trs ou quatro meses como homenagem ao teu querido falecido marido e em 
seguida casamo-nos.
     Ela sorriu e disse: - Mudemos isso para um ms.
     Ele concordou.
     -        Acho bem.
     -        Pedi ontem a demisso do Senado. Foram muito compreensivos com a minha dor pela perda do meu marido.
     -        Excelente. Agora podemos estar juntos sem qualquer problema. Quero que vejas uma coisa que tenho no KIG e que no te pude mostrar antes.
     Tanner e Pauline chegaram ao edifcio de tijolo vermelho. Tanner dirigiu-se  slida porta de ao que tinha a meio uma pequena cavidade. Ele usava um pesado 
anel de camafeu com o rosto de um guerreiro grego esculpido.
     Pauline observou enquanto ele premia o anel contra a cavidade e a porta se comeava a abrir. A sala era vastssima, repleta de enormes computadores e ecrs 
de televiso. Numa parede mais afastada viam-se geradores e aparelhos electrnicos, todos ligados entre eles e com um painel de controle ao meio.
     Tanner explicou:
     -        Aqui  o ground zero. O que tu e eu temos aqui  algo que vai mudar a vida das pessoas para sempre. Esta sala  o comando central de um sistema de 
satlites que possui capacidade para controlar o clima em qualquer lugar do mundo. Podemos provocar tempestades onde quisermos. Criar secas, evitando que chova. 
Nevoeiros nos aeroportos. Furaces e ciclones capazes de parar toda a economia mundial. - Sorriu. - J demonstrei um pouco do nosso poder. H muitos pases a trabalhar 
para conseguirem controlar o clima, mas nunca nenhum conseguiu at agora resolver o problema.
     Premiu um boto e um enorme ecr de televiso iluminou-se.
     -        O que aqui vs  uma aproximao daquilo que o exrcito gostaria de ter. - Virou-se para ela e sorriu. - A nica coisa que impediu que Prima me desse 
o controle total e perfeito foi o efeito de estufa, e disso tu trataste lindamente. - Suspirou. - Sabes quem criou este projecto? Andrew. Ele era, de facto, um gnio.
     Pauline olhava para o impressionante equipamento.
     -        No percebo como  que isto consegue controlar o clima.
     -        Bom, a verso simplista  a de que o ar quente sobe na direco do ar frio e, se encontrar humidade...
     - Querido, no sejas condescendente.
     -        Desculpa, mas a verso final  bastante mais complicada - respondeu ele.
     -        Sou toda ouvidos.
     -         um pouco tcnico, por isso presta ateno. Os lasers de microondas criados com a nanotecnologia que o meu irmo produziu, quando disparados para 
a atmosfera da Terra, geram oxignio livre que se mistura com o hidrognio, produzindo ozono e gua. O oxignio livre na atmosfera junta-se em pares, por isso  
que  chamado O2, e o meu irmo descobriu que, disparando o laser do espao para a atmosfera, obrigava o oxignio a ligar-se com dois tomos de hidrognio em ozono, 
O3, e gua, H2O.
     -        Continuo a no perceber como  que isso pode...
     -        O clima  accionado pela gua. Andrew descobriu, em testes mais aprofundados, que uma dada quantidade de gua que surgia como subproduto destas experincias 
fazia com que os ventos se alterassem. Mais lasers, mais vento. Controlando a gua e o vento, podemos controlar o clima.
     Ficou pensativo por momentos.
     -        Quando descobri que Akiro Isso, em Tquio, e mais tarde Madeleine Smith, em Zurique, se estavam a aproximar da soluo do problema, ofereci-lhes emprego 
aqui, para que os pudesse controlar.
     Mas eles recusaram. E eu no me podia dar ao luxo de permitir que terminassem aquilo em que estavam a trabalhar. - Encolheu os ombros. - Contei-te que tinha 
quatro dos meus melhores meteorologistas a trabalhar neste projecto comigo, no contei?
     -        Contaste.
     -        Pois. Eles tambm eram muito bons. Franz Verbrugge, em Berlim, Mark Harris em Paris, Gary Reynolds em Vancouver e Richard Stevens em Nova Iorque. Cada 
um deles estava encarregado de tentar resolver um determinado problema do controle do tempo, e pensei que, dado estarem a trabalhar em pases diferentes, nunca seriam 
capazes de juntar todas as peas do puzzlee e concluir qual era o objectivo final de todo este projecto. Mas, de alguma forma, a verdade  que chegaram l. Vieram 
ter comigo a "Viena, para me perguntarem quais eram os meus planos para o Prima. Disse-lhes que o ia dar ao nosso governo. Nunca imaginei que levassem o assunto 
mais adiante, mas, para ter a certeza, montei-lhes uma armadilha. Quando estavam sentados na recepo, fiz um telefonema para o teu gabinete no Senado, de forma 
que eles me ouvissem a negar que alguma vez ouvira falar de Prima. Na manh seguinte, comearam a ligar-te para marcarem encontros. Foi nessa altura que percebi 
que tinha de os afastar. - E sorriu. - Vou-te mostrar o que temos aqui.
     Apareceu num ecr de computador um mapa do mundo marcado com pontos e com smbolos. A medida que Tanner falava, ia movimentando um interruptor, e o foco do 
mapa foi-se alterando at se centrar sobre Portugal.
     Tanner ia dizendo:
     - Os vales agrcolas de Portugal so abastecidos pelos rios que correm para o Atlntico vindos de Espanha. Imagina o que aconteceria a Portugal se chovesse 
continuamente at que os vales agrcolas ficassem completamente inundados.
     Tanner premiu um boto e, num ecr enorme, surgiu a imagem de um compacto palcio cor de rosa, com guardas fardados, e os lindssimos jardins a brilhar sob 
a luz do sol.
     -        Este  o palcio presidencial.
     A imagem mudou para uma sala de jantar dentro do edifcio, onde uma famlia tomava o pequeno almoo.
     -        Este  o presidente de Portugal, a mulher e dois filhos. Quando falarem ser em portugus, mas tu ouvirs em ingls. Tenho dzias de nanocmaras e 
de microfones espalhados pelo palcio. O presidente desconhece, mas o seu chefe de segurana trabalha para mim.
     Um assessor dizia ao presidente:
     -        Hoje de manh, s onze horas, tem uma reunio na Embaixada e um discurso numa central sindical.  uma da tarde, almoo no museu. Esta noite temos um 
jantar de estado.
     O telefone tocou sobre a mesa do pequeno almoo. O presidente atendeu-o. - Al?
     A voz de Tanner era imediatamente traduzida do ingls para o portugus,  medida que falava: - Senhor presidente?
     O presidente pareceu espantado. - Quem fala? - perguntou e a voz dele foi imediatamente traduzida do portugus para ingls.
     -        Um amigo.
     -        Mas quem... Como obteve o meu nmero privado?
     -        Isso no interessa. Quero que oua com ateno. Gosto muito do seu pas e no gostaria de o ver destrudo. Se no quer que terrveis tempestades o 
faam desaparecer do mapa, tem que me mandar dois mil milhes de dlares em ouro. Se no est interessado agora, eu volto a telefonar daqui a trs dias.
     No ecr, viram o presidente bater com o telefone. Virou-se para a mulher e disse:
     -        Um palerma qualquer que conseguiu o meu nmero privado.
     Deve ter sado de um manicmio.
     Tanner virou-se para Pauline.
     -        Isto foi filmado h trs dias. Agora vou-te mostrar a conversa que tivemos ontem.
     A imagem do enorme palcio e dos seus belos jardins surgiu de novo, mas desta vez chovia torrencialmente e o cu estava cheio de trovoadas e iluminado por relmpagos.
     Tanner premiu um boto e a imagem no ecr passou a ser a do gabinete do presidente. Estava sentado a uma mesa de conferncias com meia dzia de assistentes, 
todos a falarem ao mesmo tempo. O rosto dele estava sombrio. O telefone em cima da mesa tocou.
     -        Agora. - Tanner sorriu.
     O presidente atendeu o telefone, apreensivo.
     -        Estou?
     -        Bons dias, senhor presidente. Como...?
     -        Voc est a destruir o meu pas! J destruiu as nossas colheitas. Os rios esto alagados. As aldeias esto a ficar... - Parou e respirou fundo. - Quanto 
tempo vai isto durar? - A voz dele tinha uma ponta de histeria.
     -        At eu receber os dois mil milhes de dlares!
     Ficaram a ver o presidente cerrar os dentes e fechar por momentos os olhos. - E depois pra com estas tempestades?
     -        Com certeza.
     -        Como  que quer receber este dinheiro?
     Tanner desligou o televisor.
     - Vs como  fcil, Princesa? J temos o dinheiro. Agora deixa que te mostre o que mais Prima  capaz de fazer. Estes so os nossos primeiros testes.
     Premiu outro boto e a imagem de um furioso furaco apareceu no ecr.
     -        Isto est a ter lugar no Japo - explicou. - Em tempo real.
     E, nesta estao, para eles o tempo  sempre calmo.
     Premiu outro boto e apareceram imagens de uma violenta tempestade a abater-se sobre um pomar de laranjas.
     -        Isto  em directo da Florida. A temperatura no exterior est, neste momento, perto de zero graus, e estamos em Junho! As colheitas vo ficar completamente 
destrudas.
     Accionou outro boto e, no ecr gigante, viu-se a imagem de um tornado a arrasar edifcios.
     -        Isto  o que se est a passar no Brasil. Como vs - continuou Tanner - Prima pode fazer qualquer coisa.
     Pauline aproximou-se mais dele e disse suavemente:
     -        Tal como o seu pap.
     Tanner desligou o televisor. Pegou em trs DVDs e mostrou-lhos.
     -        Aqui esto trs conversas muito interessantes que tive com o Peru, o Mxico e a Itlia. Sabes como  entregue o ouro? Ns mandamos camies aos bancos 
deles e eles enchem-nos. E depois estamos numa situao de pescadinha de rabo na boca. Se fizerem qualquer tentativa para descobrir para onde vai o ouro, eu garanto-lhes 
uma tempestade que comea e nunca mais acaba. Pauline olhava para ele, preocupada.
     -        Tanner, h alguma hiptese de eles alguma vez conseguirem identificar as nossas chamadas?
     Tanner riu.
     -        Espero que sim. Se algum o tentar fazer, chegaro primeiro a uma igreja, depois so reenviados para uma escola. A terceira vez vo criar tempestades 
que desejaro nunca ter assistido. E o quarto terminar na Sala Oval da Casa Branca.
     Pauline riu.
     A porta abriu-se e Andrew entrou.
     -        Ah! C est o meu querido irmo.
     Andrew olhava fixamente para Pauline com uma expresso intrigada no rosto.
     -        Eu no a conheo? - Olhou para ela durante quase um minuto enquanto se concentrava, e em seguida o seu rosto iluminou-se. - Mas  claro. Voc... voc 
e Tanner estavam... vocs iam-se casar. Eu era o padrinho. Voc ... voc  a Princesa.
     -        Muito bem, Andrew - elogiou Pauline.
     -        Mas voc... voc foi-se embora! No amava Tanner.
     Este interveio.
     -        Eu explico-te umas coisas. Ela foi-se embora exactamente por que me amava. - E pegou na mo dela. - Telefonou-me no dia a seguir ao casamento. Casara-se 
com um homem muito rico e muito influente para, atravs da influncia dele, conseguir arranjar clientes importantes para o KIG. Foi assim que pudemos crescer a esta 
velocidade. - Tanner abraou-a. - Arranjmos uma forma de nos encontrarmos uma vez por ms e ela depois comeou a interessar-se pela poltica e tornou-se senadora 
- explicou, orgulhoso, Tanner.
     Andrew franziu o sobrolho.
     -        Ento e... e Sebastiana?
     -        Quem? Sebastiana Cortz? Essa foi para despistar - respondeu Tanner a rir. - Fiz as coisas de forma que todos aqui no KIG tivessem conhecimento da 
existncia dela. Eu e a Princesa no nos podamos dar ao luxo de levantarmos qualquer suspeita.
     -        Oh! Estou a perceber - respondeu Andrew com ar vago.
     -        Andrew, chega aqui.
     Tanner conduziu-o at ao centro de controle. Ficaram em frente de Prima.
     -        Lembras-te disto? - perguntou. - Tu ajudaste a desenvolv-lo. Agora est pronto.
     Os olhos de Andrew abriram-se de espanto.
     -        Prima...
     Tanner apontou para um boto e disse:
     -        Controle do tempo.
     Apontou para outro:
     -        Local.
     Olhou para o irmo.
     -        Ests a ver como o tornmos to simples?
     -        Eu lembro-me... - disse Andrew quase sem flego.
     Tanner virou-se para Pauline:
     -        Isto  unicamente o princpio, Princesa.
     E tomou-a nos braos - Estou a contactar mais trinta pases. Tens o que querias. Poder e dinheiro.
     -        Um computador como este pode valer milhes... - respondeu, feliz, Pauline.
     -        Dois computadores como este - interrompeu Tanner. - Tenho uma surpresa para ti. J alguma vez ouviste falar na ilha de Tamoa, no Pacfico Sul?
     -        No.
     -        Bom. Acabmos de compr-la. Tem noventa e cinco mil metros quadrados e  inacreditavelmente bela. Faz parte das ilhas da Polinsia francesa e tem uma 
pista de aviao e um porto para barcos.
     Tem tudo, incluindo - e fez uma pausa para dar maior dramatismo s suas palavras - o Prima II!
     -        Queres dizer que existe um segundo...? - perguntou Pauline.
     -        Exactamente! - respondeu Tanner. - Est no interior da Terra, onde jamais algum o conseguir detectar. E agora que aquelas duas cabras bisbilhoteiras 
se encontram finalmente fora do nosso caminho, o mundo  todo nosso.
     
     Carlos Eduardo
     
CAPTULO 43
     
     Kelly foi a primeira a abrir os olhos. Estava deitada de costas, despida, no nu cho de cimento de uma cave, as mos algemadas com correntes de vinte e quatro 
centmetros, presas  parede, logo acima do cho. Numa parede mais afastada via-se uma pequena janela com grades, e a entrada fazia-se atravs de uma porta de aspecto 
robusto.
     Kelly virou-se para Diane, que estava a seu lado, tambm ela nua e algemada. As roupas delas estavam atiradas para um canto.
     -        Onde estamos ns? - perguntou Diane meia grogue.
     -        No Inferno, companheira.
     Kelly experimentou as algemas. Estavam fechadas e bem apertadas em redor dos seus pulsos. Conseguiu levantar o brao dez ou quinze centmetros, mas mais nada.
     -        Camos direitinhas na armadilha - disse, amargamente.
     -        Sabe o que mais odeio em tudo isto?
     Kelly olhou em redor do quarto nu e respondeu:
     -        No fao a mnima idia.
     -         que eles ganharam. Sabemos porque mataram os nossos maridos e porque nos vo agora matar a ns, mas no temos qualquer hiptese de passar a informao 
l para fora, para que o mundo saiba. Eles vo-se safar. Kingsley tinha razo. A nossa sorte chegou, finalmente, ao fim.
     -        No, no chegou.
     A porta abriu-se e Harry Flint entrou no quarto. O seu sorriso cresceu. Fechou a porta atrs de si e meteu a chave no bolso.
     -        As balas que disparei eram de Xilocana. Devia ter-vos matado, mas depois pensei que antes disso nos podamos divertir um pouco.
     Aproximou-se.
     As duas mulheres trocaram um olhar aterrorizado. Ficaram a ver enquanto ele, sorridente, despia a camisa e as calas.
     -        Olhem s o que eu tenho aqui para vos dar. Deixou cair as cuecas. O seu membro estava teso e trgido. Olhou para elas e avanou na direco de Diane.
     -        Porque no comeo por ti, minha querida, e depois...?
     Kelly interrompeu-o:
     -        Espera a, bonito. Que tal comeares por mim? Estou cheia de teso.
     Diane olhava, estupefacta, para ela.
     -        Kelly...
     Flint virou-se para Kelly e desfez-se em sorrisos.
     -        Mas  claro, querida. Tu vais adorar.
     -        Oh, sim! - gemeu Kelly. - Sinto tanto a falta disso.
     Diane fechou os olhos. No tinha foras para ver aquilo.
     Kelly afastou as pernas e, quando Flint comeou a entrar nela, ela ergueu o brao uns centmetros e meteu a mo no seu elaborado penteado. Quando a retirou 
trazia um travesso com uma lmina de ao com quinze centmetros de comprimento. Num movimento destro, espetou a lmina na parte de trs do pescoo de Flint, enterrando-a 
at ao fundo.
     Flint tentou berrar, mas a nica coisa que se ouviu foi um gorgolejar rouco. O sangue escorria-lhe pelo pescoo. Diane abriu os olhos, atordoada.
     Kelly olhou para ela.
     - J pode... Agora j pode relaxar. - E afastou o corpo inerte de cima de si. - Ele est morto.
     O corao de Diane batia to depressa que parecia que lhe ia saltar do peito. Estava plida de morte.
     Kelly olhava para ela, alarmada.
     -        Sente-se bem?
     -        Eu estava com medo que ele - E a boca ficou-lhe seca. Olhou para o corpo de Harry Flint e estremeceu. - Porque  que no me contou? - Apontou para 
o travesso espetado no pescoo do outro.
     -        Porque se no servisse para nada... Bom, eu no queria que pensasse que eu a estava a deixar mal. Vamos sair daqui.
     -        Como?
     -        J lhe mostro. - Kelly esticou uma das suas longas pernas para onde Flint deixara cair as calas. Os seus dedos dos ps esticaram-se para as alcanar. 
Faltavam uns seis centmetros. Mudou de posio. Ainda faltavam trs centmetros. Finalmente, foi bem sucedida. Sorriu. - Voil! Os seus dedos do p apanharam as 
calas e, devagarinho, foi puxando por elas at ficarem suficientemente perto para lhes poder chegar com as mos. Vasculhou os bolsos das calas  procura da chave. 
Encontrou-a. Uns segundos depois, tinha as mos soltas. Correu para junto de Diane.
     -        Meu Deus, voc  um milagre - exclamou esta.
     -        Agradea ao meu novo penteado. Vamos sair daqui.
     As duas mulheres apanharam as roupas do meio do cho e vestiram-se rapidamente. Kelly retirou a chave da porta do bolso de Flint.
     Dirigiram-se para a porta e pararam para escutar. Silncio. Kelly abriu a porta. Estavam num longo corredor vazio.
     -        Deve haver algures uma sada - disse Diane.
     -        Pois deve - concordou Kelly. -V por a que eu vou...
     -        No. Por favor. Vamos ficar juntas, Kelly.
     Kelly apertou suavemente o brao a Diane e anuiu.
     -        Com certeza, companheira.
     Minutos mais tarde, as duas mulheres deram por si numa garagem. L dentro havia um Jaguar e um Toyota.
     -        Escolha - disse Kelly.
     -        O Jaguar d. muito nas vistas. Vamos levar o Toyota.
     -        S espero que a chave esteja...
     E estava. Diane sentou-se ao volante.
     -        Faz alguma idia para onde vamos? - perguntou Kelly.
     -        Para Manhattan. Mas ainda no tenho nenhum plano.
     -        Ora a esto boas notcias - respondeu Kelly suspirando.
     -        Precisamos de encontrar um lugar para dormir. Quando Kingsley descobrir que conseguimos fugir, vai ficar doido. No estaremos seguras em lado nenhum.
     Kelly pensava.
     -        Estaremos, sim.
     -        O que quer dizer com isso? - perguntou Diane a olhar para ela.
     -        Eu tenho um plano - respondeu Kelly, orgulhosa.
     
CAPTULO 44
     
     Enquanto guiava em direco a White Plains, a quarenta quilmetros de Manhattan, Diane comentou:
     -        Parece ser uma cidade simptica. O que estamos aqui a fazer?
     -        Tenho aqui uma amiga. Ela toma conta de ns.
     -        Fale-me dela.
     Kelly comeou a dizer devagarinho:
     -        A minha me casou-se com um bbado que gostava de lhe bater. Quando tive, finalmente, possibilidade financeira de tomar conta dela, consegui convenc-la 
a deix-lo. Uma modelo que eu conhecia e que fugira a um namorado que a maltratava falou-me neste local. E uma penso gerida por um anjo que se chama Grace Seidel. 
Trouxe a minha me para aqui at lhe conseguir arranjar um apartamento. Vinha todos os dias visit-la a Grace Seidel. A minha me adorou c estar e fez amizade com 
outras pensionistas.
     Finalmente arranjei-lhe um apartamento e vim busc-la. - Calou-se.
     -        E que aconteceu? - perguntou Diane.
     -        Ela voltou para o marido.
     Tinham chegado  penso.
     -        C estamos.
     Grace Seidel era uma mulher que estava por volta dos cinqenta anos, dinmica, uma maternal bola de energia. Quando abriu a porta e viu Kelly, o seu rosto iluminou-se.
     -        Kelly! - Abraou-a. - Que bom ver-te.
     -        Esta  a minha amiga Diane - apresentou Kelly.
     Trocaram cumprimentos.
     -        O quarto j est  vossa espera - disse Grace. - Alis, era o quarto da tua me. Mandei pr mais uma cama.
     Quando Grace Seidel as acompanhava at ao quarto, passaram por uma sala de estar de aspecto muito confortvel onde uma dzia de mulheres jogavam s cartas ou 
se dedicavam a outras actividades.
     -        Quanto tempo vo ficar? - perguntou Grace.
     -        Ainda no sabemos - responderam, depois de olharem uma para a outra.
     -        No h qualquer problema - respondeu Grace a sorrir. - O quarto  vosso enquanto precisarem dele.
     O quarto era muito agradvel, bem tratado e limpo. Quando Grace Seidel as deixou, Kelly disse a Diane:
     -        Aqui estamos seguras. E a propsito, acho que entrmos para o Livro dos Recordes do Guiness. Sabe quantas vezes eles nos tentaram matar?
     -        Sim, sei. - Diane estava de p junto da janela. E Kelly ouviu-a dizer: - Obrigada, Richard.
     Kelly ia dizer qualquer coisa, mas depois pensou: No vale a pena.
     Andrew, dormitando sentado  sua secretria, sonhava que estava a dormir numa cama de hospital. As vozes no seu quarto tinham-no acordado.
     -... E, felizmente, descobri isto quando estvamos a descontaminar o fato de proteco de Andrew. Pensei que lho devia mostrar imediatamente.
     -        Os tipos do exrcito tinham-me garantido que era perfeitamente seguro.
     Um homem dava a Tanner uma das mscaras de gs do equipamento do exrcito.
     -        Encontrei um pequeno buraco. Parece que algum lhe fez um corte. Foi o suficiente para provocar o estado em que o seu irmo se encontra.
     Tanner olhou para a mscara e berrou:
     -        Quem quer que seja o responsvel por isto vai ser punido. - Olhou para o homem e disse: - Vou j tratar do assunto. Muito obrigado por me ter avisado.
     Deitado na cama, Andrew, meio grogue, viu o homem sair. Tanner ficou a olhar por instantes para a mscara e em seguida dirigiu-se a um canto do quarto onde 
estava um carro de hospital cheio de lenis sujos.
     Abriu caminho at ao fundo do carro e enterrou a mscara no meio dos lenis. Andrew tentou perguntar ao irmo o que se estava a passar, mas estava demasiado 
cansado. Adormeceu.
     Tanner, Andrew e Pauline tinham regressado ao gabinete de Tanner, e ele pediu  secretria que lhe trouxesse os jornais da manh. Comeou a dar uma vista de 
olhos pelas primeiras pginas.
     -        Olhem para esta: "Cientistas no compreendem as tempestades fora de tempo que se abatem sobre Guatemala, Peru, Mxico e Itlia..."
     Olhou, exultante, para Pauline.
     -        E isto  simplesmente o comeo. Vo ter muito mais com que se espantar.
     Vince Carballo entrou apressadamente na sala.
     -        Senhor Kingsley...
     -        Estou ocupado. O que foi?
     -        Flint morreu.
     Tanner ficou de boca aberta.
     -        O qu? O que  que est a dizer? O que foi que aconteceu?
     -        A Stevens e a Harris mataram-no!
     -        Isso  impossvel!
     -        Ele est morto. Elas escaparam e levaram o carro da senadora.
     Participmos o roubo  polcia, que o encontraram em White Plains.
     A voz de Tanner era sombria.
     -        Eu quero que faa o seguinte: arranje uma dzia de homens e v at White Plains. Passem a pente fino todos os hotis, penses e mesmo as penses mais 
rascas. Qualquer lugar onde elas se possam esconder. Dou uma recompensa de quinhentos mil dlares a quem mas entregar. E despachem-se!
     -        Sim, senhor.
     Vince Carballo saiu apressadamente.
     
     -        No quero falar sobre isso.
     -        Desculpe. Sabe qual  a maior frustrao? E que estivemos to perto. Agora que sabemos o que aconteceu, no temos ningum a quem contar. Era a nossa 
palavra contra a do KIG. Metiam-nos logo num asilo.
     -        Tem razo - concordou Kelly. - No temos ningum a quem recorrer.
     Houve um momento de silncio e em seguida Diane disse devagarinho:
     -        Temos, sim.
     
     Os homens de Vince Carballo estavam espalhados pela cidade a verificar todos os hotis e penses. Um dos homens mostrou fotos de Diane e de Kelly ao empregado 
do Esplanade Hotel.
     -        Por acaso viu alguma destas mulheres? H uma recompensa de meio milho de dlares por elas.
     O empregado abanou a cabea.
     -        Quem me dera saber onde elas esto.
     No Renaissance Westchester Hotel outro homem mostrava as fotos de Diane e Kelly.
     -        Meio milho de dlares? No me importava de ficar com eles.
     No Crowne Plaza o empregado dizia:
     -        Se eu as vir, pode ter a certeza que o aviso, cavalheiro.
     Vince Carballo bateu  porta da penso de Grace Seidel.
     -        Bom dia.
     -        Bom dia. O meu nome  Vince Carballo. - Mostrou uma foto das duas mulheres. -Viu alguma destas mulheres? H uma recompensa de meio milho de dlares 
por elas.
     O rosto de Grace Seidel iluminou-se.
     
     -        Kelly!
      No seu quarto na penso de Grace Seidel, Diane perguntou:
     -        Lamento muito o que se passou consigo quando foi a Paris.
     Eles mataram o porteiro?
     -        No sei, no fao idia. A famlia pura e simplesmente desapareceu.
     -        E o seu co?
     Kelly respondeu, tensa:        No sei.
     
     No gabinete de Tanner, Kathy Ordonez estava cheia de trabalho. Os faxes chegavam depressa de mais e a sua caixa de e-mails estava atulhada. Pegou numa pilha 
de papis e entrou no gabinete de Tanner. Este estava sentado num sof a conversar com Pauline van Luven.
     Tanner ergueu o olhar quando ela entrou.
     - O que ?
     Ela sorriu.
     -        Boas notcias. Vo ter um jantar muito bem sucedido.
     Tanner franziu o sobrolho.
     -        Desculpe? O que quer dizer com isso?
     Ela mostrou-lhe os papis.
     -        So todos de confirmaes. Toda a gente vem.
     Tanner levantou-se.
     -        Vem onde? Deixe-me ver isso. - Tanner leu o primeiro e-mail em voz alta. - "Temos muito gosto em aceitar o convite para o jantar nas instalaes do 
KIG, na prxima sexta feira, para a apresentao de Prima, a vossa mquina de controle climtico." Do editor da revista Time.
     Tanner empalideceu. Leu o seguinte.
     "Muito obrigado pelo convite para ver Prima, o seu computador que controla o clima, nas instalaes do KIG. Temos muito gosto em estar presentes." Estava assinado 
pelo editor da Newsweek.
     Folheou todos os papis.
     -        CBS, NBC, CNN, Wall Street Journal, Chicago Tribune, e, de Londres, o The Times, todos ansiosos por poderem assistir  apresentao de Prima.
     Pauline permanecia sentada, incapaz de dizer fosse o que fosse. Tanner estava to furioso que nem conseguia falar.
     -        Mas que diabo se est a passar? - E de repente parou. - Aquelas cabras!
     No Irma's Internet Caf, Diane atarefava-se num computador. Olhou para cima para Kelly.
     -        Falta algum?
     -        Elle, Cosmopolitan, Vanity Fair, Mademoisellee, Readers Digest... - respondeu Kelly.
     Diane riu.
     -        Acho que j chega. S espero que o Kingsley tenha um bom catering. Vai ter muita gente na sua festa.
     
     Vince Carballo olhava para Grace Seidel, excitado.
     -        Conhece Kelly?
     -        Sim, conheo - respondeu ela. -  uma das modelos mais famosas do mundo.
     O rosto de Vince Carballo iluminou-se.
     -        E onde  que ela est?
     Grace olhou para ele, espantada.
     -        Isso eu j no sei. Nunca a conheci pessoalmente:
     O rosto dele ficou vermelho.
     -        Mas disse que a conhecia!
     -        O que eu queria dizer  que toda a gente a conhece. Ela  muito famosa. No  linda?
     -        No faz idia de onde possa estar?
     Grace respondeu, pensativa: - Bem, talvez at tenha alguma idia.
     -        Onde?
     -        Eu hoje de manh vi uma mulher que se parecia muito com ela a entrar para um autocarro. Ia com outra pessoa...
     -        Que autocarro era?
     -        Era o autocarro para Vermont.
     -        Muito obrigado.
     E Vince Carballo partiu apressadamente.
     
     Tanner atirou com a pilha de faxes e e-mails ao cho e virou-se para Pauline.
     -        Percebeste o que aquelas cabras fizeram? No podemos permitir que ningum ponha os olhos no Prima.
     Ficou pensativo durante algum tempo.
     -        Acho que o Prima vai ter um acidente na vspera da festa e acabar por ir pelos ares.
     Pauline olhou para ele por instantes e sorriu.
     -        Prima II!
     Tanner acenou com a cabea.
     -        Exactamente. Podemos viajar pelo mundo e, quando estivermos prontos, vamos para Tamoa e comeamos a funcionar com o Prima II.
     A voz de Kathy Ordonez ouviu-se no intercomunicador. Parecia frentica.
     -        Senhor Kingsley, os telefones esto doidos. Tenho o New York Times, o Washington Post e Larry King, todos em espera para falarem consigo.
     -        Diga-lhes que estou numa reunio - e virou-se para Pauline.
     - Temos de sair daqui para fora. - Deu uma palmadinha nas costas de Andrew. - Anda, vem connosco.
     -        Sim, Tanner.
     Os trs saram e dirigiram-se ao edifcio de tijolo vermelho.
     -        Tenho uma coisa muito importante para tu fazeres, Andrew.
     -        O que quiseres - respondeu este.
     Tanner liderou o caminho at ao edifcio vermelho e aproximou-se de Prima. Virou-se para Andrew.
     -        O que quero que faas  o seguinte. Eu e a Princesa temos de nos ir embora agora, mas s seis da tarde quero que desligues este computador.  muito 
simples - e apontou. - Ests a ver o boto grande vermelho?
     Andrew respondeu que sim. - Sim, estou a ver.
     -        A nica coisa que tens de fazer  premi-lo trs vezes, s seis da tarde. Trs vezes. Consegues lembrar-te disso?
     -        Sim, Tanner. s seis em ponto. Trs vezes - respondeu Andrew.
     -        Muito bem. Encontramo-nos mais tarde.
     Tanner e Pauline comearam a afastar-se.
     Andrew ficou a olhar para eles. - No me vo levar convosco?
     -        No. Tu ficas aqui. Mas no te esqueas, seis da tarde e trs vezes.
     -        Eu no me esqueo.
     Quando saam c para fora, Pauline perguntou: - E se ele se esquecer?
     Tanner riu.
     -        No faz qualquer diferena. Est marcado para explodir automaticamente s seis da tarde. S queria ter a certeza de que ele est l dentro quando isso 
acontecer.
     
CAPTULO 45
     
     Estava o dia perfeito para voar. O 757 do KIG voava a alta velocidade no cu azul sobre o oceano Pacfico. Pauline e Tanner estavam aninhados no sof da cabina 
principal.
     -        Querido - disse Pauline -, sabes que  uma pena que as pessoas nunca venham a saber como s brilhante?
     -        Se alguma vez o descobrissem, teria um monte de problemas.
     Ela olhou para ele e respondeu:
     -        No havia problema. Comprvamos um pas e autoproclamvamo-nos seus governantes. A no nos podiam tocar.
     Tanner riu.
     Pauline acariciou-lhe a mo. - Sabes que eu te quis desde o primeiro instante em que te vi?
     -        No. Tanto quanto me lembro, foste muito impertinente.
     -        E resultou, no resultou? Tinhas que me ver outra vez para me dar uma lio.
     Seguiu-se um longo e ertico beijo.
     Ao longe, brilhou a luz de um relmpago.
     - Vais adorar Tamoa - disse Tanner. - Passamos l uma semana ou duas e em seguida viajaremos pelo mundo. Vamos compensar todos os anos que no nos era possvel 
estar juntos.
     Ela olhou para cima e sorriu, com ar malicioso.
     -        Podes ter a certeza que sim.
     -        E depois, uma vez por ms, voltamos a Tamoa para pormos o Prima II a funcionar. Escolhemos juntos os nossos alvos.
     -        Podamos criar uma tempestade em Inglaterra, mas o problema  que eles no iam dar pela diferena - sugeriu Pauline.
     Tanner riu. - Temos o mundo todo por onde escolher.
     Um comissrio de bordo aproximou-se e perguntou.
     -        Desejam alguma coisa?
     -        No - respondeu Tanner. - Ns j temos tudo. E sabia que era verdade.
     Ao longe, viram a luz de mais raios a riscar o cu.
     -        S espero que no apanhemos uma tempestade - disse Pauline. - Detesto voar com mau tempo.
     Tanner procurou acalm-la:
     -        No te preocupes, querida. No h uma nuvem no cu. - Lembrou-se de uma coisa e sorriu. - No temos que nos preocupar com o tempo. Afinal, somos ns 
que o controlamos. - Olhou para o relgio. - O Prima explodiu h uma hora e...
     Repentinas gotas de chuva comearam a bater contra o avio. Tanner abraou Pauline com mais fora.
     -        Est tudo bem.  s um pouco de chuva.
     Assim que Tanner acabou de pronunciar estas palavras, o cu comeou a escurecer e a tremer com o som de sonoros troves. O enorme avio abanava de um lado para 
o outro. Tanner olhava pela janela, intrigado com o que estava a acontecer. A chuva deu lugar a uma forte saraivada.
     Tanner olhou l para fora.
     -        Olha para ... - E de repente percebeu. - Prima. - Era um grito de exaltao, um brilho de glria nos olhos. - Ns podemos...
     Nesse preciso momento, um furaco atingiu o avio, sacudindo-o selvaticamente de um lado para o outro. Pauline gritava.
      A trabalhar no edifcio de tijolo vermelho, Andrew sentia-se grato por haver ainda uma coisa que podia fazer para tornar o mundo um lugar melhor. Com o maior 
dos cuidados, guiou um tornado de Fora 6 que criara - para cima, mais para cima...
     Tanner olhava pela janela do avio selvaticamente sacudido quando ouviu, sobre os estrondos da trovoada, o som semelhante ao de um comboio do tornado que se 
aproximava, viajando a uma velocidade de novecentos e sessenta quilmetros por hora. O rosto dele estava congestionado e tremia com a excitao, enquanto via o tornado 
a girar em direco ao avio. Estava em xtase.
     - Olha! Nunca houve um tornado que conseguisse subir at to alto. Nunca! Fui eu que o criei!  um milagre! S Deus e eu somos...
     No edifcio de tijolo vermelho do KIG, Andrew operava Prima, os seus dedos voando sobre as teclas, lembrando-se. Com o seu alvo no ecr, via a imagem do avio 
do irmo a ser sacudido por um furaco com ventos de quatrocentos e oitenta quilometros por hora. Premiu outro boto.
     No edifcio de tijolo vermelho, Andrew moveu um interruptor e ficou a observar o ecr enquanto o avio explodia em mil pedaos e os destroos e os corpos eram 
lanados nos cus.
     Em seguida, Andrew Kingsley premiu trs vezes o boto vermelho.
     
     Numa dzia de gabinetes do servio Nacional de Meteorologia de Anchorage no Alasca, a Miami na Florida, os meteorologistas olhavam, estarrecidos, para os seus 
computadores, sem serem capazes de acreditar. O que se estava a passar parecia impossvel, mas a verdade  que ali estava, na frente deles.
     
CAPTULO 46
     
     Kelly e Diane acabavam de se vestir quando Grace Seidel lhes bateu  porta do quarto.
     -        Quando estiverem prontas, o pequeno almoo est servido.
     - J vamos - respondeu Kelly.
     -        Espero que o nosso truque tenha resultado - disse Diane. - Vamos ver se Grace tem os jornais da manh.
     Saram do quarto. No lado direito ficava a zona de lazer. Estavam a reunidas algumas pessoas em redor do aparelho de televiso. No momento em que elas iam 
a passar, em direco  sala de jantar, o apresentador de televiso dizia:
     "Segundo as ltimas informaes, no houve qualquer sobrevivente. Tanner Kingsley e a antiga senadora Pauline van Luven encontravam-se no avio, assim como 
um piloto, um co-piloto e um comissrio."
     As duas mulheres estacaram. Olharam uma para a outra, viraram-se e dirigiram-se para junto do televisor. No ecr passavam imagens do KIG.
     "O Kingsley Internacional Group  o maior think tank do mundo, com escritrios em trinta pases. O gabinete de meteorologia reportou uma inesperada tempestade 
elctrica no oceano Pacfico, exactamente na zona onde voava o avio particular de Tanner Kingsley. Pauline van Luven chefiou a Comisso Especial do Senado para 
o Ambiente..."
     Diane e Kelly ouviam, fascinadas.
     "...E em mais uma pea do puzzle, existe um mistrio que a Polcia est a tentar resolver. A imprensa fora convidada para um jantar de apresentao de Prima, 
um novo computador controlador do clima que o KIG criara e desenvolvera, mas ontem, inesperadamente, deu-se uma exploso no KIG e o Prima ficou completamente destrudo. 
No meio dos destroos, os bombeiros encontraram o corpo de Andrew Kingsley e pensa-se que seja ele a nica vtima."
     -        Tanner Kingsley est morto - disse Diane.
     -        Diga isso outra vez. Devagarinho.
     -        Tanner Kingsley est morto.
      Kelly deu um profundo suspiro de alvio. Olhou para Diane e sorriu.
     -        Depois disto, a vida vai ser muito aborrecida, de certeza.
     -        Espero bem que sim - replicou Diane. - Que acha da idia de dormir hoje  noite nas Waldorf-Astoria Towers?
     Kelly fez um enorme sorriso.
     -        No me importo nada.
     Quando se despediram de Grace Seidel, esta abraou Kelly e disse:
     -        Aparece sempre que quiseres.
     Na suite presidencial das Waldorf Towers, um criado punha uma mesa para o jantar. Virou-se para Diane:
     -        Disse-me que queria a mesa posta para quatro pessoas?
     -        Exactamente.
     Kelly olhou para ela e no disse nada.
     Diane sabia o que ela estava a pensar. Quando se sentaram  mesa, Diane explicou:
     -        Kelly, eu acho que no fizemos isto sozinhas. Estou convencida de que tivemos uma grande ajuda. - Ergueu a taa de champanhe e dirigiu-se  cadeira 
vazia a seu lado: - Muito obrigada, Richard, meu amor. Amo-te.
     Quando levava a taa aos lbios para beber, Kelly interrompeu-a.
     -        Espere um segundo.
     Diane virou-se para ela.
     Kelly pegou na sua taa de champanhe e olhou para a cadeira vazia a seu lado.
     -        Mark, eu amo-te muito. Muito obrigada.
     E beberam depois de brindarem.
     Kelly sorriu.
     - Soube-me bem. E agora, o que temos a seguir?
     -        Vou ao FBI em Washington contar tudo que sei.
     Kelly corrigiu-a:
     - Vamos a Washington e vamos contar-lhes tudo o que ns sabemos. Diane concordou.
     -         Isso mesmo. - Ficou pensativa. - Sinto que fizemos um bom trabalho. Os nossos maridos teriam muito orgulho em ns.
     -         verdade - apoiou Kelly. - Conseguimos solucionar isto. E estava tudo contra ns. Sabe o que devamos fazer agora?
     -        O qu?
     -        Abrir a nossa agncia de detectives.
     Diane riu. - S pode estar a brincar.
     Kelly olhou para ela e deu-lhe um grande sorriso.
     -        Acha que sim?
     Depois do jantar, ficaram a ver televiso e todos os canais transmitiam a histria da morte de Tanner Kingsley. Enquanto Kelly via o que se passava, comentou:
     -        No sei se sabe, mas, quando se corta a cabea a uma cobra, o resto do seu corpo morre.
     -        O que quer dizer com isso?
     -        Vamos verificar. - Dirigiu-se ao telefone. - Queria fazer um telefonema para Paris.
     Cinco minutos depois, ouvia a voz de Nicole Paradis.
     -        Kelly! Kelly! Kelly! Estou to contente por ter ligado.
     O corao de Kelly caiu-lhe aos ps. Sabia o que ia ouvir a seguir. Eles tinham matado Angel.
     -        No sabia como contact-la.
     -        Ouviu as notcias?
     -        Todo o mundo ouviu as notcias. Jerme Maio e Alphonse fizeram as malas e partiram  pressa.
     -        E Philippe e a famlia?
     -        Esses voltam amanh.
     -        Isso  maravilhoso. - Kelly estava com medo de fazer a pergunta seguinte. - E a Angel...?
     -        Eu tenho a Angel no meu apartamento. Eles tencionavam us-la como isca, para o caso de no estar disposta a cooperar.
     Kelly, de repente, sentiu um enorme alvio.
     -        Mas isso  estupendo!
     -        Que quer que faa com ela?
     -        Meta-ma no prximo avio da Air France para Nova Iorque.
     Depois diga-me quando  que ela chega, para eu a ir buscar ao aeroporto. Pode ligar-me aqui para as Waldorf Towers. - Vou tratar de tudo. - Muito obrigada. 
- Kelly desligou.
     Diane estivera a ouvir a conversa.
     -        A Angel est bem?
     -        Est.
     -        Oh! Que bom!
     -         , no ? Estou encantada. A propsito, que vai fazer com a sua parte do dinheiro?
     Diane ficou a olhar para ela.
     -        Como?
     -        O KIG ofereceu uma recompensa. Acho que  nossa.
     -        Mas... Kingsley morreu...
     -        Eu sei, mas o KIG no.
     E riram.
     -        Quais so os seus planos para depois de Washington? Vai voltar a pintar? - perguntou Kelly.
     Diane ficou pensativa por momentos.
     -        No.
     Kelly observava-a.
     -        No mesmo?
     -        Bom, h um quadro que quero fazer.  uma cena de um piquenique em Central Park. - A voz embargou-se-lhe. - Dois amantes a fazerem um piquenique debaixo 
de chuva. Depois... Depois logo se ver. E voc, Kelly? O que vai fazer? Vai voltar s passarelas?
     -        No, no me parece...
     Diane olhava para ela.
     -        Bom... Talvez. Porque quando estou l em cima posso sempre imaginar que Mark me est a ver e a mandar-me beijos. Sim, acho que ele gostaria que eu 
voltasse para o mundo da moda.
     Diane sorriu.
     -        ptimo.
     Viram televiso durante mais uma hora e em seguida Diane disse:
     -        Parece-me que so horas de ir para a cama.
     Quinze minutos mais tarde j se tinham despido e cada uma estava metida na sua cama de casal, a reviver as suas recentes aventuras. Kelly bocejou.
     -        Diane, estou cheia de sono. Apague as luzes.
     
F I M
     

POSFCIO
     
     O antigo adgio de que todos falam sobre o tempo mas ningum faz nada j no  verdadeiro. Existem, hoje em dia, duas super potncias que tm a possibilidade 
de controlar o clima pelo mundo: os Estados Unidos e a Rssia. Os outros pases trabalham febrilmente para os acompanhar.
     A procura do controle dos elementos, que teve incio com Nikola Tesla nos finais de 1800, envolvendo a transmisso de energia elctrica pelo espao, tornou-se 
uma realidade.
     As conseqncias so imensas. O tempo pode ser usado como uma bno ou como uma arma apocalptica.
     Todos os elementos necessrios se encontram no seu lugar.
     Em 1969, o U.S. Patent Office concedeu uma patente para "um mtodo de aumentar a probabilidade de precipitao pela introduo artificial de vapor de gua do 
mar na atmosfera."
     Em 1971, foi concedida uma patente ao Westinghouse Electrical Corporation para um sistema de irradiao de algumas zonas da superfcie da terra.
     Em 1971, foi concedida uma patente ao National Science Foundation para um mtodo de alterao do tempo.
     No princpio dos anos 1970, a Comisso do Congresso para os Oceanos e Ambiente Interno dos Estados Unidos efectuou vrias audies sobre a nossa pesquisa militar 
no domnio da alterao do tempo e do clima e concluiu que o ministrio da defesa tinha planos para criar ondas gigantescas atravs do uso coordenado de armas nucleares.
     O perigo de um devastador confronto entre os Estados Unidos e a Rssia tornou-se de tal forma grande que, em 1977, um tratado das Naes Unidas que se opunha 
 modificao climatrica por razes hostis foi assinado pelos Estados Unidos e pela Rssia.
     Este tratado no significou o fim das experincias climatricas. Em 1978, os Estados Unidos lanaram uma experincia que criou 295 uma queda de chuva sobre 
seis condados no norte do estado do Wisconsin. A tempestade gerou ventos de duzentos e oitenta quilmetros por hora e provocou cinqenta milhes de dlares de prejuzos. 
Entretanto, a Rssia tem continuado a trabalhar nos seus projectos internos.
     Em 1992, o Wall Street Journal relatou que uma empresa russa, Elat Intelligence Technologies, vendia equipamento para controle climatrico, usando o slogan 
"Tempo  sua Medida", concebido para necessidades especficas.
      medida que as experincias em ambos os pases prosseguem, os padres climatricos comearam a sofrer alteraes. Logo em 1980 se registaram alteraes.
     "Uma frente de altas presses tem-se mantido nos dois ltimos meses a cerca de mil e duzentos quilmetros da costa da Califrnia, bloqueando a normal entrada 
de ar hmido proveniente do oceano Pacfico." Time magazine, Janeiro de 1981.
     "... a estagnada poca de altas presses funcionou como uma barreira, impedindo o fluir normal de estaes do oeste para o leste." revista New York Times, de 
29 de Julho de 1993.
     Todas as catstrofes climatricas descritas no corpo deste romance ocorreram realmente.
     O tempo  a arma mais poderosa que conhecemos. Quem controlar o tempo pode perturbar as economias mundiais com perptuas tempestades ou tornados; destruir colheitas 
com uma seca; provocar tremores de terra, furaces e tsunamis; fechar aeroportos e provocar a devastao nos campos de batalha inimigos.
     Eu dormiria melhor se um lder mundial dissesse:
     - Todos falam do clima, mas ningum faz nada por ele.
     E que isso fosse verdade.
* * * *
         1 Instituio especializada na custdia de intelectuais, que geralmente oferece os seus - e  financiado por um governo, fazendo escudos, prognsticos, 
etc. (N.da T.)
         2 FAA: Federal Aviation Administration. (N. do E.)
         3 Em francs no original: "Bom dia, minhas senhoras. Bem vindas ao Le Ciei de Paris. O meu nome  Jacques Brion. O nosso chefe de cozinha preparou umas 
deliciosas especialidades para o almoo de hoje. J escolheram?" "Sim. Escolhemos o Chateaubriand para dois." (N. da T.
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